sexta-feira, 20 de julho de 2012

LIDERANÇAS PATO LOGICAS?



Um governo é uma liderança institucional. A liderança institucional nasce desde que é “eleita” para tal. Um (a) coronel, um padre, um (a) médico (a), um (a) enfermeiro(a), entre outras, são, naturalmente, lideranças institucionais. Mas não são, institucionalmente, lideranças naturais. Como afirmava Raimundo Sodré com Jorge Portugal, “[...] no cabo da minha enxada não conheço coroné.” Então há "coronés", padres, enfermeiros e enfermeiras, médicos e médicas, governadores e governadoras que não são lideranças naturais. São o produto de peças midiáticas com falácias retóricas que buscam construir um imaginário ilusório que mal chega a alcançar a opinião pública que tanto almejam como construção da hegemonia pela via ideológica. Esse é o caso do atual Governo da Bahia.

Quando votei pela primeira e única vez em Jacques Wagner esperava – de esperança – que ele e seu grupo tivesse um projeto de governo, com linhas de ação claras na educação, saúde, habitação, segurança, saneamento, infraestrutura, investimento, etc. Contudo, porém, mas, sobretudo, entretanto, todavia, percebi, para minha tristeza e desilusão, que não havia projeto algum! Só um pobre projeto de poder, eleitoral, periódico, aleijado. O PT não mudou nada na Bahia, nem mesmo os representantes das DIREC’s e de tantos outros órgãos da estrutura do estado baiano de coisas. Percebi claramente que o PT não entende de administração, pelo menos na Bahia, mas de eleição, de conversa fiada, de críticas a governos passados e a "heranças malditas" que o partido insiste ironicamente em preservar, de propagandas do que ainda não existe, de promessas sobre o que não foi feito, ou foi muito mal feito. Fui vendo o Partido dos Trabalhadores – que nos trazia esperança da ética prevalecer nos assuntos de estado e de Governo, que faria o povo mais pobre e esquecido ter acesso aos bens públicos como saúde, educação e segurança – perecer. Acreditei em "papá noé".  E vi esse mesmo Partido se partir ainda mais. Partir do seu “porto seguro” para navegar nos mesmos mares que outros partidos, como o Pernicioso outrora PFL, navegavam, em busca do poder eterno, mas sem a mesma convicção e competência.

Um governo assim não pode ser uma liderança. Um governo que aposta no asfixiamento de uma greve de professores que prejudica milhares de crianças, adolescentes e jovens baianos não pode ser uma liderança. A corda que o governo Wagner teceu para enforcar os professores e as professoras do estado baiano de coisas terminou por asfixiar Ele mesmo e seu partido nesses 101 dias de greve que se passaram. A liderança esperada não foi exercida por ninguém: nem por governador – que realmente governa a dor –, nem por Ministério Público, nem pela Ah-sem-bleia Le-giz-inativa, nem pelo poder jurídico. As lideranças institucionais provaram claramente que não são lideranças naturais, que não têm capacidade de, no momento da crise, ter coragem e defender a justiça e o direito. Aliás, justiça e direito que são rapidamente defendidos quando se trata de greves da indústria civil pesada da qual depende a construção do que o capital mais valoriza atualmente na Bahia: a construção da Fonte Nova, que de nova só tem a aparência. A justiça e o direito não são para "sobrantes". "Sobrantes nem fazem protesto, nem são força política, são apenas votos.

Da mesma forma, Rui Oliveira não deveria ser mais o porta-voz dos professores e das professoras da estragada rede pública estadual de ensino que, de tão estragada, não pesca mais promessas intelectuais, só estudantes mediocrizados por uma escola pobre para os “sobrantes” (Acácia Kuenzer). Rui Oliveira, tal como os imperadores, reina absoluto desde quando eu estava iniciando minha carreira docente, demostrando claramente que a enfermidade democrática na Bahia não é um sintoma apenas de partidos, mas de todos os setores: sejam eles da sociedade política, sejam da sociedade civil. Que sindicato pobre é esse que não consegue eleger ninguém diferente durante várias eleições? Que lideranças são essas que não conseguem se mover, necessitando de uma “primavera árabe” em seu processo político e eleitoral? Rui Oliveira deveria se tocar, como líder que se supõe. Tanto tempo à frente de um sindicato é sinal de fraqueza do mesmo e não de força. É sinal de que a renovação não existe, de que novas lideranças não são estimuladas a participar, a não ser com o apoio explícito de um ou dois partidos políticos controlando o comportamento de todos e de todas! É chegada a hora dos interesses partidários e eleitoreiros mesquinhos deixarem de mão os movimentos sociais e os sindicatos, para que eles se renovem e cumpram a sua função política, cultural e social a contento.

