quarta-feira, 13 de maio de 2020

O SAL DA TERRA ENTRE A PRIVATIZAÇÃO DO PÚBLICO E A PUBLICIZAÇÃO DO PRIVADO


Anda, quero te dizer nenhum segredo
falo desse chão da nossa casa
vê que está na hora de arrumar
(Beto Guedes)

Há uma neoescravidão legalizada por uma reforma trabalhista seguida da reforma previdenciária, sustentadas por um discurso economicista neoliberal de redução do Estado nos setores fundamentais da sociedade, abrindo caminho para a iniciativa privada. Da educação à saúde e segurança, tudo vai sendo privatizado, num país no qual parte significativa da população encontra dificuldades para pagar pelo transporte público. Norberto Bobbio nos ensina que existem dois processos paralelos que são incompatíveis: a privatização do público e a publicização do privado.
Quem defende a legitimação da privatização do público se apoia na ideia de que, segundo Bobbio (2019):
Um dos eventos que melhor do que qualquer outro revela a persistência do primado do direito privado sobre o direito público é a resistência que o direito de propriedade opõe à ingerência do poder soberano, e portanto ao direito por parte do soberano de expropriar (por motivos de utilidade pública) os bens do súdito. (BOBBIO, 2019, p.28)
Mesmo o soberano, que representa o poder público – que pode ser atualizado para prefeito, governador e presidente, ou mesmo algum agente do poder judiciário – não poderia, nesta perspectiva, retirar umas famílias de uma moradia para que por ali passe uma obra de interesse público.  
A justificativa se amplia com a contribuição de outros intelectuais que criaram as condições teóricas para a legitimação do Estado liberal.
Através de Locke a inviolabilidade da propriedade, que compreende todos os outros direitos individuais naturais, como a liberdade e a vida, e indica a existência de uma esfera do indivíduo singular autônoma com respeito à esfera sobre a qual se estende o poder público, torna-se um dos eixos da concepção liberal do Estado, que nesse contexto pode então ser redefinida como a mais consciente, coerente e historicamente relevante teoria do primado do privado sobre o público.
Nesta concepção de Estado abre-se o caminho para a expansão da iniciativa privada como a melhor e mais coerente forma de estabelecer a justiça sobre a sociedade, reduzindo o Estado “senão a ponto de chegar à extinção [...], ao menos até a sua redução aos mínimos termos.” (Bobbio, 2019, p.29). Portanto, o discurso neoliberal encontra sua justificativa e legitimação de mudanças políticas profundas tais como a reforma da previdência e a reforma trabalhista, acima citadas.
Quem, por sua vez, defende o primado do público sobre o privado coloca o interesse coletivo como primordial diante do interesse privado. A elaboração de uma obra pública como uma ponte, um metrô, um hospital, uma via que vai aproximar dois pontos distantes entre si, como Paripe e Piatã, tem mais relevância que o direito individual de alguns moradores de um determinado lugar. Essa ideia se baseia num princípio amplo: “o todo vem antes das partes”.
