terça-feira, 13 de maio de 2014

PRÁXIS


O filósofo Adolfo Sánchez Vázquez (2007)[1] estabelece a diferença entre atividade, atividade humana e práxis. A formiga faz atividade, embora não pense a ação antes de fazê-la. O fígado, o pulmão, o coração realizam atividades sem as quais o organismo não poderia continuar vivo. Mas, acredito, esses órgãos também não pensam a ação antes de fazê-la. Eles realizam a atividade e pronto. A formiga, a aranha, a abelha realizam atividades que não planejam, pois esses seres cumprem o que está determinado pela filogênese, ou seja, realizam o que sua espécie determina geneticamente ao longo do seu desenvolvimento natural num longo processo de adaptação. Segundo Vázquez (2007, p.219) Por atividade em geral entendemos o ato ou conjunto de atos em virtude dos quais um sujeito (agente) modifica uma matéria-prima dada, [...] produzindo um produto. Assim, nesse entendimento, todo ser vivo, todo órgão, toda máquina, realiza uma atividade. Vázquez esclarece que, para ser atividade, para ter esse conceito de atividade, é preciso que os atos singulares se articulem ou estruturem, como elementos de um todo, ou de um processo total, que desemboca na modificação de uma matéria-prima. Uma teia de aranha é o produto da atividade da aranha que é, por sua vez, um conjunto de atos articulados entre si. A colmeia de uma abelha e o formigueiro das formigas ou um ninho de um pássaro são um todo, produtos de atividades onde há transformação de matéria-prima para esses fins. Porém, são atividades meramente de caráter biológico, natural.
A atividade humana é também um conjunto de atos articulados entre si que transformam uma matéria-prima tendo como resultado um produto. Mas, segundo Vázquez

A atividade propriamente humana apenas se verifica quando os atos dirigidos a um objeto para transformá-lo se iniciam com um resultado ideal, ou fim, e terminam com um resultado ou produto efetivo, real. Nesse caso, os atos não só são determinados causalmente [não confundir com “casualmente”, que vem de “acaso”, “causalmente” vem de “causa”] por um estado anterior que se verificou efetivamente – determinação do passado pelo presente –, como também por algo que ainda não tem uma existência efetiva e que, no entanto, determina e regula os diferentes atos antes de desembocar em um resultado real; ou seja, a determinação não vem do passado, mas sim do futuro. Esse modo de articulação e determinação dos diferentes atos do processo ativo distingue radicalmente a atividade especificamente humana de qualquer outra que se encontre em um nível meramente natural. (VÁZQUEZ, 2007, p.220-221)
Ou seja: a atividade sai do nível biológico e entra no nível social e histórico, tornando-se atividade humana. O ser humano pensa a ação antes de fazê-la, ele planeja, antecipa no presente o futuro que ele deseja em forma de plano, que vai “determinar e regular os diferentes atos antes de desembocar em um resultado real.”
Não entenderam ainda? Pensem então na construção de um prédio. Antes dele existia um terreno cheio de mato e, no caso da Bahia, de lixo. Algum investidor passa e avalia o terreno: o passado do terreno é determinado pela constatação do presente, da avaliação do potencial de construção feita sobre ele. Logo, imagina o futuro: um prédio de tantos andares – que para ele, vai gerar muita grana – com dois, três ou quatro apartamentos por andar de três e quatro quartos etc., etc., etc. Uma empresa de engenharia é contratada, faz o levantamento da resistência do solo, limpa o terreno, elabora o projeto, em forma de plantas – plantas baixas, plantas transversais, plantas das fachadas, plantas elétricas, plantas hidráulicas, entre outras. Embora o prédio ainda não exista de fato, só idealmente, na cabeça das pessoas que o planejam nos projetos. As plantas representam o futuro que ainda não existe, mas que determina e regula as atividades presentes de profissionais diversos como pedreiros, serventes, encanadores, eletricistas, ladrilheiros, ferreiros, engenheiros, marceneiros, entre tantos outros envolvidos naquela obra. Assim, o futuro – o edifício ainda inexistente – determina e regula as atividades humanas, no presente, de todos os envolvidos naquele empreendimento em processo de construção. Entenderam agora? E é assim com a agricultura, a pesca, a pecuária, a educação, enfim com todas as atividades humanas. O trabalho é uma atividade humana privilegiada porque, antes de qualquer outro ato histórico, o ser humano, como dizia Marx na Ideologia Alemã, precisa produzir a sua existência e, para isso, ele pensa a ação antes de executá-la, nenhum animal faz isso, pelo menos até agora.