Contudo, parece-me que o governo da Bahia quer professores “sobrantes” mesmo! Professores e professoras sobrantes para os sobrantes sociais e culturais, que mal sabem ler e escrever ao final da educação básica da rede pública. Para esses sobrantes, professores e professoras sobrantes também. Desrespeitados, mal pagos, ameaçados, desprezados, desvalorizados, sem condições de participar de congressos, seminários, encontros. Sem condições de adquirir livros, de pesquisar – e quando pesquisam para mudar de nível é uma odisseia na "burrocracia" estatal – entre tantas outras mazelas a que são expostos as professoras, os professores e seus sobrantes alunos da educação básica pública do estado lamentável baiano de coisas.

Cazuza dizia que seus heróis morreram de overdose. As lideranças baianas nunca morreram, porque ainda não nasceram. Foram abortadas no ventre infectado da política brasileira e baiana. Não são líderes de verdade. Não têm coragem, autonomia e capacidade de rebeldia, seguem - e ceguem - orientações partidárias. E as orientações partidárias cegam e desorientam as iniciativas lúcidas das lideranças que foram extintas no século passado.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Tantas Gentes, e de Jesus, O Emanuel

sábado, 14 de julho de 2012

"Juninhos", "Netinhos" e "Filhinhos" de Lulinha e de outros papaizinhos mandões do Brasil e da Bahia


Os políticos baianos se auto-proclamam líderes ímpares, defensores ardorosos do Estado da Bahia. Fulano Filho, Sicrano Neto, Beltrano Júnior, entre outros “líderes”. Entretanto, ando um tanto quanto desconfiado de que tais “lideranças” não passam pelo teste da realidade, ou melhor: são lideranças de araque, para inglês ver e para baiano acreditar. Como sou um homem de pouca fé, principalmente em se tratando de política partidária, tanto é que não sou chegado a ir a pé a lugar algum, trago alguns elementos de São Tomé para demonstrar empiricamente a minha desconfiança. As estradas da Bahia, estaduais e federais, estão entre as piores do Brasil. Segundo um motorista de uma empresa de transporte intermunicipal, é só sair da Bahia e a gente se depara com estradas conservadas e bem sinalizadas. A BR 324 vai duplicar no dia de São Tentáculos. O único trecho da BR 101 que não está sendo duplicado é na Bahia. Em Sergipe a gente vê a duplicação ampliar a infraestrutura para o desenvolvimento econômico deles.

Na segurança somos violentados pela mentira e pelo descaso: mataram o funcionário municipal Neylton, e, o prefeito desta cidade, vereadores e quase toda a classe política se calou. Até os evangélicos! Morreu um pobre funcionário e nem o seu sindicato se manifestou; o diácono da igreja católica foi assassinado covardemente e o bispo pouco falou, a comunidade católica, imensa quando se trata de orações, está imobilizada; mataram o “Nativo”, esse, pelo menos os familiares, amigos e ambientalistas fizeram um ato respeitável em sua homenagem e em busca de justiça. Somos violentados em nossos salários, no pagamento de impostos, numa educação pública horrível, com quase 100 dias de greve e com índices pífios –Vejam o AVALIE-Bahia –num sistema de transporte coletivo péssimo – tente pegar ônibus na estação Iguatemi das 17h30min h às 19h00min – num ferrorama já enferrujando que numa termina, perdido num bilhão túnel abaixo, num sistema de saúde enfermo e até mesmo assassino. Crer que temos líderes é ser tolo, "inocente", drogado ou débil mental. Nossos líderes são medrosos – e não me refiro somente aos políticos – preferem o silêncio a ter de se comprometerem, são fajutos, bonecos, fantoches, corruptos, cínicos e mentirosos. Não são homens, nem mulheres de respeito, são produtos midiáticos, cheios de slogans e imagens enganosas. Seus discursos são ocos. Olhamos a imagem gigante na tv, mas quando nos deparamos com as atitudes desses políticos meia boca detectamos um fantoche,um humano mínimo, disfarçado com gravatas e bravatas. Em Eclesiastes tem uma frase preciosíssima para o que desejo tanto expressar: “O louvor na boca do pecador não é belo.” Pois é isso. Não há beleza nos discursos que ouço, eles são eivados de mentira e de cinismo.     

