sexta-feira, 26 de março de 2010

A Ignorância Conveniente

Paulo Freire nos fala que não existe alguém tão sábio que não tenha suas ignorâncias e que haja alguém tão ignorante que não saiba de nada. Todo sábio sempre ignora alguma coisa importante, e todo ignorante sempre sabe algo relevante. Sapiência e ignorância se complementam, e é a ignorância que está na raiz da sabedoria. Nesse sentido a ignorância não é negativa. Ela é o vácuo que enseja a curiosidade, “inquietação indagadora”, vontade de conhecer, necessidade de saber; ela, a ignorância, exige o conhecimento como alívio momentâneo da curiosidade, seja ele pelo senso comum, pela ciência, pela filosofia, pelo mito, pela religião. Porém, a ignorância, do ponto de vista ético, tem um aspecto devastador: a conveniência. Foi assim com Lula, que não sabia de nada, que não percebeu nada sobre o mensalão, que nunca antes na história desse partido havia testemunhado uma “maracutaia”. É assim agora com o Papa Ratzinger, que “não sabia” dos casos de pedofilia envolvendo seus sacerdotes. A ignorância conveniente, que dá título a esta reflexão, é o resultado da hipocrisia e do cinismo que envolve pessoas e instituições, demonstrando que a verdade não os libertará, ao contrário: os aprisionará. 
As igrejas adoram umas ovelhas. Ah, como elas são ótimas para a gente salvar do pecado! As ovelhas não sabem, não pensam, não tem capacidade de escolher o caminho de sua espiritualidade. Elas são o motivo da existência de papas, bispos, pastores, obreiros, freiras, padres, “irmãos”. A verdade vos libertará de todo pecado. Entretanto, apesar dos esforços salvacionistas de toda essa legião da boa vontade, penso que quem precisa serem salvas do pecado não são as ovelhas, mesmo porque duvido que existam ovelhas em se tratando de humanos, mas os próprios religiosos, que cedem à tentação por poder, dinheiro, sexo. Vou fazer uma brincadeira lógica:


1. Todo padre é um homem.
2. Toda freira é uma mulher.
3. Todos os homens e mulheres têm desejos sexuais


Logo, todos os padres e freiras têm desejos sexuais.


Como desdobramento, os casos de pedofilia, tão comentados ultimamente, mas que rola há muito tempo nas catacumbas dos conventos e mosteiros, são sexualidades reprimidas em nome do Deus que a tudo criou, inclusive o desejo sexual. Como só posso falar de minha experiência, quando eu fico sem fazer sexo por três dias ou mais, começa a me dar um comichão (Fig. Desejo impaciente, vontade incoercível de fazer algo.) que me atrapalha o sono, o trabalho, me tira a concentração. Ah!!! Como é que um padre, homem como eu, consegue ficar a vida toda? Lá no dominó de Duzinho no Calafate e no Bar do Tetios em Jacobina, o pessoal diz, em seu legítimo e insubstituível senso comum, que isso “sobe pra cabeça”. O cara fica doido e começa a fazer esquisitices.

A hipocrisia machista, que oprime e exclui muitos homossexuais, é uma dessas perversidades sociais que geram outras perversidades pessoais no plano privado das instituições religiosas. O indivíduo que sente prazer no ânus, vê-se vigiado e rejeitado pela família, pelos amigos, pela sociedade. Alguns desses, de personalidade frágil, não conseguem “sair do armário” e fogem ou se escondem nas instituições religiosas. O caso de Lucas Terra, assassinado por ter presenciado dois bispos da Igreja Universal do Reino de Deus em relações íntimas, até hoje rolando nos tribunais. O “pobre” do seu pai luta por justiça até hoje. Mantendo-se firme em seu amor paternal. Ele precisa de nossa solidariedade. Agora, os casos envolvendo padres pedófilos da Igreja Católica, que o Papa Ratzinger afirma não ter tomado conhecimento, apesar das evidências concretas em contrário, como a carta enviada para o mesmo quando ainda era bispo. Hoje e sempre é preciso que nem o Papa, nem o Bispo, nem os superiores religiosos saibam de nada. As ovelhas tosquiadas, centenas de crianças, foram sacrificadas nessa máquina de hipocrisia que atropela a verdade que libertaria, se fosse conhecida publicamente, mas que ocultada, envia ao cárcere dos infernos todos esses cínicos e hipócritas que pregam a salvação espiritual das ovelhas inventadas por eles. Não é o comunismo, nem o socialismo que destroem a religião e a religiosidade, aliás, essas jamais serão destruídas. Quem está destruindo a igreja, como instituição, é a hipocrisia, o machismo, o cinismo de seus representantes.

A ovelha é uma criação simbólica. As igrejas precisam de ovelhas, pessoas que, por não acreditarem mais em suas forças, são orientadas a sentir necessidade de “alguém mais puro” que elas, mais próximas de Deus, por assim dizer, para entregarem-se confiantemente em suas mãos, que as guiarão para o paraíso, ou coisa parecida. Nesse momento, a pessoa deixa de ser homem/mulher, e se torna ovelha, pronta para ser guiada. Perde a autonomia, perde a criticidade, perde a vontade própria, e, para mim, vai sendo desumanizada. As ovelhas enviam suas crias para serem igualmente ovelhizadas, mas o pastor está mais para lobo mau e perdeu o interesse pela vovozinha, ou seja, pela beata piedosa que reza, de verdade, pela nossa salvação.

A ignorância é conveniente agora, quando a notícia “vazou”. Enquanto tudo permanecia em silêncio atrás dos muros altos das igrejas, as crianças continuariam sendo “tosquiadas” pela perversão sexual de alguns religiosos. Mas agora é preciso, antes de salvar as crianças feridas psíquica e fisicamente pelo resto dos seus dias, salvar a re-putação religiosa dos envolvidos e, para isso, a ignorância é bem conveniente. Eu conheço um sujeito que, em função dos tais acontecimentos afirma o seguinte: - Quando o padre ou o pastor disser: - “Vinde a mim as criancinhas”., Caia Fora!!!