Essa prefiguração ideal do resultado real diferencia radicalmente a atividade do homem de qualquer outra atividade animal que, externamente, pudesse se assemelhar a ela. “Uma aranha – diz Marx – executa operações que se assemelham às manipulações do tecelão, e a construção das colmeias pelas abelhas poderia envergonhar, por sua perfeição, a mais de um mestre-de-obras. Mas há algo em que o pior mestre-de-obras leva vantagem, de imediato, em relação à melhor abelha, e é o fato de que, antes de executar a construção, projeta-a em seu cérebro. (VÁZQUEZ, 2007, p.223)
Vamos percebendo claramente que não podemos comparar a atividade animal à atividade humana pelo seu resultado, produto (exterior). A consciência humana que produz fins, que adequa e elabora a tecnologia necessária, que elabora conceitos, teorias, objetivos, finalidades, princípios, hipóteses e leis, faz toda a diferença. É preciso que nós entendamos de vez que, no produto, está tanto a transformação objetiva da matéria-prima em produto, quanto à transformação subjetiva do ser humano que o produz. Na atividade humana a exterioridade (produto) e a interioridade (subjetividade humana – inteligência, perspicácia, criatividade, persistência e demais potencialidades pessoais e coletivas) se encontram, num processo permanente de transformação.
Vázquez (2007) afirma que toda práxis é atividade humana, mas nem toda atividade humana é práxis. Práxis, professor? Por que o autor acima ainda faz essa diferenciação entre atividade humana e práxis? Não está complicando demais? Não. Respondo eu.
Muitas atividades humanas não são práxis. Por que Joselito? Porque, segundo Vázquez (2007) a atividade humana tem duas dimensões: uma é a atividade cognoscitiva, a outra é a atividade teleológica. A atividade cognoscitiva se refere a uma realidade passada ou presente, que se pretende conhecer sistematicamente através do metódico exame teórico. A teleológica refere-se a uma realidade futura, ainda inexistente, que se pretende concretizar através da ação prática de transformação da realidade presente que negamos porque nos nega. “Por outro lado, a atividade cognoscitiva em si não implica uma exigência de realização, em virtude da qual se tende a fazer do fim uma causa da ação real.” (p.223). De fato, a consciência de uma situação e o conhecimento de uma realidade e de seus desdobramentos não nos leva a agir. Podemos até rejeitar um futuro que previmos através de nossa atividade teórica, que é também uma atividade humana.

Quer se trate da formulação de fins ou da produção de conhecimentos, a consciência não ultrapassa seu próprio âmbito; isto é, sua atividade não se objetiva ou materializa. Por essa razão, tanto uma como outra são atividades; não são, de modo algum, atividade objetiva, real, isto é práxis. (VÁZQUEZ, 2007, p. 225)
Somente quando a atividade cognoscitiva e a teleológica se encontram na transformação real, prática, de um objeto, de uma realidade é que a práxis acontece. Entenderam? Não é o blábláblá, como diria Paulo Freire no seu Pedagogia do Oprimido. Nem a atividade por si mesma - o ativismo - destituída de reflexão, de atividade cognoscitiva, mas a união dialética entre teoria e prática visando e agindo na transformação da realidade é que constituem a práxis. “Em consequência, [na práxis] as atividades cognoscitiva e teleológica da consciência se encontram em uma unidade indissolúvel.” (VÁZQUEZ, 2007, p. 225)
Portanto, a experiência, destituída de reflexão crítica, não é parâmetro para o conhecimento da realidade, no sentido de seu conhecimento teórico e de sua transformação prática, prática esta dirigida pelos fins que a teoria propiciou. Entenderam gente? Isso não significa que uma pessoa analfabeta, envolvida num grupo, movimento ou instituição social, não seja capaz de transformação da realidade. Olha o caso dos sem terra. Mas fiquem sabendo que os sem-terra estudam em grupo, refletem teoricamente a sua realidade, identificam os princípios e as conexões que os mantêm na condição de “sem-terra” e agem, dirigidos por suas lideranças, no sentido da transformação de tais princípios e conexões que dirigem a realidade política, social, econômica e cultural que os negam enquanto sujeitos de direitos. O objetivo dos sem-terra é maior do que o simples objetivo de passarem a estar "com-terra". Não é um objetivo de poder com restrita finalidade econômica, mas com uma finalidade político-filosófica mais ampla: a de que a terra não tenha dono, que seja de todos e todas. Para isso, não basta "ter a terra", é preciso mudar inteiramente o sistema baseado no princípio geral da propriedade privada.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, TENTANDO ESTAR NA PRÁXIS, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel



[1] VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Filosofia da práxis. 1. ed. Buenos Aires: Consejo Latino Americano de Ciencias Sociales – CLACSO; São Paulo: Expresso Popular, Brasil, 2007.

terça-feira, 6 de maio de 2014

PATÓPOLIS

 (Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, fatos, pessoas ou situações da vida real terá sido mera coincidência?)
Num certo lugar imaginário...
Tio Patinhas nada em seus milhões subtraídos dos patos através da corrupção.
Os Irmãos Metralha fuzilam patos e patas que precisam sair às ruas para, por exemplo, comprar pão. Como naquele jogo de parque de diversões ganham o ursinho roubado das crianças Zezinho, Huguinho e Luizinha.
Manda-Chuva vem de outra história para governar a violência, a corrupção, o cinismo, o descaso com a saúde, a segurança, a educação e a infraestrutura. Enrola os patos contribuintes com propagandas feitas pelos seus paus mandados.
Bafo de Onça foi um intelectual. Não suportando tanta miséria e cinismo caiu na cachaça e agora vive de bar em bar, de posto em posto de doença do município, entre a cirrose e a indignação alucinada.
Pato Donald era um pato. Funcionário Público pagador de impostos, vivia nervoso praguejando no sofá velho em frente à tv.
Gastão só vive devendo. Comprou carro financiado sem prestar atenção aos juros e não tem dinheiro para encher o tanque. Seu cartão tá estourado e mais da metade do seu salário tá comprometido. Vive, literalmente, de bico.
Pateta, também de outra história, não deixa de ser um pato. Assiste novela, BBB e acredita em papai noel, duende e Jornal Nacional. Só vive rindo. É do time do Peninha.
Mickey. Trabalha na polícia. Arrisca sua vida todos os dias, trabalha com armas antigas e ganha uma merreca. Desconta sua ira no morador da favela. Nunca sai fardado de um quadrinho para o outro.
Margarida era professora do estado. Vivia sempre em crise com o Donald. Também fazia uns bicos pra complementar a renda. Percebeu que Donald não passava de um pato.
Peninha. Chega dá dó. Ficou aluado depois de acreditar piamente nas promessas de Manda-Chuva. Envolveu-se denodadamente na campanha e recebeu uma banana direto de Barcelona. Vive atrás de remédios controlados que estão faltando nos postos de doença do estado. É voluntário na Copa do Mundinho, que se realiza no Brasil.
Ah. Margarida e Donald foram fuzilados pelos Irmãos Metralha numa tentativa de assalto bananal, deixando órfãos Huguinho, Zezinho e Luizinha.

