segunda-feira, 6 de maio de 2013

NÃO FAZ PESO À MÃE TERRA


Desde que sou garoto ouço falar em fim de mundo. Minha mãe, por sua vez, falava-me que sua avó já falava de fim de mundo. Antônio Conselheiro e os rebeldes de Canudos trouxeram o fim do mundo bem nítido para o imaginário do Nordeste brasileiro. O sertão iria virar mar e o mar iria virar sertão. E, pelo menos uma parte do sertão virou, de certa forma, mar. E, desde que o mundo é mundo, acredito que sempre teve alguém pensando em seu final. Uns sonham com um final de mundo como ponto de mutação para um mundo melhor, dirigido por seres humanos reconciliados consigo, com a natureza e com seu mundo. Outros sonham com o retorno de Deus. Um momento em que aqueles que atrapalharam premeditadamente o caminho da vida, da verdade, da justiça e do amor, serão atirados nos quintos dos infernos. Os demais, que se encontraram no perdão e na conversão, irão para a boa vida eterna.

Na contemporaneidade muitos filmes mostram o fim do mundo por extraterrestres mais inteligentes e sofisticados em tecnologia que nós, enquanto outros mostram um vírus eliminando o resto de humanidade que ainda persiste em nós. Outros mostram asteroides grandes o suficiente para causar impactos muito profundos enquanto outras películas mostram velhas profecias catastróficas se cumprindo. Tudo pode acontecer, inclusive nada, como diria Flávio José, forrozeiro bom.

Mas acredito que já está acontecendo. No plano macro e no micro também. No macro a natureza está sendo devastada. No micro e no varejo João Ubaldo nos fala coisas que todos vemos, mas fingimos que não, pois nos sentimos impotentes, sem forças para parar o processo de degradação geral, principalmente no Brasil que, se algum dia foi descoberto, já passou da hora de ser encoberto. Encoberto de vergonha. João Ubaldo afirma que:

Nosso atraso é muito mais que econômico ou social, antes é um estado de alma, uma segunda natureza, uma maneira de ver o mundo, um jeito de ser, uma cultura. Temos pouco ou nenhum espírito cívico, somos individualistas, emporcalhamos as cidades, votamos levianamente, urinamos nas ruas e defecamos nas praias, fazemos a barulheira que nos convém a qualquer hora do dia ou da noite, matamos e morremos no trânsito, queixamo-nos da falta de educação alheia e não notamos a nossa, soltamos assassinos a torto e a direito, falsificamos carteiras, atestados e diplomas, furamos filas e, quase todo dia, para realçar esse panorama, assistimos a mais um espetáculo ignóbil, arquitetado e protagonizado por governantes.

Que coisa mais desgraciosa e primitiva, este festival de fanfarronadas e bravatas, essa demonstração de ignorância mesclada com inconsequência, essa insolência despudorada, autoritária, prepotente e pretensiosa. (RIBEIRO, João Ubaldo. Governantes e governados. A Tarde, Salvador, 5 maio. 2013, caderno 2, p.2)

Posso fazer uma relação direta entre a destruição do planeta, com grande destruição inicial no Brasil. Posso ver cada um de nós como um pequeno meteoro batendo em território nacional e destruindo o espaço. Jogando lixo no chão, desmatando, pichando tudo, poluindo rios, fazendo queimadas, enfim, provocando pequenas feridas individuais que, somando-se, produzem um câncer avançado sobre a crosta terrestre, espalhando-se para as demais camadas. No plano da cultura, todos os sonhos, todas as utopias, todas as esperanças num mundo novo parecem ruir. São também atingidas pela doença maligna. Por causa das “bravatas e fanfarronadas” matam as divindades e erguem um deus agressivo e desrespeitoso para com outros modos de crer e de rezar. E nossas hipocrisias nos cegam e todos nós vamos afundando na merda, pensando num futuro individualista e, portanto mesquinho. O MEU futuro com o MEU deus e com a MINHA felicidade.

De outro ponto de vista percebo-nos como um vírus agressivo que se multiplica em bilhões devorando a vida do planeta. Gaia sente as dores do nosso avanço. Seus órgãos estão sendo atingidos pela virulência humana, provocando febres, suores, tremores e declínio. Aquele planeta outrora exuberante, cheio de verde e vida multicor, está doente, frágil, enfermo, ferido gravemente pela nossa arrogância. Talvez o que mais tememos, um meteoro veloz e indiferente, possa, de forma surpreendente, salvar o planeta da nossa presença triste, que o destrói todos os dias de nossa medíocre existência virulenta. Clamo em socorro da Mãe Terra o poeta Eduardo Monteiro, jovem que trabalhava na feira em Porto Alegre. Assim que aprendeu a escrever e ler, escreveu essa beleza abaixo.

Deixe os ventos puros soprarem os seus cabelos,
Deixe as águas claras correrem,
deixe o verde nascer e crescer.
Ponha seu peso de consciência na balança
Para ver se estás no equilíbrio ecológico
Se não estiver,
voa do planeta!
Não faz peso à Mãe Terra.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, da Mãe Terra, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

segunda-feira, 22 de abril de 2013

ATRASADOS


Depois de sair do trabalho árduo daquele dia, trabalho de todos os dias, ela dirigiu-se para o ponto de ônibus, como todos os outros que trabalhavam nas redondezas. Ela ficou pensando naquilo. Ficou pensando naquela rotina que a esmagava como mulher, uma doméstica como outra qualquer, que sofria todo dia aquela romaria sem fim de fim de tarde. O ônibus demorava a chegar, porque algum engarrafamento o impedia n’algum lugar do trajeto. Quando chegou, depois de longos minutos, estava lotado, como era de se esperar. Como era todos os dias. Cansada, foi apertada como uma sardinha na lata. De repente, tomou um susto com tantos pensamentos que lhe assaltavam de supetão. Pensou em sua vida de sardinha. Sentiu-se como todos os outros passageiros. Olhou em volta e viu a expressão de cansaço semelhante com um silêncio e uma atitude frustrante de todos.  - Somos sardinhas! Concluiu rapidamente. Somos sardinhas, pelo menos neste ônibus, nesta lata apertada e desconfortável. Somos sardinhas sem cabeça. Não pensamos mais os nossos sofrimentos de coletividade negada por um sistema negligente e cruel.