Autoria: Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

quarta-feira, 24 de março de 2010

OS FIOS

“Tu é fio de quem?”
está por um fio
Os fios e as fias
tiveram de ir
pra fiarem a rede
de suas existências
em outros contextos

Continuarão sendo fias
e fios de alguém
porém não se sabe quem
serão se voltarem
para visitarem
pra ficarem com quem
teceram primeiro
os seus fios

Serão fios e fias
de outras “famias”
de outros arguéns
Serão mesmo também
com quem dialogaram
em outros contextos
Serão mais alguéns
do que quando eram
fios e fias de quem
sendo também
já eram.

Autoria: Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

sábado, 20 de março de 2010

IM-PREFEIÇÕES

Ninguém é "prefeito". A "prefeição" é um desafio hercúleo, que exige muita coragem, convicção, vontade. Talvez a prefeição seja uma das maiores artes exigidas e utilizadas habilmente entre todos os entes administrativos do Estado, pois a prefeitura é o ente jurídico-político que se encontra mais perto dos anseios, necessidades e exigências populacionais. Fato é que alguém sempre assume a "prefeitura". Apesar de todos os problemas sempre há motivos para se assumir tal empreitada. Nós sabemos que administrar uma cidade não é tarefa das mais fáceis, isso se realmente alguém tiver a intenção de administrar de verdade. Os recursos são escassos e as necessidades ilimitadas, reza o princípio basilar da economia. Obrigações legais diversas, escassez de recursos, cobranças das faturas de quem apoiou o eleito, cultura patrimonialista do povo que concebe o Estado - Estado aqui entendido como ente municipal, Município - como estrutura a serviço apenas de parentes, apadrinhados e puxa-sacos, entre outros, soma-se à ineficiência da máquina pública e são desafios que um prefeito deve enfrentar com tenacidade e lucidez, se quiser fazer uma administração séria, ética e eficiente, na medida das possibilidades dadas.

As vezes eu fico pensando: se eu fosse prefeito, seria prefeito mesmo ou seria mais um im-prefeito? Será que eu teria essa tenacidade, ética, compromisso e eficiência que tanto desejo ver neles e nelas, as im-prefeitas e os im-prefeitos? Faço tal reflexão, que pode parecer tola, mas penso que não, e vou explicar. Nossa cultura política e social permite que um prefeito faça o que deve ser feito? Será que um prefeito que quisesse ensaiar num mandato o seguimento ético, seria reeleito? Será que um prefeito que enxugasse a máquina pública de sua cidade, demitindo muitos incompetentes que ocupam “cargo de confiança”, conseguiria o apoio da população? Ou iria contrariar tantos interesses particulares que seria isolado e posto para fora antes mesmo do mandato legal acabar? E se esse prefeito "prefeito" não colocasse a filha do vereador Fulano no “cargo de confiança”, fazendo o mesmo com o filho de Seu Sicrano e com a mulher de Doutor Beltrano, com o marido de Dona Fulana, entre tantos outros, ou seja, se o prefeito recusasse inchar a máquina pública municipal com tantos pedidos e exigências, num contexto em que o maior empregador, pelo menos na maioria das 417 prefeituras do Estado, é a própria prefeitura, o que aconteceria? Se o prefeito investisse no sistema educacional de sua responsabilidade, educação infantil e ensino fundamental, ao invés de fazer aquela gastança no São João, será que seria bem aceito?

Levanto tais questionamentos porque entendo que a corrupção tem raízes mais profundas. Talvez ela esteja enraizada no seio de nossa organização social, como uma cultura que germina a cada período, renovando suas raízes e engrossando seu caule, dando frutos venenosos para todo o corpo social. Com isso não pretendo, de forma alguma, retirar a responsabilidade criminal daqueles que desviam verbas e engordam os próprios bolsos, mas desejo ensejar uma reflexão social, pois a corrupção pode ter um fio ligando-nos também a ela. Se você fosse prefeito... Se você fosse eleito... Se você fosse votado... O que faria neste contexto? Quantas e quantas pessoas, embora critiquem a corrupção e as roubalheiras aceitariam de “bom grado” um “cargozinho” nas dependências do Estado? A diferença entre o político profissional que se utiliza do Estado para enriquecimento ilícito e o sujeito comum que deseja e aceita ocupar um cargo dito “de confiança” em algum órgão estatal-municipal, mesmo sem competência para tal, é apenas de volume, de quantidade, o “pecado” é o mesmo. Parece-me que a corrupção não é um fenômeno tão simples como aparenta. Não se trata de casos isolados, mas de uma prática permanente de quem ocupa cargos públicos, porque, com certeza, tem raízes culturais nas entranhas de nosso processo social. Tenho certeza que tem alguém roubando a Bahia nesse momento, e que tem mais alguém arquitetando novos roubos, pois isso também constitui nossa dinâmica cultural, jurídico-político e social, envolvendo um amálgama de instituições, de poderes, de personalidades, de gentes diversas, unidas pelos mesmos laços.

Há ainda um pensamento mesquinho baseado no ditado popular “farinha pouca meu pirão primeiro”. Esse pensamento está enraizado no coração de nossa sociedade, principalmente quando se trata da área político-administrativo. Ainda não conseguimos perceber que, quando aceitamos um privilégio sem ter o devido mérito, contribuímos para que a corrupção se alastre, se enraíze mais ainda nos processos sociais, políticos e culturais que marcam nosso processo civilizatório. Agora experimente dizer “não”. Você vai perder uma oportunidade de “se dar bem” ou vai dar a si e ao seu país a possibilidade de romper com esse vício histórico e criar um nova cultura político-administrativo que coloca o Estado eficiente a serviço de todos? - Ah, mais “um não” de apenas uma pessoa não vai mudar nada. Não é isso que você vai alegar? Pois é, mas toda mudança começa de alguém e continua em outro alguém até que começa a fazer sentido em momentos cruciais. O seu e o meu “não” vai fazer alguém pensar, refletir, se envergonhar e isso, já é um bom começo.