Nosso lamentável estado baiano de coisas tem um Governo que se mostra competente ao cortar os salários dos grevistas, caminha numa negociação sem elementos concretos de uma política salarial com os sindicatos dos professores universitários e dos professores da educação básica, reedita o outrora tão criticado “REDA”, etc. Mas não tem competência para combater o tráfico de drogas na Bahia, não tem capacidade de modificar o nome do Aeroporto para “Dois de Julho” novamente; não tem competência para aumentar a segurança nos bairros pobres de Salvador; não tem competência nem liderança em Brasília para solicitar o término do Metrô de Salvador; apesar da alegada amizade com a presidente desse país de voo econômico de galinha, não tem competência para investigar os atos da AGERBA no setor de transporte intermunicipal – não há concorrência no setor há mais de 10 anos!

Ser líder para mim é representar sonhos e esperanças e apresentar atos, atitudes, valores e ações que indiquem capacidade de realização, ou pelo menos esforço, vontade, luta, busca contínua desses sonhos. Líder é aquele que conduz o povo e se deixa por ele ser conduzido. Infelizmente, nossos políticos de esquerda, de direita e de centro – nem sei mais o que é quem! – representam mentira, discursos ocos, cinismo, caráter frágil - Ah, que saudade de Josaphat Marinho! Ah, que saudade de Fernando Santana! Ah, que bom que Erundina existe! - Estamos cheios de líderes fabricados pela mídia: “garotinhos”, “netinhos”, “juninhos” e “filhinhos de papai” que, de povo e de nação nada entendem. Só entendem de voto, de privilégios, de luxo e de conforto, pagos pelo estado, ou seja: pelo povo, é claro, é muito claro, muito caro mesmo.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Nave interior dos homens e das mulheres simples


Outro dia Dilma Venutto, amiga minha e de minha esposa, referiu-se à música “Nave Interior”, de Zé Ramalho. Li a letra e ouvi a música e achei a reflexão excelente! Num dos trechos Ramalho afirma que:

“Respirar, navegar é coisíssima igual
O ar que ri é o fogo da nau
No vale profundo que geme em nós
Reside o casulo do cavalo alado”

Respirar, trabalhar, comer, trepar, produzir um artigo científico – muitas vezes mais para a nossa vaidade do que para contribuir com o avanço do conhecimento – ir à festas, assistir a decisão do campeonato de futebol ou do Grand Prix de vôlei, viajar, ir ao shopping e ao cinema, é coisíssima igual. E a realidade vai se monotizando, automatizando e a gente se robotizando. Nós, como gados, vamos sendo abatidos pela trama estrutural da sociedade, seja ela capitalista, seja socialista, seja uma mediação de ambas. Mas nem tudo está perdido! Segundo Zé Ramalho, em outro trecho da música “Há um vale profundo que geme em nós, aonde reside o casulo do cavalo alado.” E o bom de tudo é que essa força, esse poder insuspeito que trazemos dentro do peito, se encontra

Na rainha-mãe ou no pobre coitado
 
Porque
Ali se espelha a centelha do gás
Se é moça ou rapaz, ancião ou criança
A chama não cansa de dançar a dança

Todos os humanos têm essa centelha que alguns apagam de um jeito bastante estranho: ficam cegos. Uma cegueira construída nas relações sociais em que o poder estigmatiza, porque veem a centelha em seus pares de classe econômica, social e cultural, compartilhando entre si os elogios, os interesses, as observações e as críticas, a maioria dessas de uma pobreza só. O "pobre coitado" tem essa centelha também e pode acendê-la nos momentos e nos lugares mais inesperados e imprevistos, ou melhor ainda: a centelha pode acender sem que o seu portador preveja, planeje. A arte, a poesia, a imaginação criativa e todo a expressão sublime que é possível aos incluídos socialmente é possível também ao “pobre coitado”, ao “sobrante”, ao “homem simples”.Elas estão em Patativa do Assaré, em Luís Gonzaga, em Cora Coralina, em Catulo da Paixão Cerense, em Carlos Drumond de Andrade, em Dona Maria da "Rua do Bode" no Calafate, em Manoel de Barros e Manuel Bandeira, em Carolina de Jesus (Quarto de Despejo), em tantas e tantos que pensaram a sua existência para além da vida ordinária.

