sexta-feira, 8 de agosto de 2014

GAME OF THRONES: A DEMOCRACIA CONTRA A GUERRA



A série Game of Thrones que passa num desses canais de assinatura prendeu minha atenção desde o início por uma série de fatores, entre os quais a imprevisibilidade dos desfechos, a inteligência dos diálogos entre os personagens, a pouca concessão ao romantismo idealizado de outros filmes, novelas e seriados, a negação ao maniqueísmo fácil, que caracteriza os "maus" apenas de um lado e os "bonzinhos" apenas do outro lado. A morte, a traição, a falta de piedade e misericórdia, o interesse pelo poder e a guerra, estão entremeadas com a solidariedade, a honra, a paixão, a compaixão, o amor, a redenção e a coragem. Não há o idealismo de uma humanidade que encontra a redenção e o bem vence o mal, definitivamente, embora torçamos para isso. Bem e mal estão, como diria o saudoso Raul Seixas, "de braços e abraços num romance astral". A humanidade como ela é, aparece desnudada de seus traços angelicais e a guerra se faz presente num momento histórico convulsivo, entre diferentes povos daquele mundo, com mortes e sofrimentos à fartura de todos os lados.

Não é, em nada, diferente do nosso mundo brasileiro. Lá, na guerra dos tronos, o “Banco de Ferro” avalia a possibilidade de financiar o inimigo do “Trono de Ferro”, de onde emana o poder político de fato. E assim o faz: financia os dois lados, a fim de ter garantido o seu lucro, seja por um lado, seja por outro. Lendo o jornal Correio de hoje, sexta-feira, 08 de agosto de 2014, percebo que a realidade, nesse caso, imita a ficção. Afirma o Correio que:

Na largada da campanha eleitoral, o tucano Aécio Neves arrecadou pelo menos R$$ 11 milhões em doações de empresas e pessoas físicas, mais do que a presidente Dilma Rousseff (PT), cuja prestação parcial de contas registrou entradas de R$$ 10,125 milhões. Eduardo Campos, do PSB, não ficou muito atrás, com R$$ 8,2 milhões. Aécio recebeu, nas contas de candidato e do comitê financeiro, doações de 11 empresas. [...] Seu maior financiador foi o grupo JBS, do setor de processamento de carnes, com uma contribuição de R$$ 5 milhões – o mesmo valor repassado à campanha de Dilma.  

Pelo visto acima, o grupo econômico JBS FRIBOI agiu da mesma forma que o “Banco de Ferro” da ficção. Vencendo Dilma perdendo Aécio, ele, o grupo JBS FRIBOI, ganha. Perdendo Dilma, vencendo Aécio, ele também ganha. E quem perde? A democracia e nós, da ponta aqui de baixo, denominado genericamente de “povo”, cuja influência se resume ao voto e aos protestos indignados. Por isso que o financiamento público de campanhas, e a proibição de “contribuições econômicas generosas” para as campanhas eleitorais, desse (a) ou daquele (a) candidato (a) deve ser proibida. Um estudo recente, que não recordo especificamente agora, demonstrou que essas empresas financiadoras de campanhas políticas, lucram dez vezes mais, ganhando licitações e obras e serviços “emergenciais” do estado brasileiro.

Oito empreiteiras doaram, juntas, R$$ 4,6 milhões ao candidato do PSDB. [...] No caso de Dilma, houve doações de apenas quatro empresas. As contribuições de empreiteiras foram minguadas. Apenas a Andrade Gutierrez compareceu, com R$$ 1 milhão. Depois do JBS, o principal doador foi a AMBEV com 4 milhões – o grupo também doou R$$ 3,25 milhões ao PSDB [...]

Empreiteiras, bancos, poderosos grupos comerciais, empresas de transportes interestadual e intermunicipal, entre outros, fazem suas apostas, com poucos riscos de perda, já que apostam nos candidatos que estão liderando as pesquisas. Esse fenômeno corroi a democracia, na medida em que fortalece ainda mais quem já está com todo o apoio estrutural, impedindo que os (as) demais candidatos tenham a chance de colocar suas propostas de forma clara e de participar do debate com as mesmas condições que os (as) demais. Termina acontecendo a miragem do pluripartidarismo, na medida em que a exposição de ideias e projetos, de fato, se reduz a dois ou, no máximo, três partidos.