Mas o problema é que muitas vezes não sentimos a corrupção corroer nossas virtudes. A corrupção vem sorrateira e começa a ser naturalizada em nosso âmago social e pessoal e termina se caracterizando como uma cultura. Estou te chamando, pessoalmente, de corrupto? De forma alguma, mas há uma conivência e uma audiência que, inevitavelmente nos envolve e socialmente nos corrompe sem a gente sentir. Embora muitos de nós guardemos nossos valores. O grande problema da corrupção são os seus efeitos concretos. Os privilegiados e os amigos dos amigos têm o seu quinhão sem muito esforço, só um pouquinho de puxa-saquismo e de bajulação, que são encarados como gratidão, e pronto: fez por merecer. Mas a maioria da população paga caro esse modo de funcionamento do aparelho do Estado nos postos de saúde que não funcionam, cujo enfermeiro ou enfermeira não tem competência técnica, pois foi colocada lá porque é filho/filha de uma parente/amiga do(a) prefeito(a); os remédios foram levados e distribuídos com os amigos dos amigos; a escola não funciona porque a diretora, amiga dos amigos, não tem capacidade de gestão para administrar a escola, nem é uma educadora de fato; os recursos de programas de saúde são devolvidos ou usados sem critério porque a pessoa diretamente responsável pela elaboração de projetos não sabe fazê-lo porque caiu de pará quedas naquele setor, entre outras aberrações.

Portanto, a corrupção não está apenas e simplesmente no(a) im-prefeito(a) ou no secretário municipal disso ou daquilo. Está no seio de nossas relações sociais e políticas, marcadas pela cultura que cimenta e naturaliza tais relações nas trocas de favores e de interesses que alcança não apenas o alcaide, mas a todos aqueles que penetram nessa ciranda maldita que a corrupção envolve. Entrar nessa roda é contribuir para que a “prefeição” nunca seja alcançada, para que os im-prefeitos e as im-prefeitas “façam escola” e, sobretudo, para que a maioria da população pague seus efeitos perversos.

Das imprefeituras

É inacreditável, mas acontece na Bahia. O im-prefeito de Uibaí, cidade que arrecada 15 milhões de reais por ano, cujas casas utilizam fossas sépticas, que é engenheiro sanitarista de formação, recusou 10 milhões de reais do Ministério da Integração Nacional para serem aplicados na construção de esgotos sanitários. A recusa se deve ao fato de que o im-prefeito é do PT e o dinheiro viria pela mediação de Geddel, que é do PMDB e candidato a governador, contra Wagner. É muita im-prefeição numa im-prefeitura só! E "quem é que vai pagar por isso?" O povo de Uibaí, meu caro Lobão, o povo de Uibaí. (Jornal A Tarde de hoje, 19 de março de 2010,  página A2, Coluna Tempo Presente)

A demissão do gestor da Fundação Gregório de Matos (FGM), entidade municipal responsável pelas políticas culturais em Salvador, Antonio Lins, provocou mais uma celeuma na prefeitura de Salvador. Lins saiu atirando pra todo lado. O Chefe de Gabinete do Im-prefeito de Salvador, Leonel Leal, foi acusado de cometer irregularidades com uma festa na Praça Municipal, regada a uísque, garçom e coquetel para o ano da França no Brasil - será que os franceses comemoram também nossa presença por lá? A festa custou, segundo Antonio Lins, mais ou menos R$ 150.000,00 reais e ele seria usado, através da FGM, para custear a fatura sem processo e empenho. Segundo suas palavras o prefeito de Salvador é omisso, desequilibrado e ignorante, não valoriza a cultura além de ser um impostor. O im-prefeito João Henrique Carneiro rebateu com o seguinte argumento: - "Se houve irregularidades, porque ele não colocou isso antes? Só agora depois de exonerado?" Explicou que a exoneração de Antonio Lins foi por motivo de baixo desempenho administrativo.

Bem, são mais dois casos de tantos casos de im-prefeituras nesse estado baiano de calamidade político-administrativo.

Autoria: Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lucia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Força Moleca

Eu tenho uma força moleca
que brinca comigo
de esconde-esconde e,
quando penso em me matar,
surge luz,
não sei de onde.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

segunda-feira, 15 de março de 2010

Cantá

cantá seja lá cumu fô
se a dô fô mais grandi qui o peito
cantá bem mais forte qui a dô

cantá pru mor da aligria
tamém pru mor da tristeza
cantano é qui a natureza
insina os ome a cantá

cantá sintino sodade
qui dexa as marca de verga
di arguém qui os óio num vê
i o coração inda inxerga

cantá coiendo as coieita
ou qui nem bigorna no maio
qui canto bão di iscutá
é o som na minhã de trabaio

cantá cumu quem dinuncia
a pió injustiça da vida
a fomi e as panela vazia
nus lá qui num tem mais comida

cantá nossa vida i a roça
nas quar germina as semente
as qui dão fruto na terra
i as qui dão fruto na gente

cantá as caboca cum jeito
cum viola e catigoria
se elas cantá nu seu peito
num tem cantá qui alivia

canta pru mor dispertá
u amô qui bate e consola
pontiando dentro da gente
um coração de viola

cantá cum muitos amigos
qui a vida canta mió
é em bando que os passarim
cantano disperta o só

cantá, cantá sempre mais
di tardi, di noti i di dia
cantá, cantá qui a paz
carece de mais cantoria

cantá seja lá cumu fô
se a dô fô mais grandi qui o peito
cantá bem mais forte qui a dô.

Gildes Bezerra

A MOSCA, O DRAGÃO E O MINISTRO DA ECONOMIA

Há pouco estava lendo um texto de psicologia do desenvolvimento, examinando seus pareceres e articulações com o processo educacional. Uma das minhas pernas estava cruzada sobre a outra, descansando numa cadeira de apoio. De repente uma mosca “tamanho-família”, conhecida popularmente como varejeira ou valegeira, pousou em meu pé. Ao percebê-la lembrei-me da história que D. Eunice, nossa vizinha mais antiga, contára-nos, crianças que éramos, sobre a terrível mosca gigante. Segundo a nossa estimada vizinha, a mosca pousou no nariz de um homem e, de alguma forma, transmitiu-lhe uma perigosa bactéria ou coisa parecida, que acabou devorando o nariz do pobre sujeito, inexoravelmente...