Joselito da Nair, do Zé, da Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

quarta-feira, 26 de março de 2014

A GENTE NÃO QUER SÓ COMIDA. A GENTE QUER PODER!

O fato das classes populares procurarem a educação sistemática nas escolas, cursos técnicos privados, como é o caso do SENAI e do SENAC e universidades, para inserirem-se no mercado de trabalho, a fim de garantir a sua existência primária gera, a meu ver, um sério distúrbio na formação política dos indivíduos que pertencem a tais classes sociais e culturais, levando-os à distinção prejudicial entre a educação para o trabalho e a educação para a formação filosófica e política tal como a ditadura e os Estados Unidos sempre quiseram.

A divisão social do trabalho no perverso regime capitalista brasileiro gerou, inevitavelmente, a divisão social da educação. As classes médias e as elites intelectuais sempre encontraram na universidade pública o espaço da realização de seus interesses e de solução de suas necessidades, enquanto as classes populares sempre procuraram as escolas da educação básica e as escolas técnicas como caminho para o acesso ao emprego e na esperança de uma ascensão social que o capitalismo prometia em suas propagandas ilusórias. Daí que as mobilizações sociais e as lutas políticas no campo educacional, consequentemente, refletiram essa realidade. Os desdobramentos desse fenômeno são visíveis na realidade educacional brasileira.

Para a grande maioria da população, o acesso à educação e à formação profissional é uma forma de garantir a sobrevivência e mesmo a ascensão social. E isso, obviamente, não é em si errado. O que está certamente errado é que os jovens procurem uma profissão não em virtude de suas aptidões, mas dos movimentos no mercado de trabalho, e às vezes entrem numa carreira contra suas próprias aptidões e preferências. Para essas pessoas, o custo psicológico ou emocional pode não ser pequeno com o passar dos anos. (DUTRA, 2000, p.12-13)
Não somente um custo psicológico ou emocional, na dimensão individual, mas principalmente na dimensão política da organização e ação coletiva. Agora eu entendo perfeitamente a proposta de Miguel Arroyo, quando eu era mais jovem, ainda estudante da Universidade Católica do Salvador, quando este pesquisador, afirmava que a escola devia derrubar os seus muros e ser educada pelo movimento social. A escola, com seu currículo formal, faz desaparecer as classes sociais e invisibiliza a importante luta política dos movimentos sociais. No sentido de educação política dos educandos, há na verdade, uma “deseducação”, que “des-ensina” que o estudo é que a mola propulsora para a ascensão social, ou seja: uma mentira deslavada em se tratando da coletividade organizada em classes e movimentos sociais. Não sou contra as pessoas estudarem, alcançarem posições outras na sociedade, afinal, como diria um grande profeta, uma luz não é para ficar embaixo de uma cama, mas no centro da sala, iluminando o ambiente inteiro. Contudo, todas as pessoas são luzes, pelos menos quando nascem. Mas o capitalismo, unido ao racismo, ao machismo, à homofobia e à luta de classes no Brasil, apaga muitas luzes de mulheres, negros, homossexuais e pobres, por exemplo, para que somente as luzes dos brancos, heteros e machos apareçam no palco social.

O resultado ideológico disso é fatal para a compreensão política de uma transformação social, não apenas individual, da realidade capitalista hegemônica. Muitos de nós, inclusive eu, até ontem, acredita que utilizando a nossa inteligência individual alcançaremos uma colocação melhor no mercado de trabalho e, como desdobramento, uma melhor condição econômica, social e cultural, como eu alcancei. Mas não estou feliz. Não me sinto realizado. Estou na mesma situação que Raul Seixas estava outrora, refletindo sobre seu “ouro de tolo”:
Eu devia estar contente
porque eu tenho um emprego
sou um dito cidadão respeitável
e ganho quatro mil cruzeiros
por mês
Eu devia agradecer ao Senhor
por ter tido sucesso
na vida como artista
eu devia estar feliz
porque consegui comprar
um Corcel 73
 
Eu devia estar alegre
e satisfeito
por morar em Ipanema
depois de ter passado fome
por dois anos
aqui na Cidade Maravilhosa
Ah!
eu devia estar sorrindo
e orgulhoso
por ter finalmente vencido na vida
mas eu acho isso uma grande piada
e um tanto quanto perigosa
Eu devia estar contente
por ter conseguido
tudo o que eu quis
mas confesso abestalhado
que eu estou decepcionado
[...] Ah!
Mas que sujeito chato sou eu
que não acha nada engraçado
macaco, praia, carro
jornal, tobogã
eu acho tudo isso um saco
É você olhar no espelho
se sentir
um grandessíssimo idiota
saber que é humano
ridículo, limitado
que só usa dez por cento
de sua cabeça animal
e você ainda acredita
que é um doutor
padre ou policial
que está contribuindo
com sua parte
para o nosso belo
quadro social

 
O “nosso belo quadro social” só será transformado quando percebemos que nossa ascensão individual é irrelevante do ponto de vista de uma ascensão social. O mundo está um merda, e o Brasil está uma bosta. E eu estou nessa bosta de oito milhões de metros quadrados, que exala seu odor nos inúmeros assassinatos de milhares de pessoas, todos os anos, principalmente as de pele negra; eu estou nesse bosta de educação pública que leva centenas de semianalfabetos para a universidade; eu estou nessa bosta de administração pública que gesta a corrupção governos afora. Há centenas de campos de concentração nesse país! Milhares de espaços dominados pelo tráfico que se retroalimenta do interesse das elites brancas que nos governam. E assim vamos perecendo como povo, como nação.

