sexta-feira, 31 de julho de 2015

PEDINDO A BENÇÃO

Quando meus pais vieram do interior ainda não eram os meus pais. Eram jovens que acompanharam suas famílias tangidas pela indústria da seca. A seca que reside no coração e no cérebro dos homens que governam nossa nação. Um dia, não sei como, cruzaram olhares e depois as bocas, os desejos, as pernas e fomos nascendo. Bom, mas não é isso que me interessa neste texto de hoje. Estava ontem à noite quando pensamentos bateram à minha porta. Eu não abri ontem. Pirracei. Além do mais poderia acordar Ana, coitada, tem que trabalhar logo cedo. Mas eles mostraram que queriam falar. Então, aqui estou eu, nesta tarde de sexta-feira, colocando-os na arena discursiva.

Quando éramos crianças, eu e meus irmãos pedíamos a benção aos nossos pais, tios e avós. – “Bença” minha “vó”; -“Bença” minha mãe; “Bença” meu tio “Filuca”; “Bença” meu tio “Louro”; “Bença” minha tia Lourdinha; – “Bença” Minha tia “Lurde”; “Bença” minha tia “Cecé”, - “Bença” meu tio “Ciriro”. Era natural chegar, pedir a benção aos mais velhos e cumprimentar a todos (as), na entrada e na saída. E aquele ritual bonito e cheio de significados nos adentrava no ambiente da família, simbolizando respeito e acolhimento, muito embora nem sempre, por vários motivos, houvesse acolhimento.

E de onde veio a “benção”? Logo, tenho de fazer um exercício de alteridade para tentar entender esse fenômeno cultural, carregado da religiosidade de uma época. Quando vieram “pra Bahia” do interior do estado – e “vir pra Bahia” era vir para Salvador – os jovens pobres com suas famílias traziam a si e ao seu mundo junto. Não havia como ser diferente. Se nós vamos, vamos com nossas crenças, nossas marcas, nossos hábitos, nossas dores, nossas flores, nossas paisagens que a memória conta em histórias em roda de fogueiras, ou do candeeiro. Por muito tempo não tínhamos energia elétrica em casa. Foi assim que a “benção” veio junto. Precisávamos dela para resistir ao admirável e perigoso mundo novo que nos esperava nas periferias da cidade que crescia, sempre com a cachaça - naquele tempo a cerveja era algo muito distante dos homens. A cachaça era mais barata e, portanto mais acessível e cultuada como símbolo de masculinidade - fazendo presepadas ou ameaças entre a rua e a casa.

A “benção” era mais um mecanismo que nos lembrava o princípio da autoridade e a necessidade do respeito ao entrar e ao sair de uma casa. Lembrávamos a quem devíamos obediência, a quem devíamos nos reportar e a pedir conselhos para poder aceitar um emprego, um casamento, realizar uma viagem, planejar a realização de uma esperança. A palavra de nossos pais, tios, tias e avós tinham uma sacralidade que nos dava segurança diante dos desafios que eram lançados, permitindo ou negando. Nossa família assim caminhava, de benção em benção, todos os dias.

Meu pai, José Manoel, quando estava zangado, respondia – Deus que te dê vergonha!”. E a gente passava envergonhado diante dele. Ou: – “Deus te faça feliz!” e a gente passava radiante diante dele. Minha Mãe, Nair Dórea, sempre nos dava uma boa benção de esperança. O contexto daquele momento de nossa história, do ponto de vista material, econômico, não foi dos melhores. Como a seca não estava no sertão, mas estava no cérebro e no coração dos homens que nos governavam, ela nos acompanhou durante muito tempo, não importava o lugar onde morávamos. Mas tínhamos a família mais de perto. Aquela atmosfera de cumplicidade, de aceitação das regras definidas desde lá, onde fomos forjados pela terra, pelo sol e pela esperança que caminha obstinada rumo à vida pelo sertão de Remanso e pela paisagem dos sítios de uma Entre Rios de outro tempo.

A benção nos conectava com nossos pais e parentes, mediando o tipo de relação que estabeleceríamos com eles e elas. Esse ritual ficou vivo por muito tempo, tecendo elementos importantes de nossa humanidade no círculo familiar, protegendo-nos dos inimigos e fortalecendo-nos diante das adversidades. Não saíamos de casa sem pedir a benção de nossos pais. Era mais fácil sair sem tomar banho.

Mas, nossos avós, tios e pais foram morrendo. E nós deixamos de ensinar a nossos (as) filhos (as) a pedir a benção. Talvez porque não fomos ensinados a pensar a benção em nossas existências. Talvez porque nos tornamos ateus nesse mundo de consumo, em que Deus e o sagrado foi substituído pelos produtos e serviços, máquinas e equipamentos que as lojas dos famigerados shopping’s exibem como promessas de felicidade. Pedir a benção se tornou cafona – outra palavra cafona -, passado, caindo em desuso. Deixou de abençoar nossa entrada e nossa saída de casa. Talvez porque a autoridade deixou de exercer a sua força admirável de comando. Talvez porque os pais perderam o que o interior, lá, aonde a Bahia não vai, nos oferecia daquela forma de organização, talvez porque a própria igreja substituiu Deus por milagres vendidos nas telas de TV por falsos pastores. Talvez porque perdemos exemplos de fé, de autoridade, pessoas-faróis que iluminam o caminho de uma gente perdida na confusão desse fim de mundo. É como afirmava o grande filósofo cantor Renato Russo:

E há tempos nem os santos têm ao certo
A medida da maldade
Há tempos são os jovens que adoecem
Há tempos o encanto está ausente
e há ferrugem nos sorrisos
Só o acaso estende os braços
a quem procura abrigo e proteção.

Meu amor, disciplina é liberdade
compaixão é fortaleza
ter bondade é ter coragem
lá em casa tem um poço
mas a água é muito limpa.


A desmedida da maldade precisa ser enfrentada. Mas não com uma fé reles. Mas, quem sabe, cada um de nós acendendo a luz que habita cada um, para irmos, despretensiosamente, iluminado ao seu redor, a começa pelos que estão à nossa volta na família que formamos na contemporaneidade. 


Meus pais não estão mais aqui. Mas eu sinto que eles existem. E, mesmo daqui, quando entrar e quando sair, eu quero lhes pedir a “bença”. Pedir a “bença” aos que ainda estão vivos, desejando entrar e sair dos seus lares com o consentimento do céu que eles e elas mediavam e mediam nesse gesto tão breve, e, ao mesmo tempo, tão longo, da nossa história humana brasileira e baiana.
“Bença” meus tios! “Bença” minhas tias! “Bença” meus ancestrais!  

Joselito da Nair, do Zé, dos Tios, Tias, Avós e Família