quarta-feira, 6 de agosto de 2014

SININHO, OS BLACK BLOCS E A TERRA DO NUNCA


 É uma confusão. Aparentemente não dá pra entender direito o que está acontecendo e, por isso, escrevo. Quando escrevo registro meu pensamento e depois posso olhar para ele, corrigi-lo, reencaminhá-lo, ou mesmo endurecer ainda mais o tom ou, simplesmente, deixá-lo em paz. 

As manifestações de junho do ano passado, para mim, foram a mais criativa e inovada forma de expressão política dos últimos tempos nesse país. Nelas não tiveram líderes, não houveram vozes únicas, nem palanques para essas vozes "tomarem corpo", nem heróis. Houve, e ainda há, um povo indignado querendo mudanças urgentes em nosso sistema político, jurídico, de saúde, de educação e de segurança, que afetam mais imediatamente a população, além de indignação perante o controle dos corpos e da sexualidade. 

Foi um movimento político livre, anárquico, plural, livre de amarras institucionais que apreendem e silenciam as múltiplas vozes em seus direcionamentos e princípios. Nada de igrejas, nada de partidos, pouco de movimentos sociais, muito da espontaneidade da indignação popular com esse modo de administrar o país. Até aparecer "a turma da Mônica", digo, a Turma da Sininho: os black blocs. Terminaram esvaziando as manifestações populares com seu modo de fazer política. Atirando pedras em vidraçaria de lojas, queimando automóveis, depredando o patrimônio público, destruindo bancas de revistas, barracas, etc. Apelam para a violência que, certamente, está justificada pela “ditadura do proletariado”. Fico pensando: será que essa turma da Sininho está certa? Será que é assim que tem que ser? Na violência? 

Por outro lado penso também: os políticos estão depredando o patrimônio público com uma virulência ainda maior. Só para citar um exemplo, o pior prefeito que tivemos em Salvador – João Henrique Carneiro – depredou muitas construções históricas, que caiam de abandonadas, escoradas na incompetência de um governo fraco, que desprezou nossa história e nossa cidade. Os facínoras do Congresso Nacional depredam o país, minando o orçamento anual do governo federal com propostas de verbas que desaparecem no ralo da corrupção generalizada. O governo Fernando Henrique Cardoso depredou várias empresas públicas, não simplesmente por as terem privatizado, mas por entregá-las a baixo custo para a concentração de riqueza nas mãos de uns poucos. O governo do PT depreda a Petrobrás e outras empresas públicas e nós, os contribuintes aqui de baixo, pagamos, com impostos altíssimos, a farra generalizada com a nossa riqueza produzida todos os dias nesse país. Banqueiros, empreiteiros, donos de empresas de ônibus intermunicipal e interestadual, e donos (as) de igrejas não têm do que reclamar.

A Turma da Sininho e a Terra do Nunca

Com Sininho e sua turma penso que, chega um momento em nossa vida em que gostaríamos de jogar um avião naquele Congresso Nacional de Meliantes, em dias de votação do orçamento da União, a fim de acabar com aquela corja que nos governa, com raras exceções, como Pedro Simon que agora se aposenta. O cinismo deles (as) é asqueroso e nos provoca os instintos mais violentos. Sei que não é por aí, pois a lembrar do saudoso João Ubaldo Ribeiro, os nossos representantes políticos não são de Marte. De certa forma eles e elas, de fato, nos representam. São daqui mesmo e, se não há uma reação forte contra isso é porque aceitamos esse modo de representatividade. Desconfio que "a turma da Sininho" atua mais para o lado da desmobilização popular do que o que dizem pregar. Querem transformar as ruas em uma “Faixa de Gaza”, com o povo no meio a servir-lhes de coadjuvante e de escudo, e, eles e elas, ora fazendo o papel de mártires, ora o de heróis. Fico pensando no país que essa turma deseja: que direcionamento político, econômico, social e cultural essa turma daria se chegasse ao poder político hegemônico? Caminharíamos para a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, para o bolivarianismo aqui do lado ou para o modelo cubano de administrar? Teríamos a nossa singular “ditadura do proletariado”? Ou construiríamos um modelo histórico utópico em direção à “Terra do Nunca” com Sininho e sua turma nos governando? Bom, pelo que vejo em alguns discursos e ações dessa gente, democracia, participação, autonomia e decisão coletiva não combina bem com elas e eles. Simplesmente porque, segundo as mesmas e os mesmos, a “verdade histórica” está com elas e com eles. Quem discorda deixa de ser ouvido e é marginalizado, porque somente um discurso é admitido, o delas e o deles, que se institucionalizaria num partido único. Para elas e eles, o povo não entende o que está acontecendo e vai à reboque, conduzidos para a “Terra do Nunca”, onde meninos e meninas de outro tempo, com sua vontade de verdade, ainda não cresceram e revivem a "glória do proletariado" que o muro de Berlim deixou para trás.