Mas esse “sobrantes”, esses “pobres coitados”, esses (as) “homens/mulheres simples”, sofrem as consequências da permanente tentativa de controle dos poderes instituídos, muitas vezes de forma perversa, inclusive por aqueles que têm o discurso da libertação, da emancipação, da revolução a favor do oprimido. As igrejas, por exemplo, com o discurso do divino, do céu e do sagrado contraposto ao diabólico, ao inferno e ao profano, com o sentido de proteger o “frágil fiel” contra as forças do mal, na verdade constrói cárceres, presídios simbólicos que escravizam as pessoas, atormentam os corações dos (as) simples, criando o verdadeiro inferno aqui mesmo, no cotidiano deles (as). O diabo e seus demônios, assim que são criados discursivamente no imaginário dos seres humanos, começa a atormentá-los. José de Souza Martins (2010), em relação a essa realidade, afirma que:

Nessa adversidade, a questão é saber como a História irrompe na vida de todo dia. Como, no tempo miúdo da vida cotidiana, travamos o embate, sem certeza nem clareza, pelas conquistas fundamentais do gênero humano; por aquilo que liberta o homem das múltiplas misérias que o fazem pobre de tudo: de condições adequadas de vida, de tempo para si e para os seus, de liberdade, de imaginação, de prazer no trabalho, de criatividade, de alegria e de festa, de compreensão ativa de seu lugar na construção social da realidade. Uma vida em que, além do mais, tudo parece falso e falsificado, até mesmo a esperança, porque só o fastio e o medo parecem autênticos. Na abundância aparente, não estamos realizados – estamos apenas saturados e cansados em face dos poderes que parecem nos privar de uma inteligência histórica do nosso agir cotidiano. (MARTINS, 2010, p.10)

Assim como as igrejas, seus padres, pastores, freiras, obreiras e similares, os economistas, os médicos, gestores e, principalmente, os cientistas e os políticos, também nos prometem o “paraíso”, mas nos oferecem passagens pelo inferno no cotidiano de nossas vidas, tentando controlar nosso comportamento, nossas mentes, nosso modo de sentir, de perceber, de consumir e de viver, criando, assim, sistemas prisionais concretos e simbólicos que nos encarceram, ou tentam nos encarcerar o tempo inteiro. Enfim, “temos medo de ser o que somos ou o que temos podido ser.” (MARTINS, 2010, p.11). E o saudoso, lúcido e no caso do trecho musical abaixo, irônico Raul Seixas chama a nossa atenção...

E você ainda acredita
que é um doutor, padre ou policial
que está contribuindo
com sua parte
para o nosso belo
quadro social...
Mas "[...] no vale profundo que geme em nós reside o casulo do cavalo alado”. Há uma transcendência que caracteriza todos os humanos, simples ou sofisticados. Mas talvez considerem a transcendência como previsão estatística, vencida pela força da mediocridade geral que forma através da ideologia disseminada por seus meios e mensagens. 

Eu, como todos os outros humanos, tenho um vale profundo que geme e nele reside o meu cavalo alado, preparando-se para a possibilidade de cavalgar pelos céus proibidos pela forma como nos organizamos em sociedade e deixamos a hipocrisia e a perversidade tomar conta do nosso tecimento permanente. Desconfio que a única transformação possível em curso só pode se dar no âmago pessoal de cada um, pois, como afirma Martins (2010, p.11):

O que sobrou do que nos tiraram é o que fecunda a nossa espera. Nossas privações são a nossa riqueza e o nosso desafio. Mas, com as ferramentas da cópia nada construiremos e nada compreenderemos.

Precisamos ler. Ler bem mais. Precisamos refletir, refletir bem mais. Olhar uns para os outros e celebrar num grande baile, um carnaval popular de rua que chame todos e todas para a dança, para o frevo político e cultural de emancipação individual e coletiva pois “a chama não cansa de dançar a dança.”

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel, com o auxílio de:

MARTINS, José de Souza. A sociabilidade do homem simples: cotidiano e história na modernidade anômala, 2. Ed. rev. e ampl. São Paulo: Contexto, 2010.
Raul Seixas. Ouro de tolo.
Zé Ramalho. Nave interior.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

PARA OS SONHOS AMANHECEREM



O sonho é o motor da ação, tanto no plano individual como no plano coletivo. Para que algo aconteça a gente primeiro sonha, pensa, planeja, antecipa idealmente uma realidade que ainda não existe. O sonho é um elemento fundamental para que algo se concretize no cotidiano. “Se em teu centro, um paraíso não puderes encontrar não existe chance alguma de, algum dia, nele entrar”, já dizia Ângelus Silesius, místico medieval. Há de se ter “fé no que virá” e acreditar que nós podemos muito, que podemos um pouco mais do que fazemos, como sonhava Gonzaguinha. Milton Nascimento e Fernando Brant apontam para a necessidade de cultivarmos nossos sonhos como antecipações de realidades de felicidade, justiça, alegria, amizade, meninada, prazer, amor, liberdade, vinho e pão para todos e todas. E pedem cantando...