Dentro daquele ônibus cercado pelo engarrafamento aparentemente sem fim, o tempo parava. Os relógios continuavam circulando seus ponteiros, mas o tempo de todas as pessoas naquele ônibus estava tão aprisionado quanto elas. Todos e todas estavam envelhecendo ali, aprisionados em seus assentos ou em pé, segurando-se nas barras das poltronas. Uns dormiam, outros fingiam, outras olhavam distantes, outros, curiosos, procuravam a todos instante algum evento exterior que os salvassem do tédio e do massacre que aquelas horas desperdiçadas causavam em suas cabeças.  - Essas pessoas até que são muito saudáveis mentalmente. Já era para terem ficado loucas nesse tempo perdido nesta lotação do inferno. Pensou consigo. Pensou no tempo e ficou pensando.  - O tempo, dentro desse ônibus, não passa pra ninguém. O tempo nesse ônibus passa diferente. Faz a gente pensar no passado, não no futuro. Faz parte de uma engrenagem torturante que tritura o pobre. O tempo vive a nos matar aqui mesmo, nessa viagem pesadelo que parece que nunca vai chegar.

Ela começou a pensar sobre a vida e tudo o que ocorre na vida dela. Enquanto as luzes de centenas de automóveis, vans, caminhões e ônibus acenavam com o freio a lentidão pesadelo. Ela percebeu que havia algo que a todos assemelhava: eram trabalhadores pobres das periferias de Salvador.  - Os ônibus foram feitos para nós. Pensou consigo. - Eram latas de sardinha que arrastavam lentamente nossos sonhos com o cansaço tão grande que ameaçava reduzir a sono toda a esperança que resistia acordada naquele trajeto carcerário. Estavam presos e presa. Era uma presa fácil daquela condição. Não conhecia bem a história, devido à sua formação escolar precária. Mas sentia que havia naquela condição humana, muito mais desumanidade que a fizera pensar em Auschwitz. Talvez estivesse ficando louca, afinal, nenhum louco sabe que está louco. É sempre preciso que uma autoridade competente, formada em psiquiatria, identifique os traços da loucura e classifique o louco como tal. Mas ela desconfiava que, se houvesse loucura naqueles pensamentos, ela assim preferiria, pois sentia que agora fora atravessada pela percepção aguda de sua condição social, política, cultural e econômica.

Vivia, melhor, sobrevivia, numa pobreza política, pois tinha dificuldades em mudar sua condição por conta dos inúmeros empecilhos colocados no caminho emancipatório que sonhava.  - A educação pública? Uma mentira. A saúde pública? Ainda muito distante do ponto da qualidade.  A segurança pública? Uma quimera. O Brasil, na verdade, era aquele ônibus. Está preso no engarrafamento dele mesmo, sem planejamento, distante dos pontos basilares onde as necessidades de vida decente de seu povo são atendidas. Sentia-se dirigindo-se, todos os dias para campos de concentração, já que a democracia no Brasil, tal como os outros bens sociais, era apenas fachada, uma palavra vazia que conduzia a nada. E continuou: - O Brasil está parado no ponto onde não se pode falar, pois mesmo que fale, sua queixa não se transforma em ação. Não podia reclamar do trajeto, do trabalho, do salário, da insegurança, do acesso à saúde pública, da educação que mal permitia escrever um bilhete, muito menos elaborar um texto dissertativo que contivesse sua angústia vivida e revivida de segunda a sábado de toda semana, do ano inteiro. 

Então, começou a perceber que não era apenas naquele ônibus lotado que estava na condição de sardinha. Seu mundo inteiro era uma lata apertada que exigia a retirada de sua cabeça para ser uniformizada, tal como sua profissão de doméstica. Pior. Não era nem o fato de ser uniformizada. Ela notou que todos estavam em silêncio. Não um silêncio de não falar. Mas um silêncio pior: o de falar coisas que todos falavam. Era o silenciamento de outro jeito. Falar muitas coisas para que as coisas que devem ser faladas ficarem no silêncio. Falavam de Faustão, do Bahia e do Vitória; falavam da novela, de futebol e de pagode; falavam de crimes e de bandidos que os programas de Bocão e de Uziel Bueno tornavam ainda mais criminosos e cruéis. Ela refletiu: - Tem gente que é pior que urubu: transforma a morte em mercadoria e vende a carniça para outros comerem. Ela percebeu isso tudo. Não ouviu ninguém falar sobre o porquê daquela vida tão sardinha. Ninguém comentava o trajeto doloroso, a via crúcis até em casa. Ninguém reclamava mais do prefeito, do governador, dos canalhas de gravata e paletó que desfrutam dos mais altos privilégios em câmaras de vereadores, assembleias legislativas e Congresso Nacional. Estavam todos cansados e descrentes e havia muitas bocas cheias de dentes, esperando a morte chegar. Ela também estava nesse mesmo trecho da vida política brasileira e baiana que todos partilhavam.