Segundo ela [a ideia], a totalidade tem fins não reduzíveis à soma dos fins dos membros singulares que a compõem e o bem da totalidade, uma vez alcançado, transforma-se no bem das suas partes, ou, com outras palavras, o máximo bem dos sujeitos é o efeito não da busca, mediante o esforço pessoal e o antagonismo, do próprio bem por parte de cada um, mas sim da contribuição que cada um juntamente com os demais dá solidariamente ao bem comum segundo as regras que a comunidade toda, ou o grupo dirigente que a representa (por simulação ou na realidade), se impôs através de seus órgãos, sejam eles órgãos autocráticos, ou órgãos democráticos. (BOBBIO, 2019, p. 30)
A letra poética da música de Beto Guedes [https://www.letras.mus.br/beto-guedes/44544/] reflete essa ideia política no plano artístico:
Vamos precisar de todo mundo
Um mais um é sempre mais que dois
Pra melhor juntar as nossas forças
É só repartir melhor o pão
Recriar o paraíso agora
Para merecer quem vem depois
Na disputa entre o interesse individual de natureza privada e o interesse coletivo de natureza pública surgem os processos de privatização do público e publicização do privado. Bobbio (2019) nos explica que a distinção entre público e privado se duplica na distinção política e economia. A maior determinação da política sobre a economia corresponde à primazia do público sobre o privado. “Prova disso é que o processo de intervenção dos poderes públicos na regulação da economia – processo até agora surgido como irreversível – é também designado como processo de ‘publicização do privado’” (BOBBIO, 2019, p.31).  
Quando há maior liberdade da economia, nas quais as relações contratuais prevalecem definindo relações politicamente relevantes, ocorre a privatização do público. Neste caso, o Estado age, menos como um detentor do poder e mais como um mediador dessas relações.
Neste momento de nossa explicação surge uma pergunta crucial: como tomar partido de um dos processos de modo coerente e consciente? Como associar a lógica do mercado com a utopia da justiça social e da solidariedade humana? Talvez esse tempo de COVID 19 nos ajude a responder provisoriamente.   
Neste momento, qual o processo que pode salvar mais vidas? A privatização do público, motivando as energias individuais à produção de respiradores mais baratos para atender à necessidade crescente desse aparelho causada pelo vírus mortal? Ou o que estamos vendo é publicização do privado através de iniciativas de instituições públicas, como universidades federais e estaduais e outras instituições estatais na criação desses aparelhos, na contribuição que cada um indivíduo daquela instituição dá ao bem comum? O Sistema Único de Saúde (SUS), que vinha sendo alvo de interesse de planos privados de saúde, visando sua extinção, como um sistema público, tornou-se uma segurança para a coletividade ou os planos de saúde privados responderiam satisfatoriamente a tal desafio? A “recriação do paraíso agora, para merecer o que vem depois”, pode ser vislumbrada mais por um processo que visa o lucro ou por um processo que tem a solidariedade como fim primordial?  
Se conseguirmos responder de modo coerente e consciente estas perguntas talvez possamos cantar juntos, quando a COVID 19 nos deixar sair às ruas tranquilamente.
Vamos precisar de todo mundo
pra banir do mundo a opressão
Para construir a vida nova
vamos precisar de muito amor
A felicidade mora ao lado
e quem não é tolo pode ver