São José da Costa Rica, coração civil
me inspire no meu sonho de amor Brasil
Se o poeta é o que sonha o que vai ser real
bom sonhar coisas boas que o homem faz
e esperar pelos frutos no quintal
Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço, cadê poder?

O grupo 14 BIS também apresenta essa importância dos sonhos, das crenças, das lendas na construção do imaginário...

Como num romance
Um Deus risonho aqui passou
Derramando cachoeiras
Pela serra em flor
Viver no coração da lenda
É fácil, meu amor
Um sonho novo todo dia
Que ninguém sonhou
Oh... oh...
Canção de amor

A realidade começa pela palavra em curso, pelo discurso que diz, entre outros, “Faça-se a luz!”. Porque o breu nos desafia a iluminá-lo, a descobrir os segredos que as sombras cobrem, a enfrentar os perigos de não saber direito onde estamos pisando. Mas também produz a adrenalina que o medo enseja, o desejo de investigar o opaco, o oculto, o segredo contido na ausência da claridade. E isso nos pede, no incita, nos provoca o amanhecer, a construir esse amanhecer que já existe ensolarado em nossos sonhos, em nossos desejos...

Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia
Ainda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
E esse dia há de vir
Antes do que você pensa
Apesar de você

A noite da ditadura desafiou a inteligência poética de Chico Buarque. E ele respondeu muito bem, tecendo amanheceres com discursos belíssimos, carregados de esperanças, de sonhos utópicos que prepararam o raiar do dia, desafiando a lógica do autoritarismo capitalista. E cada um de nós temos noites, curtas ou longas, que desejamos que amanheçam.

Mas a ação inspirada somente pelo sonho é ingênua. Pode ser manipulada por interesses perversos, vindo a culminar num pesadelo terrível. Por isso a ação, sendo desencadeada pelo sonho, deve ser dirigida por objetivos e finalidades construídas pela necessidade coletiva, pelo tecimento interdiscursivo com objetivos claros, com critérios bem definidos. Li em algum lugar que todos são chamados a construir discursivamente a vontade geral com igualdade de oportunidades. Se assim não o for, a ação pode ganhar contornos políticos e sociais indesejáveis do ponto de vista emancipatório, ao invés do nascimento de um novo dia, gestado por mulheres e homens que desejam transformar sonhos em realidade concreta, pode haver ainda mais breu dentro do breu, empurrando a rotação para um horizonte de esperança muito longínquo, aonde as preces, as crenças e as virtudes precisam de muita força, de muita fé para continuar resistindo em lampejos no caminho do amanhecer.

E as ações devem ser desencadeadas por um projeto. Uma sistematização geral que faz convergir as ações em torno de princípios gerais levantados das concepções filosóficas e políticas de mundo, de ser humano e de concepções pedagógicas que visem responder aos anseios e necessidades detectadas na avaliação diagnóstica da realidade rebelde, da noite que recusa a alvorada, que procura encarcerar o movimento de rotação da terra, na tentativa inútil de impedir o balé cósmico. Por isso mesmo que “apesar de você amanhã há de ser outro dia”.

Um projeto que se quer eficaz, engendrado no sonho de uma humanidade mais feliz, porque mais emancipada do autoritarismo, do consumismo, do individualismo, das violências concretas e simbólicas que, na escola, são expressas pelo analfabetismo, pela indiferença governamental, pela evasão escolar, pela apatia de professores e alunos em relação ao ensino e à aprendizagem, requer a participação dos sujeitos que transitam em identidades proibidas pela expressão simbólica e saiam do anonimato empunhando suas práticas discursivas como motores de suas ações emancipatórias. A humanidade usurpada dos educandos por mecanismos de exclusão social não é, nem pode ser, recuperada por processos didáticos e pedagógicos licenciosos (pode tudo) nem autoritários (nada pode), sem clara definição de sua função social (Técnica, Humana e Política), sem direcionamento político e cultural, articulados numa perspectiva filosófica e política democrática de ser humano e de mundo.