E o que isso tem a ver com a gente, o povo brasileiro? Tudo. A democracia, embora como dizia um velho político, não seja a melhor forma de governo, é a melhor de todas que o ser humano inventou até agora. As eleições e os votos são a forma que os seres humanos, em grupos e comunidades dentro de um mesmo território, inventaram para substituir as guerras e suas consequentes mortes em busca pelo controle hegemônico do “trono de ferro”. Ao invés da Faixa de Gaza, a zona eleitoral. As trincheiras são construídas em fronts discursivos e milhares de mortes são evitadas, mesmo porque, depois que a guerra de fato se inicia, é muito difícil para-la. E o maior número de mortes é de inocentes, seja como refugiados sem pátria, seja como vítimas diretas das bombas e armas que movimentam a lucrativa indústria da guerra.

Então, viva a democracia! Viva as eleições! Pelo voto,  pela participação popular e contra a guerra! Portanto, apesar de não ser um sistema político perfeito, a democracia é a melhor forma de governo. Por isso mesmo, ao invés de desistirmos dela, deveremos lutar pelo seu aperfeiçoamento a cada eleição, a cada evento que exija a participação do povo brasileiro na definição dos rumos que esse país tomará. Nossa democracia é muito jovem. Ainda há muitos broncos que nos governam, mas, à medida que formos aperfeiçoando esse sistema, como no financiamento público de campanhas, na Lei da Ficha Limpa, entre outras iniciativas importantes do nosso povo, vamos expulsando as possibilidades de corrupção e aumentando as chances de nosso país, um dia, tornar-se uma nação.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.
Com o apoio de
CORREIO. Tucano arrecada mais na largada. Salvador, sexta-feira,8/8/2014, p.16.
SIMANCA. A Tarde, Salvador, sexta-feira, 8/8/2014, página A3.
http://letras.mus.br/raul-seixas/48335/

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

SININHO, OS BLACK BLOCS E A TERRA DO NUNCA


 É uma confusão. Aparentemente não dá pra entender direito o que está acontecendo e, por isso, escrevo. Quando escrevo registro meu pensamento e depois posso olhar para ele, corrigi-lo, reencaminhá-lo, ou mesmo endurecer ainda mais o tom ou, simplesmente, deixá-lo em paz. 

As manifestações de junho do ano passado, para mim, foram a mais criativa e inovada forma de expressão política dos últimos tempos nesse país. Nelas não tiveram líderes, não houveram vozes únicas, nem palanques para essas vozes "tomarem corpo", nem heróis. Houve, e ainda há, um povo indignado querendo mudanças urgentes em nosso sistema político, jurídico, de saúde, de educação e de segurança, que afetam mais imediatamente a população, além de indignação perante o controle dos corpos e da sexualidade. 

Foi um movimento político livre, anárquico, plural, livre de amarras institucionais que apreendem e silenciam as múltiplas vozes em seus direcionamentos e princípios. Nada de igrejas, nada de partidos, pouco de movimentos sociais, muito da espontaneidade da indignação popular com esse modo de administrar o país. Até aparecer "a turma da Mônica", digo, a Turma da Sininho: os black blocs. Terminaram esvaziando as manifestações populares com seu modo de fazer política. Atirando pedras em vidraçaria de lojas, queimando automóveis, depredando o patrimônio público, destruindo bancas de revistas, barracas, etc. Apelam para a violência que, certamente, está justificada pela “ditadura do proletariado”. Fico pensando: será que essa turma da Sininho está certa? Será que é assim que tem que ser? Na violência? 

Por outro lado penso também: os políticos estão depredando o patrimônio público com uma virulência ainda maior. Só para citar um exemplo, o pior prefeito que tivemos em Salvador – João Henrique Carneiro – depredou muitas construções históricas, que caiam de abandonadas, escoradas na incompetência de um governo fraco, que desprezou nossa história e nossa cidade. Os facínoras do Congresso Nacional depredam o país, minando o orçamento anual do governo federal com propostas de verbas que desaparecem no ralo da corrupção generalizada. O governo Fernando Henrique Cardoso depredou várias empresas públicas, não simplesmente por as terem privatizado, mas por entregá-las a baixo custo para a concentração de riqueza nas mãos de uns poucos. O governo do PT depreda a Petrobrás e outras empresas públicas e nós, os contribuintes aqui de baixo, pagamos, com impostos altíssimos, a farra generalizada com a nossa riqueza produzida todos os dias nesse país. Banqueiros, empreiteiros, donos de empresas de ônibus intermunicipal e interestadual, e donos (as) de igrejas não têm do que reclamar.