Ela ficou pensando em todo o tempo que havia perdido naquele ou n’outro trajeto daquela cidade parada. Não queria ser mais sardinha. Mas, de fato, estava naquela lata quente, entupida de gente querendo chegar num futuro incerto, num tempo impreciso, na sua casa, seu lar. A quem recorreria? Ao Detran? À SET (Superintendência de Engenharia de Tráfego de Salvador)? À Polícia Rodoviária Estadual ou Federal? - Não havia ninguém. Ela sabia. - Não havia engenharia para aquele tráfego baseado no automóvel individual e individualista. Não havia autoridade sequer. A imprensa só podia divulgar seu sofrimento e mais nada. Mesmo assim sabia que sua angústia jamais seria publicada, porque ela, provavelmente, fosse tratada como sardinha, mesmo que provasse que era uma sardinha com cabeça. A fome chegou e ainda não era nem metade do caminho. Não havia mais estradas, só engarrafamentos emendados pela cidade inteira, num grande nó de pescador. Pensou na sede e na vontade de ir ao banheiro. Não podia saltar daquele ônibus. Estava presa, como sabia. Decidira chegar em casa, para matar a fome, saciar a sede, ir ao banheiro e resolver todas as suas necessidades num só lugar, seu lugar. Seu terreno sagrado. Todo o tempo naquele transporte coletivo ia adiando essa pequena felicidade, como uma luz no fim do túnel que vai se apagando lentamente. Estava presa naquela angústia que só passava da 1.ª para a 2.ª marcha e daí pro "ponto morto". 

- A Bahia e o Brasil era um "ponto morto", principalmente para o pobre, e mais ainda para o pobre que padecia de "pobreza política". Refletiu. Ela desejou ardentemente o ponto de casa, o ponto a partir do qual pode haver um ponto de mutação. Uma esperança que desviasse todo o trajeto para outro ponto de justiça, de alegria, de solidariedade, de ternura, de inteligência que serve aos mais pobres. Queria poder ter uma bota de sete léguas, queria ter asas, queria ter um helicóptero, como o governador, para estar em casa diante de todo aquele trajeto sofrido que lhe espremia completamente, corpomente. Seus pés doíam em pé. Seu sono refletia o peso do dia. O tempo parado ali dentro envelhecia a esperança entristecida de todos os passageiros. Todos eles atrasados para chegar em casa e na vida decente que mereciam fora da lata, longe da condição de sardinha que a propaganda mentirosa do governo prometia nos meios de comunicação social.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Política, Poder entre evangélicos e movimentos LGBTTIS

Estou lendo agora na internet a seguinte manchete:

Silas Malafaia organiza manifestação contra o casamento gay em Brasília

Por Isadora Peron, de O Estado de S. Paulo, estadao.com.br - ‎terça-feira‎, ‎16‎ de ‎abril‎ de ‎2013
Esta notícia, lendo com os óculos dos nossos estudos na disciplina, mostra que há uma tensão crescente entre grupos evangélicos, grupos gays, movimentos feministas e movimentos negros na sociedade brasileira. O que está em jogo? O poder. Poder de decidir a sua vida, de orientar-se pela sua religião, de punir quem desrespeita sua origem, sua raça e etnia, etc. Quando Malafaia convoca seus seguidores, inclusive com a participação do deputado/pastor Feliciano, ele está reunindo parte da sociedade civil, no caso, grupos de evangélicos, para pressionar a sociedade política, no caso o estado e, especificamente, o poder legislativo – Congresso Nacional – a fim de impedir que uma exigência de direito seja atendida no plano jurídico – se torne lei – de grupos sociais específicos – no caso os homossexuais. Vamos retomar o conceito de poder por Norberto Bobbio?
Capacidade que um indivíduo, grupo ou instituição tem de modificar o comportamento de outro indivíduo, grupo ou instituição segundo os seus interesses.
Logo, o pastor Malafaia está exercendo essa capacidade, conclamando indivíduos, grupos e instituições (religiosas no caso) para modificar o comportamento de outros indivíduos, grupos e instituições – relativas aos gays e seus movimentos e anseios – segundo seus interesses, que é o de impedir que o casamento gay seja aprovado no Congresso Nacional.

Ora, mas o poder não é linear. “A arena política é inevitavelmente polarizada”. (DEMO, 2006, p.23). Haverá, certamente, manifestações de intelectuais, artistas e dos grupos gays em defesa da aprovação da lei. A tensão aumenta, os deputados e senadores ficarão pressionados por ambos os lados e terão de decidir. Mas, como tudo no Brasil, penso que tudo será resolvido no adiamento da decisão ou, realmente os representantes legislativos terão de posicionar-se através do voto, que eles e elas, tentarão votar em segredo. Entra aí outra questão de poder: o voto ano que vem. Os dois grupos em disputa têm milhões de eleitores e político brasileiro que se preze, não vai, de peito aberto, declarar-se a favor ou contra este ou aquele grupo social. Vai criar manobras de adiamento ou ocultamento de sua decisão. Somente os deputados e senadores que são gays, evangélicos, além dos reconhecidamente decentes, como Cristovam Buarque, Eduardo Suplicy e Pedro Simon, entre poucos outros, é que se posicionarão claramente sobre a questão. A resultante união de diferentes indivíduos nasce do interesse comum em questões que tocam imediatamente sua vida cotidiana. Espero que, depois dessa disciplina vocês não leiam nem assistam mais as reportagens e notícias do mesmo jeito. Nesse sentido podemos concordar que política, sim, é “o ato de poder e de posicionamento frente a questões e ideologias.” E aí podemos completar: que envolvem os interesses sociais imediatos e mediatos de grupos e classes da sociedade a fim de decidir sobre esses interesses.


