quarta-feira, 18 de abril de 2012

ONDE VIVEM OS NOSSOS MONSTROS


A 2ª Guerra Mundial teve como consequência o extermínio de mais de três milhões de judeus. Hitler e a sociedade alemã da época acreditavam piamente que os judeus, negros, portadores de deficiências e homossexuais eram inferiores, uma "peste" a ser extinta da humanidade até restar somente a “raça pura”. Quando assistimos aos filmes que tratam dos horrores cometidos pelos ditos cidadãos civilizados da Alemanha, sentimos ojeriza diante de tanta crueldade e insensatez para com a vida do outro, do que foi escolhido como diferente e construído como inferior e indesejável. “O Menino do Pijama Listrado”, “A Lista de Schindler”, entre tantos filmes já feitos sobre esse drama humano, retratam essa realidade dantesca e assustadora, diante dos monstros que residem em nosso âmago.

Eu até já assisti um filme sobre isso. Era um filme de ficção. Mais ou menos assim: Uma nave pousa num planeta superdesenvolvido, que havia sido povoado por seres muito mais inteligentes que nós, os humanos. Nesse planeta, um cientista e sua filha (humanos cuja nave quebrou) são assistidos pelo pessoal que vai resgatá-los. O pai da moça demonstra ter uma inteligência incomum, bem acima da média da inteligência mais avançada da terra. Os tripulantes da nave de resgate notam que as construções desse planeta são muito mais avançadas. Nesse planeta há prédios de 700 andares, por exemplo. No decorrer da estadia a moça apaixona-se pelo capitão da nave de resgate e um romance se instaura entre eles, mas começa a surgir um monstro de energia, mais ou menos invisível, que começa a matar os tripulantes. Nenhuma arma, por mais avançada que seja, consegue deter o monstro, que some de repente, para reaparecer em outra oportunidade noturna.

Aos poucos, os tripulantes vão sendo mortos pelo monstro, que vai avançando inexoravelmente em direção ao capitão e à moça. Restam poucos, quando um dos tripulantes descobre uma máquina que aumenta repentina e sobremaneira a capacidade intelectual do ser humano. Esse tripulante “não aguenta a pressão” desenvolvida no processo e morre, não sem antes avisar ao capitão e aos demais colegas sobre a consequência desastrosa daquele aumento surpreendente que a máquina provocava no desenvolvimento das capacidades intelectuais superiores do ser humano: o monstro do inconsciente. Então eles concluem que foram os monstros gerados pelo inconsciente dos habitantes daquele planeta que pôs fim à sua civilização, já que o que os intrigava era a falta de indícios outros que provocaram o desaparecimento repentino de uma civilização tão inteligente. Sendo tão inteligentes, porque não se prepararam para a possível ameaça de aniquilação total?

Logo, eles chegam à conclusão de que o monstro que os está eliminando é um desses monstros gerados pelo inconsciente de algum deles. E depressa descobrem que é o cientista, pai da moça o autor inconsciente do monstro. No fundo de sua alma ele não aceitava a relação amorosa da filha com o capitão da nave, embora no plano consciente não fizesse objeções. E essa não aceitação inconsciente vinha à tona em forma de monstro. Eles, juntos com o cientista, entraram num cubículo de proteção, como um bunker. Embora a porta de aço fosse muito reforçada, o monstro do doutor foi rompendo-a e penetrou na pequena fortaleza. O cientista, para não ver a filha morta, atira-se na frente do monstro e morre com ele, pondo um fim à ameaça.

Talvez o holocausto seja ainda mais dantesco e assustador porque, embora historicamente se refira ao nazismo e à sua ideologia, aponta para os monstros que engendramos em nós mesmos, e que vivem dentro de nós, como potência e como ato. Em outro texto falei de lobisomens, e frankestein’s e esses temas me perseguem, exigindo pronúncia, embora nunca fiquem satisfeitos com o jeito como eu me pronuncio e com o conteúdo que eu aprecio no plano consciente. Esses monstros criam guerras permanentes entre nós. No campo educacional, por exemplo, os professores da educação fundamental lutam contra os professores do ensino médio; os professores da educação básica guerream contra os professores da educação universitária; os professores das escolas públicas contra os professores das escolas particulares; os professores de uma mesma unidade de ensino lutam entre si, e os professores e professoras contra os funcionários, uns acusando os outros pelos monstros que uns percebem nos outros, mas nunca em si mesmos.

Talvez se olhássemos no espelho, além da imagem que vemos todos os dias, veríamos também, no fundo das imagens que nos compõem, passando sorrateiramente e zombeteiramente entre elas, o monstro, a deformação de nosso ser, perambulando e manipulando as máscaras que usamos para aceitar o mundo, as pessoas, as escolhas, as maneiras de ser e de viver dos outros. Temos todos os nossos monstros e muitas vezes deixamos eles escaparem sem ao menos tentar um diálogo com os mesmos. E, quando eles escapam, geralmente alguém é ferido ou morre. Crianças, homossexuais, nordestinos, curdos, judeus, mulheres, nortistas, negros, árabes, israelenses, islâmicos, feios, pobres, baixinhos, gordos, carecas, cabeludos, sertanejos, cristãos, favelados, mexicanos, latinos, indígenas, sem-terra, encarcerados, entre tantas outras vítimas dos nossos monstros. A única forma de nos proteger desses seres homicidas, dessas nossas feras que vêm à nossa superfície exigir sua cobrança diante do nosso processo civilizatório, é dialogar com esses monstros, porque não se pode destruí-los. É apaziguá-los, criar o espaço propício para que eles manifestem a sua ira, e possam uivar, mugir, berrar, relinchar, sibilar, rugir, roncar e, entre outros, bramir, sem ferir os indefesos. Vigie e ore. Tantos pelos seus monstros, quando pelos monstros dos outros. Quando a "bela" conversa com a "fera", pode ser que haja um grande encontro de sensibilidade entre eles e, quem sabe, podemos descobrir “onde vivem os monstros”, conforme propõe Maurice Sendak, para poder compreender de onde vem a nossa raiva e, sem a pretensão de eliminá-la, apaziguá-la, e poder conviver sem provocar sofrimentos e mortes por causa de nossa arrogância ególatra. Ainda bem que não somos muito inteligentes.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes, dos seus monstros e de Jesus, O Emanuel

terça-feira, 10 de abril de 2012

EU QUERO UM OVO DE CODORNA PRA COMER

Ovo de Codorna
Eu quero um ovo de codorna pra comer
O meu problema ele tem que resolver

O nome de Luíz Gonzaga produz em mim um sentimento muito grande, um sentido inexplicável e transcendental, sentimento bom que emana do reconhecimento da inteligência e da sensibilidade daquele pernambucano maravilhoso. Nesta música, “Ovo de Codorna”, interpretada por Gonzagão, não sei se a letra é dele, o que sinto – que é uma forma de saber com sabor – é que o autor, ou os autores, trabalha (m) de forma magnífica o dizer, utilizando, para isso, o não-dito. Há muitos não-ditos significando por e através do que é dito nessa música, nos ensinando que todo dizer diz com os não-dizeres que apresentam sentidos outros e que somente o contexto, a situação, a memória, a ideologia e os sujeitos, afetados por isso tudo, é que vão dar uma certa precisão na negociação de sentidos que é feita. “De todo modo, sabe-se por aí que, ao longo do dizer, há toda uma margem de não-ditos que também significam” (ORLANDI, 2005, p.82).

A gente logo começa a perceber que o discurso é muito mais complexo do que pensávamos. Os significados e suas desconstruções nascem de relações de poderes. Em todo dizer há sempre o não-dizer presente, há sempre a vontade de que o meu discurso seja sempre “a palavra certa pra doutor não reclamar” (Zé Ramalho, Avôhai).


Quanto ao discurso definido por Pêcheux (1997, p. 77), “[...] é sempre pronunciado a partir de condições de produção dadas [...]”; é prática política, lugar de debate, conflito e confronto de sentido; surge de outros discursos, ao mesmo tempo em que aponta para outros. Não provém de uma fonte única, mas de várias. (SILVA, 2008, p.40)

E, nessa vontade de poder, a gente termina lutando pelo nosso dizer nesse lugar de debate, esquecendo que, só dizemos porque já disseram, e que, só é possível ser entendido, ou seja, só é possível que nosso discurso faça sentido, quando o sentido já está dado na cultura que nos engendra, que nos pari, que nos corta, nos censura, nos estimula, nos cozinha, nos devora e nos pede decifração permanente, para que a gente continue produzindo discursos, e sendo por eles enredados, tecidos. 

O ser humano provém de dois grandes fios que se entrecruzam: o primeiro é o fio da vida. Um fiapo que precisa da materialidade natural para continuar vivo. O segundo grande fio é a rede discursiva que tece o humano em sua complexidade. E o ovo de codorna acompanha esse trajeto, esse entrecruzamento de fios. Transita da materialidade "natural" de um ovo de uma ave, e torna-se construção cultural e simbólica que medeia a relação do agora ser humano com suas necessidades e condições. O ser humano e o ovo são humanizados num processo discursivo interminável - embora o ovo não pronuncie a si mesmo - donde Gonzagão se inclui nesse processo enunciando de forma sensível e muito inteligente o seu discurso sobre este objeto cultural: "ovo de codorna".

O não-dito começa a dizer logo no refrão: “Eu quero um ovo de codorna pra comer, o meu problema ele tem que resolver.” Qual problema Gonzagão tem que resolver mesmo? Em nenhum momento do texto ele explicita isso. Mas a maioria de nós sabe. De forma muito discreta o autor trabalha com o já sabido, tecido culturalmente no seio da sociedade brasileira e que tem sua historicidade peculiar, construída de boca a boca, de bar em bar, de casa em casa, de encontro em encontro, de evento em evento social, até alcançar uma estabilidade de significação que começa a fazer sentido assim que a expressão “ovo de codorna” é desencadeada pelo dizer. E ele joga muito bem com isso. Não é possível entender o sentido do discurso sem a história. Nas estrofes seguintes o autor oferece outras pistas, que vão fortalecendo o sentido do seu dizer

Eu tô madurão
Passei da flor da idade
Mas ainda tenho
alguma mocidade,
Vou cuidar de mim
pra não acontecer
Vou comprar ovo de codorna
pra comer

Mestre Lua já havia passado da “flor da idade”, o que significa [...] Entretanto, ele ainda tem alguma mocidade, significando [...] De qualquer forma ele vai cuidar de si para que não aconteça. Aconteça o quê? O cuidado de si remete e é remetido pelo sentido que o fenômeno cultural "ovo de codorna" dá ao acontecimento. Não é cuidar da pressão, do colesterol, da glicemia, das condições cardiovasculares e respiratórias, mas de uma certa necessidade humana, dada biologicamente e construída social e culturalmente.

Na letra da música o autor ainda procura "aproximar" o conhecimento do senso comum do conhecimento científico, trazendo a figura significativa do “doutor” para legitimar os “poderes afrodisíacos” do ovo de codorna.

Eu já procurei
Um doutor meu amigo
Ele me falou
"Pode contar comigo”
Ele me ensinou
e eu passo pra você
Vou lhe dar ovo de codorna pra comer

Quem ensinou ao Mestre Lua não foi alguém destituído de autoridade no assunto. Não, foi o “doutor”! E não foi um doutor, entidade generalizada e uniforme que cabe em nossa memória em seu jaleco, seu estetoscópio e seus sapatos brancos. Foi um "doutor meu amigo". Esse doutor além da autoridade científica, reconhecida e legitimada socialmente, tem uma proximidade familiar, o que permite inferir que um conselho dado por ele, um "conselho de amigo", que é outra entidade discursiva sedimentada na sociedade brasileira, visa melhorar a situação do amigo em apuros, apontando uma solução infalível: o "ovo de codorna". Há aí também um velho truque retórico utilizado por todos nós: a tomada de empréstimo da autoridade do outro a fim de potencializar o nosso argumento pessoal. Aqui o argumento de autoridade supera a autoridade do argumento. Fica claro que não importa a verdade das premissas, mas o efeito de sentidos que provém dos enunciados que a música apresenta. E “doutor”, principalmente naquele tempo e naquele contexto, tinha,e ainda tem hoje, a palavra certa para ninguém reclamar. A origem desse saber dá ao ovo de codorna a credibilidade que, porventura, possa ser questionada. Ao vir do doutor, amigo pessoal de Gonzaga, a “receita”, torna-se um documento institucionalizado que qualquer feirante, digo, farmacêutico, não pode retrucar. O ovo de codorna começa a ganhar o status do mesmo ovo de outra entidade discursiva: a "galinha dos ovos de ouro". Isso me lembra duma piada antiga que me contaram quando ainda era criança. Ativo minha memória agora para fortalecer o sentido do meu dizer. A mulher acompanhava o esposo morimbundo, prestando-lhe os últimos cuidados e ouvindo-lhe as últimas orientações e conselhos. Em determinado momento o médico passa e avisa: “- Infelizmente o seu marido acaba de falecer”. O marido, ainda vivo, levanta forçosamente a cabeça e retruca para a mulher: “- eu ainda estou vivo!” Ao que a mulher sentencia: “ – Você morreu fulano! Quer saber mais que o doutor?” 

No passo seguinte Luíz Gonzaga revela certa situação pessoal

Eu andava triste
quase apavorado
estavam me fazendo
de um pobre coitado
Minha companheira
Tá feliz porque
eu comprei ovo de codorna pra comer

Ele andava triste por um motivo bem específico. “Quase apavorado”, o que significa o comportamento do homem em nossa sociedade em relação ao que não preciso dizer, porque já está dito. Lembro-me de um professor amigo meu. Quando conseguiu sair com a tão desejada mulher, falhou na “hora H”. Tomado pelo pavor – palavra que o mesmo também usou – pegou um avião, foi à São Paulo, e voltou todo feliz, com seu problema resolvido. Com Gonzagão estavam fazendo-o de um pobre coitado. Então, concluímos um não-dito no dito: a notícia vazou. Ou a mulher comentou com alguém que comentou com outro alguém, apesar da “certa mocidade” alegada do Luíz, ou ele mesmo o fez, com algum mui amigo que comentou com outro amigo. E foi assim que “eles” souberam e estavam fazendo-o de um “pobre coitado”. 

Mas a mulher estava feliz. Decerto ele conseguiu algum efeito positivo e elegeu o elemento cultural que, sabia, teria farta aceitação no meio popular, como um enunciador persuasivo que deseja ser ouvido por seu público. Observem que outros motivos, inclusive de ordem psicológica, para que o problema tenha acontecido, nem são cogitados. De qualquer forma, o autor refere-se à felicidade da companheira nesse processo. Não é algo que diz respeito somente ao homem, mas à mulher também. Ao casal. O marido estando mal, a mulher também sofre, porque a diversão é sempre a dois, ou a mais, depende do casal, de seus valores e do tipo de relação que estabelecem. A fidelidade feminina está implícita nessa estrofe, o falo masculino como fonte única de gozo também é outro não-dito que está significando aí. E todo o contexto de uma época significa nessa música em relação ao matrimônio, ao amor, ao sexo, à relação marido/mulher e à felicidade humana, tendo o ovo de codorna como expressão-chave dessa formação discursiva. Termino com João Cabral de Melo Neto, citado por Obdália Silva, quando afirma belamente que: 

O curso de um rio, seu discurso-rio, chega
raramente a se reatar de vez; um rio precisa de
muito fio de água para refazer o fio antigo que o fez.
(MELO NETO, [1975])

Ao saudoso Luiz Gonzaga, o reconhecimento de sua arte, de seu discurso vivo que penetro interdicursivamente para continuar pronunciando o mundo, sendo por ele penetrado e pronunciado. Ao mestre que nos ensina a, sabiamente, dizer com o não-dito, pronunciando pelo já dito e já sabido pelo e com o outro sobre o admirável ovo de codorna novo.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Luíz Gonzaga, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel. Com o apoio de: 

Zé Ramalho. Avôhai.

MELO NETO, João Cabral de. Rios sem discurso [1975]. Disponível em: . Acesso feito por Obdália S. F. Silva (2008) em: 14 jun. 2007.

ORLANDI, Eni. P. Análise do discurso: princípios e procedimentos. 5. ed., Campinas, SP: Pontes, 2005.

SILVA, Obdália Santana Ferraz. Os ditos e os não-ditos do discurso: movimentos de sentidos por entre os implícitos da linguagem. R. Faced, Salvador, n.14, p.39-53, jul./dez. 2008.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

PELO ACOSTAMENTO


Numa época muito próxima, quase um ontem, nós, da juventude, admirávamos a rebeldia e todo gesto que se desviasse da normalidade imposta pelo que denominávamos sociedade conservadora. Representava renovação, sementes da revolução necessária que a sociedade tinha de viver para se tornar justa, solidária e misericordiosa. Na verdade, de forma assistemática sonhávamos com revoluções. Revoluções culturais, sociais, econômicas, religiosas, e, para garantir esse rumo, a revolução política, a tomada do poder de decisão geral pelo povo trabalhador, pelas classes populares, pelos trabalhadores unidos num partido. E assim vivíamos tecendo a nossa rede diária de pequenas ações que, de modo singular e pequeno, simbolizava o caminho da emancipação humana. A significação era engendrada todos os dias pelos jovens sonhadores que desejavam mudar o rumo do trilho, o vagão e o próprio trem da história. E ficávamos nos debatendo entre nossa pobreza econômica e nossa riqueza simbólica e política, fazendo o que entendíamos como pequenas, mas significativas revoluções, que iriam, como uma pequena luz num breu gigantesco, chamar a atenção da humanidade para o caminho da emancipação humana.

Hoje o mundo está muito diferente. Uma pequena frase de Renato Russo, que repito bastante, esclarece suficientemente a mudança com a qual me deparo e me assusto. Ele afirma em sua música, “Índios”, que “o futuro não é mais como era antigamente.” O tempo, nossa forma de senti-lo e percebê-lo mudou muito, muito mesmo. É cada vez mais raro perceber ou conseguir identificar as tais “pequenas revoluções” em gestos que rompem com a imposição social, política e cultural do mundo contemporâneo. A imposição agora é velada, porque naturalizada no consumo, na padronização de hábitos e atitudes que matam subjetividades rebeldes desde muito cedo, não permitindo o surgimento de possíveis humanos causadores de rupturas com o  que está posto. Os heróis do saudoso Cazuza morreram de overdose, enquanto os meus morreram de ganância, venderam-se e renderam-se por “trinta moedas de ouro”, recolhidas todos os dias do povo que produz a riqueza desse país. Iscariostes sem culpa, com crime e sem castigo, que nem a dignidade da forca tem em torno de seus pescoços. A traição, o crime, a incompetência e o cinismo estão plenamente justificados nesta republiqueta de bananas.

Antes, como disse, o desvio da norma era bem vindo, porque representava a ruptura com o que estava posto, com a ordem da exclusão, do silenciamento, do empobrecimento e da marginalização. Indicava utopias redentoras dos sofrimento humano da maioria do povo brasileiro. Mas agora, infelizmente, as rupturas representam o contrário. A lei, o respeito às convenções coletivas, à urbanidade e ao convívio respeitoso e salutar com o outro, com a outra, são incômodos ao apetite e à ganância avassaladora do indivíduo. E essa ideia, como um vírus, contagiou a todos nós. Antes, a criança não tinha direito algum na família, a não ser o de obedecer. Obediência cega era a palavra. E esta, não estava com a criança, mas com seu pai, o macho, adulto. Mas agora a criança tem todos os direitos e todas as vontades. Fomos de um extremo a outro. Agora a criança chega, pega o controle remoto da televisão e muda o canal sem pedir licença, exercendo sua pequena tirania individualista, realizando assim, seu desejo mesquinho em detrimento das demais pessoas. Ontem, voltando de Jacobina, encontrei um baita de um engarrafamento no entroncamento que fica entre a saída de Tanquinho e a continuação para Serrinha e outras cidades da Região. Foi então que, muitos indivíduos, exercendo livremente as suas potencialidades, começaram a, criativamente, criar uma nova via: o acostamento. Entre a primeira, a segunda e a terceira marcha, fui até a entrada da UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), observando aquele desrespeito. Antes mesmo de chegar à entrada da UEFS, um Fiat Uno Mille, trafegando pelo acostamento, tinha se envolvido numa acidente. Não sei se houve atropelo, mas vi muitas frutas jogadas no acostamento, indicando que, no mínimo, o carro derrubou a banca de frutas que as pessoas que moram nos povoados que margeiam a estrada, colocam na tentativa de produzir suas existências.O acostamento é um convite sedutor. Quem passou por mim chegou mais cedo - saimos de Jacobina às 15:00 h e chegamos em casa às 23:00 h - descansou antes, realizou seu desejo. Adiantou alguns quilômetros à frente, enquanto o "otário", esperava pacientemente o tráfego congestionado dar uma trégua. Chegamos a um ponto que talvez esses motoristas nem se dêem conta do mal que fizeram. Foram mais espertos no darwinismo social que nos caracteriza e devoraram tudo que os impediam de passar à frente, sem consequências pessoais.

A paciência reflexiva não encontra eco no mundo de hoje, em sua corrente incessante. O que importa é utilizar, não as vias marginais, mas a marginalidade tornada natural pela sanha do individualismo que não consegue mais esperar o tempo propício pro avanço, mas invade como um bárbaro, o pouco de civilizatório que ainda pensamos ter. Não há nada de revolucionário nisso. Ao contrário, a burguesia conseguiu realizar a maior de suas ideologias: tornar a maioria das pessoas, independente da classe, movimento, associação ou religião a que pertença, um indivíduo liberal nato. Aquele que busca seu prazer imediato, utilizando suas potencialidades compradas em prestações infinitas, como o motor do seu carro de passeio, independente das consequências de seus atos. Sua moral católica, evangélica ou espírita vai pro beleléu quando o que está em jogo é, não a sua sobrevivência, mas a possibilidade de passar à frente do outro, da outra, seja pelo acostamento, seja por todas as brechas que a lei tem para não punir quem comete crimes.

Não dá para saber mais quem é o tirano, quem é a vítima. Essa rede viciosa é tecida todos os dias por cada um de nós que avançamos o sinal vermelho, que tiranizamos nossas relações em nossos lares, em todos os lugares. Não há possibilidade de sonhar utopias nesse contexto, de tecer novos textos em nossos atos, porque, algo nos diz que, se não mergulharmos crítica e profundamente em nosso próprio âmago, a fim de nos emanciparmos da tirania que nos habita em busca do prazer imediato e mesquinho, chegaremos atrasados à padaria e ouviremos solenemente do padeiro: -“o sonho acabou”.   

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Canto da Loba

Meu corpo pulsa de desejo
de Você.
Minhas comportas internas se abrem e um líquido precioso escorre
em mim
O quadril quer se fazer ondulante
E um calor intenso, pouco a pouco, começa a queimar
delicadamente
Meu sexo

sinto sua língua nos meus seios
E sua mão com movimentos precisos acariciando
minhas costas, minha nuca e minhas nádegas.
Meu ventre se delicia com a umidade de seu hálito perfumado
Alecrim.
Suas pernas se entrelaçam às minhas

E o fogo do seu sexo: macho, potente, intenso
Penetra-me sem pudores rasgando-me impiedosamente
enquanto palavras de puro amor e delírio são ditas ao meu ouvido
Que feminino, se deleita.
O ritmo acelerado do seu corpo denuncia o gozo
iminente.
E meu corpo sedento de sêmen se contorce
retorce.

Perco-me em ti, me mesclo e te amo.
Partícula divina...
Percebo Deus me possuindo
Sinto sua potência me alimentando.
Minha boca pronuncia sons ininteligíveis
Já não sou eu, mas tu em mim

E gozo, recebendo seu gozo
sem reservas.
O sêmen me fertiliza enquanto gritamos em delírio
nosso amor...

Mulher Quatro Ventos.


Este poema eu li numa revista de conhecimentos místicos. Adorei e a publico novamente aqui.

Ela Rio, Eu Raiz

Ela passou como a água do rio.
E se foi para mar. Adiante, radiante, cristalina,
escorrendo eternamente feminina.
E eu fiquei nessa beira, de bobeira, por aqui.
Não passei, para mim.
Não passei porque sei que a seguro na memória de amor;
na lembrança do sabor corrente de mulher,
que escorre toda vez que a penetro
e não para, nem repara, em meu olhar apaixonado.
Não deve. Ela segue seu destino de ser ela,
ser aquela que será o que já é:
mulher, mulher, mulher.

Ela estava certa ao seguir seu caminho.
Eu não era, nem vou ser, tão corrente.
Minha raiz fica aqui no lugar que eu amo,
mais que céu, mais que a terra, mais que o mar.
Meu lugar é meu lar, onde espero o vento e o sol,
onde olho para o céu e contemplo o azul,
onde à noite eu a recordo e acordo nas manhãs de acordo
com o que foi e que sempre ficará.
Minha memória triste é uma mina
onde garimpo minha história preciosa
construída em meu lugar.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

terça-feira, 27 de março de 2012

PARTICIPAÇÃO

Ontem, 27/03/2012, assisti a entrevista que o repórter da Globo, Jorge Pontual, no programa Milênio, exibido na Globo News, fez com o filósofo americano Michael Sandel e fiquei, digamos, um pouco esperançoso diante do mundo que frequento com minha subjetividade. Ele fala do convite aristotélico ao telos, à participação no espaço público do debate e das decisões políticas. Sandel fala, num dos trechos, “que precisamos criar o sentimento de que o governo democrático pertence a todos.” Diz que precisamos criar um espírito de civismo e de responsabilidade pública e de que nossa política tornou-se muito gerencial e tecnocrática, focada demais em questões econômicas limitadas. Afirma que isso tem deixado à margem questões genuinamente políticas, inclusive questões éticas e questões espirituais que surgem no debate político. Pois bem: penso com ele que somente o debate público dos problemas que interessam à sociedade é que joga luz sobre tais problemas, a luz das vozes coletivas que se manifestam em discursos, posicionando-se ideologicamente e logicamente diante dos encaminhamentos que devam ser dados a tais problemas. Essa luz da participação no debate público não somente encaminha os problemas, supervisiona suas aplicações e implicações, reduzindo a possibilidade de corrupção e, também, educa o julgamento que as pessoas fazem de tais problemas, aprimorando sua capacidade e melhorando sua participação individual na arena pública das decisões.

Michael Sandel afirma que "a política é o exercício da capacidade humana de julgamento". De fato, a política é o espaço e o lugar, a arena, por assim dizer, de decisões que dizem respeito a todos e a todas, e, tanto essas decisões como seu conteúdo e seu processo, devem ser trazidas para o âmbito da participação, da possibilidade de participação de toda e qualquer pessoa que assim o deseje, inaugurando, de fato, a democracia. O debate é algo fundante de todo processo e de qualquer estrutura que se caracterize como democrática. É no debate que os posicionamentos se revelam e que a dialética se estabelece, permitindo metadebates, ou seja: a análise reflexiva do que está sendo dito; do que não está, mas deveria ser dito; do que não deveria ser dito, do que já foi dito antes e está sendo reeditado e, entre benditos e malditos, a decisão seja um processo em que, tanto seus encaminhamentos, quanto seus desdobramentos favoreçam o aprimoramento da capacidade humana de julgar o objeto de discussão e de posicionar-se conforme suas crenças, suas ideologias e suas razões diversas.

A participação é uma condição requerida em todo o processo social. É muito difícil encontrar alguém que, deliberadamente, possa colocar-se contra a participação. No mundo empresarial, por exemplo, o modelo de gestão requer a participação ativa do funcionário, “vestindo a camisa da empresa” a fim de reduzir custos e aumentar a produtividade, visto que, em última instância, quem faz a diferença não são as novas tecnologias, mas empregados criativos, participativos e dinâmicos. Mas o que é mesmo participar? Segundo Habermas (1975, p.159), “significa que todos podem contribuir, com igualdade de oportunidades, nos processos de formação discursiva da vontade.” Interpretando-o, Catani e Gutierrez nos diz que “participar consiste em ajudar a construir comunicativamente o consenso quanto a um plano de ação coletivo.” (2000, p.62). Penso que tal definição vai ao encontro do que Michael Sandel afirma sobre o amadurecimento da capacidade de julgamento individual na participação ativa da formação discursiva da vontade, onde os consensos e os conflitos a partir de posicionamentos distintos vão nos permitindo adotar uma perspectiva de alteridade, a partir do trânsito que somos obrigados a fazer, até mesmo para compreender, do nosso olhar para outros olhares, do que achamos ser nosso discurso para outros discursos sobre os problemas apresentados na arena do debate político, na multiplicidade de discursos e sentidos que a memória atualiza no tecimento ininterrupto da realidade e dos sujeitos. 

Nesse sentido, a participação requer, a meu ver, o envolvimento de diferentes atores sociais num ambiente democrático e dialógico, para que a formação discursiva da vontade não caia no erro da imposição da vontade, tornando-a artificial, uma espécie de contravontade, baseada numa necessidade artificial. Em função disso, esse ambiente é criado, não por artificialidades burocráticas e demagógicas, mas por uma necessidade coletiva detectada pragmaticamente pelo coletivo de pessoas que compartilham de uma experiência semelhante sobre o mundo em que estão inseridos, e que precisam decidir, da melhor forma possível, sobre o que fazer diante dos problemas que os afetam. Há, inevitavelmente, um processo educativo assistemático, mas eficaz, quando um sujeito se insere, por obrigação, curiosidade ou necessidade, na “construção discursiva da vontade” geral. A responsabilidade pela construção do espaço público, pelo cuidado com o espírito cívico, a capacidade de ouvir, a sensibilidade da escuta, a consideração de um ponto de vista diferente do seu, a busca da superação do conflito pela construção do consenso, através de negociações e construções de acordos, onde há perdas e ganhos individuais, entre outros, contribuem, sobremaneira, para a educação política de cada sujeito envolvido diretamente no processo que se desenvolve no debate público. 


Esse raciocínio acima me lembra a história do discípulo que queria ser sábio e procurou seu mestre para realizar seu desejo. Chegou à presença do mestre e afirmou o seu intento: - Mestre, desejo ser sábio! O mestre prontamente respondeu: - Você já comeu? O discípulo ficou confuso. Pensou consigo: - eu venho aqui à presença do mestre e revelo o meu nobre desejo de tornar-me sábio e ele me responde com uma pergunta que beira o non sense. De qualquer forma, o discípulo respondeu: - Já mestre, eu já comi. Ao que o mestre recomendou: - Então vá lavar a tigela! O grande problema de muitos discípulos é que desejam o “mestrado” antes de “lavarem a tigela”, antes de começarem a pensar sobre as coisas simples do cotidiano e se debruçarem a entendê-las. Não percebem que a sabedoria começa pela contemplação das coisas aparentemente banais e pelo envolvimento reflexivo no cuidado  com as coisas mais simples e imediatas da vida.  Não percebem que a aprendizagem da participação se dá pela participação mesma, ativa, reflexiva, constante, persistente. É dessa participação que nascem os conteúdos universais que conduzem o ser humano à sabedoria.

Contudo, os espaços públicos de decisão estão a cada dia mais degradados, mais asfixiados, mais entupidos de sujeiras, de lixo, de gordura, de bactérias e de vírus, produzindo um chorume político e cultural que ameaça a debilitada democracia brasileira. Como aprender a exercer a participação numa nação onde os Três Poderes da República se locupletam em indecência, escândalos, desvios do dinheiro público, cinismo, e, sobretudo, a impunidade sem-vergonha que sela o bom investimento dos criminosos. As pessoas, ao se defrontarem com esse mar de lama, receiam participar de tudo o que vem com a marca do público, pois temem afundar nessa areia movediça que caracteriza o poder público, com raras exceções, no Brasil. Assim, vão privando seus discursos dos insultos públicos e vão se privando de indignar-se publicamente diante desse estado corrupto de coisas, nos espaços criados para isso. Essa atitude vai asfixiando ainda mais a democracia, por falta do contraditório, por falta do anseio de justiça, pela banalização e naturalização da injustiça, da impunidade, da incompetência sistematicamente construída para manter o privilégio nesse país de falácias. A luz do público vai se apagando e, no escuro desse processo, os bandidos, os facínoras, os cínicos, os fatalistas, os criminosos, vão agindo, distantes dos olhos da população. Até a religião vai encontrando caminho para impor seus dogmas e suas crenças únicas, ferindo de morte a pluralidade religiosa, como acontece em Ilhéus, onde é exigida a oração do Pai Nosso antes do início das aulas. 

Mas ainda há esperança. Aqui mesmo em Salvador, o Movimento Desocupa Salvador representa uma iniciativa pública na criação de um espaço de debates e manifestações contra o abandono em que nossa cidade se encontra, não apenas pelo atual ex-prefeito – pois já deixou de governar a cidade desde o carnaval – mas também pelo atual Governador, que não toma iniciativa alguma para salvar a cidade do abandono em que se encontra, entregue ao lixo, ao mijo, aos bandidos, aos automóveis, aos arranha-céus que se multiplicam sem planejamento urbano, aos empresários espertalhões do carnaval que invadem Salvador com seus megacamarotes em busca do lucro mesquinho. Esse movimento não aceita participação dos partidos, sabe que será usado eleitoralmente e evita a lama que alcança a bainha – nem só a bainha – das calças dos que se vestem, comem, se movem, viajam com os recursos públicos. Esse “Desocupa”, de certa forma, reinventa a política, porque requer a participação por amor ao espaço público, pela defesa e promoção desse espaço, pelo civismo que caracteriza o movimento, em busca de uma cidade e de agentes políticos ativos, movidos pelo cuidado com o que é de todos, e não apenas do que é apenas meu, ou apenas seu. O que essas pessoas estão fazendo nos convida a sair do sonho ilusório, do abstrato da palavra e adentrar em sua concretude, unindo reflexão e ação, sonho e realidade, ser humano e sua cidade, tornando-nos políticos acima de qualquer suspeita, porque decidindo na luz que emana dos espaços democráticos de decisões.
Joselito Manoel com o auxílio de
BARROSO, João. O reforço da autonomia das escolas e a flexibilização da gestão escolar em Portugal. In Gestão democrática da educação: atuais tendências, novos desafios. Naura Carapeto Ferreira (org.) 2. Ed. São Paulo: Cortez, 2000.
MARTINS, José de Souza. A sociabilidade do homem simples: cotidiano e história na modernidade anômala. 2. Ed. São Paulo: Contexto, 2010.
GUTIERREZ, Gustavo Luis; CATANI, Afrânio Mendes. Participação e gestão escolar: conceitos e potencialidades. In Gestão democrática da educação: atuais tendências, novos desafios. Naura Carapeto Ferreira (org.) 2. Ed. São Paulo: Cortez, 2000.

quinta-feira, 22 de março de 2012

"A Mando"de Ana

Continuo te amando como nem sempre
Sempre que te amo como sempre,
eu te amo como ontem eternamente.

Sem pré! Sem prós ou contras
te amo desde o tempo em que sonhava
e sonho todo o tempo que puder

Te amo no futuro, no escuro dos ponteiros
te amo no zigoto e no cinzeiro
te amo do seu fio de cabelo ao dedinho do seu pé.

Pois sim, pois é!
É sempre assim, sem pós, nem pré
Te amo agora, depois, antes e até.

Joselito da Ana Lúcia  

terça-feira, 13 de março de 2012

MEDIAÇÃO NA AVALIAÇÃO

Corrigindo a avaliação que apliquei semana retrasada, deparei-me com uma boa resposta da aluna Naiane Oliveira Damercê, à seguinte pergunta: “Quando uma pessoa aprende algo, ela domina o que aprendeu e sabe fazer muito bem os procedimentos necessários que envolvem aquele aprendizado. Explique, de maneira sucinta, algo que você aprendeu bem, e explique isso utilizando uma, ou mais, abordagem (ns) teórica (s) estudadas em nossa disciplina: Teorias do Desenvolvimento." A resposta foi a seguinte:

Aprendizado requer persistente busca do conhecimento, quer desvendar o sentido de determinado objeto e explicar de maneira simples o conhecimento obtido. Foi partindo dessa perspectiva que aprendi sobre a história do Cangaço, ancorada no modelo relacional, onde a curiosidade adquirida a partir de histórias contadas pelos meus pais instigou-me a buscar conhecer mais profundamente esse momento histórico. Nessa ânsia de aprender, aconteceu no colégio em que eu estudava a Semana de Cultura. Foi então que minha professora, percebendo o meu desejo, assim como de outros colegas, propôs o tema “Cangaço”, orientando-nos nas pesquisas, decoração da sala, tornando, dessa forma, o aprendizado prazeroso e simples. Esse Interacionismo professor-aluno contribuiu significativamente para meu bom desempenho nas questões e debates relacionados com o tema.

Bem, como concebo a avaliação como mais um momento privilegiado de aprendizagem e de ensino, procurei dialogar com Naiane a fim de potencializar a reflexão descritiva que se encontrava naquela resposta. Fui, assim, desenvolvendo o diálogo.

Nesta questão você, Naiane, descreveu um caminho de aprendizagem, com passos necessários para que tal aprendizagem se configure em seu potencial cognitivo. Vamos enumerar esses passos?

1.    PERSISTENTE BUSCA DO CONHECIMENTO.

Verdade. O conhecimento não cai do céu. É preciso buscá-lo. E essa busca é que gera conhecimento e autoconhecimento. O conhecimento não está dado nos livros didáticos, na internet, nos cd´s, nas emissoras de rádio e tv. O conhecimento é construído em sua busca. E parte dele está nas informações disponibilizadas nas emissoras de rádio, tv, na internet, nos cd´s, nos livros, enfim. Mas a parte principal está na qualidade de quem busca o conhecimento, tanto de quem ensina, quanto de quem aprende. Decorre daí que o professor deve também buscar o conhecimento, e não colocar-se numa posição daquele que possui o conhecimento, utilizando-o como legitimação de seu poder sobre os educandos. A relação professor-aluno é transformada qualitativamente em função da própria maneira de se lidar com o conhecimento, que deixa de ser um produto dado e pronto, para ser uma aventura permanente em busca da incessante disposição do ser humano para transformar o mundo a seu favor sem, no entanto, destruí-lo. O conhecimento não cessa, porque, simplesmente, não cessam os problemas que exigem da humanidade sua adaptação criativa diante do fenômeno de nossa existência nesse planeta-mãe.

É no sujeito epistemológico (a pessoa que pode e quer conhecer algo) com suas indagações, inquietações, desconfianças e intuições que está a qualidade do conhecimento a ser construído. Uma pessoa desorganizada, sem método, sem persistência, com pouca leitura e parca curiosidade, provavelmente terá pouco sucesso em sua empreitada intelectual, seja na escola, seja na universidade, seja no que quer que faça. A persistência vem da vontade, do desejo da pessoa que quer, verdadeiramente, aprender. É uma característica básica de qualquer pesquisador, institucionalizado ou não: persistir, buscar com afinco e não desistir nos primeiros fracassos.

2.    O QUERER DESVENDAR O SENTIDO DO OBJETO EM ESTUDO

É uma atitude natural do ser humano, querer desvendar o segredo das coisas, o que Paulo Freire denominava de “curiosidade natural”. O grande problema é que a escola e o currículo, ao formalizar o objeto de estudo, retira-lhe o ser de si, para si. Destitui a ontologia histórico-social que engendrou o mistério contido no objeto, retirando-lhe sua energia simbólica que pulsa em sua existência, fazendo com os educandos percam a vontade de conhecer o que, aparentemente, já é por demais conhecido. Por que estudar algo que não tem segredos, nem magia? Por que examinar e refletir sobre algo que já está, aparentemente exposto e morto? Fica para o educando um objeto de conhecimento esvaziado de sentido. Querer desvendar o sentido do objeto requer uma atitude investigadora, que começa com o espanto (filosófico) inicial, partindo para perguntas e levantamento de pistas para ir verificando empiricamente o objeto da nossa curiosidade epistemológica. Finalmente, tiramos nossas conclusões provisórias e as compartilhamos com parentes, amigos, outros curiosos ou o que Thomas Kuhn denomina de “comunidade científica.”

O conhecimento é a busca da construção mental da ordem. E aqui não desejo entrar na discussão filosófica sobre a ordem e a desordem. Reconheço perfeitamente o papel da desordem em nossa existência.

Problema duplo por toda parte: o da necessária e difícil mistura, confrontação, da ordem e da desordem. O desenvolvimento de todas as ciências naturais fez-se, desde meados do século passado, por meio da destruição do antigo determinismo e no confrontamento da difícil relação ordem e desordem. As ciências naturais descobrem e tentam integrar aleatoriedade e desordem, quando eram deterministas a princípio e por postulado, enquanto, mais complexas por seus objetos, mas mais atrasadas em sua concepção de cientificidade, as ciências humanas tentavam expulsar a desordem. (MORIN, 1999, 197-198)

Entretanto, meu objetivo aqui não é discutir a relação entre a ordem e a desordem, mas dialogar com sua descrição sobre seu processo de aprendizagem e fazê-la avançar no domínio dos conceitos fundamentais e das categorias teóricas estudadas em nossa disciplina, Teorias do Desenvolvimento, a fim de que tais abordagens teóricas a auxiliem em seu trabalho docente, potencializando sua formação profissional nesse campo.

Para viver o ser humano precisa da ordem, pois a desordem não permite a previsão, a preparação para os eventos. Sem esta ordem criada socialmente, o ser humano é o mais frágil de todos os animais e logo seria extinto. É por isso que a busca da ordem, através da construção permanente do conhecimento, deve ser uma necessidade concreta e simbólica e não uma mera obrigação didática ou acadêmica enfadonha que muitas vezes nós, educadores e educadoras, impomos sobre nossos educandos e educandas, tornando a escola um espaço indesejável. Sobre isso, Rubem Alves (2006) afirma que “a ciência é uma função da vida. Justifica-se apenas como órgão adequado à nossa sobrevivência. Uma ciência que se divorciou da vida perdeu sua legitimação.” (p. 40). A “desordem” é um problema para o ser humano. E toda investigação começa com um problema. Um desses que nos espanta e atiça a nossa vontade de compreensão. “Um problema significa que há algo errado ou não resolvido com os fatos.” (ALVES, 2006.p. 43).

A descrição de sua experiência de aprendizagem foi perfeita nesse sentido, revelando-se e revelando uma educadora sensível, atenta e comprometida com a assunção cultural dos seus educandos e suas educandas envolvidos (as) no processo educativo. Este processo descrito por você começou a partir do desejo pulsante, engendrado em sua história familiar e no modo dessa família de partilhar histórias entre seus membros. Vocês ampliaram sua visão sobre a História do Cangaço sem perder de vista o rigor acadêmico que a disciplina exige. Isso traz esperança, que constitui a metodologia dialógica freiriana. (FREIRE, 1999). A esperança é um elemento permanente da aprendizagem. É preciso sonhar alegrias com a aprendizagem de algo, é preciso nutrir o espírito da espera ativa que busca o saber para ser mais feliz, mais realizado (a), mais ser humano. A esperança é a força viva que me impele a escrever nessa hora, mergulhado em sua experiência e em seu saber saboroso, a partir de minha experiência e meu saber, emergindo, não mais como era antes dessa majestosa e dignificante interação, através do compartilhamento solidário de saberes que se encontram nessa avaliação.

EXPLICAR DE MANEIRA SIMPLES O CONHECIMENTO OBTIDO

Dizem que sábia é aquela pessoa que consegue explicar as coisas mais complexas de formas simples, para que todos e todas tenham acesso a esse saber. Verdade. Assim como a ordem e a desordem, o simples e o complexo fazem parte de uma mesma realidade, complementar e contraditória. Outro dia estava pensando nos papéis que circulam aqui em casa. O filtro que faz o café, por exemplo. É tão simples que e ao mesmo tempo me faz pensar na sua textura, na sua constituição molecular e em como esse conhecimento foi sendo obtido para transformá-lo nesse uso específico. Ele filtra, mas não rasga, funciona perfeitamente para o seu fim, inclusive, a depender da situação e da necessidade, pode ser usado mais de uma vez. De fato, o conhecimento deve ser explicado, comunicado, a fim de desdobrar-se em novo conhecimento, desde que a realidade material da sociedade e o avanço tecnológico o permita.
Mas há casos de pessoas que não têm capacidade de explicar bem o que sabem. Algumas delas não são professores, nem o querem ser. Que bom. Mas há outras que, infelizmente, desprezam a didática e tudo aquilo que é relativo a ser professor, mesmo quando são professores. Hipervalorizam a ainda frágil pesquisa em função da desvalorização do ensino, o que vem a causar sérios problemas para a formação profissional docente.

O conhecimento obtido é sempre uma construção humana, histórica e, como tal, deve ser sempre submetido ao debate, à desconstrução, o que é essencial para o seu avanço. Nas suas afirmações acima acrescentaria um item e modificaria a ordem que você apresentou inicialmente, deixando em aberto para que outro (a) também proponha modificações e faça avançar nossa discussão, afinal, o conhecimento não está em mim, mas em nossa comunhão solidária em busca de saber mais para sermos ainda mais durante nossa curta estadia na existência.

1.    Problema que incita e provoca a curiosidade;
2.    Vontade de desvendar o sentido do objeto;
3.    Persistente e rigorosa busca do conhecimento;
4.    Constatação e explicação de maneira simples o conhecimento obtido.

Um abraço esperançoso,
Joselito M. de Jesus, com o apoio de:

ALVES, Rubem. Filosofia da ciência: introdução ao jogo e a suas regras. 11. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2006.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 26. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.
MORIN, Edgar. Ciência com consciência. 3. Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.