A Turma da Sininho e a Terra do Nunca

Com Sininho e sua turma penso que, chega um momento em nossa vida em que gostaríamos de jogar um avião naquele Congresso Nacional de Meliantes, em dias de votação do orçamento da União, a fim de acabar com aquela corja que nos governa, com raras exceções, como Pedro Simon que agora se aposenta. O cinismo deles (as) é asqueroso e nos provoca os instintos mais violentos. Sei que não é por aí, pois a lembrar do saudoso João Ubaldo Ribeiro, os nossos representantes políticos não são de Marte. De certa forma eles e elas, de fato, nos representam. São daqui mesmo e, se não há uma reação forte contra isso é porque aceitamos esse modo de representatividade. Desconfio que "a turma da Sininho" atua mais para o lado da desmobilização popular do que o que dizem pregar. Querem transformar as ruas em uma “Faixa de Gaza”, com o povo no meio a servir-lhes de coadjuvante e de escudo, e, eles e elas, ora fazendo o papel de mártires, ora o de heróis. Fico pensando no país que essa turma deseja: que direcionamento político, econômico, social e cultural essa turma daria se chegasse ao poder político hegemônico? Caminharíamos para a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, para o bolivarianismo aqui do lado ou para o modelo cubano de administrar? Teríamos a nossa singular “ditadura do proletariado”? Ou construiríamos um modelo histórico utópico em direção à “Terra do Nunca” com Sininho e sua turma nos governando? Bom, pelo que vejo em alguns discursos e ações dessa gente, democracia, participação, autonomia e decisão coletiva não combina bem com elas e eles. Simplesmente porque, segundo as mesmas e os mesmos, a “verdade histórica” está com elas e com eles. Quem discorda deixa de ser ouvido e é marginalizado, porque somente um discurso é admitido, o delas e o deles, que se institucionalizaria num partido único. Para elas e eles, o povo não entende o que está acontecendo e vai à reboque, conduzidos para a “Terra do Nunca”, onde meninos e meninas de outro tempo, com sua vontade de verdade, ainda não cresceram e revivem a "glória do proletariado" que o muro de Berlim deixou para trás.

O capitalismo não acabou e a opressão continua, mas seria de bom alvitre deixar a população pronunciar seus inúmeros discursos, sem a necessidade de colocar a violência como ingrediente nessa vontade de poder e de verdade que anima discursos e ações insanas. Eu, penso como Jorge Amado, tenho mais medo da ditadura de esquerda que da ditadura de direita. Nesta última, caso a gente discorde, morremos como heróis; na primeira, como traidores da “causa revolucionária do proletariado nacional”.

Não se pode admitir que o autoritarismo ideológico, apoiado em milícias armadas e delinquentes, roubem as legítimas bandeiras da cidadania. Os protestos de rua, pacíficos e democráticos, são legítimos e necessários. Verbas públicas, desviadas da saúde, da educação, da agricultura, engordam as contas dos parasitas da República e emagrecem a vida e a esperança dos brasileiros. Se o dinheiro que circula no mercado da corrupção fosse usado para fazer investimentos públicos, mudaria a cara do Brasil e faria, de fato, a almejada justiça social. (DI FRANCO, 2014, p.A3)

Sininho e sua turminha "revolucionária" atuam mais no sentido de retirar a população indignada do palco social da história, quando ela, e os seus, ocupa esse palco de forma grotesca, pouca elegância, inteligência medíocre e sapiência nula, representando um papel que em nada agrada o público que gostaria de atuar de outra forma - como de fato o fez com cartazes e faixas de múltiplas cores e frases inteligentíssimas - aplaudindo o espetáculo que ele mesmo protagonizou. Uma banana para bandeiras de uma só cor. Uma banana para o "caminhando e cantando e seguindo a canção..." Queremos todas as cores, todas as músicas, todos os caminhos, todos os destinos que se fizerem presentes!

Fico preocupado com os inúmeros candidatos a “Peter Pan” que irão colocar suas propagandas na TV, no rádio e nos demais meios a fim de nos oferecer a “Terra do Nunca” como recompensa por nossos votos infantis que ainda acreditam em fadas e duendes para governarem nosso imaginário rumo a ideologias de “Capitão Gancho”.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

DI FRANCO, Carlos Alberto. Ativistas, militantes e criminosos. A Tarde. Salvador, segunda-feira, 4/8/2014. 

quarta-feira, 28 de maio de 2014

FRUTA FEIA, IDEOLOGIA MEDONHA



De modo muito amplo ideologia é um conjunto de ideias, crenças e valores que intenciona te convencer que você vive num mundo cheio de oportunidades de crescimento e desenvolvimento pessoal e coletivo, e que tudo depende do exercício de sua capacidade de criar, de desenvolver-se com esforço e denodo em busca de um melhor lugar na sociedade. Você começa a pensar que a culpa é sua por não ter sido selecionado (a) pela eficiente máquina econômica e social que separa os (as) melhores (as) e mais esforçados (as) dos (as) demais. É justamente assim que o competente publicitário Nizan Guanaes nos faz pensar em seu artigo intitulado “Fruta Feia”, publicado no jornal A Tarde de ontem, terça-feira, 27/05/2014, utilizando sua ideologia que poderia passar despercebida por quem não presta a devida atenção crítica ao encadeamento de suas ideias.