E sobre a notícia acima: o que vocês acham? Quem tem mais poder atualmente? Os evangélicos ou os movimentos LGBTTIS? Os desdobramentos dessa tensão no Congresso Nacional responderá esta questão? E sobre a afirmação de um dos colegas de vocês de que a política provém da organização de um grupo para garantir os direitos na cidade. O que vocês acham agora? Em se tratando do caso acima, há dois grupos em disputa. Um tenta garantir o casamento de pessoas do mesmo sexo na lei, ou seja, a partir da aprovação dessa lei, em todo o território nacional, toda pessoa que quiser casar com outra do mesmo sexo, a fim de assegurar direitos civis, como nós os heteros temos, assim poderá fazê-lo. O outro grupo tenta impedir, sob o argumento de que Deus não é a favor de relacionamento de pessoas do mesmo sexo. Então, analisando a realidade e voltando à definição do ou da colega de vocês podemos afirmar que a política é o exercício do poder, que provém da organização de um ou mais grupos sociais para garantir seus direitos no território a que seus direitos circunscrevem. Aprender política não é difícil, pois a política e o poder estão em nossa vida, da qual não podemos escapar, nem mesmo quando decidimos morrer, que é uma decisão política. 


 Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

terça-feira, 16 de abril de 2013

ABORTO SOCIAL


A Igreja Católica tem grande poder ainda na sociedade. Suas orientações são seguidas sem questionamentos e sem reflexão, bem como as orientações de outras “torcidas organizadas”, digo, religiões. Pelo menos as torcidas organizadas frequentam o mesmo estádio para assistir a um mesmo evento, no caso, esportivo. Os religiosos, porém, nem isso conseguem. Parece que o deus de um não se dá com o deus do outro e, colocar os dois num mesmo espaço público poderia desencadear uma nova guerra santa. Parece mesmo que nem estão falando de Deus. Mas de deus, uma criação de cada grupo que disputa, Bíblia a Bíblia, prece a prece, pregação a pregação, a hegemonia pelas almas baianas e brasileiras que ainda não foram “salvas” pelo deus de cada agremiação.

Bem, eu não quero ser salvo por ninguém, senão pela própria Vida, que é, naturalmente, o caminho e a verdade. É na vida que Deus está e é nela que eu vou exercendo minha humanidade possível. Entretanto, o que desejo falar neste texto é sobre algo que já falei em outros textos, mas desejo enfatizar em função do contexto que a vida apresenta com a morte violenta de milhares de jovens. Outro dia estava assistindo o excelente Programa Observatório da Imprensa, apresentado pelo experiente Alberto Dines, e, neste programa, foi citado o número de pessoas que morrem pela violência no Brasil: quase 60.000 pessoas por ano! Número funesto de países em guerra civil. Ora, não vejo igreja alguma dizer algo sobre isso. Talvez até justifiquem com a penitente resignação: “é a vontade de Deus.” Bem, de Deus é que não é. Porque Deus é Vida. Pode ser de “deus”, a criação humana de Deus. O deus de “lá ele e de lá ela”. Sei que não consigo ouvir tudo, mas no plano e no alcance da minha audição pouco ouvi um líder religioso ocupar a arena pública discursiva para denunciar essa matança, essa ausência do estado e o nosso silêncio conivente.

Fazem discursos esperados, que não comprometem ninguém, discursos fatalistas, acusando sempre o pecado do outro como origem de tanta violência. Ninguém chama a atenção da secretaria de segurança pública, ninguém reflete o desgosto de Deus diante de tantos assassinatos, de tanta corrupção, de tanta maldade e cinismo. Consideram-se acima do bem e do mal, esses líderes religiosos, consideram-se, muitos deles e delas, como se fossem o próprio deus. Semideuses, pois, do microfone que lhes está reservado, eles pronunciam os discursos que se encontram na esfera do regime de verdade carimbado e autorizado pela tradição. Foucault está certo. Nas operações discursivas o que é mais importante e verdadeiro jamais será dito. Nem pelo (a) pastor (a), nem pelo bispo, muito menos pelo cardeal. Ficará no silêncio inquietante de quem sabe o que deveria ser dito, com coragem, rompendo a margem institucional do dizer e enfrentando o cinismo, a intimidação e as violências simbólicas e físicas que produzem silenciamentos.

Romper com essa margens estreitas do discurso é fundamental para que enfrentemos as mazelas que os governos maquiam ou apagam de suas propagandas, que os pastores riscam do seu mapa discursivo, que os bispos e cardeais preferem não pronunciar, não porque seja polêmico, mas porque o equilíbrio dos podres poderes que nos regem depende muito desses silenciamentos. Eu fui de uma geração que falava mais dos problemas sociais, políticos e econômicos. Ainda herdamos os efeitos da luta pelas diretas já e por todo o movimento político e social dos anos 80. Contudo, submergimos. Mas agora, nesse contexto de tanta hipocrisia é preciso a pronúncia de cada vez mais pessoas. É preciso uma primavera política, social e cultural à brasileira e baiana.

A Igreja Católica, além de outras, por exemplo, é contra o aborto. Que seja. Também, de certa forma, sou contra. Mas uma criança que nasce numa maternidade que funciona precariamente é aborto também. Um aborto em vida. Ter uma escola pública abandonada com professores ruins é aborto também. Ter dificuldades em ser atendido em postos de saúde e hospitais públicos e privados, jogados em macas, esquecidos pelos médicos que tentam, com as condições péssimas de trabalho que têm, atender a todos e a todas na medida do impossível, é aborto também. Ficar presos em ônibus lotados, seja para ir ao trabalho, seja para voltar para casa é aborto também. Ser assassinado numa cidade sem lei é aborto também. Aborto social, porque é responsabilidade de um governo, que administra um estado ineficiente e cobrador de impostos, manter a qualidade de vida de seus habitantes, pagadores de impostos. E o assassinato de mais de 60 mil pessoas, como afirmou Marcelo Freixo no referido Programa acima citado, tem endereçamento. Com raras exceções, que por isso, tornam-se manchete em todos os jornais, são jovens negros e pobres que vivem nas periferias dos grandes centros urbanos. ABORTO SOCIAL COM RACISMO TRADICIONAL. Mas os “sábios” líderes religiosos calam sobre isso. Não reconhecem e, portanto, nem se posicionam contra esse aborto sistemático praticado por nossa falida sociedade.

