quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Batismo

O caminho serpenteia a terra
começo de paz
o fim das minhas guerras,
de trincheiras e campos de batalha


O caminho andando em meu passo
cortando veredas, caatingas, desertos
unindo riachos, levando segredos
de rio pro mar


A cerca ao lado seguindo meu nado
em compasso de espera.
O meu lado mais leve
saltando do rio na harmônica curva.
O menino amarelo
 brincando banguelo com a chuva.


Ignora a cerca farpada
e festeja o quintal de um dono
que também ignora
na manga doce que escorre 
amarela da boca,
no caju, na goiaba,
na roupa molhada.


A minha infância inteira
coube naqueles galhos,
naquelas margens,
daquele rio.
Eu mergulhei na vida
inteira daquele instante
e exultei alegre
daquele momento em diante
para todos os dias seguintes
da minha existência.


Quando saí do rio, fiquei alí
com a chuva, com a margem,
com o sabor, com a imagem
daquele momento.
Senti uma benção alegre...
E foi assim meu verdadeiro batismo.


Autoria: Joselito da Nair e do Zé.



terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Madrugada

Na madrugada tudo barulha
nada embaralha na calma
nada espalha o silêncio
que pede palavras à alma.

Fico calado ouvindo o livro
que fala por horas aos meus olhos
Leio, leio, creio e crivo
e, no silêncio, registro meus gritos


Na madrugada eu vou tecendo
os fios do discurso
os cursos do rio
os ditos e suas entrelinhas
os meandros tecidos
rumo ao destino do mar.

Não escolho palavras:
Elas me acham
no lugar do silêncio
e se pronunciam
madrugada inteira
enredando poemas
trançando versos
traçando verbos

A madrugada me deixa sozinho:
silêncio e palavras
tecidas de um modo
de ser poesia.
Ana dorme quieta
parece longe e discreta
me resta o silêncio:
 a voz da madrugada

Autoria:  Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

Eu faço silêncio para esperar a palavra

O silêncio não é o vazio, o sem-sentido; ao contrário, ele é o indício de uma totalidade significativa. [...] É o silêncio a própria condição da produção de sentido, o lugar que permite à linguagem significar.
(Eni Orlandi, 2002, p. 70)


O silêncio não é simplesmente a ausência da palavra. Há muitos tipos de silêncio. E todos revelam e expressam determinada situação. Há o silêncio da sabedoria, que é o momento de ouvirmos bastante para tentar compreender. O silêncio de escuta é praticado, geralmente, pelos mais velhos. A maturidade escuta muito, para poder pronunciar alguma palavra. Procura entender o seu interlocutor, seu contexto, seus motivos e seus anseios, a fim de construir a ponte de palavras que permitirá a comunicação entre ambos. Quando uma anciã e um ancião falam, podem vir também muitos equívocos e preconceitos sobre o objeto a que nos referimos. Mas há muito de uma experiência vivida, almagamada com a intuição, os sentidos diversos e a sabedoria partilhada durante anos nas diversas interações vividas com seus contemporâneos em múltiplas situações.


Outro silêncio é aquele deliberado, quando temos a necessidade de contemplar a nossa vida, o que fizemos, o que temos a fazer, o que erramos, o que ainda é possível melhorar. É um silêncio monástico, contemplativo, um silêncio de advento, aguardando revelações. Penso que, assim como a escrita da poesia em mim acontece, ou seja, eu não digo: - agora vou escrever uma poesia. Não é assim que acontece. A poesia inscreve-se em mim, por um processo de germinação no seio do meu ser. Assim também a revelação ou as revelações, não vem do céu, de um espírito superior, vem da ruminação que elaboramos reflexivamente sobre a nossa existência e, sem hora marcada, apresenta sua síntese. Eu faço silêncio para esperar pela palavra. Essa palavra é marcada pela minha singularidade no mundo com os outros. Eu forço nela a sabedoria relativa que tenho. Eu procuro nela alguns pequenos segredos da minha vida cotidiana que, embora sempre estejam a minha frente, não consigo ver num mundo saturado de sons e cores. E o silêncio se faz um espaço precioso para poder ouvir, sem os olhos, pois os olhos, neste caso, cegam e ensurdecem, a verdade que se esconde, cotidianamente, diante de mim.