Quando eu afirmo que Guanaes é competente, disso não tenho dúvida e não é nenhuma ironia, até mesmo porque seria tolo fazê-la em função do seu reconhecimento social por conta do seu trabalho, incluindo o artigo que venho a criticar em sua essência. O autor acima começa a explicar o sucesso de um grupo de empreendedores voluntários de Portugal, liderados por Isabel Soares, que lançou a cooperativa denominada por eles de “Fruta Feia”, que dá nome ao título do seu texto. Guanaes destaca corretamente a criatividade e o senso de oportunidade que Soares e seus colegas utilizam para o sucesso do empreendimento. Segundo ele:

A ideia de Soares é brilhante, e sua marca também. Fruta Feia virou fruta bonita. E ganhou o mundo com propaganda gratuita via reportagem do jornal mais influente do planeta [New York Times]. Isso é comunicação do século 21. Isso é entender as mudanças em sua volta – crise econômica europeia, combate aos desperdícios, valorização do natural – e criar um conceito, um produto, uma marca que possam levar essas mudanças ao próximo patamar. Este é o caminho. (GUANAES, 2014, p. B6).

Até aí tudo bem. Ninguém em sã consciência vai discordar do exercício da criatividade na produção de uma novidade importante para a mudança salutar do comportamento no consumo e na produção, gerando dividendos importantes para os (as) empreendedores (as) e para a sociedade. A iniciativa destacada pelo publicitário brasileiro é importante e apresenta lições preciosas para nós. Contudo, o autor do texto que desencadeou essa discussão, extrapola de sua tarefa de nos apresentar uma iniciativa exitosa e invade o campo ideológico na tentativa de dirigir o sentido e seu efeito para a percepção do fenômeno de modo a nos embotar a consciência dos efeitos perversos que a exclusão econômica contemporânea provoca em nossa sociedade. Guanaes afirma, nesse sentido que:

Como minha querida amiga Arianna Huffington colocou em seu mais recente livro, o sucesso não é mais o acúmulo de dinheiro e de poder. Isso é insustentável. É preciso encontrar a terceira medida: a felicidade. E ela se sustenta em quatro pilares: bem-estar, sabedoria, encantamento e benemerência. Fruta Feia se sustenta nesses quatro pilares. E sua atividade? (GUANAES, 2014, p. B6).

Ora, o que está dito acima pode convencer algum jovem profissional iludido com a possibilidade de rápido crescimento na empresa ou crianças, mas não convence nem mesmo os (as) profissionais da área de comunicação, mulheres e homens experimentados, sagazes, que sabem que o bem-estar é um processo de luta contínua entre as classes sociais; que geralmente a sabedoria é colocada de lado em nosso mundo, que nossos motivos de encantamento estão cada vez mais distantes e que a benemerência quase sempre é desvalorizada em nosso contexto político, cultural e social brasileiro. Dinheiro e poder é insustentável para o sucesso? Em que mundo? Certamente que o da cabeça dele, que tem dinheiro e exerce um poder nada desprezível como intelectual orgânico do campo da comunicação, mantendo o seu sucesso em dia.

Portanto, embora o destaque dado à iniciativa da portuguesa Isabel Soares pelo publicitário Nizan Guanaes seja louvável, exemplo de onde podemos recolher elementos para a nossa ação e reflexão, a conclusão do seu artigo revela uma ideologia rasteira e pouco convincente, que pode contribuir para que muitos (as) jovens cheios de boa vontade e de garra sejam iludidos por uma realidade que não existe, mas que foi colorida artificialmente a fim de dourar a pílula da falsa igualdade de oportunidades para o exercício da criatividade, da iniciativa empreendedora que conduz ao sucesso nesse mundo tão desigual, conforme canta Gilberto Gil em sua “A Novidade”.

Joselito da Nair, do Zé, de Ana Lúcia, de Rafael, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.   Com o auxílio de 


GUANAES, Nizan. Fruta Feia. A Tarde. Salvador, terça-feira, 27/05/2014. p. B6.