Bem, tratei de expulsar a mosca, por via das dúvidas opto pelo conhecimento mítico de Dona Eunice. Contudo, comecei a refletir sobre o fenômeno com mais cuidado. As informações e suas mensagens têm um poder fabuloso: transforma moscas inofensivas em dragões vorazes. – A mosca pode até não ser tão inofensiva, mas o poder adquirido por esse ser, no caso, pela mediação do discurso de D. Eunice foi tal que bastou sua visão para que eu me assustasse. Convenhamos que todo ser que se diferencia do que consideramos normalidade nos assusta, causa espanto, nos desequilibra, nos desafia à compreensão e a gente começa a filosofar, a pesquisar, a levantar dados, a comparar, a inferir e a fazer julgamentos em forma de conclusões provisórias. A ontologia dada pela linguagem nos obriga a fazer o teste de realidade, seja de forma rigorosa, seja pelo caminho do senso comum. Certo é que, entre a informação de D. Eunice – dito em forma de narrativa, como era seu estilo literário – e a minha sensibilidade para com insetos, o mito ganhou existência. Muito embora não tenha a aparência física de um dragão o medo que a tal mosca me provocou é bem próximo do medo virtual para com os míticos seres alados introduzidos em meu imaginário por meu pai que, ao redor da cama em noites de chuva e candeeiro nos narrava as peripécias dos dragões. Moscas e dragões, variações sobre o mesmo tema: medo. Mosca gigante e dragão voraz, ontologias construídas pela linguagem de nossos ancestrais, que nossos parentes e pessoas mais próximas renovavam sua existência, construindo, talvez sem intenção, comportamentos e atitudes em nós perante o mundo, os outros e a nós mesmos.

Como dizia, quando éramos crianças sentávamos ao redor da cama de nossos pais antes de dormir, para ouvir meu pai contar histórias de cangaceiros, de lobisomens, de amores impossíveis, das artimanhas do diabo e de devoradores de “donzelas desprotegidas”. Meu pai, através de seus personagens magníficos, ficava tão próximo a nós, seus filhos; enchia-nos de magia, de curiosidade, de encantamento. É por isso que posso compreender perfeitamente a deliciosa frase de Willi Bolle quando diz que “Muito mais próximo da criança que o pedagogo bem-intencionado, lhe são o artista, o colecionador, o mago.” Reouvindo as velhas e sempre novas histórias da voz escatológica do meu falecido pai , vou descobrindo lições preciosas, entre as quais aquela que diz que “há males que vêm pra bem.” Agora eu consigo entender um pouquinho mais a função de alguns males no íntimo da humanidade. Os heróis corajosos, benevolentes e honestos, só surgiam à sombra – ou devo dizer luz? – dos dragões vorazes e astutos. O herói era uma criação da necessidade romântica diante do desafio do bem, isto é, do mal. Na busca pela solução do problema, em vista da ameaça e do conflito que o dragão representava, criava-se o espaço para o nascimento do herói, que realizava o desejo contido em cada um de nós ao redor da cama de meus pais e ao redor de nosso imaginário infantil: a morte do dragão e a salvação da donzela que, via de regra, era a filha do rei, a princesinha. Nunca, nas histórias de meu pai, o corajoso herói salvava uma moça pobre do reino, talvez porque não valesse a pena o risco, pois o herói tinha, como recompensa, a mão da princesa em casamento: a mão, o reino e todo o resto. E, completando nosso romantismo político, isto é, psíquico, o intrépido guerreiro casa-se com a donzela e vivem “felizes para sempre.”

A felicidade estava dada como ápice da história. Este final feliz era a expressão saturada de uma modernidade, um happy end que todos esperávamos, uns como recompensa, outros como inevitabilidade de um modo de existir, de viver. A felicidade dada no futuro, ao final de uma saga, de uma batalha, de um vestibular, de um casamento, de um nascimento, de um sorteio, de um campeonato. “A felicidade depois...”, esse poderia ser o tema da modernidade ocidental. Depois de agirmos conforme as doutrinas da Igreja, depois de agirmos conforme as prescrições da ciência. Entretanto, eu fico me perguntando se em nosso inconsciente os dragões não governam soberanos, com suas asas e suas labaredas de fogo incendiando a vida morna afora. Mas, nas histórias contadas, os dragões, apesar de toda aparente ameaça que representam, têm os seus limites impostos pela modernidade ocidental: nascem para raptarem algumas dondocas até encontrarem seu destino trágico na espada afiada de algum herói, criado especialmente para a ocasião, com indumentárias, apetrechos e espadas reluzentes que brilhavam à luz da imaginação do menino ao redor da cama do pai amado.

Os terríveis e poderosos dragões morrem de um modo muito especial: na espada afiada e brilhante de algum sujeito predestinado pelo nosso romantismo político, isto é, psíquico. Morrem para a felicidade geral da nação, fazendo o mal... Ou será o bem? A institucionalização do mal gera todo um aparato legitimador que sustenta a desigualdade econômica, cultural e social. O “mal” vai sendo delineado ideologicamente, cujo sentido é definido pela esfera do poder que impregna as relações simbólicas de uma falsa dialética que impõe a exigência de uma solução, de um “bem” que tenta se universalizar, mas que beneficia concretamente uns poucos. Os súditos aparecem nas histórias como meros figurantes, sorrindo para as câmeras da modernidade. Mas quem vive feliz para sempre é o rei, sua princesa e a  sua corte.

Os representantes da burocracia estatal já pensaram nisto. Não é à toa que escolheram o dragão para ser o símbolo da malvada inflação, monstro voraz, que consome o poder de compra das classes populares e desestabiliza a ciência econômica, que tenta, com suas prescrições infalíveis, eliminar o dragão voraz. A culpa da alta concentração de renda de um lado e da miserabilidade do outro não é culpa de um sistema econômico e financeiro injusto e perverso: é culpa da inflação, ou melhor, do dragão. No caso em questão, o herói é quase sempre o ministro da economia que, com seus planos científicos, aprendidos nas melhores universidades dos países que nos exploram, ensaia, tal qual um São Jorge às avessas, o combate ao dragão, isto é, à inflação. O “bem”, nesse caso, vem sob a forma de aumento da carga tributária, do arrocho salarial, do desemprego, do assalto oficial às cadernetas de poupança da população, entre outros planos. Teve até um “super-presidente” que alardeou a morte do danado do dragão com um só tiro, mas, felizmente, este saiu pela culatra, derrubando-o do cavalo da presidência, onde ele costumava galopar com uma camisa branca onde estava escrita alguma mensagem de otimismo e esperança para seus súditos, ávidos por espetáculo. Agora mesmo a sociedade civil está cedendo ao desemprego, ao arrocho salarial, às privatizações e ao corte de direitos básicos, por causa do medo pavoroso do retorno triunfante do dragão.