Há também o silêncio dos cínicos. Silêncio funesto, que faz “vistas grossas” às situações que mereceriam palavras duras, gritos, ordens. É um silêncio maldito, que oculta, que esconde, que protege o delinqüente, o marginal. Hanna Arendt, em seu livro A condição humana, refere-se a dois tipos de silêncio, entre os quais o silêncio a que refiro-me acima.


Embora ninguém saiba que tipo de “quem” revela ao se expor na ação e na palavra, é necessário que cada um esteja disposto a correr o risco da revelação; e nem o praticante de boas ações, que precisa ocultar sua individualidade e manter-se em completo anonimato, nem o criminoso, que precisa esconder-se dos outros, pode correr o risco de revelar-se. Ambos são indivíduos solitários; o primeiro é “pró” e o segundo é “contra” todos os homens; ficam, portanto, fora do âmbito do intercurso humano e são figuras politicamente marginais que, em geral, surgem no cenário histórico em épocas de corrupção, desintegração e decadência política. Dada a tendência intrínseca de revelar o agente juntamente com o ato, a ação requer, para sua plena manifestação, a luz intensa que outrora tinha o nome de glória e que só é possível na esfera pública. (ARENDT, 2004, p. 192-193)



Nesta época de corrupção e desintegração moral do ser humano brasileiro há muitos silêncios e silenciamentos ocultando atos criminosos, praticados por padres pedófilos da Igreja Católica; pastores assassinos da Igreja Universal; políticos e seus parentes nos órgãos do Estado, do futebol ao meio ambiente; entre tantos outros. Esse silêncio impõe o silenciamento. Quem denuncia anuncia a sua morte, de modos diversos de mortes. E esse processo enseja outro tipo de silêncio: o silenciamento.

O silenciamento é um ato contra a humanidade. Se existir humanamente é pronunciar o mundo, como afirmava Paulo Freire, silenciar o outro é desumanizá-lo. Somente pode falar quem... reduz outros ao silêncio, ao reino animal, vegetal. Boaventura de Sousa Santos (2001), em seu livro A crítica da razão indolente, afirma que “O silêncio é, pois, uma construção que se afirma como sintoma de um bloqueio, de uma potencialidade que não pode ser desenvolvida.” (p. 30). E há muitas potencialidades relegadas em nosso país ao silenciamento estúpido que os poderosos, e nem tão poderosos assim, impõem. É preciso fazer silêncio dentro de nós para poder dialogar com nossas atitudes, pois pode ser que, também nós, silenciemos os outros. É preciso dialogar com nossos demônios nos espaços de silêncio criados em nós para podermos saber quem somos nessa dialética silêncio/palavra. Precisamos enriquecer nosso silêncio, nosso discurso interior, com o diálogo fecundo conosco, no âmago do nosso ser, para ir encontrando-se com a palavra verdadeira que muitas vezes traímos.

Não façamos apenas um minuto de silêncio. Este minuto é de morte. Façamos silêncios de vida, onde a palavra possa ser fecundada por mundos interiores de amor, de romances, de emancipações, de justiças, de ética, de respeito às diferenças nas práticas interpessoais, de alegrias compartilhadas pelas conquistas, não sobre os outros, mas com os outros. Neste final de ano, eu quero ficar um tempo em silêncio. Preciso me encontrar por lá em mim mesmo, para poder pronunciar-me emancipadamente contra a hipocrisia, contra o cinismo, contra a arrogância, contra o barulho das mil coisas que nos engolem, mesmo quando estamos de licença-prêmio.

Autoria: Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Ex-Cola

Ex-cola

O aluno cola
essa ex-cola não cola,
gruda, mas não cola.
Não cola mesmo!


Essa ex-cola não bola
não joga,
não brinca,
não cria, não gira,
não rola.

Essa ex-cola ôca
chula
choca!

Essa ex-cola brinca
com sua função.
Não cola
ensino com aprendizagem;
objetivos com avaliação;
inteligência com percepção;
ciência e prudência;
ética com cognição;


Essa ex, cola
o aluno cala
passa
de qualquer forma
de qualquer cola.

Autoria: Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Os Sorrisos do Lagarto

Vou dizer, a "dita" continua dura, não amoleceu, ainda não teve tempo. Tentem denunciar o que estão vendo - o rei está nu! - e verão o que acontece. Há um silenciamento não explícito que, embora percebamos o que acontece a nossa volta, não podemos pronunciar, senão a morte começa a ser anunciada na pronúncia de nossas dores e sofrimentos. E a morte a que me refiro vem com muitas aparências. 

