quarta-feira, 28 de abril de 2010

Varão: via-crúcis pro altar.

Você menina carente, crente
naquele que vai te dar amor
e reza, dobra os joelhos
pedindo a Deus esse favor

Você procura um macho
pra combinar com sua crença
um varão cheio de fé
mas, sobretudo, boa aparência

Contrita com o senhor
você pede um varão
despreza o "vara"  e o "varinha"
não tolera variação.

Em sua perseverança
você não aceita qualquer
não pode ser um comum
varão tem de ter fé.

Varão é homem maior
por isso o uso do "ão"
se fores varoa franzina
o amor pode ser problemão

Em sua cotidiana
você vai olhando precisa
Cuidado! o olhar é o pecado
entre o joelho e a cintura atrevida.

O seu tempo de escolha é mais longo
e você hesita, vacila insegura
sua cartilha te reza e te algema  
sua margem é pequena, sua vida é dura.

Você, parece tão inocente
procura um companheiro
pra chamar de "meu varão"

Escolhe um homem decente
controla a procura, analisa primeiro
demora e perde o que tem à mão.

Autoria: Lulu Vieira e Joselito Manoel

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Teorema Dialógico de Pitágoras

O quadrado da hipotenusa
"se achava" no triângulo retângulo:
dava ordens e a última palavra.
Os catetos desunidos
não sabiam de Paulo Freire e de Pitágoras
nem do teorema deste último.

O cateto oposto não gostava
de sua posição no triângulo
que nada tinha de amoroso.
Não havia espaço
pra ciúmes
nem para crime passional.

Uma idéia imperava liberal
naquelas relações trigonométricas.
O cateto adjacente se sentia
sufocado e pressionado
pela chata hipotenusa
e queria se tornar
um segmento de reta
seguindo de apenas um ponto de vista
a menor distância entre dois pontos.

Os catetos rejeitavam seus quadrados
e queriam ser talvez
um diâmetro ou um raio
de um círculo qualquer.
Queriam sair daquele triângulo vicioso
e quebrar os 180 graus
daquela relação tão aguda e obtusa.

Os catetos desejavam ardentemente
outra forma geométrica.
queriam mandar a hipotenusa
pra diagonal que a pariu

Um dia conversaram sobre os lados
de sua existência geométrica
e descobriram lado a lado
o valor de seus quadrados.
Criaram umas idéias marxistas
e construíram,
 num ponto crucial da equação,
suas consciências de sua função
Efe de Xis - f(x)
na história de sua área,
e de sua relações no espaço
geométrico do triângulo retângulo.

Desse dia em diante
juntaram os seus dados
num novo sistema interpretativo
e fundaram o teorema
em suas vidas de pitágoras
num processo dialógico.

Dessa teoria em diante
suas práticas tornaram-se reflexivas.
A partir desse instante
a soma dos quadrados dos catetos
no triângulo de um ângulo de 90
é igual e merece o mesmo respeito
que a tirana e orgulhosa hipotenusa.


Autoria: Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.

Marina Me Nina

Insone,
noite perdida
Durmo
noite comprida

Dia,
sono esquisito
mosca,
calor,
notícias,
mosquito.

Curo,
a noite perdida
durmo,
sonho
uma boa pedida.
Acordo assustado
decepcionado
no mesmo Brasil assombrado

Sonâmbulo,
O Brasil e a Bahia me insônia.
É tanto terror!
São tantos os sustos!
Que eu perco o sono
nas superfaturas;
nos milhões desviados
das obras;
nas estratégias eleitorais;
no governo atado
nos nós
de todos os "carlos"
de todos os calos
e cala-te's da história.

Serra me assusta,
Dilma aterroriza,
Ciro me assombra,
Lula é tudo isso.

Marina me embala
menina da floresta.
No seu colo verde
de esperança
adormeço ninado
nas histórias que me contas
de um novo país: ecológico,
ético, justo, equilibrado.

Autoria: Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.

domingo, 25 de abril de 2010

Juventude Animal: Até o Chão

Quinta-feira alguns alunos pediram para não dar aula por causa da Micareta. Micareta é mais importante que aula. Quebrar a cintura é mais importante que raciocinar. Micaretar é a prioridade em Jacobina e no Brasil. País onde a juventude lê pouco. Onde a leitura é algo cansativo, desagradável e, infelizmente, penoso. Nosso país ainda está muito distante de construir um futuro decente para sua população. Pessoas que serão profissionais da educação colocam a micareta em primeiro plano. Nada contra curtir sua juventude, nada contra. Porém, a micareta começa às 22:00 horas e a aula termina às 22:00 horas. Talvez por isso os índices divulgados recentemente pelo MEC sejam tão ruins. A evasão aumentou, o que é um bom sinal, pois o indivíduo inteligente, percebendo empiricamente que essa escola pública não vai melhorar sua condição humana, termina dando uma bonita banana e ocupando seu tempo com coisas mais úteis que fingir de educando em escola pública falida. Micarete! realize a sua festa. Beba, fume, cheire, regue, goze, mele, "quebre até o chão", suje, sue e realize plenamente sua juventude ôca.