Bem, não podemos perder nosso romantismo psíquico, isto é, político. Podemos deixar que nossas crianças deixem de acreditar nos heróis e nos finais felizes? Contudo, não podemos deixar de acreditar também nos dragões, não como um mal, mas quem sabe como um bem que pode conviver conosco até melhor que os heróis que tentam nos salvar deles. Por isso e, por via das dúvidas, protejam as suas cadernetas de poupança dos planos econômicos dos ministros-heróis, do luxo da princesa e do sustento dos privilégios da Corte, ninguém sabe quando eles tentarão nos salvar novamente.

Joselito da Nair, do Zé, de Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.
Em memória da vizinha Dona Eunice, que nos contou algumas histórias também.

domingo, 14 de março de 2010

Debate acirrado no Bar dos Titios em Jacobina


O bar dos “Titios”, grafado no local como “Tetios”, é o posto avançado das mais altas reflexões sobre variados assuntos em Jacobina, no bairro Leader. Trabalhadores de todos os ramos se encontram lá, para conversar sobre os grandes dilemas da humanidade, sendo um dos mais discutidos a tensão entre fé e ciência, e também entre política e ética. Lá os destinos do mundo são debatidos exaustivamente, com a mediação da cerveja, do coraçãozinho de frango e pelos demais “engorda velho” que Júnior prepara na cozinha do bar, e com a audiência, muitas vezes indesejada, da vizinhança, que é obrigada a escutar os grandes debates e colóquios dos atores intelectuais que ali fazem presença com seus inflamados argumentos, que os vizinhos, insensíveis, denominam geralmente de gritos incompreensíveis.

Assim como a Itaparica ultramoderna de João Ubaldo Ribeiro tem o famoso “Bar de Espanha”, o nosso “Bar dos Titios” nada deixa a desejar em termos de acirrados e profundos debates dos quais participam ativa e corajosamente “Mão de Onça”, Sólon Jornalista, Júnior (nos bastidores), Nilson Simonal, Elson Ultraprotestante, Evandro Brabo, Neto e outros, inclusive Hélio, que participa com seu olhar curioso e seu ouvido atento e sempre dá a última palavra: quando fecha o bar. Ataíde Vara de Bambu (É fino, dobra, mas não quebra) , meu sogro, era um ouvinte sempre presente, mas a "água de fogo" - como diria o índio Jacó, sob o olhar severo e desaprovador da sua esposa Bina - o deixou de molho por um tempo. Dizem as más línguas que se dedica agora a limpeza da casa e a leituras vespertinas, até a hora da novela das sete,  quando, ao término, vai dormir.

Outro dia, Evandro Brabo estava afiado. Discutíamos tensos sobre a relação entre fé e ciência. Eu, conhecido como “O Professor”, havia dito que a região de Jacobina inteira tinha sido um mar raso, há cerca de 500 a 750 milhões de anos atrás. Evandro brabo reagiu como se tivesse levado um soco no estômago. Respirou forte e, com veemência, reagiu gritando: - Você esteve lá! Você viu o tal mar raso? Se não viu é mentira! A Ciência não acredita em Jesus Cristo! Então, para mim, a Ciência não vale nada! Aqui ó pra Ciência! empunhando o braço em forma socialmente reconhecida como "banana".
Confesso que fiquei com um pouco de medo de Evandro Brabo levantar-se e picar a mão em mim. Nunca mais afirmo uma coisa tão grave na frente dele. Pois Evandro Brabo gritou e esperneou, deu o dedo pra Ciência e quase morde o colega que estava sentado a seu lado, de tanta raiva que ficou. A discussão avançou a noite enquanto “Mão de Onça”, reconhecido pela sua agressividade, estranhamente estava calminho, calminho, só olhando pra Evandro Brabo. Lá pras tantas, “Mão”, como é chamado carinhosamente pelos compadres, pediu a palavra e enfrentou Evandro Brabo com a seguinte reflexão: - Você disse que não acredita na Ciência pois afirma que o Professor nunca esteve lá, há não sei quantos milhões de anos atrás. Pois eu te pergunto: e você, estava aqui quando Jesus Cristo desceu e subiu aos céus? Por acaso você é a reencarnação de algum discípulo do Mestre? Ao que Evandro Brabo retrucou: - Mas está escrito! Na Bíblia. O livro mais vendido da humanidade. Nunca foi modificado em uma letra. “Mão de Onça” rebateu afirmando que a Ciência também está escrita e que, portanto, os argumentos de Evandro estavam errados, pois não tinham consistência empírica. Pela primeira vez eu vi “Mão” me defender. Ele sempre afirma que a especialidade de mentir eu aprendi direitinho com Ataíde Vara de Bambu durante esses quatro anos de relação sogro-genro. Sólon Jornalista ficou ao lado de Evandro, mas com ressalvas, admitia a relatividade da crença, embora seja um fiel convicto. Eu e Mão defendíamos as contribuições da Ciência para a compreensão do mundo e Evandro Brabo defendia a fé e combatia a Ciência.

Foi um fato histórico, que registro aqui com muita satisfação. Posso afirmar que foi um dos debates mais acirrados que já presenciei no Bar dos Titios. Tudo terminou bem quando Evandro Brabo, atingido no cérebro por uma quantidade incalculada de álcool, falou que "palavras, são apenas palavras, nada mais que palavras". Repetiu isto umas trocentas vezes. Olhamos um para o outro, não dissemos mais nada. Hélio fechou o bar, fomos pra casa e os vizinhos, agradecidos, foram dormir em paz.