Primeiro vão tentando desqualificar nossa pronúncia. Começam a nos chamar de "afetados", loucos(as), sapatão, viado, imbecil... Depois, quando essa estratégia não funciona, começam a tentar nos enfrentar com a lei, escrita por eles, e seus advogados - sem desmerecer os advogados. Em seguida começam as ameaças e, finalmente, um dia um tiro tenta nos calar. Mas balas não têm o mesmo poder da palavra. Romantizo, para poder continuar crendo. Sou apaixonado pelo livro de João Ubaldo Ribeiro: O sorriso do lagarto. Ele nos ensina que uma bala medeia a relação truculenta do poder político, do poder científico e do poder religioso frente ao poder comunitário, às crenças e a religiosidade populares, à verdade, ao romance e ao amor.

A genialidade de João Ubaldo brinca com nossos sentimentos e, com essa pedagogia em sua obra acima citada, nos atira a verdade na cara, mostrando que o lagarto pode nos sorrir a qualquer momento no exercício perverso dos poderes hegemônicos. No "O sorriso do lagarto" há um caixão simbólico na Baía de Todos os Santos. Neste caixão há um corpo do personagem João Pedroso. Neste corpo há muitas mortes. Mortes de sonhos de amor, de liberdade, de emancipação, de participação. Morte do sonho de verdade, sonho de ver o ser humano com mais sabedoria e menos poder. No fundo da baía fria, não há somente um corpo simbólico de João Pedroso que a ficção ubaldiana criou, há todo o sonho de um povo, afundado pela ditadura num caixão bem trancafiado, para o corpo não pronunciar a sua morte e reclamar a sua justiça, caso apareça boiando n'alguma praia de Salvador. Há muito mais corpos, há muito mais sonhos, há muito mais desejos emancipatórios ali, no fundo da baía de todos os demônios e santos. O silêncio do fundo marítimo no O sorriso do lagarto tem gritos abafados de dor, revolta, indignação e sofrimento.

Não sou contra o poder. Ele é intrínseco ao ser humano vivendo em sociedade. Em toda e qualquer relação humana há poder. Mas penso que esta dimensão humana deve estar a serviço dos sonhos de felicidade e não o seu contrário, como é de praxe. O poder deve estar a serviço do amor, da paz, do encontro da humanidade com um destino permanentemente construído pela solidariedade, pela justiça, pelo amor. O tiro só encontra o alvo, a violência só se justifica e a morte só se realiza quando a solidariedade, a justiça e o amor não constituem o currículo do poder. Aí o poder se torna insano, mesquinho, individualista, hipócrita, violento e assassino, produzindo mortes diversas, seja num antigo campo de concentração nazista, seja nas senzalas do Brasil escravagista, seja nos latifúndios nordestinos, seja na xenofobia européia, seja nas guerras civis africanas, seja nos subúrbios e nas favelas das periferias do mundo.
[...] A uns três metros dele, um bulício num dos canteiros rompeu o silêncio e ele foi ver o que era. Era um grande lagarto esverdeado e iridescente, que pôs a cabeça para fora de uma touceira de margaridas e o encarou, mostrando e recolhendo a língua repetidamente. O lagarto de João Pedroso, o lagarto que sorria, o lagarto que ainda ia sorrir mais? Não era possível que um lagarto sorrise, mas a verdade é que, depois de se aproximar mais um pouco, sentiu que realmente havia algo de um sorriso em torno do bicho e não sorria para ele, mas como que sorria dele. (João Ubaldo Ribeiro. O sorriso do lagarto, p. 362)
O lagarto sorri na ferida exposta, no sangue que escorre, na vida que morre. O lagarto sorri no poder insano, no ditador soberano, na pena de morte. O lagarto sorri na fome que come o faminto, na execução sumária, na morte diária, no enterro indigente. O lagarto sorri no bispo que cala e consente, no policial que lucra matando, no juiz que vende sentenças, no advogado que vende a alma, no governo que vende mentiras, nos/as deputados/as que são evangélicos por causa do voto fácil. O lagarto sorri nos corpos atolados de lama, nos dramas do morro e das suas baixadas. O lagarto sorri na floresta que some na serra elétrica, no inferno que queima toda a pele da terra e estorrica a esperança do povo.