A juventude mostra a sua cara. Tá na bunda. Na bunda que mexe, que pede o olho, a boca babando do tolo. E nas micaretas não faltam bundas pedindo olhares famintos, gulosos, dispostos ao gozo louco que mete todo o instinto animal na associação entre o pênis, a bunda, a boca e a vagina, não necessariamente nessa ordem. A energia juvenil brasileira concentra-se no quadril e isso é nossa cultura que puxa o trio e mostra a cor e a condição de quem arrasta a corda para os brancos bonitos, nutridos e sadios pularem, "quebrarem", beijarem, amarem a noite "festiva". Educação passa longe disso. Educação é monotonia, concentração, paciência, disciplina, tempo. Exige sacrifício saber, investigar, descobrir sistematicamente os segredos do mundo.

O ser humano precisa de gozo, de festa, de alegria, de descontração, de algo que o afaste momentanea e salutarmente da barbárie e do caos que é este país, com seus impostos, seus desmandos e suas corrupções já institucionalizadas. Mas não creio que a própria festa seja um convite ao aprofundamento ainda maior dessa barbárie e desse caos que nos afasta de todo processo civilizatório. Festa é estar entre amigos, dividir alegrias, celebrar conquistas e eventos, ao som de uma boa música num ambiente agradável. Agora recordo de uma poesia que fiz para participar do Festival de Música e Poesia da PJMP - Pastoral da Juventude do Meio Popular.   

A medida exata da juventude
também não vi
no carnaval ao frenesi
Na multidão que ia e vinha
não sei pra onde não percebi

Naqueles idos dos anos 90 eu procurava uma "medida exata" para a juventude. Coisa de tolo. Mas no frenesi do carnaval industrializado e midiático, é  quase impossível achar humanos e humanidade. Achamos uns restos de gente, tentando sobreviver ali no chão, vendendo o possível, catando latinhas, levando empurrões. Uma multidão sem cabeça, vagueia na noite em busca de si mesma, tentando comemorar a vida, curiosa como um animal em torno das luzes piscantes que a noite carnavalesca ativa.

O bloco concentra antes do "desfile" de tolos. Prepara e disciplina os gritos, os gestos bobos do frenesi. E vão todos! Gastando energia juvenil! É festa! É festa! "Levanta a mãozinha !" Que música e cantor de verdade não tem, seus idiotas!!! Gente vazia de raciocínio, de reflexão. Gente que é menos gente a cada carnaval, micareta e "os cambaus". Gente que é cada vez mais parente de leão, de macaco, de jumento, de cadela, de perua, de cavalo. Gente que só come, só suja, só goza, mija a cidade toda e não dá a sua pequena contribuição para esse mundo humano, cada vez mais desumano. "Tira o pé do chão" e "levanta a mãozinha" são, sem sombra de dúvida, as frases mais pronunciadas dessas micaretas baianas. Os macacos amestrados obedecerão alegremente o comando do(a) idiota metido(a) a cantor(a) no palco ambulante do trio elétrico e realizarão, felizes como zumbis, seus desejos mais mesquinhos. É para tirar o pé do chão mesmo! Ficar sem gravidade. É a juventude que vive esquizofrênica numa realidade reluzente celebrando o que existe. Na levada do trio, os seguidores fanáticos acompanham uma trajetória curta do ser humano no pequeno trecho da avenida onde o trio os conduz. Vão! Vão até o chão. E fiquem por lá mesmo, afinal, andar ereto é uma conquista da humanidade.
Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.     

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Querenças

Eu, Joselito, não quero isso pra mim!
quero ser profundo
quero ver o mundo
quero o prazer.

Quero essa procura
quero essa loucura
de estar com você.

Quero o desejo
quero essa ternura
quero essa fartura
quero esse beijo
que me faz tremer

Quero essa mistura
quero o cafuné
e coçar seu pé
ao amanhecer.

Quero te apertar
quero te espremer
quero-te solúvel
quero te beber

Quero te acordar
e te cozinhar
para te comer

Vou te digerir
e se for assim
você será em mim
eu sendo em você.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.

Saber, Sabor, Sabedoria

Saber, saber quero
viver melhor.
Viver a mais
do que tenho vivido;
doer menos
do que tenho sofrido;
rir sempre
diante do siso;
gozar mais
do que tenho gozado (é possível?)
gastar menos
do que tenho gastado
e descansar
minha cabeça
num cantinho do seu colo,
abastado.