O capitalismo não acabou e a opressão continua, mas seria de bom alvitre deixar a população pronunciar seus inúmeros discursos, sem a necessidade de colocar a violência como ingrediente nessa vontade de poder e de verdade que anima discursos e ações insanas. Eu, penso como Jorge Amado, tenho mais medo da ditadura de esquerda que da ditadura de direita. Nesta última, caso a gente discorde, morremos como heróis; na primeira, como traidores da “causa revolucionária do proletariado nacional”.

Não se pode admitir que o autoritarismo ideológico, apoiado em milícias armadas e delinquentes, roubem as legítimas bandeiras da cidadania. Os protestos de rua, pacíficos e democráticos, são legítimos e necessários. Verbas públicas, desviadas da saúde, da educação, da agricultura, engordam as contas dos parasitas da República e emagrecem a vida e a esperança dos brasileiros. Se o dinheiro que circula no mercado da corrupção fosse usado para fazer investimentos públicos, mudaria a cara do Brasil e faria, de fato, a almejada justiça social. (DI FRANCO, 2014, p.A3)

Sininho e sua turminha "revolucionária" atuam mais no sentido de retirar a população indignada do palco social da história, quando ela, e os seus, ocupa esse palco de forma grotesca, pouca elegância, inteligência medíocre e sapiência nula, representando um papel que em nada agrada o público que gostaria de atuar de outra forma - como de fato o fez com cartazes e faixas de múltiplas cores e frases inteligentíssimas - aplaudindo o espetáculo que ele mesmo protagonizou. Uma banana para bandeiras de uma só cor. Uma banana para o "caminhando e cantando e seguindo a canção..." Queremos todas as cores, todas as músicas, todos os caminhos, todos os destinos que se fizerem presentes!

Fico preocupado com os inúmeros candidatos a “Peter Pan” que irão colocar suas propagandas na TV, no rádio e nos demais meios a fim de nos oferecer a “Terra do Nunca” como recompensa por nossos votos infantis que ainda acreditam em fadas e duendes para governarem nosso imaginário rumo a ideologias de “Capitão Gancho”.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

DI FRANCO, Carlos Alberto. Ativistas, militantes e criminosos. A Tarde. Salvador, segunda-feira, 4/8/2014. 

quarta-feira, 28 de maio de 2014

FRUTA FEIA, IDEOLOGIA MEDONHA



De modo muito amplo ideologia é um conjunto de ideias, crenças e valores que intenciona te convencer que você vive num mundo cheio de oportunidades de crescimento e desenvolvimento pessoal e coletivo, e que tudo depende do exercício de sua capacidade de criar, de desenvolver-se com esforço e denodo em busca de um melhor lugar na sociedade. Você começa a pensar que a culpa é sua por não ter sido selecionado (a) pela eficiente máquina econômica e social que separa os (as) melhores (as) e mais esforçados (as) dos (as) demais. É justamente assim que o competente publicitário Nizan Guanaes nos faz pensar em seu artigo intitulado “Fruta Feia”, publicado no jornal A Tarde de ontem, terça-feira, 27/05/2014, utilizando sua ideologia que poderia passar despercebida por quem não presta a devida atenção crítica ao encadeamento de suas ideias.