Sonhar é preciso, mas objetivar pedagogicamente este sonho na escola é ainda mais preciso. É preciso que a escola pública amanheça para milhões de crianças, adolescentes, jovens, adultos e anciãos brasileiros, especialmente os baianos, há mais de 90 dias sem aulas. Muitos sonhos na escola são perdidos por falta de um processo sistemático de objetivação da subjetivação que o sonho representa. O projeto político pedagógico, sem objetivação sistemática, fica perdido no limbo e o sem-sentido toma conta do cotidiano escolar, repetindo, como diria Gilberto Gil “as velhas formas do viver”, numa rotina pesada e enferrujada.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel  

quarta-feira, 20 de junho de 2012

COPA DO MUNDO OU DO MUNDINHO?

Dizem por aí que a copa é do mundo, mas tenho minhas dúvidas. A copa, a grana, os recursos naturais, os bens produzidos coletivamente, são de uma pequena parte do mundo, uma ínfima parte. Milhões de pessoas no mundo veem, é verdade, mas pouquíssimas usufruem do espetáculo e do circo montado a cada quatro anos em diferentes países. A copa não é do mundo, é da FIFA. E a FIFA cobra um preço muito alto pelo evento que ela vende, e, por isso mesmo, a copa, que seria do mundo, é do mundinho, um mundinho mesquinho, pra poucos, distante do povo. É como o Carnaval de Salvador, Bahia, que a cada ano vai ficando mais estreito, mais sufocado, empurrando o povo para os cantos, os becos, as margens.

Para entrar nesse mundo da copa tem de pagar ingresso caro, bem acima do padrão da população mundial. Ao entrar na arena esportiva, tem de beber água, no mínimo. Mas o padrão FIFA de água é muito caro, muito mais que a gasolina importada. Para estacionar também será muito caro, pois a vaga da FIFA terá seu padrão de extorsão internacional. E, como é de costume, haverá um padrão de discriminação capital que irá empurrando a maioria das pessoas para os cantos, para os becos, para as margens do Dique do Tororó, literalmente. O “público pagante” será outra "seleção brasileira" pelo valor do ingresso, da água, do estacionamento e de outros produtos e serviços que virão com o “selo FIFA” de “Qualidade”. E, em nosso Território, o espaço FIFA será recortado, delimitado, vigiado, proibido, cercado e sacralizado pelo critério de mercado.

A imprefeitura de Salvador está veiculando, em horário nobre de TV, padrão Globo de valor, uma propaganda a respeito da Copa "do Mundinho", tentando capitalizar eleitoralmente tal evento. Mostra supostos sujeitos do povo comemorando "felizes" um evento mundial como a copa e a construção de uma arena de padrão internacional, conforme impõe a FIFA. Mas tanto a imprefeitura, quanto o Desgoverno do estado, quanto o Governo Federal entregaram nossa soberania territorial para que o capital privado cerceie a entrada, vigie, controle e puna os barrados da copa, utilizando nossas polícias em parceria com seus soldados privados para garantir que a copa seja mesmo de um pequeno pedaço de mundo, um mundinho. E tanto é um mundinho particular, feito apenas para os poucos privilegiados que poderão nele adentrar, que as demais obras que beneficiariam a população da cidade de Salvador, nem saíram do papel.

O metrô, que ligaria o aeroporto às ruínas abandonadas não ficará pronto; o engarrafamento aparece na cena exibindo nosso péssimo modelo de desenvolvimento insustentável; as praças estão abandonadas, os jardins sucubiram ao desleixo; a violência, apesar de toda a maquiagem propagandista, é crescente e o medo já nos violenta antes mesmo dele nos sangrar; as praias estão abandonadas, mal cheirosas, ornadas com o lixo que nossa falta de educação exibe; as rodovias baianas foram privatizadas; os portos são insuficientes para o volume de cargas que necessita; as obras de ampliação do aeroporto foram paralisadas, embora não vá suportar o volume das pessoas que poderão passar por aqui; a Ferrovia Leste-Oeste, nem saiu do Leste ainda, e não se sabe quando será ligada ao Oeste, ou se seus pontos cardeais jamais se encontrarão.