Saber, saber contigo,
convosco.
Só assim que eu sei.
Viver, viver contigo
conviver
só assim que eu posso
aprender a viver comigo.
Ter, ter contigo, com todos:
só assim eu quero
só assim eu tenho
paz, justiça, amor e gozo.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel


quarta-feira, 14 de abril de 2010

Perda de Tempo

É, faz tempo que o tempo foi passando
E a gente foi deixando ele ir
sem lembrar de você e de mim
bem assim como agora.

É, fez tanto tempo
que a saudade chegou
e você se lembrou de matá-la.
e saiu desse tempo a tempo.

Esse tempo devora e engole
a nossa memória
e explora nossa paciência.
Esse tempo é um câncer
que nos tira o tempo de vida.

Tempo cheio de exigências
que consomem o nosso escasso.
Que não nos dá um tempo
pra refletir nossa existência.

Invente seu tempo
a contento
saia desse tempo que conta
e desconta seu tempo.

Crie sua história
e teça sua memória
com um pouco de tempo
sadio, vagaroso, cheiroso

Faça isso a tempo
senão perde tempo,
muito tempo,
o tempo todo,
até esse tempo
lhe tirar do tempo.

Autoria: Joselito da Nair, do Zé, de Ana Lúcia, de Rafael, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

domingo, 11 de abril de 2010

Oitenta Anos (Continuação)

Aquele velho não aceitava as mudanças daquele tempo estranho que vivia. Um dia imaginou ficar cego aos 70 anos. Não queria, a partir daquele instante, brigar mais com a memória ou sofrer o atropelo dos costumes, valores e crenças. Queria, a partir daqueles setenta, enxergar apenas com a saudade. Só. Deixar a memória fazer o seu trabalho de acalanto. Não aceitava aquele modo de viver que aquele tempo aprofundava. Automóveis com sons ensurdecedores e músicas de péssima qualidade invadindo ruas, sossegos e silêncios, desrespeitando direitos e debochando da lei. Os policiais eram os primeiros a agirem assim, demonstrando o quanto aquele tempo estava apodrecendo diante dos seus olhos. Padres, outrora tão respeitados, agora representavam ameaças para crianças e adolescentes. Professores, perderam a vontade de ensinar. Sua autoridade era ameaçada por alunos agressivos e marginalizados. Tudo estava sendo invadido pelos bárbaros, conforme Dennis Arcand apontara em seu filme: "As Invasões Bárbaras". As drogas ameaçavam a própria família e seu filho, e suas amizades, era acompanhado de perto, pelo medo da contaminação. As ruas do centro foram invadidas por zumbis do crack e os governantes continuavam roubando e mentindo como nunca. Aquele novo tempo estava matando o velho e ele, debilmente agarrava-se à memória a fim de proteger-se psicologicamente do tecido da morte, a mortalha vermelha que cobria a sociedade de sangue e vergonha.

Com o tempo foi parando de falar e, na inversa proporção, foi escrevendo crônicas, memórias e poemas. Foi gostando de ficar invisível. Aliás, percebeu que os anciãos sempre ficam invisíveis com o tempo. A suspeita de esclerose ajudava muito, pois não é a memória dos anciãos que vai apagando. É a memória da sociedade que vai deixando de lembrar dos seus membros da 3.ª idade. Isso o fazia acreditar que a memória é um dos desdobramentos do modo da sociedade conceber as pessoas e suas condições específicas. Num mundo de atropelos, lembrar era perda de tempo. Ficou pensando na outra extremidade: como as crianças são esquecidas. Crianças, numa sociedade consumista, só são lembradas como unidades de lucro. Crianças pobres, amarelas, negras, moradoras das periferias, não compunham a memória social. Constatava isto durante suas caminhadas, dialogando com sua memória. Percebia tristemente a ausência de parques públicos infantis nos bairros e regiões mais pobres da cidade. Não havia mais lazer público, nem espaços onde realizar o brinquedo e o jogo sem pagar um centavo, como era quando ele era menino. Quando a sede vinha, água corria nas grotas, vindo de alguma nascente, ou algum vizinho nos dava uns copos d'água gratuitamente. Mas até a água havia sido engarrafada e vendida. Os campinhos de várzea, onde bola, chuva, sol, lama, poeira e meninos se misturavam, foram desaparecendo. Os cenários magníficos, os fantásticos gol's, alegrias, gritarias efusivas, abraços festivos entre a molecada, foram devorados pelo crescimento econômico, apoiado pelo Estado. Lembrou-se da Praça em frente à Igreja de Santana, na Pituba. Um praça com um parque público muito bonito e aprazível... Feita para ninguém! Praça e parque que deveria ser construído na periferia, onde crianças paupérrimas poderiam desfrutar de seus equipamentos. Mas ela fora construída para inveja dos despossuídos. Estava lá, sendo vigiada por um sujeito da periferia para que os pobres da periferia não a frequentassem, pois pode ser que os brancos donos de tudo não gostassem, por causa da "feiúria" e da "má educação" dos pobres de longe. Porque os pobres não pertencem apenas a outra cidade, eles pertencem a outro mundo, a um outra lógica. Lembrou-se de um livro de ângelo Serppa, no qual este geógrafo evidenciara o processo de construção desigual de equipamentos públicos, somente para o deleite dos que vivem nos denominados "centros". Assim como a água, tudo estava sendo engarrafado naquele tempo. Quase tudo tinha um rótulo e tinha um preço. Até os campinhos estavam sendo engarrafados, denominados de campos de "futebol society".  A mercadoria tornou-se a referência do seu tempo e substituiu a solidariedade, o esforço coletivo. Talvez refletindo nossa dificuldade em ser um povo de verdade. Éramos apenas uma massa dispersa, um monte de indivíduos perambulando por espaços restritos da cidade, sem capacidade para formar uma comunidade de fato. Até a Igreja Católica, abandonara o seu projeto do Concílio Vaticano II, Medellin e Puebla. A Comunidade Eclesial de Base fora esvaziada por interesses maiores dos "homens que exercem seus podres poderes".  