Sair do “ventre livre” é fácil. Vou corrigir-me: Não é fácil e é doloroso, principalmente para a dona do ventre. Mas viver com saúde, educação, segurança e qualidade de vida é uma luta constante que, muitas vezes, é perdida pelas crianças e jovens que as igrejas, a todo fórceps, quer que nasçam, mas talvez, não queiram ou, no mínimo não se interessam que elas vivam. É como diria nosso brilhante e comprometido poeta João Cabral de Melo Neto:

Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

O aborto social "ataca em qualquer  idade", principalmente jovens negros e pobres, “ e até gente não nascida”. E o silêncio celebra cada morte no esquecimento nos números dos cadáveres de todos os anos. Que os nossos líderes religiosos falem sobre isso. Que não sejam como o bispo do filme "A Missão", de 1986, que se cala diante do massacre dos índios e missionários em função das ambições colonizatórias e “civilizatórias” dos portugueses.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus,
O Emanuel.

sexta-feira, 29 de março de 2013

CONHECIMENTO? QUEM SABE MAIS?


A forma de conceber o trajeto até o conhecimento e do próprio conhecimento, é crucial, seja para processos emancipatórios, seja para processos regulatórios da formação humana na escola. Sendo dado, como algo pronto a ser apreendido passivamente pelos educandos, o conhecimento distancia-se da emancipação dos mesmos. A centralidade do livro didático, tanto no ensino, quanto na aprendizagem, vem como um sintoma claro desse movimento regulatório e coibidor do exercício da criticidade no processo educativo, que torna-se contra educativo. Na educação do campo, segundo relatos dos próprios professores da mesma, o livro didático é relativizado no processo.

Nesse caso, o ponto de partida para o conhecimento é o local, e ainda mais, sua interpretação pelos indivíduos que aí convivem. É no local onde se articula a experiência do educando, os saberes da comunidade e as festas, os encontros, os acontecimentos locais, ou globais, que adquiriram um significado próprio. No local o ser humano pode encontrar elementos de transcendência de si próprio e fazer do mundo o ventre dinâmico do seu nascimento/renascimento permanente. A escola se torna, nessa perspectiva, uma instituição educativa viva, plural, construída cotidianamente pelos sujeitos singulares. Desse ponto de vista, a escola tem que deixar de ser do diretor “fulano” ou da diretora “sicrana”, deixar de ter um dono, uma dona, e passar a ser de todos e todas, ou seja: de sujeitos singulares convergindo na pluralidade, criando a necessidade concreta de reconfiguração das relações interpessoais autoritárias, preconceituosas e discriminatórias, obrigando os (as) educadores (as) a se reeducarem, ou seja, a também renascerem de si, juntos aos educandos, num processo educativo emancipatório que pode ser desencadeado por uma nova/velha Pedagogia que começou faz muito tempo, mas ainda não pode ser concretizada em espaços institucionais e políticos mais amplos.

E aqui, neste ponto do texto, a necessidade de discutir a educação escolar e sua concepção de conhecimento e seu significado se faz imprescindível. O que é conhecimento? Conhecimento pode ter o significado de emancipação? Sim! Conhecemos porque somos curiosos e queremos saber. Tal como Gilberto Gil...

Queremos saber,
o que vão fazer
com as novas invenções.
Queremos notícia mais séria
sobre a descoberta da antimatéria
e suas implicações
na emancipação do homem,
das grandes populações,
homens pobres das cidades
das estepes dos sertões
Queremos saber,
Quando vamos ter
raio laser mais barato.
Queremos, de fato, um relato
retrato mais sério do mistério da luz
luz do disco voador
pra iluminação do homem
tão carente, sofredor
tão perdido na distância
da morada do senhor.
Queremos saber,
queremos viver
confiantes no futuro
por isso se faz necessário prever
Qual o itinerário da ilusão?
A ilusão do poder
pois se foi permitido ao homem
tantas coisas conhecer
é melhor que todos saibam
o que pode acontecer
Queremos saber, queremos saber
Queremos saber, todos queremos saber.

Pois é: “todos queremos saber.” E do que sabemos, não queremos deixar de saber para saber um saber que nada sabe sobre o nosso viver. Portanto, conhecimento pode ser desconhecimento na alienação que produz em seu processo de conhecer. Esse saber eu não quero. Porque eu sou e porque penso. Mas não como Descartes brilhantemente e genialmente pensou. Eu penso porque vivo a minha existência encarnada num local específico do mundo. Penso porque sem o outro eu não sou nada. Sem o outro eu não consigo ser eu. Sem minha terra, sem o sofrimento e sem a esperança eu não sigo o meu destino, e não consigo escrever um palmo do meu caminho. E, assim como eu, meu educando também pensa. E quer pensar seus pensamentos, sem ser negado por uma ordem escolar ou universitária que lhe nega seu direito mais legítimo de pensar.

Para que tanto saber? Para que essa vontade avassaladora de saber tudo e a tudo controlar? Perguntava Nietzsche e, depois, Foucault. Esse saber que me nega, que me cega, que relega o meu jeito, o meu leito, o meu peito, o meu sabor e a minha ira? Prefiro, pode pensar certamente assim o educando, a minha sina que não me recrimina. E essa escola prepotente esvazia, porque sua função enfastia o educando curioso. Essa escola que quer regular, transformar em objeto o sujeito curioso, desejoso de conhecer o conhecimento de sua gente, que lhe traga emancipação, júbilo, felicidade. É da mamona que o educando de Val aciona o seu saber e é daí que elege o seu conhecer. E assim, como da mamona, vem saber do abacaxi, vem saber da Feira de Cariri, vem saber da Feira de São Joaquim, vem saber da maré e da maresia, vem saber em forma de medo, de desejo, de segredo e de poesia. E esse saber, não controla, ele apenas desenrola e sistematiza a vida que segue sua lida na alegria e na tristeza, na feiura e na beleza. 

quarta-feira, 27 de março de 2013

A SECA NA ELEITORADA BAIANA


"Considera-se que a seca que assola o Nordeste, em especial o semiárido baiano, é a maior dos últimos 60 anos." Começa Samuel Celestino (2013) a referir-se ao problema. E, mais à frente chega aonde eu penso.