Autoria: Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, da Ana Lúcia, de Tantas Gentes, e de Jesus, O Emanuel

segunda-feira, 8 de março de 2010

Cordel Lugar de Mulher

 Do ponto onde me encontro
na janela dum sobrado
daqui donde me defronto
com meu presente e passado
fico metendo a colher
do 'meu lugar de mulher'
neste mundão desgarrado

Do meu ângulo obtuso
Num canto da camarinha
afrouxo um parafuso
liberto uma andorinha
desmancho uma estrutura
arranco uma fechadura
desmonto uma ladainha

Reza a história do mundo
que mulher tem seu lugar
é um discurso 'corcundo'
e prenhe de bla-bla-blá
eu que ando em toda parte
divulgo através da arte
outro modo de pensar:

Lugar de mulher é quarto
sala, bodega e avião
Lugar de mulher é mato
cidade, praia e sertão
Lugar de mulher é zona
do Estado do Arizona
à Vitória de Santo Antão

Lugar de mulher é sauna
capela, bonde, motel
Lugar de mulher é fauna
terreiro, campus, quartel
Lugar de mulher é casa
seja na Faixa de Gaza
ou no Morro do Borel

Lugar de mulher é cama
seresta, parque, novena
Lugar de mulher é lama
escola, laje, cinema
Lugar de mulher é ninho
dos becos do Pelourinho
às águas de Ipanema

Lugar de mulher é roça
riacho, circo, cozinha
Lugar de mulher é bossa
reisado, feira, lapinha
Lugar de mulher é chão
das ruelas do Sudão
às veredas da Serrinha

Lugar de mulher é mangue
deserto, vila, mansão
Lugar de mulher é gangue
novela, birô, oitão
Lugar de mulher é mar
das praias do Canadá
ao céu do Cazaquistão

Lugar de mulher é ponte
trincheira, jardim, salão
Lugar de mulher é fonte
indústria, baile, fogão
Lugar de mulher é mina
do solo de Teresina
ao Morro do Alemão

Lugar de mulher é barro
palco, metrô e altar
Lugar de mulher é carro
camarote, rede, bar
Lugar de mulher é trem
dos caminhos de Belém
à serra do Quicuncá

Lugar de mulher é show
favela, brejo e poder
Lugar de mulher é gol
ringue, desfile e lazer
Lugar de mulher é creche
das bandas de Marrakech
às vilas do ABC

Lugar de mulher é serra
obra, beco e parlamento
Lugar de mulher é guerra
missa, teatro e convento
Lugar de mulher é pia
das tendas de Andaluzia
à Santana do Livramento

Lugar de mulher é tudo
por onde possa passar
seja pequeno ou graúdo
seja daqui ou de lá
Lugar de mulher é Terra
mas não onde o gato enterra
o que precisa ocultar

Lugar de mulher é dentro
mas também pode ser fora
Lugar de mulher é centro
que a margem não ignora
Lugar de mulher é leste
norte, sul, também oeste
de noite, tarde e aurora

De minha perspectiva
mulher não tem 'um lugar'
onde quer que sobreviva
pode ser seu habitat
lugares existem zil
eu mesma sou do Brasil
e vivo no Ceará!
Autoria: SALETE MARIA

domingo, 7 de março de 2010

“Olhos Famintos”: para você comer no almoço

Estava lendo o artigo de Malu Fontes, como faço todos os domingos. Gosto do estilo dela, e admiro o seu bom combate. Combate precioso e necessário nos dias atuais. Malu lança o seu olhar maduro, crítico e inteligente e emite sua opinião sincera sobre os fenômenos da mídia em sua Teleanálise. No artigo deste domingo, 07 de março de 2010, Reality na delegacia: repórter e policial na mesma função, ela examina a relação da mídia com a força policial do Estado, que está, em alguns casos, a serviço da primeira. Segundo Malu

Para integrantes da polícia deslumbrados com a possibilidade de produzir imagens “exclusivas” para o programa A ou B, ter uma câmara de vídeo na delegacia ou carregar uma na viatura passou a ser tão comum quanto o uso da farda ou da arma. Alguns delegados de subúrbio mais vanguardistas já se tornaram expert’s em captação de imagens e contam, em suas equipes, com o talento de dedicados servidores para registrar os casos mais grotescos e depois encaminhá-los à TV. (FONTE, Jornal A Tarde, Revista da TV, p. 09)

A polícia, nestes casos, virou uma extensão da mídia mais baixa do Estado do Bahia, que disputa morte a morte a audiência do sinistro público de cemitério.

O que mais me indigna são aqueles repórteres paupérrimos de humanidade que desrespeitam dia a dia os presos no interior das delegacias. Os presos são submetidos às câmeras e aos repórteres de meia-tigela que, com suas galhofadas, prestam um desserviço à sociedade. Para mim, um preso é, antes de tudo um ser humano, claro, que desrespeitou outro ser humano, mas que, preso, já está na situação que deve, entregue à lei, dentro do sistema legal que vivemos. Pena que o preso não pode fazer o que bem sabe diante daquele sujeito fantasiado de repórter, mas que não passa de um palhaço em desgraça. É uma pena mesmo. Um bom sopapo já seria um bom sinal pedagógico, pra ensinar esses moleques a serviço de programas de mau gosto. Papel de urubus, que não cumprem bem a função destinada a estes: alimentar-se da podridão e limpar a sociedade do lixo imprestável que ela produz. Não, não refiro-me aos presos, aos bandidos e marginais, refiro-me aos repórteres, seus programas e apresentadores que nos brindam com a mais alta hipocrisia, cinismo e leviandade.

Os policiais carregam câmeras para registrar e vender a morte.

