segunda-feira, 14 de março de 2016

NORDESTE: "O PASSADO É UMA ROUPA QUE NÃO NOS VESTE MAIS"

A tinta pinta o asfalto
Enfeita a alma motorista
É a cor na cor da cidade
Batom no lábio nortista
O olhar vê tons tão sudestes
E o beijo que vós me nordestes
Arranha céu da boca paulista
Chico César (Beradêro)

O respeitado filósofo, ensaísta e comentarista do Jornal da TV Cultura, Luiz Felipe Pondé, sinalizou no domingo último, em relação às manifestações de rua contra a corrupção no Brasil, que nos estados em que há um maior desenvolvimento econômico há maior organização e envolvimento da população nos protestos e que, ao contrário, nos estados menos desenvolvidos, como os da Região Nordeste, que precisam muito do estado, a população geralmente está ao lado do governo. Embora alguns possam ver nessa breve análise algo que coloca o Sul e o Sudeste acima do Norte e do Nordeste em termos de consciência e participação política, como se nós, da parte de cima do Brasil, fôssemos responsáveis por esta crise que assola o país inteiro, percebo justamente o contrário. Toda crise, inclusive as que virão, foram provocadas pelo nosso modo desigual de produção. Logo, a crise e as crises não vêm do Norte-Nordeste, nem dos programas "Bolsa-Família", nem do "Minha Casa, Minha Vida". Vêm do Sul-Sudeste, das políticas do "Só-Pra-Nós, Nada-Para-Eles e Elas". 

Por sermos negados por políticas de exclusão, desde os sucessivos governos de uma “política do café com leite”, nós, nordestinos e nortistas, fomos impedidos de desenvolver nossas forças e capacidades produtivas, sendo relegados ao atraso econômico e político, abandonados que fomos às mãos do “coronelismo” e seus jagunços, que até pouco tempo ainda resistia em nossa região. Assim, NÃO NOS DESENVOLVEMOS PORQUE SOMOS INFERIORES, PREGUIÇOSOS E POUCO SÉRIOS COMO OS PAULISTAS QUEREM NOS IMPUTAR. Até pouco tempo a Bahia tinha apenas uma universidade federal, enquanto Minas Gerais tinha nove! Sem industrialização e sem necessidade de um now how tecnológico, que as universidades públicas poderiam elaborar, ficamos à deriva no mar da dependência econômica, da seca produzida e da ausência de lideranças políticas que tivessem capacidade política e iniciativa empreendedora para encabeçar um planejamento amplo baseado em princípios políticos, culturais e econômicos que nos unissem em torno de grandes projetos. NÓS NÃO NOS DESENVOLVEMOS PORQUE FOMOS IMPEDIDOS DE NOS DESENVOLVER por políticas que beneficiaram apenas o eixo sul-sudeste!

Foram os braços dos nordestinos e dos nortistas que ergueram os arranha-céus de São Paulo! Foi o suor dos nortistas e dos nordestinos que tornou os traços do arquiteto Niemeyer concretos na Brasília de Kubitschek! É o suor de nordestinos e nortistas que sustenta o funcionamento dos bares, restaurantes, hotéis, residências, universidades e toda uma economia do sudeste! Foi dessa nossa história que Belchior cantou seu canto de tristeza e identidade:
A minha história é talvez
É talvez igual a tua, jovem que desceu do norte
Que no sul viveu na rua
Que ficou desnorteado, como é comum no seu tempo
Que ficou desapontado, como é comum no seu tempo
Que ficou apaixonado e violento como você
Eu sou como você
Eu sou como você
Eu sou como você que me ouve agora
Eu sou como você
Como você

No governo do mineiro Kubitschek, endeusado por muitos como o “grande estadista brasileiro”, houve um investimento maciço no fomento à criação de indústrias – no seu projeto de crescer 50 anos de progresso em 5 anos de governo – principalmente em São Paulo e outros estados do Sul-Sudeste. Ao invés de investir num processo de industrialização nacional, a partir de demandas já existentes no processo de substituição de exportações, Kubitschek preferiu investir nas grandes multinacionais, tendo como efeito nefasto a entrega do controle de grande parte da economia a esses gigantes da indústria estrangeira. A Gurgel, única empresa de automóveis genuinamente nacional, foi engolida pelas multinacionais confortavelmente instaladas em nosso território dos outros.