O passivo que está no colo de Jaques Wagner para ele embalar não vem de agora, mas de outros governos. Seria necessário que se elaborassem projetos estruturantes para a perenização dos rios e construção de barragens que minorassem situações como a que no momento se observa. O Ceará cuidou desta equação preventivamente. Daí não estar a sofrer como acontece na Bahia. É pena, mas a verdade é esta. (CELESTINO, A TARDE, Salvador, domingo, 24/03/2013, p.B1)

A seca é um fenômeno natural, mas seus efeitos perversos é um fenômeno político e social. Sim. Desde que me entendo por gente – quer dizer, desde que fui humanizado pela cultura em que estava inserido – ouço falar da seca e de seus efeitos nocivos. Através do grande mestre Luiz Gonzaga, de Guimarães Rosa, de Graciliano Ramos, dos parentes que por lá viviam entre tantas outras e tantos outros parentes e conhecidos que traziam informações e pareceres entremeados de lamentações e esperanças. A gente conhece esse fenômeno de uma região que seca. Mas não seca porque Deus ordenou a São Pedro que fechasse a “torneira do céu”, como crê, ingenuamente, alguns e algumas, mas porque a distribuição nacional, regional e estadual da riqueza é desigual, e, por isso mesmo, injusta. E justifico com o exemplo dado por Pedro Demo em seu livro “Pobreza Política”.

Quando uma comunidade tem sua colheita destruída pela seca, enchente, praga, segue a fome. Não é porém, pobreza propriamente, porque é condição natural. Falta de chuva, em si, não é problema social. A pobreza começa a aparecer em outro horizonte, por exemplo, se apenas certos grupos passam fome, enquanto algumas minorias já não passam, ou pior ainda, lucram com a carestia. A seca não faz o pobre; faz o pobre a “indústria da seca”. (DEMO, 2013, p.07)

Portanto, o fenômeno da seca e da pobreza que dela advém no Nordeste é mais político que econômico, é mais social que natural. O estado do Ceará se preveniu, porque deve entender que os cearenses que vivem nas regiões semiáridas devem ser cuidados pelo estado, porque contribuem com denodo para a agricultura, a pecuária, enfim, a economia da região, desempenhando papel significativo nesse processo. Outra coisa seria olhar essas pessoas e percebê-las apenas como habitantes de uma região atrasada, que sobrevive às custas do estado, pedindo esmolas e favores. Talvez – e aqui, claro, estou especulando, mas com base nos efeitos perversos que identifico – os governos do estado da Bahia percebam os moradores de seu semiárido assim: como eternos esmolés, maltrapilhos atrasados e analfabetos, e, por isso mesmo, os abandone à própria sorte, melhor, ao próprio azar numa região esquecida pelo estado. Fico especulando outra coisa, menos perversa, mas, nem por isso menos prejudicial, pois produz a mesma nocividade. Talvez o Governo não queira ou não saiba governar. Assim sendo, penso que elaborar projetos estruturantes dê muito trabalho, além de ter de formar equipes de trabalho, articular técnicos competentes, dar-lhes autonomia, coibir a influência da politicagem nas secretarias de estado, colocando o espírito público acima dos interesses privados, principalmente dos interesses eleitoreiros. Mas, pelo que ouço, não é isso que acontece. A Secretaria de Educação do Estado da Bahia, por exemplo, é feita para não funcionar, porque quem sabe fazer alguma coisa útil e tem competência para agir, é submetido aos mandachuvas incompetentes indicados por partidos diversos que compõem a barra pesada, digo, a base, do governo. Sobre isso, Antonio Lins, poeta e jornalista, escreveu um texto interessantíssimo no jornal A Tarde da segunda-feira, 25/03/2013, página A3 sobre isso. Destaca ele que:

Do bom governante espera-se a coragem de fazer o que precisa ser feito em benefício do bem comum, o que eventualmente, em situações de crise, implica adotar medidas que contrariem os interesses eleitoreiros imediatos dos grupos políticos que o sustentam. Governar, portanto, significa envolver a sociedade no processo inevitavelmente difícil de construir o futuro. A alternativa é o populismo, que reduz o cidadão à condição de eleitor manipulado por uma máquina de fabricar ilusões. (LINS, Espírito Público, A Tarde, Salvador, 25/03/2013, p.A3)

E Lins continua, na tentativa de prevenir os seus leitores sobre o desencadeamento do ano eleitoral muito cedo.

O que parece bastante provável é que, nos próximos meses, a relação entre o governo e o principal partido que o apoia adquira certa tensão. Está claro que, a partir de agora, o PT não está interessado em governar o País, mas em vencer as próximas eleições. É a inversão do princípio de que os partidos políticos querem ganhar eleições para chegar ao poder. O PT quer usar o poder para ganhar eleições e para tanto não hesitará em fazer rigorosamente tudo o que for necessário. Essa é sua visão muito peculiar de espírito público. (LINS, Espírito Público, A Tarde, Salvador, 25/03/2013, p.A3)


Logo, minha desconfiança vai ganhando contornos mais verossímeis e vou passando da especulação para a constatação provisória. O governo já acabou em 2013. Agora é fazer mais alianças, seja em Brasília, seja na Bahia, para ampliar a “base de governo” a fim de acolher os infelicianos que infestam os palácios com suas imundícies mal cheirosas, seja os que se encontram na Alvorada, seja os que estão no Alto de Ondina.