Um jovem atingido por tiros agonizava na rua, tarde da noite. A polícia chegou e não moveu um músculo para socorrê-lo. Um policial já desceu da viatura empunhando uma câmera com o play acionado. Com contornos de corpo típicos dos profissionais de TV, contorcia-se ao lado do baleado em busca do melhor ângulo para filmá-lo, ao tempo em que perguntava seu nome e sobre a autoria dos tiros. Captada as imagens para que fazer mais nada? Anunciou-se aos presentes na cena que caberia à equipe da SAMU socorrer a vítima. No dia seguinte, lá estavam as imagens em um dos programas voltados para o gênero mundo cão. (p.9)
A vida do outro, principalmente se esse “outro” é um negro ou um amarelo pobre da periferia não interessa a ninguém, só a imagem entre a agonia e a morte que se morre antes dos trinta e de emboscada antes dos vinte, como diria João Cabral de Melo Neto. A casa dos pobres pode ser invadida, suas vidas devassadas, suas dignidades desrespeitadas, em nome da mídia. A barbaridade, a opressão, a violência simbólica produz mais violência que é vendida todo dia do meio dia em diante. A morte é o presente do almoço que os olhos devoram famintos tal qual a criatura do filme que, por sinal, inspirou o título desta reflexão: “Olhos Famintos”. Aquela "criatura" senta de segunda a sexta-feira em seu sofá a partir do meio dia e devora os produtos oferecidos pelos programas baianos, temperados com sangue, lágrimas, desespero, cinismo, provocação, desrespeito pela dignidade da pessoa humana. Come tudo cru com tanta ânsia que nem mastiga. Dá um beijo na esposa, acaricia a cabeça do filho e vai trabalhar ou dormir.


Autoria: Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

sábado, 6 de março de 2010

Religiões: Católica, Marxismo, Capitalismo

A Bahia - digo a Bahia de modo bem abstrato, pois creio só conhecer direito meu bairro, e olhe lá! - está cheia de comunistas que vivem como burgueses, bem adaptados às benesses capitalistas. Os comuna querem carro do ano, com direção hidráulica e ar condicionado. Querem ir ao shopping e assistirem cinema americano, além de darem uma passadinha com os filhos no Macdonald's. Nunca vi um comunista burguês levar seus filhos na periferia da cidade para lhes ensinar o quanto são privilegiados nessa sociedade que eles insistem em chamar "de classe".  Os socialistas do PT, por exemplo, acederam ao poder e esqueceram de onde vieram. Agora são "dirigentes do Estado." Chique. Eu nunca vi um comunista abrir mão de pequena parte de suas posses e partilhar com os miseráveis. Não. Isso é assistencialismo e corrói a força revolucionária do proletariado e diminui a tensão que o capitalismo produz. Evidente, não vivemos numa sociedade da informação. Vivemos, ou melhor, sobrevivemos no duro capitalismo dos bancos públicos (Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil) e privados e seus financiamentos gulosos, que retiram do pobre iludido, através da propaganda enganosa, os parcos recursos que lhe sobram. A mais-valia nunca valeu tanto! Mas o que me incomoda são posicionamentos tidos como "progressistas", "revolucionários", que julga os outros a partir de suas crenças. É isso mesmo, crenças. O marxismo deixou de ser ciência há muito tempo para tornar-se uma crença, uma religião, que, como dizia Marx, é o ópio do povo. Este posicionamento parte do pressuposto de que o socialismo é a única saída para a humanidade, "o caminho, a verdade e a vida". No socialismo teríamos democracia, Teríamos? Ou por conta das forças contra-revolucionárias haveria um partido único e um discurso único? No socialismo o "pão" seria dividido corretamente pelo poder estatal. Seria? Ou, herdando a cultura patrimonialista da história de nossos ancestrais, o Estado, representado por pessoas comuns e suas fraquezas habituais, utilizaria o pão como propriedade privada para controlar o comportamento de alguns e obter vantagens pessoais através da corrupção? Ou será mesmo que alguns sociólogos descobriram cientificamente que a corrupção é uma marca singular do capitalismo tardio?     

Quem não é capitalista nem socialista tem de ter um discurso proselitista para poder escapar da vigilância discursiva dos marxistas, ou qualquer denominação mais à direita ou à esquerda. Tem uns caras que enchem o saco da gente com suas balelas de revoluções, de mudanças benfazenjas para todo o corpo social através da ruptura histórica que o tal "socialismo' trará. Para não ficar chateado, adoto o mesmo discurso, e o pobre coitado sai com a sensação de que conseguiu converter mais alguém para sua religião. Fica feliz, deixa de me atazanhar com suas pseudo-teorias e vai atazanar a vida de outro. De qualquer forma fico pensando no socialismo real. Não trouxe justiça, não trouxe felicidade, não trouxe democracia, não trouxe emancipação. Ao contrário: concentrou o poder nas mãos de poucos, assassinou muita gente, não realizou a socialização dos bens e produziu, com o capitalismo, a tensão destruidora da vida humana na terra, uma das maiores perversões políticas da história, ao lado do Teocentrismo da Idade Média. Esse socialismo que foi implantando na antiga URSS e no Leste Europeu eu não desejo nem para meus conhecidos socialistas de araque. Jorge Amado, um pouco antes de morrer, deu uma entrevista ao Jô Soares na qual falou algo que concordo plenamente. Segundo ele, prefereria morrer no regime capitalista que no regime socialista, pois no primeiro ele morreria como herói e, no segundo, como traidor da nação e dos seus interesses socialistas emancipatórios. Faço aqui um pequeno desconto para Cuba. Tem os defeitos da maioria dos regimes socialistas, mas trouxe possiblidades emancipatórias para muitos cubanos, nos limites do cerco imposto pelo perverso Estados Unidos da América, que, por seu lado, impõe sua religião capitalista com armas, soldados e dinheiro da mais-valia retirada da América Latina e do mundo.


Religião, religação. Capitalismo e socialismo, ideologias que esperam fiéis, que desejam multidões se curvando aos seus pés. Idéias que, apesar de serem produzidas pelos seres humanos, se tornaram senhoras deles, fazendo-os escravos de sua crenças e matando em nome delas, assim como a Igreja Católica o fez em nome de um idelogia que eles inventaram e deram o nome de "deus". O "deus " de lá eles! Tem muitos nichos de idades médias por aí adentro. Tem muita gente boa disposta a matar em nome do que eles chamam de convicções e que eu chamo de fanatismo religioso. Fato é que nenhuma dessas "religiões" trouxe paz e felicidade. A tensão entre deus e o diabo, socialismo e capitalismo, produziu muitos cadáveres, lágrimas, vinganças e sentimentos nada nobres que os acompanham. Toda religião exige um sacrifício magnífico: a católica, o sacrifício da cruz; o capitalismo, o sacrifício da coletividade social; o socialismo, o sacrifício do sujeito individual. Todas três são sistemas de hipocrisia que se alimentam de seus próprios desdobramentos históricos. Não podem ser abandonados pelos fiéis. Essa blasfêmia não é admitida muito menos perdoada.