Quando eu afirmo que Guanaes é competente, disso não tenho dúvida e não é nenhuma ironia, até mesmo porque seria tolo fazê-la em função do seu reconhecimento social por conta do seu trabalho, incluindo o artigo que venho a criticar em sua essência. O autor acima começa a explicar o sucesso de um grupo de empreendedores voluntários de Portugal, liderados por Isabel Soares, que lançou a cooperativa denominada por eles de “Fruta Feia”, que dá nome ao título do seu texto. Guanaes destaca corretamente a criatividade e o senso de oportunidade que Soares e seus colegas utilizam para o sucesso do empreendimento. Segundo ele:

A ideia de Soares é brilhante, e sua marca também. Fruta Feia virou fruta bonita. E ganhou o mundo com propaganda gratuita via reportagem do jornal mais influente do planeta [New York Times]. Isso é comunicação do século 21. Isso é entender as mudanças em sua volta – crise econômica europeia, combate aos desperdícios, valorização do natural – e criar um conceito, um produto, uma marca que possam levar essas mudanças ao próximo patamar. Este é o caminho. (GUANAES, 2014, p. B6).

Até aí tudo bem. Ninguém em sã consciência vai discordar do exercício da criatividade na produção de uma novidade importante para a mudança salutar do comportamento no consumo e na produção, gerando dividendos importantes para os (as) empreendedores (as) e para a sociedade. A iniciativa destacada pelo publicitário brasileiro é importante e apresenta lições preciosas para nós. Contudo, o autor do texto que desencadeou essa discussão, extrapola de sua tarefa de nos apresentar uma iniciativa exitosa e invade o campo ideológico na tentativa de dirigir o sentido e seu efeito para a percepção do fenômeno de modo a nos embotar a consciência dos efeitos perversos que a exclusão econômica contemporânea provoca em nossa sociedade. Guanaes afirma, nesse sentido que:

Como minha querida amiga Arianna Huffington colocou em seu mais recente livro, o sucesso não é mais o acúmulo de dinheiro e de poder. Isso é insustentável. É preciso encontrar a terceira medida: a felicidade. E ela se sustenta em quatro pilares: bem-estar, sabedoria, encantamento e benemerência. Fruta Feia se sustenta nesses quatro pilares. E sua atividade? (GUANAES, 2014, p. B6).

Ora, o que está dito acima pode convencer algum jovem profissional iludido com a possibilidade de rápido crescimento na empresa ou crianças, mas não convence nem mesmo os (as) profissionais da área de comunicação, mulheres e homens experimentados, sagazes, que sabem que o bem-estar é um processo de luta contínua entre as classes sociais; que geralmente a sabedoria é colocada de lado em nosso mundo, que nossos motivos de encantamento estão cada vez mais distantes e que a benemerência quase sempre é desvalorizada em nosso contexto político, cultural e social brasileiro. Dinheiro e poder é insustentável para o sucesso? Em que mundo? Certamente que o da cabeça dele, que tem dinheiro e exerce um poder nada desprezível como intelectual orgânico do campo da comunicação, mantendo o seu sucesso em dia.

Portanto, embora o destaque dado à iniciativa da portuguesa Isabel Soares pelo publicitário Nizan Guanaes seja louvável, exemplo de onde podemos recolher elementos para a nossa ação e reflexão, a conclusão do seu artigo revela uma ideologia rasteira e pouco convincente, que pode contribuir para que muitos (as) jovens cheios de boa vontade e de garra sejam iludidos por uma realidade que não existe, mas que foi colorida artificialmente a fim de dourar a pílula da falsa igualdade de oportunidades para o exercício da criatividade, da iniciativa empreendedora que conduz ao sucesso nesse mundo tão desigual, conforme canta Gilberto Gil em sua “A Novidade”.