A seca, portanto, é resultado dessa desordem, ou melhor, dessa ordem estabelecida contra o povo, contra o interesse público, o bem comum. A pobreza não é um dado natural, é um fenômeno político e social assegurado por desgovernos que representam interesses privados e mesquinhos, que, por uma eleição futura, botam a perder o bem comum presente. Viva o Ceará!!!!

Joselito Manoel de Jesus, Com o apoio de
CELESTINO, Samuel. A seca e o jogo político. A Tarde, Salvador, domingo, 24/03/2013. P. B1
DEMO, Pedro. Pobreza política: A pobreza mais intensa da pobreza brasileira. Campinas, SP: Armazém do Ipê (Autores Associados), 2006.
LINS, Antonio. Espírito público. A Tarde, Salvador, Salvador, segunda-feira, 25/03/2013. P. A3.

sábado, 23 de março de 2013

Infeliciano: por um movimento evangélico

O atual presidente da Comissão de Direitos Desumanos e “minorias” da Câmara de Deputados do Congresso dito “Nacional”, deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), representa, de fato, esse congresso – em minúsculo mesmo – que aí se encontra. Esse congresso está repleto de gente sem escrúpulos, que assalta o patrimônio público em busca de enriquecimento ilícito a qualquer preço. Muitos estão envolvidos em formação de quadrilha, peculato, fraude em licitações e outros tantos sinistros ligados ao crime, tal como o líder do governo no senado, Eduardo Braga.

Um líder do governo. Líder do governo, repito. Líder de um governo desse país. “Que país é esse?” Repito a pergunta do outrora e inquisitivo Legião Urbana. Marco Feliciano é só a ponta do iceberg. Um iceberg que o titanic brasil finge não ver, porque nossa república é quase uma quadrilha só. Aqui a máfia italiana não teria chance. Só se ela formasse um partido e fizesse acordos de exploração de áreas exclusivas do crime organizado. Assim como as áreas de exploração do petróleo estão sendo “licitadas”. A gente mira Feliciano, mas deveríamos mirar mais acima. Deveríamos fazer uma greve geral contra a corrupção, contra a impunidade e contra o cinismo. Os mensaleiros, os anões do orçamento, os ladrões de todos os tempos estão soltos história afora, reelegendo-se Brasil adentro. A nossa lei sempre beneficiou o capital e os crimes financiados sempre foram afiançáveis. Tem algum (a) mensaleiro (a) preso? Não. As cadeias aqui são desconfortáveis para eles e elas.

Creio que, antes de qualquer coisa, nós, denominados genericamente de povo brasileiro, devemos reconhecer esse país de merda. Esse país que finge ter uma educação de qualidade, que finge oferecer serviços públicos educacionais, de saúde, de segurança e de infraestrutura de qualidade, que finge, esfinge que não pergunta, porque já sabe a resposta e que, portanto, não devora. Contudo, entretanto, todavia, Feliciano devora suas presas ávidas por milagres. Mulheres e homens que pensam que compram deus e seu pacote de bondades em cheques, cartões de crédito – que sem senha não chega a deus – dinheiro em espécie, numa espécie de negociata celestial e, paradoxalmente, bestial. De bestas e de besteiras os pastores fajutos desembestam suas contas e aumentam seus privilégios. E um monte de tolos, com uma capacidade crítica próxima a zero, alimentam suas contas dia a dia.

É preciso que os evangélicos que se respeitam manifestem o seu desagrado com tanto estelionato, cinismo e fingimento de falsos pastores que conduzem suas "ovelhas" para o mundo da alienação e da miserabilidade humana. É passada a hora da criação de um movimento evangélico que separe o joio do trigo, posicionando-se a favor da verdade, da justiça e do amor. Um movimento evangélico e cristão que retire o dinheiro da mediação com Deus e reafirme e enalteça os valores cristãos, retomando a fé baseada nestes valores. O que não se pode é, em nome de uma falsa e deturpada “unidade evangélica”, como se todos os gatos fossem pardos, imperar o silêncio conivente. Ou será que os evangélicos podem julgar o “mundo” e o “mundo” não pode avaliar a conduta evangélica? É preciso que pastores e fiéis reafirmem a sua fé num momento crítico, em que os evangélicos de verdade, que não vivem do “dízimo” alheio, devem pronunciar a sua indignação. É preciso que levantem a voz na tribuna para combaterem os canalhas que se aproveitam da inocência e da loucura alheia. Alguém precisa falar!!  

Na verdade, tudo é mundo. Não existe um mundo lá fora, da tentação. Mundo é tudo aquilo que foi criado pelo ser humano em sociedade. Portanto, evangélicos e suas inúmeras agremiações, budistas, católicos, candomblezeiros, etc., são mundo, não podendo escapar dele e de seus efeitos, nem podendo escapar dos efeitos que produzem na grande rede interativa que é o mundo. Estão inevitavelmente entrelaçados pela história, não podendo fingir que não há nada de grave acontecendo e que não os envolve. E, sendo mundo, não devem emudecer diante de tanta canalhice de falsos evangélicos como o "pastor alemão" (que reflete o projeto nazista) disfarçado de ovelha, Feliciano não sei das quantas, um racista, homofóbico e charlatão – quando eu vejo homofobia começo a desconfiar que o pitbul que vocifera no público tem outro comportamento no privado –. O  diabo avança Congresso adentro.