[...]Você que inventou esse Estado, que inventou de inventar toda a escuridão
Você que inventou o pecado esqueceu-se de inventar o perdão.
Apesar de você amanhã há de ser outro dia...(Chico Buarque de Holanda)
Autoria: Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

sexta-feira, 5 de março de 2010

Deus e o diabo na terra do sol cada vez mais quente

Desde que nasci as pessoas falam em deus. Exigem a crença de cada um e de todos nesse deus. Deus a tudo criou e sabe de tudo. É onipresente e onisciente. É o "senhor". Mas eu desconfio que "deus" não existe. Arnold Toinbe tem uma questão enigmática. Diz ele mais ou menos o seguinte: se Deus é bom ele não pode ser onipotente. Ou se é onipotente, não é bom. Como um ser onipotente permite que a corrupção, a pedofilia, o assassinato de milhares de pessoas ao ano seja parte de uma estatística permanente? Como pode ser bom deixando tudo isso acontecer. Ah, está previsto no apocalipse. Ah bom. Deus, aquele que pode tudo, previu, a inexorabilidade dos milhões de morte de inocentes, do abuso sexual de crianças, das guerras, do cinismo, da desonestidade, da hipocrisia, da vitória sobre os honestos, os sérios, os sinceros. Embora não possamos, sinceramente, dividir o mundo em bons e maus, podemos dividir ainda em honestos e desonestos, em cínicos e sinceros, em perversos e piedosos. E, creio, isso não tem nada a ver com deus, nem com o diabo. Deus e o diabo são criações idelógicas ultrapassadas, criados para classificar, para rotular, para marginalizar, para crucificar, seja numa cruz, seja numa fogueira, seja numa viela de uma favela crajevada de tiros. O diabo não existe. Deus não existe. Não sou contra quem acredite. Mas ninguém pode ser contra mim, que não acredito. Os escritores da bíblia, denominados sagrados, eram inteligentes. Quase todo escritor, em menor ou maior grau, é inteligente. Eles, pela sociedade em que viviam, imaginaram que teriam muito mais seres humanos no futuro, e escreveram baseados nisto. O que foi escrito não tem nada a ver com futuro, tem a ver com eles mesmos. Ninguém escreve para quem não existe. As pessoas escrevem o seu tempo. Essa história de inspiração no espírito santo é conversa fiada. Fiada fio a fio pra enredar inocentes crédulos cheios de esperança de salvação. A salvação não está no futuro. Nisto o cinema americano tem razão: a salvação está em cada gesto, em cada passo, em cada ação que procura garantir a vida naquele instante precioso e único que exige a atitude salvadora. Viver é segurar numa mão ou numa corda, ou numa pedra e não cair. Viver é resistir à violência do impacto e levantar. Viver é lutar dia a dia, sem deus nem diabo qualquer. E eu vivo, ou tento, assim. Estou por minha conta e risco. Não tenho deuses, nem diabos, nem amigos. Estou preparado para o ataque e para o revide, se puder. E vivo só, sem ser solitário. Vivo em mim sem esperar por ninguém, e creio estar bem, mesmo se morrer, pois morrer é a coisa mais certa que existe, e, se alguém não esperar a morte, é porque é tolo. 

Carlos Heitor Cony diz que tem um truque. O truque de já ter morrido em determinado dia de determinado ano. É um bom truque. Se você já morreu, então pode ver "além do paraíso". E de lá pode afastar-se do mundo como ele é e ficar em paz com a sua vida, ou com a sua morte. Não sei se já posso morrer. Eu dou palpite em muita coisa, e isso indica que estou bem vivo, porque preocupo-me com as coisas da vida de muitos, de minha vida. Mas eu quero morrer em breve. Quero morrer e deixar para trás aquela vontade de ser mais de quem sou, de consumir mais do que tenho e de pagar mais caro pelas coisas que pago. Deus, você exista ou não, quero te deixar de lado e apelar para o heroísmo ou para o mito. Quero voltar atrás e crer de um jeito mais sincero, mais autônomo, mais verdadeiro. Se você é Deus, como se deixou ser capitalizado pela Igreja Católica? Se você é deus, por que não intervem na roubalheira que campeia pelo Brasil? Se você é deus, por que deixa milhares de jovens negros morrerem todo ano na Bahia? Se você é deus por que deixa tanta hipocrisia e mentira prevalecer? Se você é deus, eu não estou nem aí pra você. Não quero o fim dos tempos, não espero a vitória do mal, nem resigno-me com sua paciência de deus. Eu sou um homem e penso como tal. Penso meu tempo, penso minha história, penso meus dias e quanto mais penso assim menos te percebo. Minha espiritualidade tem limite, e tem tempo. O tempo humano que grita de raiva contra quem tem poder e não age. Meu tempo, no máximo, é de cem anos, e já tenho quarenta. E você deus, até agora, é uma idéia distante. 

Foi minha mãe quem te trouxe pra perto de mim. Ela era inocente em relação a você. Acreditava sem perguntar. Mas, deus, me permita, eu não sou feito da mesma substância de "mainha". Se você existir, e for bom e onipotente, ela deve estar zangada comigo. Mas eu tenho, antes de tudo, de ser sincero, verdadeiro comigo mesmo. Eu não posso crer em vós para ficar bem com boa parte da humanidade brasileira, incluindo as pessoas que vão ler este texto. Percebo empiricamente que tem muito "cristão" de boca que é ateu na prática. É melhor ser ateu convicto, penso. Eu creio nas pessoas que fazem o bem acontecer em cada pequeno e grande gesto. Quem me dá um pouco d'água e mata a minha sede, é deus. Quem me salva dos deslizes é deus. Quem partilha boas palavras comigo é deus. É assim que eu creio. Sem demagogias, sem hipocrisias, sem mentir, sobretudo pra mim mesmo, espero. 

Autoria: Joselito M. de Jesus