Joselito da Nair, do Zé, de Ana Lúcia, de Rafael, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.   Com o auxílio de 


GUANAES, Nizan. Fruta Feia. A Tarde. Salvador, terça-feira, 27/05/2014. p. B6.

terça-feira, 27 de maio de 2014

INSTITUIÇÕES EM DECLÍNIO NA BAHIA



As greves estão acontecendo independente dos sindicatos, cujos líderes não mais representam os interesses das categorias que dizem representar. As greves dos motoristas de diferentes estados e municípios são mais um indício da falência das instituições, demonstrando, de modo ainda não muito claro, como a representatividade não está mais associada a um sindicato ou associação, mas à capacidade de mobilizar as categorias rumo às lutas pelas conquistas básicas das mesmas.

Rui Oliveira não representa mais ninguém, senão ele mesmo e seus interesses individualistas. Jota Carlos, e seus apaniguados, do mesmo modo, não representa interesse algum dos rodoviários da Bahia. Depois que o tesoureiro, Colombiano e sua esposa, foi assassinado e ninguém do sindicato se pronunciou com veemência, comecei a sentir cheiro de queimado naquela instituição. Não sei se a greve dos rodoviários é justa, mas é justo romper com um sindicalista que se tranca numa sala com representantes do Sindicato Patronal e com a Prefeitura, fechando acordos sem a convocação da assembleia da categoria.



Foi vergonhoso ver Hélio [Ferreira] saindo rodeado de seguranças para dentro do carro, sem dar satisfação. Soubemos do acordo que foi feito sem termos aceito pela imprensa”, conta Carlos Alberto, da Barramar [empresa de transporte coletivo urbano de Salvador]. (CORREIO, 2014, p.31)



Esses falsos representantes traem os interesses de sua categoria em função, claro, de benesses que recebem do poder político institucional. De modo geral há uma crise de credibilidade na justiça, na polícia, no sistema educacional, no sistema de saúde e no governo. É bom lembrar da greve recente da APLB em que professores e professoras, fizeram-na acontecer a contragosto de Rui Oliveira e seus apaniguados. As propagandas mentirosas não conseguem mais enganar tanta gente durante tanto tempo. Mas a esperança não acaba. Ainda bem que essa realidade tosca produz seu antídoto: mulheres e homens sérios, honestos tais como o Desembargador Eserval Rocha, Presidente do Tribunal de Justiça da Bahia; Rita Tourinho, do Ministério Público do Estado da Bahia, entre outros e outras autoridades decentes que atuam no sentido de resgatar a decência e o pudor no trato da coisa pública. A própria Igreja Católica, vendo-se enredada pelo mal crescente em seu seio, produziu o Papa Francisco, que vem mostrando claramente sua bondosa, segura, ativa e firme liderança no enfrentamento de questões difíceis que o poder político e econômico da Igreja não queria enfrentar, ou mesmo se beneficiava do silêncio funesto que alimenta a corrupção e a indecência em seu seio.  



Sinceramente, a polícia também passa uma visão muito negativa, algumas vezes associada ao crime e ao desrespeito às pessoas simples que vivem em favelas e bairros populares. O Governo Wagner tornou-se refém do aparelho repressor do estado. Outra coisa grave são os linchamentos. Significam isso mesmo: faliu a polícia, faliu a justiça, faliu o estado. O caos e a barbárie estão a um passo. Boaventura de Sousa Santos fala na divisão contemporânea entre zonas bárbaras e zonas civilizadas dentro de uma mesma cidade. Mas aqui em Salvador as zonas civilizadas não mais existem. É o setor privado que está atuando mais que o estado. Em minha rua pagamos seguranças que ficam de carro e motos circulando 24 horas. Todos os condomínios pagam. Eu, em relação aos serviços públicos, não preciso do estado. Pago plano de saúde, pago pedágio, pago segurança privada, pago colégio particular, e, mais que tudo isso junto: pago impostos e sustento a burocracia mais burra do planeta. Estamos muito próximos da França do século XVIII. “Antonieta” que se cuide!  Vamos começar a guilhotinar agora em outubro, nas eleições, pois os líderes sindicais começam a perder suas cabeças vendidas a preços módicos contra suas categorias profissionais. "O carro de Jagrená" perdeu o controle ladeira abaixo.


Joselito M. de Jesus

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Filosofia, preconceito e copa do mundo

Vocês, de fato, concordam, em parte, com o que Iglésias nos ensina sobre as características principais do pensamento filosófico, texto disponibilizado no AVA da disciplina que eu sei que vocês ainda não leram. Iglésias (1992) afirma que:

O saber filosófico: 1) é um saber “de todas as coisas”, um saber universal; num certo sentido, nada está fora do campo da filosofia; 2) é um saber pelo saber: um saber livre, e não um saber que se constitui para resolver uma dificuldade de ordem prática; 3) é um saber pelas causas; o que Aristóteles entende por causa não é exatamente o que nós chamamos por esse nome; de qualquer forma, saber pelas causas envolve o exercício da razão, e esta envolve a crítica: o saber filosófico é, pois, um saber crítico. (IGLÉSIAS, 1992, p. 13)
Logo, em relação ao pensamento crítico, vocês concordam com a autora, o que já é meio caminho andando. Mas, o que vem a ser crítico? Qual o sentido filosófico para tal expressão? Crítico, não é, como já falei e escrevi, uma pessoa chata, que vê o mundo e a humanidade apenas como degradação, com ceticismo. Uma pessoa dotada de criticidade desconfia dos arranjos sociais dados, tidos como permanentes e inevitáveis. Desconfia das concepções apressadas de ser humano de determinado lugar, colocando-lhe estereótipos que o identificam socialmente, tal como os judeus – que segundo a ideologia são todos uns mesquinhos -; os baianos – que segundo essas concepções ideológicas são todos uns preguiçosos -, ou que o baiano é lento e preguiçoso por causa de suas raízes africanas, etc. Então, ser crítico é trabalhar na desconstrução dessas ideias esdrúxulas sobre o outro e sobre o mundo, fundamentando a crítica em dados sobre trabalho, emprego, participação do negro no mercado de trabalho, a mulher negra na sociedade contemporânea, enfim, pesquisas realizadas a fim de desconstruir tais falsas ideias sobre um povo, ou sobre qualquer coisa. Vou dar um pequeno exemplo com a música de Chico César, Beradêro:

 Os olhos tristes da fita
rodando no gravador
uma moça cosendo roupa
com a linha do Equador
e a voz da Santa dizendo
O que é que eu tô fazendo
cá em cima desse andor

A tinta pinta o asfalto
Enfeita a alma motorista
É a cor na cor da cidade
Batom no lábio nortista
O olhar vê tons tão sudestes
E o beijo que vós me nordestes
Arranha céu da boca paulista

“É a cor na cor da cidade, batom no lábio nortista. O olhar vê tons tão sudestes e o beijo que vós me nordestes arranha-céu da boca paulista...” Olhem só que criação fantástica da inteligência humana expressa na poesia concreta de Chico César! Que crítica inteligente! Quer dizer: enquanto as pessoas de São Paulo, Rio (sudeste) ficam deslumbradas com os edifícios altos, com as mega construções que se apresentam diante dos seus olhares, como se isso expressasse a condição superior de “lá eles e elas” diante de nós, os “inferiores nordestinos e nortistas”, Chico César chama a atenção para o fato de que quem construiu isso tudo no braço, no cansaço, no suor, foram os nordestinos e os nortistas, muitos deles rejeitados pelos que se denominam “paulistas legítimos”, “sulistas de origem alemã, ou europeia de modo geral”. Tem idiotas que adoram referendar suas origens na Europa, como se isso lhes desse algum status por empréstimo, quando, de fato, só demonstra o quanto são guiados por ideologias superficiais que nos aproximam do neonazismo e nos distanciam da solidariedade. Temos nossas raízes europeias, sim. Que bom. Mas não devemos negar nem submeter nossas raízes africanas e indígenas a tal hierarquia fantasiosa e maléfica para o ser humano brasileiro.

Relendo o texto estava percebendo um erro por mim cometido no mesmo. Refiro-me de modo generalista e superficial aos sudestinos e sulistas. De fato, só refiro-me àqueles e àquelas que nos tratam com escárnio e desprezo, sustentados pelo preconceito irracional. Muitos nordestinos e nortistas são bem recebidos e acolhidos em São Paulo, Rio de Janeiro e no Sul do país. Há muitas pessoas solidárias que reconhecem o valor de nossas culturas e os valores que delas emanam. Nesse sentido, minha reflexão acima é pobre e infeliz, embora não deixe de identificar problemas advindos de preconceitos históricos construídos contra os nossos modos de ser, de falar, de viver, de sentir, de produzir a existência.

Então, Chico César denuncia essa situação, mostrando que nossa nação deve enxergar para além da aparência que os tons sudestes e, acrescento eu, sulistas, oferecem em sua nociva prática discursiva, percebendo a importância histórica dos nordestinos e nortistas na luta pela sobrevivência. Essas visões são “arranhadas” pelo beijo nordestino que vem sendo dado historicamente na construção desse Brasil. Essa foi a bela forma de expressão usada pelo brilhante Chico César para expressar seu pensamento crítico. Logo, o papel da arte é importantíssimo na percepção crítica do mundo. Assim como na poesia e na música tem também no quadros de Salvador Dali, de Pablo Picasso, de Cândido Portinari, no teatro, na fotografia, etc. A arte, pelo menos uma parte de suas expressões, traz a crítica, ou a possibilidade dela, denunciando situações de negação humana e também enaltecendo situações de liberdade plena, de lucidez emancipatória, de criação fértil, do gozo pleno da paz e da alegria.
 
Gente, vocês não podem aceitar ficarem na condição de pessoas que pensam pouco, ao contrário, devem sofisticar o seu pensamento e desenvolver essa capacidade imensa de pensar criticamente o mundo, a religião, os discursos, as propagandas, as concepções sobre o povo, a história, o futuro, tudo, como é da ordem do pensamento filosófico. Eu desejo o conhecimento e a educação como um remédio filosófico para a nossa alma brasileira.

Em tempo
Mas o que quero comentar é sobre o tempo. Ora vocês hipervalorizam o futuro e desvalorizam o presente, ora desvalorizam o futuro e se agarram ao presente “deixando a vida vos levar”. As vezes “o agora”, o imediato, é importante. Embora eu tenha entendido o sentido a que vocês se referem, como as pessoas que querem curtir o mundo adoidado sem planejar o futuro, preparando-se para ele. É a teoria psicanalítica “do homem sem gravidade”. O ser humano sem gravidade é aquele que não é preso a nada, a valores, a obrigações e responsabilidades, a respeito, nada. Aquele que liga o som do seu carro ou de sua casa nas alturas sem se preocupar com seu vizinho, com as demais pessoas; aquele (a) que fuma ou cheira sua droga ou ingere seu álcool e vai dirigir. Ou aquele (a) que transa sem camisinha sem preocupar-se com as consequências do seu ato imprudente. Esse homem sem gravidade é o ser humano do nosso tempo. E não está apenas em Pintadas, Capela do Alto Alegre, Ipirá ou Pé de Serra. Está em todo o mundo. O “homem sem gravidade” é um fenômeno mundial, segundo Charles Melmann, psicanalista, seguidor de Lacan. Nesse sentido entendi a crítica de vocês sobre as pessoas pouco se importarem com o agora.