Joselito da Nair, do Zé, da Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel
Com o apoio de:

GUEDES, Beto. O sal da terra. Disponível em https://www.letras.mus.br/beto-guedes/44544/ Acesso em 14 mai 2020.

BOBBIO, Norberto. Estado, governo sociedade. Fragmentos de um dicionário político. Tradução de Marco Aurélio Nogueira; posfácio Celso Lafer. 22. ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2019.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

E DAÍ: É A MINHA OPINIÃO!?


Está na moda. Todo mundo tem opinião e muita gente acha que sua opinião é a mais verdadeira, mesmo quando contraria a lógica e o bom senso. Muita gente ignorante “está se achando” neste contexto de pandemia. E falam besteiras, e postam fake news, e seguem líderes inescrupulosos, tudo pelo seu “direito” de expressão, garantido pela Constituição Federal de 1988 que eles e elas querem rasgar. É o pandemônio da pandemia!
Para começar a responder a isso, temos de seguir as orientações deixadas há mais de 2020 anos atrás, por Platão. Ele diferencia a doxa, da episteme e da sofia. A primeira seria a opinião mais próxima ao senso comum, ao saber imediato da prática, da experiência. A segunda corresponderia a um tipo de saber atualmente relativo ao conhecimento científico, tendo uma sistematização teórica e um rigor metodológico. E a terceira, é o saber adquirido ao longo de toda uma vida, um saber da sabedoria, geralmente atribuída aos mais velhos. Todas as três formas de saberes são válidas. Há uma doxa que coincide com as verdades científicas, bem como com a sabedoria. Mas a opinião expressa sem o cuidado da sabedoria e sem a devida orientação da ciência termina causando inúmeros problemas para sociedade. E é isto que ocorre neste momento no Brasil.
Os/As ignorantes têm ódio mortal pelas pessoas que leem, que conseguem alguma ascensão intelectual e cultural. Cultivam a doxa na superficialidade de seus pensamentos rasteiros. Elas então se comprazem com a destruição que as universidades públicas estão sofrendo neste governo ignorante. Inventam um tal de comunismo, como se estivéssemos nas décadas de 50, 60 e 70 do século passado. Elas associam o rock, surgido a partir do canto da alma dos negros norte-americanos, com satanismo. Associam histórias infantis com incitação a abusos sexuais; tentam intimidar ensaiando uma peça esdrúxula de inspiração nazista. E quando esses/essas ignorantes se associam a pastores milionários, espertalhões da fé, e milicianos bem armados, aí o anúncio de um califado evangélico neopentecostal ditatorial começa a se desenhar em nosso horizonte político. Na Idade Média isso levou centenas de mulheres acusadas injustamente de "bruxaria") e “hereges” à “fogueira”. Agora, será ao paredão do fuzilamento, pela traição a deus, à pátria e à família. Professores e professoras certamente não escapariam. A não ser que assumissem o proselitismo e se tornassem “catequistas” e “obreiros”.
Quando o fanatismo religioso e político são os principais assessores da doxa, a sofia, pobre coitada, começa a ser ofendida nas praças onde protesta, agredida nos espaços aonde registra os fatos e produz as notícias. A episteme, por sua vez, é asfixiada pelo governo facista, que admira torturadores e que persegue professores, médicos, enfermeiros e jornalistas entre outros e outras. O pseudo-problema impera, orientando a compreensão sofrível de 30% da população como uma boiada em sua vida de gado, marcada com o símbolo da arminha de mão, tendo consequências nefastas em suas próprias vidas.
O fanatismo religioso confunde fé com magia, como se Deus fosse proteger alguém que não se protege, se jogando de cabeça do alto de sua falta de juízo e de humildade. Um sujeito de 57 anos morreu porque acreditou no pastor de sua religião, que lhe falou que Jesus iria curá-lo. Não procurou o hospital e terminou falecendo, conforme reportagem da Revista Veja: https://veja.abril.com.br/blog/veja-gente/homem-morre-coronavirus-postar-disse-deus-cura/. É sempre bom lembrar que, Jesus, quando tentado no deserto por Bolsonaro, digo, pelo satanás, não se atirou do alto, pois “também está escrito: Não tentarás o Senhor, teu Deus.” Se Jesus se jogasse do alto, seria mais pela sua vaidade do que pela sua fé. Ele trairia a própria divindade que há em Si, porque tentaria Deus num pseudoproblema, surgido de sua vaidade, por ser Filho. Por falar em filho, os zeros à esquerda são um exemplo perfeito de como a vaidade, a arrogância e a ignorância associadas geram pseudosproblemas que acabam com o país.
É bom saber que:
·         A sua opinião, sem o bom senso da sabedoria e o amparo da ciência é irrelevante. Então fique calado;
·         você não tem nada de especial. Deus não cuida primeiro de você, nem te acha o homem, ou a mulher, mais fiel e mais legal do Brasil, com um lugarzinho especial, de frente para mansão Dele no Céu;
·         fé não é artigo de exibição masculina. A COVID 19 não veio para que você prove sua fé, revelando sua virilidade fajuta de varão ungido pelo pastor, ao qual você paga para propagar barbaridades da fé;
·         não pense que teremos no Brasil um califado evangélico, que terá milicianos matando todos/as aqueles/as que não rezarem por suas cartilhas esdrúxulas;
·         Ah. Deus é um Deus de amor, de justiça, de partilha, de solidariedade, de perdão, de acolhimento de verdade e de vida. Se você quer guerra, siga o conselho do grande Riachão e “já morar com o diabo que é imortal!”

Ao expressar sua doxa o faça movido pela sabedoria, com o apoio da ciência, para não transformar a pandemia em pandemônio e, nesse redemoinho, ir com o demônio para o Hades, “onde os fracos não têm vez.”

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.