Joselito Manoel de Jesus  

terça-feira, 19 de março de 2013

O Papa é Argentino. Mas Deus não é brasileiro

Por causa da recente eleição do Papa, um argentino, alguns brasileiros, famosos ou não, utilizam da velha máxima de que Deus é brasileiro, desdenhando jocosamente da nacionalidade do novo Papa. Acredito que essa afirmação de que Deus tem uma preferência especial por nós talvez venha do reconhecimento de que nosso país não tem os problemas naturais que outros países têm, como terremotos, furacões, vulcões nem tornados, capazes de aniquilar milhares de seres humanos em tempo bastante curto. Nosso país é cheio de riquezas naturais, minerais, com um clima apropriado para o desenvolvimento agrícola, para a pecuária, com grandes reservas e a maior floresta do mundo, entrecortada por rios e mais rios, sendo a maior reserva de água doce na superfície do mundo, senão me engano. Assim, Deus, por abençoar estas paragens, estaria oferecendo um indício claro de sua predileção pelo nosso país e pelo seu povo. Logo, para nosso júbilo – para utilizar uma palavra bem religiosa – Deus é brasileiro.

Contudo, desconfio que Deus não tem predileção por povo algum na face da terra, apesar de alguns acharem isso. Deus tem predileção pelo ser humano. Pensa na humanidade, em qualquer lugar do mundo onde a mesma esteja. E, segundo se conta e reconta, faz um esforço tremendo para se aproximar dela. Porque a ama. Quando a gente ama é assim. Queremos estar perto, queremos abraçar e partilhar as maravilhas de todas as coisas e acontecimentos. Teve um na Índia, que construiu até um famoso palácio para homenagear sua saudosa esposa amada. O amor produz forças insuspeitas.


Nesse território do mundo denominado de Brasil, tem muitas riquezas e belezas naturais e minerais, também tem muita coisa ruim. Melhor: tem muito “coisa ruim”. Este país tem sucessivos governos que mentem, que compram propagandas para divulgar sobre o que não existe, sobre o que não fizeram. A maioria das obras está “em andamento”. Exceto obras como aqui na Bahia, a Nova Fonte Nova ou o Maracanã, no Rio de Janeiro. Que não trarão benefício significativo para a população, só circo, porque o pão está garantido pelo “bolsa família”. Deus não pode ser brasileiro. Sendo amoroso e onipotente Ele não aceitaria crianças soterradas no Rio de Janeiro e crianças esfomeadas no Nordeste, porque nossos governantes alegam não ter recursos para cuidar de seu povo, ou pior: ao invés de socorrerem sua gente, fazem propaganda afirmando que estão socorrendo, liberando verbas tardiamente – porque não liberaram antes? –, mobilizando a Defesa Civil, os Bombeiros, o diabo a quatro. Ou seja: mentindo.


Sérgio Cabral mente tanto quanto Jacques Wagner, tanto quanto Geraldo Alckmin. São todos uns mentirosos. E Dilma também aprendeu essa principal, usual e fundamental ferramenta política: a mentira oficial. A tão debatida, discutida e imposta transposição do Rio São Francisco, está virando ruína, bem como o metrô – metrinho, quase centímetro – de Salvador; e tantas e tantas obras que enferrujam e apodrecem a céu aberto, esperando mais dinheiro para irrigar a ganância de empreiteiros, políticos e banqueiros. As imagens e as fotografias mostram a morte, o abandono, o desespero, a violência – Bahia está em 4.º lugar no ranking de homicídios (Fonte: Instituto Sangari e Ministério da Justiça, levando em consideração estatísticas de 2010 – o desmatamento, a poluição, o cinismo, a corrupção, a impunidade, a falência das instituições, entre outras tantas mazelas, mas a propaganda oficial afirma que vai tudo bem. Quem é esquizofrênico? Caso tudo fosse bem, como se propagandeia, o governo poderia retirar o Bolsa Família e,voilá! Muitos brasileiros poderiam andar com as próprias pernas.


Deus passa bem longe disto tudo, de toda essa mentirada oficial, de todo esse cinismo político. O que temos aqui é muita farsa. Farsa na saúde pública. Quem precisa de hospitais, médicos e emergências que o diga. No Rio de Janeiro, segundo a reportagem de uma emissora televisiva, crianças estão morrendo porque o único hospital do Estado que fazia transplantes de rins não mais o faz, por causa do pedido de demissão de médicos especializados, com certeza insatisfeitos com as condições de trabalho e de piso salarial; farsa na educação, porque o analfabetismo funcional avança universidade adentro; farsa na segurança pública, porque a Secretaria de Segurança Pública da Bahia já admitiu seu fracasso em combater o crime ao sugerir que levemos o “bolsa ladrão” para que não sejamos espancados ou mortos. Aliás, os dados falam por si. Nosso IDH, no ranking do Programa das Nações Unidas, não alcança a média da América Latina, ficando abaixo de países como o Chile, o México e o país do Papa. Farsa, ilusionismo, enfim, mentira mesmo, mentira em todas as emissoras de rádios, de tv e também nos jornais.


Como é que Deus pode ser brasileiro num mundo onde as enchentes, enxurradas, secas, violências de todos os tipos produzem um grande sofrimento com a produção de corpos e mais corpos de anciãos, jovens, crianças e adultos que sucumbem diante das forças satânicas dos nossos governantes? Nunca vi um governante nosso pedir desculpas pelo sofrimento do seu povo. Quanta gente não morreu e quantas não estão morrendo e, ano que vem, vão morrer pelas chuvas que cairão e que não cairão? A morte virá. Depois as verbas serão liberadas e os governa dores irão, de helicópteros, sobrevoar a área atingida. E Deus, acima deles, não tem nada a ver com isso. Ele não é brasileiro, nós não o elegemos e não é Sua vontade a morte prematura – ou o assassinato por negligência mesmo! – de inocentes. A maior catástrofe de nosso país não vem da natureza, nem da seca, nem da chuva.

Joselito Manoel