Autoria: Joselito da Nair, do Zé, de Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

SENNA E OS SEM-NADA



É Senna. É duro.
É tão duro ver um muro de concreto
diante da vida da gente.
Pensa, como é difícil
ter que suportar
tantos muros que nos cercam
nos exigindo a linha reta
nos proibindo a tangente.

É triste e doloroso
lutar como um leão por um prato de arroz
com farinha e feijão.
Sou humano:
e já tem tanto alimento
estocado.

É duro ter de aguentar
tantos defeitos mecânicos:
a fome, o despejo,
o latifúndio,
a miséria
o desemprego.

Que nos atira fora da pista
que nos cospe fora da vida
nos lançando contra a violência
concreta de um muro
de mentiras e preconceitos.

Joselito Manoel de Jesus, Professor, Poeta e Corredor de rua

Educação, política e mensalão, noticiários do Jornal Hoje da rede globo de televisão, apresentado em 30/11/2009, por isso resolvi expressar minha indignação pelos noticiários de hoje.

Ô destemida desigualdade
Que tanto vem nos aprisionar
Mas nos queremos liberdade
educação para nos libertar

Fala-se em redução das disparidades
Mas enxergamos é a corrupção
Continuam subserviências as beldades
Por não investirem em educação



Professores sempre a resistir
É na utopia que se ergue o coração
A educação política vamos cumprir
Ela será o reflexo da nossa ação

Hoje uma dor bateu em meu peito
Novos noticiários sobre mensalão
Tremenda falta de respeito,
Esses dinheiros eram da educação

Precisamos nos indagar
Analisar o atual momento
Às desigualdades estão a amenizar,
Ou tem aumentado o sofrimento?


Crescimento econômico é só o que se fala
Mas poucos em desenvolvimentos sociais
Mas minha voz dessa vez não se cala
Por maiores investimentos educacionais.


Tenho em mim profunda alegria
De um estudante político universitário
Mas se eu não contribuir para romper essa burguesia
Serei eu mesmo mais um otário.

A educação é ato político e iluminado
Por isso ainda há esperanças
De acreditar no mais desacreditado
Em um país melhor para nossas crianças.


Elton Rodrigues Ferreira é estudante de geografia pela UNEB, Universidade do Estado da Bahia, aluno do professor Joselito Manoel, um grande mestre por sua vez.


segunda-feira, 30 de novembro de 2009

MULATA EXPORTAÇÃO

Mas que nêga linda
e de olho verde ainda
olho de veneno e açúcar!
Vem nêga, vem ser minha desculpa.

Vem que aqui dentro ainda te cabe
vem ser meu álibi, minha bela conduta
vem, nêga exportação, vem meu pão de açúcar!
(monto casa procê mas ninguém deve saber, entendeu
meu dendê?)
Minha tonteira, minha história contundida
minha memória confundida, meu futebol, entendeu
meu gelol?
Rebola bem meu bem querer, sou seu improviso, seu
Karaoquê;
Vem nêga, sem eu ter que fazer nada, vem sem ter
que me mexer
em mim tu esqueces tarefas, favelas, sensalas, nada
mais vai doer
sinto cheiro docê, meu maculelê, vem nêga, me ama,
me colore
vem ser meu folclore, vem ser minha tese sobre nêgo
malê
vem, nêga, vem me arrasar, depois te levo para gente sambar.

Imaginem: ouvi tudo isso sem calma e sem dor.
Já preso esse ex-feitor, eu disse: seu delegado...
E o delegado piscou.
Falei com o juiz, o juiz se insinuou e decretou
pequena pena com cela especial
por ser esse branco intelectual...
Eu disse: seu juiz, não adianta! Opressão,
barbaridade, genocídio
nada disso se cura trepando com uma “escura”!
Ó máxima lei, deixai de asneira
Não vai ser um branco mal resolvido
Que vai libertar uma negra:
Esse branco ardido está fadado
porque não é com lábia de pseudo oprimido
que vai aliviar seu passado:
Olha aqui meu senhor:
eu me lembro da senzala
e tu te lembras da casa grande
e vamos juntos escrever sinceramente outra história?
Digo, repito e não minto:
porque não é dançando samba
que eu te redimo ou te acredito:
Vê se te afasta, não invista, não insista!
Meu nojo!
meu engodo cultural!
minha lavagem de lata!
Porque deixa
r de ser racista, meu amor,
Não é comer uma mulata!

                                                                     Elisa Lucinda