Portanto, a maioria da população baiana, apesar de toda propaganda e de todo discurso legitimando o evento da copa do mundo, não será beneficiada, porque a copa não será do mundo, nem do Brasil, nem da Bahia, nem de Salvador. Tanto faz a copa do mundinho ser aqui quanto acolá. A distância operada pela discriminação social e pelo privilégio econômico será ainda maior do que se fosse no Afeganistão ou na Cochinchina. O poder político estará sendo exercido de forma eficiente e eficaz para garantir essa distância. A copa será de um mundinho restrito, cercado, vigiado, controlado. Nós, através do nosso governo servil e deslumbrado com o mundo internacional do poder, emprestamos nosso território para que a FIFA o utilizasse para ganhar muito dinheiro, transformando-o num mundinho elitista, onde poucos privilegiados terão acesso, afastando as populações locais com ingressos exorbitantes, preços acima da média e produtos que valem mais por uma marca de corporação internacional, do que pelo seu valor de uso. Tudo isso controlado por pelotões de meganhas, armas de choque elétrico e milícias armadas que vão garantir o lugar do privilégio e o lugar da margem. Pra frente Brasil: salve a "seleção"!!!!

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes, do Mundo, e de Jesus, O Emanuel

quinta-feira, 14 de junho de 2012

DAS COISAS FÁCEIS E DAS COISAS DIFÍCEIS NO BRASIL NA BAHIA E EM SALVADOR


No Brasil há muitas coisas fáceis para seus filhos, de uma mãe tão gentil: 

·         Pagar impostos está cada dia mais fácil. Você só precisa respirar;
·         Eleger políticos corruptos fica mais fácil a cada eleição;
·         Ser multado no trânsito de Salvador está fácil fácil;
·         Ser assaltado e sequestrado está muito, mas muito fácil mesmo. (agradeço aos ladrões e sequestradores por nos assaltarem e sequestrarem menos do que podem.)
·         Funcionários Públicos do estado terem os salários cortados quando reivindica direitos e acordos trabalhistas com o Governo do estado é fácil demais;
·          Sentir o odor de urina e lixo acumulado na Rodoviária de Salvador é bastante fácil;
·         Perceber o avanço da obra mais privada do estado da Bahia: A Fonte Nova;
·         Ver o ladrão de galinha ser humilhado pelos repórteres cínicos dos programas baianos de tv que passam ao meio dia;
       Ver propaganda  do Governo do estado no horário nobre da TV Bahia;
        Pegar filas enormes nos hospitais e postos de saúde;
·         Entre outras coisas fáceis.


Das coisas difíceis no Brasil e na Bahia:

·         Ter acesso à educação pública de qualidade;
        Ver as obras que passam na propaganda do governo do estado no horário         nobre da TV Bahia;
        Ter acesso ao sistema de saude: público ou privado
·         Ter garantido os direitos trabalhista assumidos pelo Governo do Estado;
·         Eleger políticos honrados e honestos;
·         Andar tranquilamente pela cidade, estacionar o carro despreocupado;
·         Ter agentes de trânsito facilitando a circulação nas vias e punindo os motoristas que querem fazer da cidade a garagem de sua casa;
·         Sentir cheiro de cidade limpa e bem cuidada;
·         Conseguir aprovar alguma lei que beneficie o cidadão;
·         Comemorar o julgamento e a prisão de políticos, juízes, empresários e funcionários públicos corruptos;
        Pegar um ônibus limpo, sem estar lotado em Salvador;
·         Perceber o andamento das obras que beneficiem a população;
·         Entre outras coisas que estão a cada dia mais difíceis.

Joselito da Nair, do Zé, de Rafael, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

quarta-feira, 6 de junho de 2012

A GREVE DOS PROFESSORES DA EDUCAÇÃO BÁSICA DO ESTADO DA BAHIA E MOVIMENTO NEGRO DE SALVADOR


Passaram-se 56 dias de greve dos professores da rede pública estadual da Bahia e um silêncio funesto toma conta da situação, revelando um abandono criminoso da educação básica do Estado da Bahia, tanto por parte da sociedade política quanto da sociedade civil. Este abandono é um forte sinal de que a educação em nosso estado não interessa a ninguém. Não é percebida como valor social e cultural, como direito fundamental do ser humano ao acesso aos saberes, conhecimentos, técnicas e tecnologias necessárias ao desenvolvimento sustentável que se espera de um estado importante como o estado da Bahia. Milhões de crianças pobres, cujo único acesso ao saber sistematizado se dá através da escola pública, estão impedidas de estudar pela negligência geral que caracteriza o dilema posto nesta greve. E quando penso que uma quantidade significativa dessas crianças são negras; e quando sei que a totalidade dessas crianças são pobres, começo a questionar alguns movimentos importantes da sociedade civil que estão em silêncio diante desse quadro de negação do acesso ao direito dessas crianças ao saber sistematizado que compõe a função social da escola.