As multinacionais (empresas estrangeiras) com o tempo agravaram a economia, tomando setores de lucro e ascensão, como as indústrias automobilísticas, de cigarros, farmacêutica e mecânica. Com isso o investimento aparentemente rentável para a gestão presidencial mudou de configuração, as empresas estrangeiras dominavam o mercado brasileiro garantindo grandes lucros, muitas vezes, mais altos que o que eles investiam no Brasil. Embora, esses procedimentos fossem opostos às Leis locais, as multinacionais burlavam. (http://www.infoescola.com/historia-do-brasil/plano-de-metas/)
Eu não vou legitimar um discurso técnico-científico, liberal e privatista, que defende um desenvolvimento, por eles e elas elaborado, à fórceps da nossa gente, negada por séculos, como se ser "lá eles e elas" fosse o nosso ideal de humanidade. Minha experiência vê o estado muito mais a serviço do capital privado do que da nossa gente. Justamente quando o estado começa a cuidar da gente, o capital reclama e quer nos convencer que isso está nos levando à acomodação. O capital privado quer somente o lucro. O prejuízo que eles causam, a destruição da natureza e do ser humano que eles provocam são omitidos por sua ideologia. Esse discurso reforça as desigualdades existentes e omite as injustiças históricas cometidas contra o Norte-Nordeste.

Eu e Ana conhecemos um divertido professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro lá em Mendonza, Argentina. Lá pras tantas, depois de nos referirmos à arrogância portenha, ele contou uma anedota sobre argentino e... nordestino. Contou-nos que a mistura entre um argentino e um cearense dá como resultado um porteiro que pensa que é o dono do condomínio. Só não disse baiano porque sabia que a gente era baiano.

Assim como Marx e Engels - não Marx e Hegel - referem-se à divisão social do trabalho no âmbito dos quadros capitalistas, aqui no Brasil criamos, por políticas de distribuição desigual da riqueza, a divisão regional do trabalho. Cearenses, baianos, paraibanos, piauienses, sergipanos, pernambucanos, etc, estão para porteiros, empregadas domésticas, diaristas, motoristas, serventes, pedreiros, trocadores (como se chama cobrador de ônibus por lá), etc. E paulistas, cariocas, catarinenses, paranaenses, etc, estão para que? O Brasil está dividido, não por que queremos ou gostamos. Muito muito pelo contrário. Queremos porteiros paulistas, serventes catarinenses, pedreiros cariocas, diaristas gaúchas, eletricistas e encanadores mineiros. Queremos também baianos médicos, cearenses administradores, paraibanos empresários, sergipanos investidores, pernambucanos gerentes, alagoanos advogados, etc. Somos a favor da união, da igualdade, da correção dessa injustiça produzida e reproduzida historicamente por falsas ideologias sudestinas e sulistas que desejam penalizar os empobrecidos com a exclusão ainda maior daqueles/as que foram vítimas da concentração de recursos nesse país.

Portanto, nós nordestinos, devemos reagir com veemência a toda e qualquer ilação sobre nosso desenvolvimento atrasado no qual preconceitos racistas e étnicos são utilizados para justificar nossa condição, num momento em que forças conservadoras querem voltar atrás na história, para que o estado continue servindo apenas aos seus interesses. Nosso atraso é fruto da concentração de poder e de recursos do estado brasileiro nas regiões sudeste e sul, não por conta de elementos culturais do nosso povo, afinal, cultura por cultura, nossa cultura nordestina é de uma riqueza que impressiona o país inteiro. Foi justamente na cultura que criamos, mesmo a contragosto e perseguição das elites - principalmente na dimensão religiosa, espaços para expressar nossa identidade contextualizada, em cordel, contos, cantigas, danças, formas de organização e solidariedade, lendas e mitos que indígenas e africanos nos oferecemos de presente, isso sem falar nas reinterpretações que fazemos de elementos de outras culturas, mesmo sem recursos do estado, criamos produtos maravilhosos por mulheres e homens cheios de vitalidade que a esperança humana concebe.

Joselito Manoel de Jesus, professor, pardo, poeta, da nação nordestina de coração.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

ESTUDAR, REFLETIR, REZAR (intertextualizando com comer, rezar, amar, na perspectiva da interação verbal bakhtiniana) ou CARTA PARA MINHA SANTINHA


Minha Santinha, vou enunciar minha oração.
Ouve a minha prece, entende a minha expressão.
Quando eu me expresso sempre, 
mesmo sem querer, ou sem saber,
 eu revelo a minha posição.
 
Sendo assim, Tu me vês
em minha constituição ideológica,
da orientação social que me expressa
como sujeito coletivo que, muitas vezes,
cai em contradição.

Penso que falo como um pecador e, assim constituído, a resignação penitente vem como tom ideológico de expressão do meu ser, recolho-me na vergonha do pecado e interpreto todos os acontecimentos negativos em minha vida como castigo do Céu.

Dessa forma, o efeito político em meu ser é devastador, pois não consigo me mobilizar para lutar contra as infames estruturas sociais que me esmagam. Contudo, imediatamente, uma memória não tão longínqua vem me contar, através de Chico Buarque, uma certa interpretação.

Você que inventou esse estado
e inventou de inventar
toda a escuridão
Você que inventou o pecado
esqueceu-se de inventar o perdão

 Então, por essa interpretação crítica de uma parte de nossa história, eu não posso me sentir, desse modo, culpado. Eu me nego a aceitar a condição de um produto subjetivo precário e submisso dessa invenção social que nossa história produziu intencionalmente, pois se tivéssemos sido colonizados pelos asiáticos ou pelos africanos certamente teríamos tido outra noção de pecado, ou quem sabe nem enunciaríamos essa palavra para designar essa invenção linguístico-histórica.

Portanto, posso romper com todas as invenções que me empobrecem e me encarceram em suas tramas infernais. Mas, para isso, é preciso me educar sempre. Pois a educação, mesmo em suas contradições, me leva a entender muitas das tramas linguísticas que me afetam. Sei que, compreendendo esses vetores de poder, através de um intenso e permanente processo educacional, posso, mesmo em meio às contradições, colocar-me numa posição social favorável ideologicamente, o que me fortalece na arena de poder da minha condição humana quando me constituo como sujeito social num grupo bem organizado politicamente, seja através do sindicato de minha categoria profissional, seja no diretório acadêmico da minha escola e da minha universidade, seja nas associações e grupos formados para refletir e fortalecer a luta pela emancipação humana de todos os grilhões que a história "inventou".  E, mesmo dentro desses grupos e associações, combater os sujeitos discursivos que apresentam-se contraditórios às nossas lutas.

Portanto, minha santinha, eu não vou mais rezar como um pecador. Não posso mais bradar nem na condição de um “degredado filho de Eva”, nem do modo “suspirando, gemendo e chorando”. Humildade é uma coisa, mas colocar-se sempre no lugar do fraco, do dependente que sempre precisa da ajuda do forte é outra. Eu não aceito essa invenção que as estruturas eclesiais, associadas aos grupos políticos e econômicos hegemônicos, impuseram aos negros, aos índios, à população brasileira que foi se constituindo nessa rede tramada para nos aprisionar nesse pecado que eles nos trouxeram em suas caravelas. Eu estou desinventando esses enunciados que me encarceram neste “vale de lágrimas”, para meu fortalecimento político que reforça minhas posições ideológicas.

Aqui rezo, minha santinha, como um filho da história, parido permanentemente pelas práticas discursivas que me engendram cotidianamente com os meus e as minhas contemporâneos (as). Minha fé adquire um status completamente diferente agora.

Amém.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, da Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.  

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

"Bolinho de Jesus"???? Prefiro o Acará!!!



Um artigo de Ailton Ferreira (2015) e uma reportagem no Jornal A Tarde de segunda-feira, 28/12/2015, nas páginas A3 e A4 apresentam a questão da canibalização do acará (acarajé) e do abará, possibilitando inúmeras reflexões sobre o fenômeno, possibilidade na qual me insiro a fim de gerar ainda mais reflexões sobre um fenômeno que pode passar despercebido para muitas pessoas, reproduzindo um pensar sobre a africanidade no Brasil que corrobore o racismo e seus efeitos sobre nossas relações sociais, políticas, econômicas e culturais.

No artigo de Ailton Ferreira intitulado “ Acarajé, respeito à tradição”, o autor critica outro artigo publicado no mesmo jornal, do antropólogo Luís Mott, no qual, segundo Ferreira (2015), Mott

[...] faz elogios ao “bolinho de Jesus”, defende sua comercialização por pessoas não caracterizadas pelas indumentárias afro brasileiras e nos surpreende ao defender que o acará deve ser apreciado pela mão invisível do capital, o determinante para a decisão de compra do acará, e não a orientação pela tradição cultural. (FERREIRA, 2015, p. A2)

De fato, a ideologia capitalista, visando a maximização do lucro, pela iniciativa individual, através da exploração do mecanismo da mais-valia, vai descaracterizando os elementos simbólicos da cultura e da fé popular, produzindo a reificação das relações e sentidos históricos e culturais emanados, no caso, pelo abará e pelo acarajé.

A “canibalização” capitalista se alimenta das forças vivas e dinâmicas que se fortaleceram num contexto de opressão e exclusão. Os (as) vendedores (as) de rua surgiram num contexto brasileiro aristocrático do final da escravidão em que a negritude ficou sem terras e sem acesso aos bens produzidos coletivamente. Enquanto os imigrantes italianos chegavam e eram bem acolhidos, os negros eram despedidos de mãos vazias, empurrados para os morros, as periferias, colocando, entre outros, seus tabuleiros na cidade a fim de continuar produzindo sua existência.

O acarajé e o abará são produzidos por subjetividades historicamente constituídas, com seus tabuleiros, suas indumentárias, seus símbolos enfim, erguidos na cidade em sua altivez pelo povo negro, contra uma sociedade que desejava sua destruição. A inserção do negro na sociedade brasileira pós-escravidão pode ser entendida muito bem nessa dialética tensa, preconceituosa, violenta, folclorizada ideologicamente. O sangre negro derramado durante séculos tempera historicamente o acará e o abará, junto ao dendê que o ferve. Foi oferecido ao paladar da sociedade baiana e brasileira como forma de sobreviver material, física, cultural e espiritualmente, a essa mesma sociedade que detestava, e muitos ainda detestam, sua presença neste território e em todo o mundo.

O acarajé é comida sacra de Yansã, alimento litúrgico, partilhado com as pessoas que devem usar as roupas afro-brasileiras conforme determina a lei municipal sob a orientação da tradição religiosa de matriz africana, e quem vende ou manipula o acarajé deve, no mínimo, respeitar a religião que reúne uma parte do nosso povo. (FERREIRA, 2015, p. A3)

Transformados em mercadoria pelos princípios e leis do mercado, o abará e o acarajé, perdem sua essência explicativa, sua força original, sua constituição tensa, violenta, dialeticamente afirmando-se diante desse contexto de negação da negação, como uma das condições de afirmação de um povo, ou, como diz Ferreira, parte dele. A taxa decrescente de lucro e a lei da procura e da oferta não vão atingir a memória de um povo que permanece altivo, oferecendo, também com seu tabuleiro, a mensagem de que não aceita sua destruição, o que me impede de cair na ilusão do fetiche da mercadoria.

Recuso-me a comer o “bolinho de Jesus”, vendido por mãos que rejeitam a nossa história, nossa memória contra a escravidão e todos os seus efeitos, sentidos até hoje. O “bolinho de Jesus” tenta roubar essa memória sagrada, rejeita a forte presença simbólica de nossa gente e ainda coloca Jesus na condição de marca capital de uma mercadoria copiada da comida sacra de Yansã. O discurso que não está escrito, mas está dito, é o seguinte: o “bolinho de Jesus”, abençoado por Este, é limpo das impurezas do candomblé, dos oguns e orixás, etc, e, por isso, com o "Selo Jesus de Qualidade", é o único autorizado para ser comido pelos evangélicos baianos e todas as pessoas de bom senso.

A mensagem acima é uma declaração de profundo desrespeito para com o povo negro que tem as religiões afro-brasileiras como prática de fé. Por isso, não posso comer aquilo que vai ferir a minha alma, o meu senso de justiça, de respeito ao (à) outro (a). Continuo com meu acarajé, com meu abará, que, por sinal, é o motivo principal do meu próximo texto.

Com abará e acarajé, oferecido aos orixás, Joselito de Salvador, da Bahia e da África em nosso território.   

domingo, 20 de dezembro de 2015

Povo impávido, colosso

Eu leio comentários daqui e dacolá. A maioria bem parcial. Todos são parciais, inclusive este. Todo texto tem uma abertura semântica que não se fecha. Fico num angústia tremenda. Tendo a não aceitar os governos Dilma e Lula, pois procuraram obter uma hegemonia formando um bloco histórico que, por um certo tempo deu certo, mas com apoio de esquemas de corrupção baseados nas principais empresas estatais do país. Quando tiveram a oportunidade de mudar, deixaram tudo como dantes. Fortaleceram ainda mais um contexto político no qual não há como obter hegemonia sem irrigar os bolsos dos comparsas. 

Não há ideologia que se sustente quando nosso povo ainda está em formação política. Não uma formação política teórica, abstrata, longínqua da língua do povo, mas aquela que sentimos na pele quando associamos uma decisão no Congresso, ou mesmo no campo jurídico do Supremo Tribunal Federal (STF), com o preço da água, da energia elétrica, da alimentação, do transporte, do trabalho, do vestuário, da saúde, enfim, da produção da nossa vida cotidiana. Enquanto jovens de classe média repetiam com Cazuza que queriam uma ideologia pra viver, o povo quer viver para ter uma ideologia. E, por um tempo, as elites nos deixaram respirar fora da penúria. E isso aconteceu historicamente agora, no governo Lula e ainda no primeiro mandato do governo Dilma. Tivemos e, creio, ainda temos, nosso tempo de Quilombo dos Palmares.

Entretanto, quando nossas elites perceberam que estávamos sonhando demais com um país em que houvesse justiça social, o respeito às diferenças e à diversidade, no qual os trabalhadores e trabalhadoras fossem respeitados (as) em sua capacidade de produção coletiva da riqueza nacional, os (as) jovens negros (as) e pobres estavam tendo acesso à universidade e aos escalões superiores do mercado de trabalho e do centro de decisões, aí apelaram para o moralismo cínico e para as violências simbólicas e físicas, tendo o novo Domingos Jorge Velho, a Rede Globo, e boa parte da imprensa no apoio ideológico a tal investida contra as classes populares. 

Aécio, Serra, Alckmin e todo o PSDB, o DEM, os partidos nanicos, e todo o PMDB também se alimentam desse dinheiro sujo que está na base financeira do nosso processo eleitoral. É com esse dinheiro que se pagam os carros de som, os "santinhos", os cabos eleitorais, as propagandas na tv, rádio e jornal, as inúmeras viagens de avião por este país continental, as estadias em hotéis, as compras de lanches, água, passagens para assessores, a assessoria jurídica, a assessoria digital na internet, as camisas, as composições musicais, as faixas, cartazes, os apoios de prefeitos, vereadores, deputados, senadores, partidos. Qualquer um de nós que queira fazer política-eleitoral sem apoio financeiro não vai conseguir nem metade dos votos - com raras exceções, que devem existir e resistir. A maioria dos que não entraram em algum esquema é, basicamente, por duas razões: ou não puderam entrar, ou não quiseram entrar. Os que não puderam não faziam parte da "coalizão", não podiam saber, não tinham poder eleitoral ou grande poder econômico. Os que não quiseram, a minoria, também não souberam e, se soubessem, ou morreriam, ou sofreriam o assédio no mercado de compra e venda de suas convicções. 

Não há saída para nós se não nos unirmos em torno de que país nós queremos. É preciso fazer esse país, mudando urgentemente o nosso sistema político-eleitoral. Mas esse grande feito não vem de graça, como uma dádiva. Vem da luta, da organização popular, da reflexão coletiva e pessoal nas arenas discursivas instauradas em nosso tenso momento histórico contemporâneo. E os movimentos sociais têm um papel preponderante nesse contexto. Para além de "salvar Dilma do golpe", para além de reverenciar Lula como o nosso "novo pai dos pobres", há o caminho em que a história deve continuar sendo feita, apesar dos períodos eleitorais. É preciso que este novo sujeito social apareça na cena pronunciando uma nova proposta que assegure o que foi feito nos governos do PT, mesmo a gente ainda aprendendo a fazer política a partir da "memória da pele". Assim, novos líderes, formados por uma nova história, aparecerão, necessariamente, paridos por um povo que se ergue, impávido, colosso. 

Portanto, nessa angústia em que me vejo, não vejo outra saída senão o fortalecimento dos movimentos sociais e culturais, como escolas públicas de formação política do nosso povo em processo permanente de ascensão e de consolidação de sua hegemonia popular neste palco da história desse país grande, rico, belo e cheio de futuros que somente seu povo organizado pode trazer em seu benefício. 


Joselito Manoel de Jesus, professor.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

BREVE VISÃO SOBRE OS GOVERNOS DO PT

O Governo Dilma se segura. Abalado pela corrupção, pela crise econômica e política, recolhe-se ao silêncio e espera a definição dos contornos da atual conjuntura política que se esboça, pela reação virulenta das classes hegemônicas, conservadoras, contra os avanços que tiveram as classes populares. Embora haja críticas sérias ao desenvolvimento reformista, nos quadros de um capitalismo submisso, preconceituoso e violento, a ascensão de milhões de brasileiros a melhores condições de existência, força a necessária tensão do conflito de classes que estava “apaziguado”, melhor, ocultado na submissão cômoda que atendia aos interesses das classes dominantes brasileiras.

Essa tensão social força o renascimento da política no século XXI fora dos quadros das determinações anteriores, em que somente os representantes das classes sociais e econômicas privilegiadas lutavam pela hegemonia, pelo comando dos rumos de nosso país, seja no PSDB, seja no antigo PFL, hoje DEM, seja no PMDB, seja nos traidores de nossa classe popular representados nos partidos nanicos, tendo como um exemplo o “Paulinho da Força”, no partido “Solidariedade”, solidariedade com os privilegiados. Ao entrarem em cena, os integrantes das classes populares começaram a ocupar um lugar institucional – nas universidades, nos hospitais, nas secretarias de justiça, saúde, ação social, e educação – alô Ana Lúcia Gomes, Amélia Maraux, Érica Capinan, José Carlos e tantos (as) outros (as) –, lugares antes reservados aos obedientes agentes públicos “de confiança”.

Essa ocupação produziu, sem dúvida, distorções, nas quais muitos afoitos se apegaram e se apegam, com um discurso tecnocrático e tecnicista, na tentativa de destruir toda a política pública dos governos do PT. Muitos (as) sujeitos indicados pelos governos Lula e Dilma estavam, de fato, despreparados tecnicamente e emocionalmente para assumir tais posições no quadro do estado brasileiro – cargos sempre ocupados por tecnocratas fiéis aos ditames das classes privilegiadas – tendo de aprender a lidar com os desafios lançados pelas demandas exigidas da sociedade em mudança e de apreender os meandros da burocracia estatal, criada para dificultar mudanças que atendam aos interesses das classes populares.

Contudo, tal ocupação também reproduziu, no interior dos aparelhos do estado brasileiro e baiano, os conflitos que estão na constituição da conjuntura política, econômica, cultural e social que ora podemos perceber nas principais manchetes dos jornais televisivos e impressos. As tensões raciais, de gênero, de sexo, de etnia e, entre outras, de classe, são expressas nas lutas cotidianas, nos avanços e recuos das políticas públicas do Governo Dilma, nas reações moralistas de indivíduos, grupos e instituições que desejam a sociedade como era: só deles (as), tão somente a serviço deles (as). Índios sendo queimados vivos; sem-terra sendo executados; homossexuais agredidos e assassinados; mulheres espancadas e mortas todos os dias; negros e negras sendo ofendidos (as) pelo seu cabelo, pela ocupação de um espaço que apenas era reservado para brancos (as); nordestinos (as) sendo acusados (as) e ameaçados (as) pela eleição de uma presidente mulher, entre tantas outras violências produzidas nos últimos anos, são indícios concretos de como as tensões, ficando mais e mais violentas, estão escancarando uma realidade social que estava oculta sob o “equilíbrio” que governos anteriores mantinham através de suas políticas de exclusão.  

Portanto, antes de começar a atirar no Governo Dilma – que produziu, não deixo de afirmar, seus erros e permitiu o empoderamento do PMDB em seu governo – pense de forma abrangente a realidade brasileira. Não deixe que uma parte da verdade oculte a verdade mais ampla que produz os fenômenos que não conseguimos articular numa racionalidade do movimento constante da história, porque não adotamos uma perspectiva metodológica que permitirá a apreensão desse movimento produzido por um deslocamento social, político, econômico e cultural que as últimas políticas públicas dos governos do PT ensejam e produzem.


Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes, das classes populares e de Jesus, O Emanuel.