Memória perigosa, era isso que ele era agora. Oitenta anos cronológicos, uns setenta de memórias, lembranças. Tudo bem e mal passado, até as dores, sem futuro. Ele já não tinha futuro antes, quando tinha 40 anos, imagine agora, em 2049. Recebeu os abraços da esposa, do filho, dos poucos presentes, soprou as velas, comeu um pedaço pequeno de torta e ficou ali, lembrando.

Autoria: Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Oitenta Anos

Oitenta longos ou curtos anos? Jamais imaginou que ficaria tão velho, ou que morreria tão novo. Não havia amigo algum na comemoração, só alguns membros da família e a sua esposa, Ana. O filho Rafael também estava. Era parte dele mesmo, dois que era um. Ele já era velho desde menino. Nunca gostou de futuro. Era apegado ao passado. Era nesse tempo que ele vivera ou viveria feliz. O tempo de Pinxiguinha, de Noel Rosa, de Moreira da Silva, de Mario Lago. Era como se pertencesse àquele tempo. Tinha um sentimento que lhe dizia isto. Agora sim, estava velho de fato. Sempre tivera poucos amigos. Era desconfiado e temia a maldade humana mais que o ataque de uma fera ou o poder destruidor da natureza. As vezes, para conversar com a saudade, pois não desejava matá-la, caminhava pelas ruas procurando os detalhes de sua vida que ofereciam pistas para a memória. Ele não sabia bem mas tinha muita saudade dentro dele. Uma vontade de rever algo em seu passado, que o deixaria em paz. Ele sentia-se como um louco, que anda pelas ruas procurando a si mesmo.  Mesmo arriscando-se no caminho sem volta da loucura, algo dentro de si o dizia que ele devia procurar o seu segredo, que o faria descansar de tanto movimento inútil em que estava enredado.
As  vezes seu coração espremia, as vezes sorria calmo as lembranças mais ingênuas. A paisagem já não era mais a mesma. Embora a rua fosse a mesma, as casas cederam lugar aos prédios gigantescos, se comparados a elas, que esconderam o sol e impediram o vento de passar até a nossa face, comprometendo aquela memória de brisa cortando o sol. O capital atropela tudo a sua volta. Passeios, canteiros, botecos, mercados, varandas, janelas, moças bonitas e senhoras debruçadas em seu parapeito desapareceram para sempre. Desapareceriam de qualquer maneira, mas tudo seria feito num tempo que desse oportunidade para despedidas. Tudo agora era a memória que construía, confrontando-se com os olhos. Alguns lugares haviam ficados até mais bonitos, embora tristonhos, por causa do que não mais existia. Outros lugares ficaram mais feios. As pessoas que moram em tais lugares também são afetadas pelo seu estado, ficam mais assustadoras e assustadas. Nesses lugares o velho ficava mais triste, pois naquelas ruas moraram pessoas queridas, que ficaram mais queridas ainda quando desapareceram. O velho sabia que todo lugar se movimenta, toda paisagem é viva. Nasce, cresce, transforma-se e morre. Só fica na memória de quem viveu naquele lugar em determinado momento. Os endereços deviam sempre estar mudando, pelo menos a cada geração, haja visto sua dinâmica viva. O velho achava isso. E achava ainda mais. Achava que uma pessoa também devia mudar de nome ao longo de sua existência. Toda pessoa muda ao longo de sua existência. Muda suas concepções, sua forma de perceber o mundo, até  sua aparência. Mudar o nome, pelo menos o primeiro, seria então, coerente com esse processo todo.
CONTINUA
Autoria: Joselito da Nair, do Zé, de Ana Lúcia, de Rafael, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.