Contudo, podemos viver o agora de uma forma que não passemos nossa vida e nossa realização pessoal e coletiva projetada num futuro que nunca chega. Tem gente que projeta sua “felicidade” no futuro, quando o Bahêa ou o Vitória for campeão; quando o filho ou a filha nascer; quando ganhar na loteria; quando passar no vestibular ou quando sair da faculdade com o diploma na mão, ou mesmo quando aquela pessoa disser sim para o nosso amor. Ter esperança é bom, ter ilusão é péssimo. Eu penso com Osvaldo Montenegro quando canta alto que “quer ser feliz agora”...

 Se alguém disser pra você não cantar
deixar teu sonho ali pr'uma outra hora
que a segurança exige medo
que quem tem medo Deus adora

Se alguém disser pra você não dançar
que nessa festa você tá de fora
que você volte pro rebanho.

Não acredite, grite, sem demora...
Eu quero ser feliz Agora!

O medo é importante. Ele nos salva de muitas tragédias. Mas existe uma tênue diferença entre medo e covardia. O medo pode nos trazer prudência, mas não pode nos paralisar, como afirmava o mestre Paulo Freire. Nossos políticos brasileiros fizeram uma festa e deixaram seu povo de fora. A Copa do Mundo é de um mundinho bem restrito, esta festa não é nossa. E o que fazer? Fingir que isto não acontece e torcer pela vitória de uma, como o próprio nome diz, “seleção”? Torcer para nossos jogadores multiplicarem suas riquezas através da venda de sua valorizada força de trabalho enquanto o torcedor se contorce para viver? Nããããão! É preciso sair às ruas e gritar: NÓS QUEREMOS SER RESPEITADOS AGORA! NÓS QUEREMOS SAÚDE, EDUCAÇÃO, SEGURANÇA, HABITAÇÃO, TRANSPORTE, PARTICIPAÇÃO DEMOCRÁTICA AGORA!  Nesta “festa pobre que os homens armaram pra nos convencer” só entra quem paga muito caro. Os castelos-fortalezas (estádios) foram erguidos com empréstimos generosos do BNDES para que os homens fortes da FIFA fossem agraciados em seus desejos, caprichos e exigências. Foi transferência de patrimônio público para enriquecimento privado, como foi feito na ditadura. Por isso ninguém está nem aí para o preço desses castelos medievais. Não se trata de uma questão técnica, mas de uma questão mais ampla das determinações do capitalismo mundial para o Brasil. Quem já procurou agradar os brasileiros em suas exigências e necessidades? Trouxeram a Copa, mas não trouxeram o mundo. Não trouxeram o respeito e dignidade ao nosso mundo. O que trouxeram foi a imposição de um modelo imundo de mundo para o nosso mundo. Tal como os portugueses em 1500, trouxeram propagandas, bugigangas, ilusões  para nós comprarmos e torcermos, como índios à beira-mar. Nos espelhos que nos dão, olhamos e, tal como os índios de abril de 1500, talvez nos espantemos com a imagem que é projetada. Devemos decidir ativamente que tipo de povo nós queremos ser, que tipo de povo estamos sendo: uma pátria de chuteiras, ou povos unidos num imenso território a serviço da diversidade, da solidariedade, da produção democrática da nação que respeita e trata dignamente sua gente.  

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel



IGLÉSIAS, Maura. O que é filosofia e para que serve. In Antonio Rezende (org.).Curso de filosofia. 5. ed. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar Editor, 1992.
Encontrado em http://letras.mus.br/chico-cesar/128518/ Acesso em 28/03/2014, 11: 25.