O custo político disso é gravíssimo. Vamos nos dividindo, cada vez mais, torcendo para um pai, seja Getúlio em outros tempos, seja Lula em nosso tempo, deixando de ser um povo altivo e lutador e nos transformando num mero grupo imenso de pedintes, de mendigos do poder, unidos pela pobreza econômica e política que nos condiciona, estendendo nosso voto, sem entender o nosso ato. Penso que, na Bahia e no Brasil, já passou muito da hora do homem/mulher simples deixar de ser simplório e tornar-se sofisticado, principalmente os mais pobres. Uma das primeiras tarefas nessa direção é começar a unir educação e trabalho, de modo tal, que desenvolva sua inteligência política, sua sagacidade discursiva, sua criatividade crítica a tal ponto que enfrente toda a enxurrada de banalidades que os bombardeiam nesse mundo da imagem superficial, que os tratam como uma reles marionete no joguete político que agora se apresenta. Precisamos ser bons técnicos, mas técnicos filósofos, que identifiquem as manobras ideológicas concebidas com o intuito de nos separar, de fazer com que acreditemos na balela de que a concorrência de mercado é que vai nos tornar mais aptos para sermos inseridos na “sociedade”.

Vamos deixar de ser simplistas e simplórios, agradecer a Deus por tudo, resignados. Temos de ser como Jó, e demonstrar que estamos insatisfeitos com esse país de bosta. Precisamos acordar desse pesadelo que a ideologia dominante nos faz sonhar. Precisamos querer mais e mais, ir cantando com os Titãs, como Titãs, afinal, é isso que o povo unido é: um titã!

Bebida é água!

comida é pasto!

Você tem sede de que?

Você tem fome de que?...
 

 A gente não quer só comida

a gente quer comida

diversão e arte
 

A gente não quer só comida,

a gente quer saída

para qualquer parte...

 A gente não quer só comida
a gente quer bebida

diversão, balé

A gente não quer só comida

a gente quer a vida

como a vida quer...

Bebida é água!

comida é pasto!

Você tem sede de que?

Você tem fome de que?...


Nós queremos alegria, nós queremos educação de alta qualidade, nós queremos estradas pavimentadas sem pedágios, nós queremos seriedade e agilidade dos governantes, nós queremos corruptos na cadeia sem regalias, nós queremos uma cidade que respeite a todos (as) e uma polícia que proteja a todos (as); nós não queremos copa do mundo, nem queremos “salvar a seleção”. Queremos que a seleção, com seus milionários jogadores, se lasque! Queremos uma educação que nos ensine a perceber as contradições sociais e a estabelecer posicionamentos sociais e políticos diante da negação da maioria da humanidade brasileira. E você? Quer o quê?
Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel
Com o auxílio de

DEMO, Pedro. Pobreza política: a pobreza mais intensa da pobreza brasileira. Campinas, SP: Armazém do Ipê (Autores Associados), 2006.
DUARTE, Newton. Sociedade do conhecimento ou sociedade das ilusões?: quatro ensaios crítico-dialéticos em filosofia da educação. Campinas, SP: Autores Associados, 2003.
FRIGOTTO, Gaudêncio. Educação e a crise do capitalismo real. 5. ed., São Paulo: Cortez, 2003.
Raul Seixas e Titãs.
  

quarta-feira, 5 de março de 2014

DEMOCRACIA DE ATADURA


Vivemos num tempo de democracia de atadura. O que é uma democracia de atadura? É um sistema político frágil, baseado em propaganda, pão e circo para o povo, mantendo-o na ilusão de que ganha espaço e amplia sua participação nas decisões principais que se referem à gestão do município, do estado, do país, quando na verdade recebem apenas umas migalhas da mesa farta dos governantes e seus apaniguados. Uma democracia de atadura cobre a ferida, mas não a cura, porque não é de seu feitio curar, mas deixar a ferida aberta da América baiana e brasileira a fim de alimentar-se dela, como o médico canalha fazia para ter sempre o paciente pagando pela consulta.

Na democracia de atadura a educação é apenas uma promessa a ser realizada num futuro. Aliás, nunca vi um estado e um país para ter tanto futuro e tão pouco presente. Nossa educação é de fingimento, de diploma, de comemorações e festas de formaturas sem mérito. Nossos estudantes estão chegando à universidade praticamente semianalfabetos. Nossa cultura valoriza muito uma bunda bonita e dançante, mas pouco uma mulher inteligente, sensível, firme, elegante e também com uma bunda bonita e dançante. Uma coisa não exclui a outra, Graças ao Pai! O problema é que tanto nosso povo, quanto nossa imprensa e governos, valoriza apenas a bunda. E corre o perigo da mulher tornar-se apenas sua bunda, e nada mais. Com uma educação nesse nível, de bunda de fora, poucos se interessam pela inteligência, pelos livros, pelas ideias e ideais. Tesão? Só quadril abaixo da linha do umbigo ou acima da linha do meio de campo. Biblioteca? Espaço marginal, investimento jogado fora. A grande ignorância vai crescendo em meio ao povo e uma educação de atadura vai envolvendo os seus lábios, borrando sua pronúncia, sufocando suas palavras, atando sua percepção da realidade e permitindo-lhe um espaço restrito de interpretação.

A saúde pública no Brasil também é de ataduras. Ai de quem precisa de atendimento sério nesta Bahia e neste Brasil. Meu filho fez uma cirurgia no braço que havia quebrado, mas começou a sangrar por causa de sua teimosia em fazer movimentos bruscos. Então um cheiro desagradável começou a exalar. Saí à procura de atendimento aqui na Manoel Dias da Silva, Pituba. Nada de COT, nada de ECO, nada de atendimento. Disseram que não mexem em cirurgia feita por outra instituição de saúde. “– Tem de ir no local.” Recomendaram. Só que o “local” fica no Canela que, em pleno carnaval, não dá pra chegar. Tive de esperar até hoje, quarta-feira de cinzas, pois percebi que Rafa não apresentava estado febril. E isso para quem tem o PLANSERV! Fico imaginando uma pessoa mais desprovida de recursos, como será o tratamento?

A segurança pública no Brasil é só para turista e para instituições financeiras. Os ricos do nosso país se viram com segurança privada. E sobre as instituições financeiras do interior nem segurança pública têm. As explosões de caixas eletrônicos Bahia adentro é sinal claro de que a bandidagem deita e rola em nosso estado, cuja inteligência policial não me parece muito inteligente, pois não preparou-se devidamente para o impacto da expulsão dos traficantes dos morros cariocas. Aqui em Salvador cada esquina de um bairro de periferia tem um “dono da boca”, onde clientes de classe média e classe alta vão realizar suas comprinhas semanais, atrás da ilusão química que impulsiona suas ideias e realiza suas fantasias. E todos ganham! Menos os futuros defuntos jovens negros que ocupam as pontas do sistema.

Na democracia de atadura o governo não pede desculpas pelo que não fez, muito pelo contrário: espera aplausos pelo que deixou de fazer, mas um dia, quem sabe, fará. Coloca uma atadura, em forma de tapume, nas obras paradas e espera a chuva passar. Em nossa democracia de atadura o governo não tem plano, faz programa. E faz programa desde a campanha eleitoral até o último dia de seus desgovernos. Aqui, na democracia de atadura, os partidos não têm programa, fazem programa, como diria uma crítica feita ao PMDB. Quem está no governo oferece cargos em secretarias criadas especialmente para isso. Os partidos que vão formar a base aliada baixam suas calcinhas e cuecas e se oferecem desavergonhadamente para o governo cheio de tesão pelo controle do dinheiro público, com o qual “come” a lealdade oferecida em cada esquina das assembleias legislativas, das câmaras de vereadores e do Congresso Nacional. É um puteiro só!

E o povo, com sua bolsa família, vai comendo as migalhas que lhe oferecem os governos. E o povo quando se revolta, recebe um dedo sui generis que somente a charmosa, elegante e fina primeira dama do estado pode oferecer a partir de seu principado. É nesse momento que me lembro de Chico Buarque, um Chico de outro momento, mas que agora, nessa democracia de atadura, parece-me tão atual, tão realista...

Aqui na terra tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll
 
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
muita mutreta pra levar a situação
 
que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
e a gente vai tomando que, também, sem a cachaça
ninguém segura esse rojão.
 

Joselito da Bahia e do Brasil,

Com uma ajudinha de Chico Buarque do passado.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

RABISCO DE NAÇÃO

 
Não tem nada a perder

tem mais não!

nada mais tem a fazer

perdição!
 

Não se foi e acabou

nem se fez

o que muito se falou

se desfez.

 
O que era pra sonhar

pesadelo

o que era pra organizar

desmantelo.

Era pra emancipar

excluiu

também era pra educar

só fingiu.

 
Meu Brasil, meu país!

um rabisco de nação

seus governos o assaltam

gestam a corrupção.

 
Era para proteger

abandonou

era para preservar

desmatou.

 
Também era pra prender

relaxou

o Brasil do futuro

o passado aprisionou.

 
Meu Brasil, meu país

dependura a chuteira

vai, liberta-se da mentira

com uma “benção” da capoeira!

 
Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel. 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

NÃO VINDE A MIM AS CRIANCINHAS

Nas últimas semanas a questão da pedofilia tem sido bastante debatida em âmbito nacional e internacional. No Brasil, um prefeito da cidade de Coari, Amazonas, Adail Pinheiro, além de alguns assessores próximos, está sendo acusado de abusar sexualmente de crianças na cidade acima mencionada. Segundo reportagens

[...] ele é acusado de chefiar uma rede de exploração sexual de crianças e adolescentes no município localizado a 363 km de Manaus. Adail e outros seis foram denunciados pelo Ministério Público do Estado do Amazonas (MPE-AM) na sexta-feira (7), com pedido de prisão de seis acusados. (http://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2014/02/no-am-prefeito-preso-por-pedofilia-se-entrega-e-segue-para-batalhao-da-pm.html)

Do mesmo modo, Sérgio Belleza, autor de livros, em publicação no dia 05 de fevereiro de 2014, página 2, do jornal Correio, também denuncia o modo como nossa sociedade brasileira lida com essa monstruosidade. Segundo este autor

A sociedade brasileira está atônica, confusa, desacreditada, diante talvez do pior dos males, a exploração infantil, muito em voga, e mais presente ainda em tempo de férias, alegria, festa, de verão e turistas.

Vivemos entre o bem e o mal, o belo e o feio, e assim o homem vai exterminando a dignidade do próprio homem. Filhas de famílias desajustadas, crianças pobres, trocam sexo por dinheiro, por comida [...]

O número de meninas prostituídas é alarmante no Brasil, fala-se em mais de 120 mil meninas prostituídas. O Norte e Nordeste, Salvador e Recife ganham facilmente. O “pornoturismo” ou exploração infantil está presente, aniquilando definitivamente tudo de bom e bonito que uma criança possa vir a ter [...] (BELLEZA, 2014, p.2)

Turistas mal intencionados - muitos desses pensam que a maioria, senão todas, das mulheres brasileiras são prostitutas - padres pedófilos, leigos doentios, pastores e padrastos igualmente pedófilos, entre outros "lobos maus", formam uma rede maldita de predadores de inocentes, tecida,  inclusive, por olhos fechados e ouvidos tapados na sociedade, que pesca crianças a fim de devorá-las, comprometendo todas as suas existências e dando-lhes um testemunho concreto de que “o homem é o lobo do homem”. 

Todos nós temos nossas sombras, e o maior erro da humanidade foi não tê-las admitido. Pensamos, e até hoje, que o ser humano era apenas sapiens, contudo, ignoramos o demens. “Quando o povo não teme o terrível, então vem o grande terror” (Lao Tzu). Na Bíblia, Jesus só expulsa o demônio quando este diz o seu próprio nome. Nós temos dificuldade de pronunciar o nome do (s) demônio (s) que nos aflige (m), ou que também somos, e por isso a grande dificuldade de libertar-se dele (s). Observo algumas pessoas fingindo que “conheceu Jesus”, que “está com Jesus”, que “Jesus é a causa do seu sucesso” e que, a partir da data em que disse seu “sim” ao Senhor, passou da água pro vinho, como um milagre indolor.

Ora, penso que toda verdadeira conquista exige um desafio decente a ser superado. Exige uma longa travessia na qual o maior desafio, como diria Buda, não são os outros, nem as circunstâncias – dificuldades, perigos, obstáculos – mas nós mesmos. A travessia pode até não ser completada, mas o querer deve ser. Ou a gente faz porque adotamos que deve ser feito por valores que carregamos, ou fingimos a vida inteira com palavras que criamos para esconder verdadeiramente quem somos. Infelizmente vivemos numa cultura de fingimento. A travessia não é fácil. Para que a gente renasça de nós mesmos é preciso muita concentração, firmeza de propósitos e enfrentamentos. Eu tenho um poema que fiz e depois entreguei para a amiga Fátima, a partir do título de um livro de Pablo Neruda: “Para nascer, nasci.” Neste poema eu digo que estou renascendo, que as dores do meu parto, só eu que sinto. A travessia é um processo de gestação, de longa caminhada, de enfrentamentos difíceis com o nosso ser-sendo. E parir dói. Principalmente quando o nascituro somos nós mesmos. Principalmente quando o renascimento precisa, concomitantemente, de um ou mais abortos num processo dialético tenso e intenso.

É preciso ter muita coragem para encarar quem somos, despindo-nos das mentiras e ilusões que povoam o nosso ser. Alguns dizem até que as mentiras cumprem uma função de proteger-nos de nós mesmos, a fim de que possamos seguir com certo equilíbrio mental. Mas não acredito nas mentiras e na sua capacidade de nos proteger. Creio mesmo que as mentiras nos atrasam, nos enchem de ilusões, as vezes por toda a vida, nos embala na hipnose na qual somos "outro (a) mais", como se os demônios vivessem apenas nos (as) "outros (as) menos".

Voltando ao caso da pedofilia, o Arcebispo de São Salvador da Bahia e primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger, escreveu, no último domingo, 9/2/2014, texto para o jornal A Tarde, intitulado “A ONU, as crianças e a Igreja”, referindo-se às acusações do Comitê sobre os Direitos da Criança das Nações Unidas. Krieger reconhece os casos cometidos por membros do clero, afirmando que tais atos

[...] são condenáveis e mais ainda quando envolvem menores de idade. Um só caso já seria suficiente para nos deixar tristes e decepcionados, pois é inimaginável o mal que um adulto causa a uma criança indefesa, quando a fere no mais profundo de sua dignidade e sensibilidade. (KRIEGER, 2014, p.A3)

Ainda segundo Krieger, a Igreja, através do Papa Bento XVI

[...] criou uma Comissão especial para acompanhar e dar uma resposta às diversas acusações que chegaram a seu conhecimento. O papa Francisco não só seguiu na mesma linha como, além disso, reforçou o papel dessa comissão. Quem quiser conhecer a atuação da Santa Sé sobre esse tema poderá se debruçar sobre os mais de 50 itens que estão no site do Vaticano (www.vatican.va) na coluna à esquerda: “Abusos de Menores. A resposta da Igreja.” (KRIEGER, 2014, p.A3)

Eu fiquei curioso e fui ler um dos comunicados, feito pelo Arcebispo de Freiburg im Breisgau, Dom Robert Zollistsch. Neste comunicado, ele diz que, acerca da igreja na Alemanha:
  • ·         O papa Bento XVI tomou conhecimento com grande tristeza e emoção dos casos de abuso sexual de crianças;
  • ·         Os bispos alemães estão profundamente transtornados pelos abusos que foram possíveis no ambiente eclesial;
  • ·         Foi feito um reiterado pedido de desculpas às vítimas;
  • ·         Os casos foram verificados há muitos anos;
  • ·         Garantiram às vítimas e seus parentes uma ajuda humana, terapêutica e pastoral;
  • ·         Reforçaram a prevenção, com aumento da vigilância.
Evidentemente não se pode julgar uma instituição pelo que alguns de seus membros fazem. Mas podemos avaliar criticamente as respostas que a instituição dá. No caso do documento acima, eu assisti numa reportagem de tv que o outrora bispo Ratzinger já tinha tomado conhecimento de casos de abuso, mas preferiu ocultar, “com grande tristeza e emoção”, suponho. Os bispos alemães profundamente transtornados, nunca vieram a público para expressar esse “transtorno coletivo" de parte do clero alemão. O pedido de desculpas às vítimas é só um passo das atitudes que a igreja deve tomar. A garantia às vítimas e seus parentes de uma ajuda humana, terapêutica e pastoral – a pastoral eles e elas, creio, devem evitar – soa como uma garantia de que elas fiquem em silêncio, afinal, a igreja afirma, através do documento de Dom Robert Zollistsch, que não denunciarão o clérigo acusado às autoridades judiciárias se a vítima assim o quiser: “Renunciaremos a fazê-lo unicamente em circunstâncias extraordinárias, por exemplo quando isto corresponder ao desejo expresso da vítima.” Que garantias teremos de que as vítimas não serão seduzidas a, “num ato de compaixão e misericórdia” – típico da Igreja Católica – não denunciar o acusado de pedofilia às autoridades judiciárias?

O fato dos casos ter sido verificado há muitos anos também é outro dado importante. O implícito do texto nos diz que podemos respirar aliviados, visto que não há mais casos de abuso sexual de crianças na Igreja. Foi no passado. Acabou. Passou. E isto associado às Normas Substanciais elaboradas pela Congregação para a Doutrina da Fé, que, no artigo 7.º afirma que:

§ 1. Salvaguardando o direito da Congregação para a Doutrina da Fé de derrogar à prescrição para cada um dos casos, a acção criminal relativa aos delitos reservados à Congregação para a Doutrina da Fé extingue-se por prescrição em vinte anos.

Como a maioria dos casos denunciados aconteceu há muitos anos, e, segundo eles, não acontece mais, tais delitos foram prescritos no âmbito eclesial. Pecado sem delito, crime sem castigo.

Em todas as leituras e reportagens que tenho assistido percebo que a Igreja saiu da defensiva e foi para a ofensiva diante das cobranças do Comitê da ONU, inclusive insinuando que o mesmo Comitê é suspeito, na tentativa de desqualificar o documento a partir da suspeição dos seus autores. Trechos abaixo do texto de Krieger (2014) evidenciam isso.

No relatório apresentado na última quarta-feira (05.02.214), o Comitê sobre os Direitos da Criança na ONU esqueceu, contudo, daquela advertência popular: “O sapateiro não deve ir além da sola!” É que, além de não levar em conta a maioria das recomendações de proteção à criança que já são defendidas pela Igreja, e de ignorar a maior parte do que está sendo feito pela Igreja, o Comitê foi além: julgou-se no direito de criticar vários pontos da doutrina católica, questionando sua visão sobre o aborto, a família, a complementaridade do homem e da mulher, o casamento homossexual, a contracepção etc. – enfim, sobre ensinamentos que, para a Igreja, não são negociáveis.

[...] Que direito tem um comitê, mesmo que da ONU, de querer se imiscuir em questões doutrinais ou morais de uma religião? Claro: o comitê em questão é formado por pessoas que têm suas próprias ideias, sua filosofia de vida e, também, suas ideologias. Quem desconhece a pressão que comitês como esse sofrem de ONGs internacionais? (KRIEGER, 2014, p. A3)

Krieger tenta, de fato, desqualificar as denúncias e exigências colocadas pelo Comitê, a partir da crítica ao contexto de descoberta – ou seja, o modo como seus autores e suas autoras elaboraram o documento e suas filiações políticas e ideológicas – deixando de lado o contexto da justificação. Krieger apela para a falácia genética, pois, nesta falácia, uma verdade deixa de ser verdade a partir do autor que a expressa ou elabora. Assim como os nazistas condenaram a teoria da relatividade porque seu autor era judeu, Krieger tenta desqualificar as denúncias e exigências contra a pedofilia no âmbito da Igreja Católica porque seus autores e suas autoras podem ter uma ligação com ONGs internacionais.

Segundo uma das reportagens

Um relatório sem precedentes do Comité para os Direitos da Criança, apresentado em Genebra, concluiu que os abusos foram “sistemáticos” e pede à Igreja Católica que entregue os seus arquivos sobre abusos sexuais para que todos os casos sejam conhecidos, “até os escondidos”.
Mais, é recomendado que a comissão criada no ano passado pelo Papa Francisco para investigar estes crimes avalie também, com precisão, a forma com a hierarquia da Igreja Católica lidou com os casos.
“O Comité está preocupado com o facto de a Santa Sé não reconhecer a extensão dos crimes cometidos, que não tenha dado os passos necessários para proteger as crianças e que tenha adoptado um comportamento e tomado decisões que levaram à continuação dos abusos e à impunidade dos predadores”, diz o documento apresentado em Genebra. (http://www.publico.pt/mundo/noticia/onu-exige-ao-vaticano-prisao-imediata-de-todos-os-padres-pedofilos-1622443)
Para as crianças e demais menores atingidos ficam o tratamento terapêutico e pastoral, a “ajuda humana”, o pedido de desculpas, etc. Mas sobre a identificação e a punição dos culpados, silêncio completo.

A Igreja recusa-se fazer a grande travessia que ela mesma propõe aos pecadores, aos outros. Está mais preocupada com a sua imagem ilusória de “santidade” do que reconhecer e corrigir seu caminho de pecadora. Mas é nesse processo que o seu demens cresce, ganha força, veste-se nas aparências de uma igreja que esconde os seus graves pecados embaixo do tapete, pois eles só apareceram quando não houve mais a possibilidade de ocultá-los. A preocupação do Comitê sobre os Direitos da Criança da ONU sobre os passos da Santa Sé têm sentido. Numa sociedade humana como a nossa que, por trás dos disfarces hipócritas que usa, crianças pagam com suas existências a impunidade de bestas humanas, estejam elas de bata ou de gravata. É preciso enfrentar a desumanidade que nasce do crime e de sua impunidade, é preciso reconhecer sinceramente os demens que coexistem conosco a fim de prevenirmos diante de seus futuros ataques aos inocentes desprotegidos do mundo, caso contrário, seria melhor admitirmos o nosso instinto de predador diante de presas desprotegidas nas savanas do mundo, pelo menos na selva a presa ainda tem a chance de escapar.  

P.S. Sugiro aos fervorosos católicos que participaram da caminhada em homenagem ao Senhor do Bonfim, desafiando uma tradição do povo africano em Salvador, que montem uma vigília, digo, vigilância, neste carnaval, a fim de identificar suspeitas de prostituição infantil, combatendo o "pornoturismo". Seria um pedido de desculpas mais concreto e aceitável.  

Joselito M. de Jesus,

BELLEZA, Sérgio. Salvador, verão, festa, turista e prostituição infantil. Correio. Salvador, p.2, 5/2/2014.
KRIEGER, D. Murilo S. R. A ONU, as crianças e a Igreja. A Tarde. Salvador, p. A3, 9/2/2014
SALMON, Wesley C. Lógica. 6. ed., Rio de Janeiro, RJ: Editora Guanabara S. A., 1987.
TZU, Lao. Tao-te king: o livro do sentido e da vida. 13. reimpr. São Paulo: Pensamento, 2006.

 http://www.vatican.va/resources/resources_presidente-conf-ep-tedesca_po.html

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

JOÃO E KIM

João e Kim nasceram em 21 de junho de 1970, dia em que o Brasil ganhou a Copa do México. Os pais de Kim eram professores; os de João também. Kim sempre estudou em escola pública; João também. Kim ama futebol; João também. Kim é da classe média em seu país; João também. Os pais de Kim já se aposentaram; os de João também. Kim e João trabalham na mesma empresa, uma multinacional líder mundial em tecnologia. Kim é engenheiro e ganha R$ 7.100,00 por mês. João não chegou a terminar o ensino médio, ganha R$ 1.900,00 por mês. Kim trabalha na sede da multinacional e é chefe do chefe de João, que trabalha aqui no Brasil.

Onde os caminhos de Kim e João se separaram? A cegonha deixou Kim na Coreia do Sul, João no Brasil. Em 1960, a renda per capita na Coreia era metade da brasileira. Em 1970, eram parecidas. Hoje, na Coreia, ela é três vezes maior do que a nossa.

Como as vidas de centenas de milhões de Kims e Joãos tomaram destinos tão diferentes em poucas décadas? Educação, educação e educação.

O país dos Kims investiu no ensino público básico, de qualidade e acessível a todos. O governo coreano gasta quase seis vezes mais do que o brasileiro por aluno no ensino médio. Na Coreia, um professor de ensino médio ganha o dobro da renda média local; no Brasil, menos do que a renda média. Com isso, os Kims estão sempre entre os primeiros lugares nos exames internacionais de estudantes de ensino fundamental e médio – muitas vezes, em primeiro lugar. Os Joãos, melhor nem falar.

Só após garantirem uma boa formação básica e bom ensino técnico, os coreanos investiram em ensino universitário. Ainda assim, a Coreia tem três universidades entre as 70 melhores do mundo. O Brasil não tem nenhuma entre as 150 primeiras. Hoje, a Coreia do Sul, é, em todo o mundo, o país com maior percentual de jovens que chegam à universidade – mais de 70%, contra os 13% no Brasil. De quebra, o país do Kims forma oito vezes mais engenheiros do que nós em relação ao tamanho da população de cada um. Tudo isso com um detalhe: a Coreia gasta menos com cada universitário do que o Brasil, mas forma quatro vezes mais Ph.Ds. per capita do que nós.  

Para cada won gasto com a aposentadoria do pai de Kim, o governo coreano gasta 1,2 won com a escola do seu filho. No Brasil, para cada real gasto pelo governo com a aposentadoria do pai de João, ele gasta apenas R$ 0,10 com a escola do Joãozinho.

No ano que vem, os pais de Kim virão para a Copa do Mundo no Brasil. A mãe de João já tinha falecido, mas seu pai quis muito ir à Copa da Coreia e do Japão em 2002, mas não tinha dinheiro para isso. Há um ano, ele está fazendo uma poupancinha e ainda está esperançoso em ser sorteado para um dos ingressos com desconto para idosos para ver um jogo da Copa de 2014, nem que seja Coreia do Sul x Argélia. Como os ingressos com desconto para idosos são poucos e concorridos, as chances de seu João são baixas. Se conseguir quem sabe ele não se senta ao lado do Sr. e da Sra. Kim. Pena que seu João não teve a chance de estudar inglês. Eles poderiam conversar sobre os filhos.

Ricardo Amorim é economista, apresentador do programa “Manhattan Connection” da Globo News, e presidente da Ricam Consultoria.

Publicado na Revista Isto É, n.º 2301, 25/12/2013, página 114.