As ações afirmativas que compõem a política de ação do movimento negro estão sendo negadas por um Governo negligente, “descansado”, como diria Malu Fontes, cuja preocupação primordial não é com o futuro das crianças pobres e negras de Salvador e da Bahia, mas com uma Copa do Mundo mal traçada numa cidade cuja única obra em estado avançado de desenvolvimento é o estádio privatizado da Fonte Nova, Novíssima. Não há, nem no horizonte dos nossos olhos incrédulos, outra obra que beneficie, de fato, a população baiana e soteropolitana. A Ferrovia Oeste Leste tem apenas 5% das obras em nosso estado concluídas. Tomara que não siga a mesma direção sem sentido do metrô de Salvador e não ligue nem Oeste com Leste, nem Isto com Aquilo, nem nada com coisa alguma. Nada para escolas, nem para professores; nada para hospitais, médicos e enfermeiros e auxiliares de enfermagem; nada para segurança, para policiais e agentes de segurança; nada a mais para o que a população realmente precisa. A maioria das pessoas que precisam de hospitais, de postos de saúde e de médicos e enfermeiros satisfeitos são pobres e negras; a maioria das pessoas que precisam de transporte coletivo de qualidade são pessoas pobres e negras; A maioria esmagadora das pessoas que precisam de escolas públicas de qualidade são pobres e negras. Mas a minoria de nosso país finge que não vê e ainda faz propaganda de uma cidade e de um estado que não existe para a maioria dessas pessoas pobres e negras que sofrem em filas de postos de saúde, que patinam nas calçadas esburacadas da cidade de Salvador, que são espremidas em ônibus lotados, mal higienizados, atrasados. Maioria perdida no engarrafamento de políticos cínicos, fingidos, corruptos.

É por essas que eu não entendo o movimento negro. Sua luta é restrita a um aspecto do momento histórico? Tem periodicidade como a eleição? Para diante de negligências da sociedade política que atingem em cheio a população negra como esta greve aparentemente insolúvel? Quando Rui Oliveira está à frente da greve, qual identidade domina o seu discurso e a sua ação: a de homem negro ou a de puro sindicalista? E qual a identidade do governador? Carioca, baiano, petista, ditador? Eu prefiro o ditador ao petista, porque o ditador permite que a sociedade civil reaja convicta contra seu despotismo. O petista ainda não é devidamente reconhecido como inimigo, como o foi o outrora PFL. Tem um discurso da responsabilidade administrativa que esconde o ansiado controle supremo do poder que começou a ser engendrado por Lula. Poder, apenas poder a serviço do PT, de uma parte do PT, mesmo que para isso esmague os descontentes com seu autoritarismo revanchista. Voltando ao movimento negro, este pode ter um papel importante nesse momento, levantando-se contra uma situação que despreza tudo o que beneficia a população, sem um projeto que torne a vida das pessoas mais pobres e negras menos sofrida no acesso ao transporte, à saúde pública, à educação pública, ao lazer, ao esporte, à segurança, resguardando sua dignidade e seu trajeto neste mundo perverso, insensível e cínico.    

Joselito M. de Jesus

sábado, 2 de junho de 2012

Amor: a plenitude do meu tempo


Eu sabia que tinha um tempo precioso dentro do meu tempo;
assim como meu tempo era um tempo dentro da história humana;
assim como a história humana tinha um tempo na história da terra;
assim como a terra tinha um tempo na história do universo.
Muito embora soubesse que todo o tempo histórico
era um tempo do ser humano, de um certo ser humano,
um ser histórico.

Meu tempo precioso tinha uma história de amor.
Por isso ele era precioso.
E por isso era o tempo de todos os tempos
E por isso é eterno
enquanto durou.

Cada segundo, cada minúsculo milésimo
em que o sentimento pleno manifestava
sua grandiosidade
um tempo inteiro me tornava infinito.
E o olhar,
e o abraço
e a humilde descrição desse momento
marcou a plenitude do meu tempo.

Esse tempo ficou comigo
o tempo todo.
Mesmo nos tempos mais difíceis,
Mesmo na hora da morte
ele continuou contando
a minha história de amor.

O amor que procura se perdoar
e por isso perdoa o outro.
O amor que entende nossa fraqueza e ignorância
e por isso tem compaixão.
O amor sem tamanho
que não precisa ser grande
porque é amor;
que não precisa de provas
porque é a prova;
que não precisa de registros
porque é o maior ato da história.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel