terça-feira, 16 de julho de 2019

Domínio Evangélico

Ando triste. Sorrio, mas é apenas disfarce. Os dias se vão sombrios porque a mentira, o cinismo e a perversidade dos poucos ricos deste país encontra terreno para se expandir na apatia, ou na própria concordância dos pobres, manipulados por ideologias rasteiras. Isso é triste. Muito triste. Um povo inteiro vai voltar a passar fome, vai voltar a pedir nos sinais de trânsito, alguns vão, na hora mais dolorosa da fome, arriscar-se nas ruas da cidade em busca de sobrevivência. E ainda agradecerão as esmolas que lhes amenizem a fome e a fraqueza, que os aproximam velozmente da morte precoce. É triste.
Imaginava eu, que apenas as elites de nosso país eram perversas. Mas hoje vejo com tristeza que a classe média carrega tantos preconceitos que se transformam em exclusões. Um sujeito da classe média não admite que alguém da classe pobre divida a mesma viagem de avião, que frequente os mesmos espaços sociais, que vista a mesma roupa, que coma a mesma refeição, que tenha sonhos parecidos. Que tristeza toma conta de mim nesta hora! Como eu posso ser bem sucedido se quem está ao meu lado, na mesma construção de nação e de mundo, passa necessidades básicas e é impedido de ser bem sucedido? Como posso ser feliz se o porteiro do prédio está infeliz? Se a diarista está desesperada pensando em como pagar um dentista para sua filha? Como? Como posso pensar num deus que divide o mundo em bons e maus e legitima toda essa covardia contra os mais pobres do meu país? E todas essas pessoas rezam e creem num deus, um deus feito sob medida para as necessidades materiais de cada um, num ateísmo cínico que projeta deus como um banco, uma imobiliária, uma concessionária, um hospital, como um seguro de vida e de pós-morte.
Deus me foi apresentado pela minha mãe. E esse deus lhe foi apresentado pelos seus pais, vindo de uma longa tradição colonial de um deus branco, ocidental, homem, hetero, sem feminilidade e com uma vigilância extrema sobre seus filhos e suas filhas, “pecadores originais”. Depois esse deus tomou uma face mais amorosa, misericordiosa e justa com a Teologia da Libertação. E aí eu comecei a enxergar Deus, Aquele que anda no meio do povo, Emanuel: O Deus-Conosco. Mas Deus foi perseguido pela própria Igreja Católica, através de João Paulo II e de Ratzinger, o cardeal alemão que fingia não ver nem ouvir os clamores das crianças abusadas por padres e bispos católicos. E aí deus entrou em declínio. E foi reapropriado por forças ainda mais obscuras de nosso país: os neopentecostais.
Surgiram e se fortaleceram falsos pastores: Edir Macedo, Silas Malafaia, Bispa Sônia, Valdemiro Santiago, R. R. Soares, Marco Feliciano, David Miranda e uma série de outros menos conhecidos que começaram a lucrar alto com o abuso da fé das pessoas simples. E uma onda evangélica, como um tsunami, assolou o país de norte a sul, como uma epidemia altamente contagiosa, atingindo milhões de seres humanos e tornando-as soldados a postos para as “ordens divinas” de seus falsos pastores guias, que se tornaram donos de invejável poder econômico.
E esses falsos “pastores” deram o passo seguinte: o poder ideológico. Começaram a comprar bens materiais de alta incidência na sociedade, como redes de televisão e rádio. A fé rendeu-se ao materialismo tão criticado nos discursos desses abastados pastores, que acumulam bens em cima da ignorância, da ingenuidade e, também, da perversidade de um povo. Esse poder ideológico alimenta o racismo, o fascismo, a ignorância, o negacionismo científico e a hipocrisia de modo geral. E deram mais um passo importante: o do poder político. Começaram a eleger pastores como Marco Feliciano, Márcio Marinho, "Irmão Lázaro", "Flor de Lis" e indivíduos a eles associados intimamente, como Magno Malta, entre tantos/as outros/as. E esse poder está sendo acumulado, eleição após eleição, intimidando governos, ameaçando as decisões cruciais das autoridades que atrapalham os seus negócios e caracterizando um domínio teocêntrico perigoso para as liberdades individuais, para a arte, a cultura, a educação e o desenvolvimento social de nosso país.
Com a eleição de Bolsonaro, o mais obscuro presidente de nosso tempo, essa rede de poder se fortaleceu e um obscurantismo perigoso toma conta do país. O apelo à violência através do uso de armas, a destruição da natureza, a perseguição às universidades públicas, a entrega do país ao capital privado norte americano, a extinção de direitos fundamentais dos trabalhadores e a violência contra mulheres e homossexuais são desdobramentos de um sistema de governo aberrante, montado sob a égide de um evangelismo miliciano e militar que conduz esse Brasil a um colapso que em breve vai mostrar-se concreto para aqueles que acreditam em palavras fáceis e enganosas de pastores, políticos, grandes empresários e milicos.
E agora, nesta encruzilhada da existência, eu, mesmo sendo dito por alguns como “bem sucedido”, me encontro mal, porque meu país sucumbe sob o silêncio daqueles e daquelas que pagarão o preço mais caro de nossa história: a da exclusão a níveis desumanos. Não se passarão dois anos e veremos grande parte de nossa gente vagando nas ruas à procura de sobrevivência. Já ocorre, mas ainda em níveis que não incomodam. Mas vai aumentar. Quem não quis compartilhar um assento de avião e bateu panelas em suas varandas, vai ter de dividir o medo de viver entre os que têm fome e os que vão ser alimentos para estes, como num walking dead surrealista. E deus sairá ainda mais fortalecido, porque os pastores que causaram esta situação, vão orar pelos fiéis sem pão e sem lar, afirmando que se trata das palavras da escritura que "deverão se cumprir". No lombo dos outros, claro.
Eu ainda rezo, para ver se alcanço um lugar, uma montanha, um beco, um deserto, uma avenida, uma viela da periferia, onde Deus possa ouvir a minha tristeza. Não mais um deus católico. Não um deus pentecostal. Não mais. Mas Deus, inclusive o Deus Africano, o Asiático, o de todas e de todos, o Deus da Justiça contra mentirosos, hipócritas e gananciosos, do Amor à diversidade que a própria natureza expressa. É para esse Deus que eu ainda rezo e para Ele que entrego minha tristeza e minha ira.
 Joselito Manoel de Jesus, Professor     

terça-feira, 11 de junho de 2019

MINHA ESCRAVA PARTICULAR E O REINO DE ALGUNS

A pouco me dei conta de estar a contemplar os tênis e as meias de corrida que lavei. Na verdade não contemplava os tênis e as meias, mas o resultado do meu trabalho. Parece coisa de besta, eu ali, olhando algo aparentemente banal. Mas não é! Transformei sujeira e fedor em limpeza e cheiro bom. Coisa simples, e, profunda. As lavadeiras de roupa também são assim: transformam a sujeira e o mau cheiro das roupas em limpeza, cheiro bom, organização. Quantas pessoas passam por nós cheirando, roupas impecavelmente limpas, atraindo nossa atenção, mesmo que fugaz. Há alguém que lavou, que passou, que organizou no guarda-roupa. Esse alguém, que a gente muitas vezes invisibiliza, é uma lavadeira de roupas, que está na base da limpeza vestida que cruza nosso caminho.
Os garis, as lavadeiras de roupa, as varredeiras de ruas, todas essas pessoas são agentes de limpeza e sem elas a sociedade desmoronaria. O filme Ensaio sobre a Cegueira, adaptado do livro de Saramago de mesmo título, mostra que se perdêssemos a visão coletivamente a sujeira tomaria conta das ruas, das residências, de todos os espaços enfim. Se perdêssemos nossos garis, nossas empregadas domésticas e nossas lavadeiras teríamos que aprender a limpar nossa sujeira, e isso mudaria toda uma cultura escravagista que está na base da negação e invisibilização de pessoas que fazem esse trabalho. Assisto filmes europeus e americanos e percebo que, ao final de um jantar, quando todos e todas já foram, as pessoas que residem na casa é que vão para cozinha lavar os pratos, depois de terem limpado a mesa e varrido a casa. Aqui percebo que a sujeira fica acumulada, não por preguiça, mas por uma cultura Lady Kate: do "tô pagando" e se "tô pagando", deixa a sujeira para a nossa "escrava particular" limpar no dia seguinte, sob minha atenta e atentada supervisão. O problema de uma sociedade capitalista, racista e hedonista é que essas pessoas são invisíveis, tidas como inferiores na hierarquia de valores que a sociedade tece todos os dias, reproduzindo um status quo falido de um escravagismo muito presente nas corriqueiras atitudes que nos definem.
Percebo que muita gente quer o tal Reino de Deus. Mas esse desejo me parece contaminado pelo egoísmo e pelo racismo. Um reino só pra mim e no máximo minha família nuclear, idealizadamente branca e cristã. Desse modo, jamais alcançaremos esse Reino Universal, ou, atualizando, essa comunidade solidária de mulheres e homens, sem modificarmos nossos valores que se dizem cristãos, mas que são baseados no darwinismo social excludente aliado ao escravagismo cotidiano dos nosso lares, que tem como resultado a pobreza, a exclusão e a morte prematura dos que são considerados inferiores na hierarquia do reino do cão. É bom lembrar que Jesus Cristo não era cristão. Ele foi apropriado por uma instituição denominada Igreja Católica, que limitou a ação de Deus, Deus universal, num cristo particular, que se tornou símbolo poderoso a serviço dos interesses dessa instituição de poder autoritário e, como todo símbolo, deslocou-se agora a servir às igrejas neopentecostais de pastores de mau caráter como Edir Macedo, Silas Malafaia, R. R. Soares e Valdemiro Santiago. Quem tornou Jesus particular, aprisionando-o nos estreitos limites de uma instituição humana, que se intitulava "a religião verdadeira" em detrimento das outras formas de manifestação religiosa, afastando-o e afastando-as de Deus, não foi Jesus, foi a Igreja Católica.
Sou professor e, sem o trabalho das pessoas que limpam o espaço no qual trabalho, não há possibilidade da aula acontecer. Sou lavadeira, sou gari, sou varredeira e sou assim. Eu acredito no Reino no qual eu também sou gari, lavadeira, varredeira, empregada doméstica. Com eles e com elas eu limpo a minha própria alma, cheia de sujeira acumulada por essa história maldita que insiste em ser recontada, dentro do meu próprio lar.
Joselito Manoel de Jesus, Filho da Nair, que já lavou muita roupa para que eu chegasse até aqui.

sábado, 8 de junho de 2019

RUI COSTA DO PT DA BAHIA: O BOLSONARO DO NOSSO ESTADO

A Greve dos/as professores/as das Universidades Estaduais Baianas teve como êxito o desmascaramento da posição política do governador da Bahia, Rui Costa, e de seu partido, o que se diz "dos trabalhadores". A máscara de governante de um partido democrático caiu, mostrando a verdadeira face autoritária deste governo que, por isso mesmo, foi comparado ao déspota do Bolsonaro. Nem Rui Costa é um democrata, nem o PT é um partido de esquerda. Isso ficou claro para nós, professoras e professores das universidades públicas estaduais, que tivemos nossos salários cortados e vemos nossas instituições de ensino superior públicas, que atende milhares de jovens pobres do interior da Bahia e de suas periferias, serem desmanteladas por este governo e seu partido.
O PT deixou de ser, faz tempo, um partido de esquerda. Ele embarcou na onda neoliberalizante que corta conquistas dos trabalhadores, que asfixia as universidades públicas estaduais, que abandona bibliotecas públicas ao deus-dará, que corta salários de grevistas, que faz conchavos com deus e o diabo para continuar no domínio do Estado. Nenhum deputado ou senador - com exceção de Hilton Coelho e de Marcos Mendes - veio a nosso favor para mediar um diálogo com o autoritário governa a dor, Rui Costa. A "negona da Bahia", deputada estadual Olívia Santana, mostrou que só é "negona de Salvador", pois esqueceu dos negros e das negras da Bahia que frequentam as universidades estaduais na condição de estudantes e na de professores/as. Vocês deputados, não podem esquecer de um detalhe: o da diversidade. Antes de sermos estudantes e professores/as somos negros/as, somos mulheres, somos ciganos, somos indígenas, somos homossexuais, somos Uneb. Só nos recusaremos a ser votos e palmas de discursos fáceis que desejam se manter nos privilégios dos cargos de deputados e deputadas, com seus ternos e seus tailleur's. Acreditar que o PT é um partido de esquerda é se deixar enganar por uma esperança que venceu o medo, quando o medo ameaça todas as esperanças conquistadas pelos trabalhadores e pelas classes populares. Medo e insegurança que Rui Costa fez questão de ampliar entre nós, inclusive em relação à nossa aposentadoria.
Rui Costa, seu governador, adota uma postura autoritária contra o legítimo direito de greve dos trabalhadores, base na qual seu líder maior, Lula, foi proclamado como grande líder brasileiro. Rui opta por uma gestão dirigida por princípios neoliberais que atingem em cheio os trabalhadores do Estado, enquanto silencia em relação aos gastos da instituição mais improdutiva e mais cheia de privilégios e regalias do Estado: a Assembleia Legislativa, que agora vai pagar quase R$1,2 milhão pelo aluguel de aparelhos de ar condicionado para equipara a casa. "aluguel", é bom frisar. Sua concepção política não contempla o contraditório como elemento essencial para a manutenção e o fortalecimento da democracia. A transparência é outro item que inexiste neste governo da "Correria".
Sairemos da greve por inanição causada pelo corte de nossos salários, Rui Costa. Mas sairemos com a indignação a nos lembrar quem você se mostrou nesse processo: um autoritário, um governante déspota, que recusa o diálogo e a negociação com as nossas representações sindicais reunidas no FAD (Fórum das Associações Sindicais Docentes das Universidades Estaduais Baianas) e, além de cortar nossos direitos, ferindo nosso Estatuto do Magistério, nos negou o diálogo, nada nos apresentando como proposta, oferendo uma mesa de negociação sem direito a absolutamente nada!
Mas não nos renderemos Rui Costa! Manteremos nossa vigilância na dignidade daqueles e daquelas que contribuem para a educação pública e gratuita, que você ameaça acabar, neste Estado baiano de coisas. Dizem que você pode ser o candidato a presidente deste país. Deus livre os outros Estados desta Federação de ter uma continuidade de Bolsonaro a nos desgovernar. Eles e elas vão aprender o que acontece com uma democracia conveniente, sustentada por princípios neoliberais, que você e seu partido de centro direita imprimem à dinâmica da gestão do Estado.
Deus nos livre de você Rui Costa! "Nunca antes na história" deste estado, a lembrar de como Wagner tratou os professores e as professoras da Rede Estadual de Ensino Público, os servidores públicos e as servidoras públicas foram tratados assim com tanto desdém. Meus sinceros votos nas próximas eleições serão destinadas à esquerda, não a um partido falido que atropela servidores/as públicos/as tratando-os como inimigos e criminosos. Corte seu helicóptero e os privilégios da Assembleia Legislativa que vai sobrar muito dinheiro para fazer sua ponte de aço e cimento, por onde transitará, sobre as águas da Bahia de Todos os Santos, o progresso excludente do capitalismo que multiplica seus ganhos enquanto nós, trabalhadores que produzem a verdadeira riqueza deste Estado e deste país, somos atirados ao mar para nos afogarmos em suas miragens ambiciosas. Você venceu! Demonstrou como se trata trabalhadores/as em greve, enquanto seu partido ficou calado, observando nossa luta, esquecido do São Bernardo do Campo de onde ele saiu.

Atenciosamente, Joselito Manoel de Jesus, Professor da Universidade do Estado da Bahia, Uneb

sábado, 20 de abril de 2019

RESSURREIÇÃO: TRAVESSIA DA MORTE PARA A VIDA EM PLENITUDE

Nesses tempos sombrios que o nosso país passa, como se fosse uma travessia difícil que exige coragem para ser feita, tempos nos quais a mentira em forma de fake news, a truculência em forma de perseguição, a crueldade racista em forma de 80 tiros dados sobre um automóvel branco no qual a pele preta estava ao volante, como uma terrível ironia. Neste país um Ministro da Educação num gesto profundamente discriminatório e desrespeito aos/às nordestinos/as, fala que as universidades da nossa região não devem ensinar filosofia e sociologia. Neste país no qual uma ministra afirma que lugar de mulher é dentro de casa, submissa ao marido, que meninas devem vestir rosa e meninos devem vestir azul, e no qual uma igreja neopentecostal começa a exercer desmedido poder em conluio com o Presidente da República, um misógino, racista e violento, pouco afeito à leitura e à reflexão, que entrega nossa nação de mãos beijadas para os norteamericanos. Um país no qual dois ministros do STF utilizam de dispositivos autoritários, instaurando inquéritos à revelia do Ministério Público, característicos de períodos de exceção democrática, para silenciar e perseguir as revistas jornalísticas “O Antagonista” e “Crusoé”, tentando blindar um deles de suas ligações perigosas com o capital sempre corrupto. Tempos sombrios estes. Que precisamos atravessar.
Por isso, nesse tempo entre a morte e a ressurreição eu rezo pela ressurreição da verdade! Eu alimento a esperança na ressurreição do movimento negro! Eu espero ativamente a ressurreição do nosso povo, ferido em seus direitos fundamentais, com acesso reduzido à saúde, com a educação pública sendo ameaçada, com possibilidade de não mais obter a aposentadoria. Eu torço pela ressurreição dos movimentos populares, dos sindicatos e associações profissionais na luta contra o desmonte pavoroso do Estado a serviço da população e dos direitos fundamentais do ser humano. Eu torço pela ressurreição do sujeito político na arena do debate, defendendo a vida acima de qualquer lucro do grande capital nacional e internacional.
O Jesus Cristo no qual eu acredito é aquele que veio para que todos/as tenham vida, vida em abundância! Jesus Cristo que foi às ruas, pregou a divisão do pão e não o acúmulo ganancioso do capital; Aquele que chutou a barraca dos vendedores da fé e hoje chutaria os falsos pastores que enriquecem vendendo a palavra de Deus; Jesus Cristo que pregou a paz, colocando a orelha do soldado de volta, e não o porte de arma, no caso a espada. Eu acredito na Ressurreição de Cristo e de todos/as aqueles que com Ele se pareceram: creio na ressurreição de Paulo Freire, de Irmã Dulce e de Madre Teresa de Calcutá e de todos/as aqueles/as que lutaram para que os pobres da terra tenham maiores chances de viver e de pensar coerentemente e solidariamente sua existência; creio na ressurreição de Chico Mendes, de Irmã Dorothy Stang e de todos/as aqueles/as que morreram em defesa da natureza; creio na ressurreição de Martin Luther King, de Septima Clark, de Nine Simone, Zumbi e Dandara dos Palmares, de Malcon X e de todas as pessoas que lutaram em defesa dos direitos da negritude; creio na ressurreição de Milton Santos, de Oscar Wilde, de Charles Chaplin, do negro Machado de Assis, de Einstein, de Lima Barreto, de Carolina de Jesus e de tantos/as intelectuais que pensaram a justiça, a igualdade e um mundo melhor para todos e todas, mesmo com suas contradições humanas.
Creio, enfim, na Ressurreição do mundo no qual a utopia seja o nosso horizonte permanente de ação. São em todas essas ressurreições nas quais acredito e celebro, porque nelas e por elas, a Ressurreição que se celebra ganha todo o sentido. Creio na Ressurreição da esperança, do amor, da verdade, da justiça e da liberdade. Eu não posso celebrar uma ressurreição fora de mim, se ela não se fizer presente em mim, em minha história, em meu espaço geográfico, em minha memória, em minha luta pelo mundo que Jesus Cristo pregou, no qual o critério de sucesso e de renovação é daquele e daquela que abandona toda a arrogância, todo o preconceito, toda a discriminação, todas as armas e todas as amarras e, curvando-se, lava os pés dos seus semelhantes mais humildes. É nessa travessia do ódio para o amor, da tristeza para a alegria, da submissão para o diálogo verdadeiro que Paulo Freire propôs, da morte para a vida que eu celebro e atuo com minha existência humilde, mas persistente, porque, como o poeta Gonzaguinha, tenho fé na Vida, fé no homem [e principalmente na mulher], fé no que virá, nós podemos muito, nós podemos mais..." Feliz domingo de Páscoa para todos e para todas!

Joselito da Nair e do Zé (a quem espero reencontrar em breve), do Rafael, da Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.  

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

BRUMADINHO: VALE DE LÁGRIMAS, VALE DE LAMA


O mais recente crime ambiental ocorrido em Minas Gerais é a expressão mais clara de como o capital submete a natureza e a vida aos seus propósitos desenfreados de acumulação, fazendo cada vez mais ricos os ricos americanos, europeus, sejam lá quem forem seus investidores principais. O capital, ao contrário do que pensei anteriormente, administra muito bem a sua enorme onda de lama. Aqui, e em todo lugar do mundo. Aonde ele chega produz fome, exclusão, guerras e mortes! Mata anciãos, crianças, mulheres, indígenas, negros, pobres e demais indesejáveis. Mas, paga muito bem para que seus efeitos maléficos sejam ocultados embaixo do mar de lama que ele mesmo produz.

·     O Capital compra e paga a mídia muito bem para ela dar a notícia errada. O que é crime, transforma-se em “desastre”, “fatalidade”; A mídia sabe muito bem produzir silenciamentos com outras “distrações”, tais como campeonatos com seus golaços, novelas e seus embaraços, escândalos pessoais, guerras internacionais, propagandas geniais que ela cria para que a sociedade esqueça o crime doloso, e volte, como os pássaros, os gnus, os búfalos africanos, a continuar sobrevivendo como se a ordem natural da lama encobrisse todas as dores que continuam a latejar-se em gritos e clamores por justiça.
·         O Capital compra e paga juízes, promotores públicos, policiais, funcionários públicos, para que as investigações parem em determinado ponto do rio e nunca desaguem no mar que os implicaria definitivamente com o crime da acumulação sem freios, sem ética, sem dó.
·         O Capital compra e paga seus/suas deputados/as no Congresso Nacional e na Assembleia Legislativa de Minas e de todos os estados aonde têm interesse, para que esses/as deputados/as defendam esses interesses. Esses/as deputados/as são tão assassinos quanto os demais.
Para além de ser uma quadrilha, as grandes mineradoras constituem uma rede criminosa que tem na lama seu mais forte símbolo de extermínio. Há “rejeitos” por toda parte: rejeitos no sistema judiciário; rejeitos na Câmara e no Senado Federal; rejeitos na Rede Globo, na Record, no SBT e na Bandeirantes; rejeitos nos principais jornais escritos do país e nas emissoras de rádio; rejeitos na internet que jogam ainda mais lama sobre a verdade que afundou sob tantos “rejeitos”, do Capital sem jeito.
A Guerra do Vietnã foi um desses rejeitos. A divisão da Coréia em Norte e Sul; de Berlim em Ocidental e Oriental; a bomba de Hiroshima; a situação deprimente da Venezuela; a imensa miserabilidade na Nicarágua, Honduras, Congo, Etiópia, entre outros, são rejeitos produzidos pelo Capital. A riqueza da Inglaterra, dos Estados Unidos, da França, e de outros países considerados bem sucedidos sob a égide do Capital, nada mais é que resultado da exploração do ouro, pedras preciosas, petróleo e demais riquezas naturais dos países explorados. A escravidão foi um desses mecanismos de acumulação de um capital maldito, que deveria devolver aos descendentes dos holocaustos e dos mares de lama, o trabalho não pago, o ouro e as demais riquezas minerais surrupiadas pelo colonialismo perverso que naturalizou a morte como efeito colateral esperado do acúmulo ganancioso de riquezas que não lhes pertencem.   
Disse [o patrão], e fitou o operário
que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
o patrão nunca veria.
O operário via as casas
e dentro das estruturas
via coisas, objetos
produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
o lucro do seu patrão
e em cada coisa que via
misteriosamente havia
a marca de sua mão.
E o operário disse: Não!
- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
                                                              (Vinícius de Morares)
Enquanto o operário não perceber que o que ele produz é dele e é de todos/as, jamais saberá o valor do seu trabalho. Quem sabe muito bem o valor do trabalho é o Capital. É este último que acumula riquezas com o trabalho alheio, e o abandona sob a lama de uma aposentadoria duvidosa, de um sistema de saúde precário, de sistema de segurança que protege o capital e trata o cidadão como suspeito permanente que, submetido ao peso de tantos escombros, sucumbe antes mesmo de receber sua aposentadoria de fome.
Mas o verdadeiro criminoso é o Capital, que transforma o roubo – mais-valia – em transação legal aprovada por um Estado, igualmente criminoso, que chancela e legaliza o mar de lama que nos sufoca a existência, nos submetendo a residir por toda a história, nesse “vale de lágrimas” e, sobretudo, de lama.
E um grande silêncio fez-se 

Dentro do seu coração 
Um silêncio de martírios 
Um silêncio de prisão. 
Um silêncio povoado 
De pedidos de perdão 
Um silêncio apavorado 
Com o medo em solidão. 



Um silêncio de torturas 
E gritos de maldição 
Um silêncio de fraturas 
A se arrastarem no chão. 
E o operário ouviu a voz 
De todos os seus irmãos 
Os seus irmãos que morreram 
Por outros que viverão. 
Uma esperança sincera 
Cresceu no seu coração 
E dentro da tarde mansa 
Agigantou-se a razão 
De um homem pobre e esquecido 
Razão porém que fizera 
Em operário construído 
O operário em construção.
                                                                        (Vinícius de Moraes)

Joselito Manoel de Jesus, professor

terça-feira, 9 de outubro de 2018

NORDESTINO NÃO É GENTE

Por que os nordestinos não se curvam?
Por que? 
Por que os nordestinos não obedecem à nossa ordem
militar, agressiva, autoritária?
Por que os nordestinos não têm medo de nossa força,
nossa arma, nosso porte imperativo?
Por que essas mulheres e esses homens nunca se curvam
aos nossos ditames, aos nossos costumes, ao nosso sotaque?
Por que eles rejeitam os nossos líderes
os nossos machos, os nossos “achos”, nossos viris?
Por que esses nordestinos, esses “baianos” e “paraíbas”,
 - todos d’uma figa! - 
não reconhecem a sua inferioridade regional?

Por que eles se apegam às antigas memórias
como Conselheiro e Lampião?
Por que celebram uma tal Dandara, Maria Bonita e Mãe Menininha do Gantois?
Por que esses nordestinos não esquecem de suas raízes
e se submetem às nossas memórias?

Por que o Nordeste os acompanha em nossas terras?
Por que, apesar de nossas novelas, de nossas mídias e nossas telas
Eles não votam em nossos candidatos/as?
Por que? Por que esse Nordeste ainda insiste?
Por que essa região ainda resiste
à nossa brancura, ao nosso charme irresistível e à nossa alvura celestial?

Por que eles desconfiam de nossa competência inquestionável?
Por que não aprendem a ser gente como a gente assim o é:
superior, inteli-gente, gen-til, ele-gante, bem fal-ante
atu-ante, compe-tente, empren-dedor, po-tente.
Por que eles insistem nesse péssimo destino
de continuarem sendo eles mesmos?
Desconfiamos: esses nordestinos não são gente, 
tai nosso pesadelo!

Joselito Manoel de Jesus, Nordestino

segunda-feira, 28 de maio de 2018

AS VEIAS OBSTRUÍDAS DA AMÉRICA BRASIL

Em torno da greve dos caminhoneiros e seus desdobramentos, a realidade material que dita o ritmo de nossa história é interpretada a partir de diferentes lugares sociais, ideológicos e políticos, gerando tantas interpretações que nos conduzem a um caos no qual a compreensão se perde em seus emaranhados fios, não nos permitindo obter uma visão de totalidade que nos permita identificar os contornos definidores desse processo e, a partir do exercício coerente de nosso entendimento, nos posicionarmos melhor diante dele. As veias e vias de nossa singular América Brasil estão obstruídas, e, o diagnóstico desse fenômeno, embora complexo, nos exige o esforço da reflexão, pois sem esta, nos perderemos em seus circunstanciais desdobramentos, reduzindo nosso potencial político individual e coletivo na condição de passivos telespectadores da realidade capitalista contemporânea que nos pede decifração, sob pena de sermos por ela devorados.
Eu pretendo abordar esta greve a partir dos poucos instrumentos teóricos de que disponho, tais como a relação entre objetividade e subjetividade na definição de um problema que é outra categoria teórica, numa perspectiva filosófica dialética materialista, mesmo reconhecendo as insuficiências de uma abordagem que categoriza a compreensão em função da luta de classes e seus desdobramentos, arrisco-me a entrar nessa ordem do discurso por também reconhecer que a realidade não deixou de ser capitalista, que não estamos numa suposta “sociedade do conhecimento” e que os/as verdadeiros/as produtores/as da riqueza desse país são espoliados por políticas nocivas – como esta praticada pela Petrobrás nesse governo ilegítimo - que visam atender interesses corporativos e financeiros internacionais em detrimento do povo brasileiro.
Adotando as contribuições teóricas de Dermeval Saviani, afirmo que não são condições subjetivas, ou interpretações isoladas de um sindicato, ou de um grupo espontâneo de trabalhadores e trabalhadoras que produzem uma manifestação política consistente e coerente, mas condições objetivas, materiais, verdadeiramente problemáticas para a população. Quando um fenômeno está associado diretamente com a nossa produção da existência – como é o caso da greve dos caminhoneiros desses 2018 anos da civilização ocidental –, gerando desabastecimento de alimentos, combustíveis, materiais hospitalares, este se constitui num verdadeiro problema, no sentido filosófico do termo, pois problema é “uma questão cuja resposta se desconhece e se necessita conhecer”, uma necessidade que deve ser atendida, sem o que, não podemos conviver. (SAVIANI, 1993, p.25). Segundo este autor
Algo que eu não sei não é um problema; mas quando eu ignoro alguma coisa que eu preciso saber, eis-me, então, diante de um problema. Da mesma forma, um obstáculo que é necessário transpor, uma dificuldade a ser superada, uma dúvida que não pode deixar de ser dissipada são situações que se nos configuram como verdadeiramente problemáticas. (SAVIANI, 1993, p.26)
Nesse sentido, problematizar a realidade, é uma atitude filosófica, que procura estranhar o que nos parece natural, correto, inquestionável. A filosofia tem sua importância social na medida em que nos leva a nos assustar com a realidade, a desconfiar das verdades que a justificam, das ordens institucionais que a legitimam, identificar as contradições que a configuram, observando a relação entre subjetividade e objetividade e entre outras, entre as partes e o todo e nos exigindo uma práxis política revolucionária contra o fluxo sistemático de submissão e exploração do ser humano, tendo a emancipação política como horizonte. Desse modo, a greve dos caminhoneiros no Brasil neste ano de 2018 é um problema, porque é um desdobramento político de uma totalidade mais ampla que atinge a sobrevivência desta e de toda cadeia produtiva que afeta diretamente e indiretamente a população brasileira, principalmente a mais pobre, exigindo o desvendamento das tramas estruturais de sua condição, sob pena de repetir a história, “como os nossos pais”.

Subjetividade e Objetividade na Greve dos Caminhoneiros

Diante das inúmeras interpretações sobre o mesmo fenômeno, gerando também inúmeros entendimentos, cabe aqui a discussão breve sobre a relação entre objetividade e subjetividade na determinação do problema pois, segundo o já citado Saviani (1993) “Diríamos, pois, que o conceito de problema implica tanto a conscientização de uma situação de necessidade (aspecto subjetivo) como uma situação conscientizadora da necessidade (aspecto objetivo). Se o problema fosse definido por necessidades de caráter meramente subjetivas não haveria PROBLEMA, ou seja: tudo seria problema, desde o estacionamento dos caminhoneiros no acostamento das rodovias até o desabastecimento geral do país. Para recuperar a objetividade do problema é preciso a reflexão, para “interrogar o real, pensar a experiência, elevá-la à condição de experiência compreendida, para buscar sua gênese e sentido.” (BRZEZINSKI, 2002, p.7). Para Saviani (1993) seria sair da pseudo concreticidade para a concreticidade, do concreto sentido para o concreto pensado. Ou seja, se caímos no subjetivismo espontaneista e imediatista nossa interpretação do fenômeno é alienante, porque confunde a aparência do fenômeno com sua essência, não conseguindo perceber as contradições econômicas, políticas, sociais e culturais que o determinam, aceitando-o enquanto inevitabilidade do acaso e pondo um ponto final à história.
As condições criadas pela divisão do trabalho e pela propriedade privada introduziram um “estranhamento” entre o trabalhador e o trabalho, na medida em que o produto do trabalho, antes mesmo de o trabalho se realizar, pertence a outra pessoa que não o trabalhador. Por isso, ao invés de realizar-se no seu trabalho, o ser humano se aliena nele; em lugar de reconhecer-se em suas próprias criações, o ser humano se sente ameaçado por elas; em lugar de libertar-se, acaba enrolado em novas opressões. (KONDER, 1995, p.30)
A greve dos caminhoneiros nos mostra que a história não acabou e que a realidade objetiva, mesmo diante de tantos subjetivismos, se impõe quando a contradição entre capital e trabalho se exacerba de tal modo que não há outra saída senão a luta política, expressa inicialmente neste movimento grevista. Há, dentro desta mesma greve, uma luta de classes, de caráter setorial, entre os caminhoneiros autônomos e as empresas de transporte de caminhões. Os primeiros sofrem diretamente o aumento constante e abusivo do diesel, sentido na pele a piora de suas condições de existência, ameaçado pelo trabalho que faz em função do contexto cada vez mais precário de seu trabalho. Os segundos vêm suas margens de lucro caírem, reduzindo seu processo de acumulação e, por isso, agindo sorrateiramente, na provocação do denominado “locaute”.
Em função da nova política de preços da maior estatal do Petróleo no Brasil, acionada por um governo obediente aos ditames internacionais de acumulação, cujos desdobramentos atingem o setor de transportes de cargas rodoviárias no país, estão dadas as condições materiais para a greve dos caminhoneiros, que por agora se desenrola. A contradição produzida pelo acúmulo de capital internacional via o setor energético dos combustíveis fósseis, na América Brasil e em toda a América do Sul, provoca o conflito inevitável com aqueles e aquelas que transportam a riqueza e utilizam desse combustível como elemento fundamental do seu trabalho específico. É nessa perspectiva que podemos interrogar o real a fim de buscar sua gênese e sentido.
Desse modo, só podemos compreender os atuais movimentos políticos se identificamos as condições objetivas que asseguram a possibilidade da greve dos caminhoneiros e da certa "aprovação social" que se segue, independente das inúmeras interpretações subjetivas que são elaboradas. É identificando a contradição elementar entre capital e trabalho que vamos percebendo e analisando os movimentos do Estado, neste governo profundamente neoliberal, com paliativos que, logo logo, apesar das mentiras da rede Globo e demais emissoras, mostrarão sua ineficácia, porque protege o acúmulo do capital como um sagrado mantra, provocando ainda mais exclusão quando articulada a outras políticas nefastas como a reforma trabalhista e a reforma da previdência, condições materiais que desencadearão novas greves, não apenas dos caminhoneiros, ainda este ano. Este tempo que este governo ilegítimo acha que ganhou, para tentar consolidar suas posições neoliberais com outros setores da burguesia brasileira, não vai dar tempo para que ele governe essa contradição capital. Nos preparemos, pois.

Joselito Manoel de Jesus, Professor.
Com o auxílio de:
BRZEZINSKI. Iria. Profissão professor: identidade e profissionalização docente. In Iria Brzezinski (org.). Profissão professor: identidade e profissionalização docente. Brasília: Plano Editora, 2002.
KONDER, Leandro. O que é dialética. São Paulo: editora Brasiliense, 1995.
SAVIANI, Demerval. Educação: do senso comum à consciência filosófica. São Paulo: edit. Aut. Associados, 1993.

sábado, 5 de maio de 2018

CRIATIVIDADE DO GROTESCO FANTÁSTICO DO NORDESTE BRASILEIRO


Antes eu, em minha ignorância, não percebia que a expressão artística presente neste clipe representava um estilo cultural da rica e, algumas vezes grotesca, musicalidade nordestina brasileira. Só via graça no grotesco. Mas deixava de ver esse "grotesco" como expressão inteligente dentro das condições contextuais nas quais a criação artística se insere, num Nordeste construído por olhares de "tons tão sudestes" (alô, Chico César) no qual a seca da natureza e a frieza perversa das elites rurais produzem e naturalizam a "morte severina" que é a morte de que se morre
  de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

(Alô João Cabral de Melo Neto! In memoriam)  
A morte é um fenômeno muito próximo e o cemitério um cenário de despedida e de profundo significado da existência neste contexto de ser humano, onde a resignação e a revolta se encontram dialeticamente unidas, no qual o fim da espera vã e o início da esperança ativa lutam contra o desespero, que é a esperança sem endereço (alô saudoso Mestre Paulo Freire). No horizonte de produção e reprodução social da pobreza política e econômica (alô Pedro Demo), que tem como consequência desigualdades nefastas, uma das causas da "morte severina", o cemitério pode ser a abertura de novas possibilidades de luta, de criação artística e de organização social e produção cultural que, tendo a morte como ponto de partida, conceba a vida como ponto de chegada, invertendo os pólos lineares da história e reinventando a participação, a própria luta na direção da transformação social oposta à morte e ao fim da esperança.
O Homem que canta

O cigarro, o modelo de óculos, os braceletes nos punhos, a corrente no pescoço, o corte de cabelo, a calça de feira, a blusa com o escrito em inglês, remetendo a um sujeito elaborado numa cultura de uma década machista - 1970 do século XX - reiterando um discurso que se consolidou naquela época sobre esse sujeito social que tem de "manter sua fama de mau" - seu jeito de andar e até sua voz, entre outros, são elementos que encontram perfeita harmonia com a letra, a melodia e o arranjo que compõem a música e que, por sua vez, expressam seu trajeto-mundo que o pariu.

Contudo, a criatura nascida daquele processo também cria e recria o seu mundo que o desafia à expressão artística, que é uma forma singular de luta. O que eu via apenas como sintoma de pobreza, vejo agora, na dialética da minha percepção, a contradição entre a pobreza econômica, fruto da injustiça social, e a riqueza do resistente povo de minha terra, o Nordeste. Riqueza que, embora transcenda a pobreza, é a expressão mais profunda e fecunda de seus condicionamentos, mostrando, ao mesmo tempo, que nossas mulheres e nossos homens têm uma força ancestral tão poderosa que, se não tivesse esses condicionamentos impostos pela desigualdade econômica e social que as elites burguesas impõem, voariam tão alto que nenhum preconceito - como eu já muito tive - poderia alcançá-los. Nesse sentido, o homem que canta, pode ser o homem que, também, encanta.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.