PROBLEMA E NECESSIDADE NA PANDEMIA [versão extendida]

Tudo está acontecendo no Brasil: a pandemia causada pelo corona vírus, as crises provocadas pelo Presidente da República, o reflexo negativo na economia, que mergulha em recessão e todos os desdobramentos desses acontecimentos. Isso gera um nevoeiro que não nos permite entender bem a realidade e nos impede de agir. Qual o problema principal do país neste momento? Uns dizem ser a pandemia; outras dizem ser a política. Outras dizem ser a economia e uns afirmam ser o avanço de um suposto comunismo no mundo. Existem outras opiniões que sustentam que o problema maior é a educação, outras, a segurança, e, ainda existem aquelas pessoas que dizem ser a falta de fé do povo brasileiro. Mas, qual o maior problema de ser do povo brasileiro neste momento?
Para começar a responder a isso, temos de seguir as orientações deixadas há mais de 2020 anos atrás, por Platão. Ele diferencia a doxa, da episteme e da sofia. A primeira seria a opinião mais próxima ao senso comum, ao saber imediato da prática, da experiência. A segunda corresponderia a um tipo de saber atualmente relativo ao conhecimento científico, tendo uma sistematização teórica e um rigor metodológico. E a terceira é o saber adquirido ao longo de toda uma vida, um saber da sabedoria, geralmente atribuída aos mais velhos. Todas as três formas de saberes são válidas. Há uma doxa que coincide com as verdades científicas, bem como com a sabedoria. Mas a opinião expressa sem o cuidado da sabedoria e sem a devida orientação da ciência termina causando inúmeros problemas para sociedade. E é isto que ocorre neste momento no Brasil. Por isso que não é desnecessário investigar o conceito de problema, para que nossa opinião, caso seja necessária, tenha uma orientação adequada em sua comunicação em redes sociais e em outros espaços de diálogo.
Para Saviani (2000, p.25-26), um problema é
[...] uma questão cuja resposta se desconhece e se necessita conhecer, eis aí um problema. Algo que eu não sei não é um problema; mas quando eu ignoro alguma coisa que eu preciso saber, eis-me, então, diante de um problema.
O conceito incorpora a necessidade de conhecimento em seu âmago. Saber é essencial ao problema. A ignorância não é problemática. Ela não sabe, não sente falta de saber e não sabe a falta que o saber faz. Por isso apela para a agressão, para a violência, e se torna massa de manobra de líderes que incorporam e corroboram ideias de apartheid, de prisão, de tortura, de flagelo dos seus semelhantes. Sem educação e sem cultura padecemos dos nossos instintos mais perversos, que, associados a um sistema político, produzem holocaustos, guerras e infernos, onde poderia haver diálogo, arte, educação, cultura, ciência, desenvolvimento humano.
Não nos damos conta de muitos problemas que afetam diretamente a nossa ação no mundo. Por isso, é preciso, segundo o mesmo autor, “recuperar a problematicidade do problema”, transitar do mundo da pseudo-concreticidade, “quando o homem considera as manifestações de sua própria existência como algo desligado dela, ou seja, como algo independente do processo que as produziu” (SAVIANI, 2000, p.25), para o mundo da concreticidade, em que a necessidade é a essência do problema.
A necessidade apresenta um aspecto subjetivo, tal como é sentido pelos indivíduos e outro objetivo, a situação conscientizadora da necessidade. Para que a necessidade não se perca em subjetivismos, que reclamam cada qual o seu sentido verdadeiro, é preciso delinear o aspecto objetivo que constitui a necessidade e a sua interpretação em contextos coletivos de relações interativas.
Cair na armadilha do pseudo-problema traz inúmeros prejuízos para as relações que estabelecemos com os outros, pois estaremos num campo de ilusões e artificialidades que só vão aumentar ainda mais o tamanho do problema que nos afeta. Por exemplo: para uma senhora cujo barraco onde morava desabou sob a chuva intensa que caia, a resposta dela à jornalista que a entrevistava foi: “- Deus quis assim, fazer o quê, né?” Para ela o problema estava em si mesma, objeto do castigo divino ou, por outro viés, dos misteriosos caminhos de Deus que, por aquele acontecimento, a levará a outra situação melhor, seja através de um aluguel momentâneo pago pela prefeitura, seja por outro jeito qualquer.
Na verdade, se problema é aquela necessidade que cada indivíduo sente, não teria sentido falar-se em “pseudo-problema”. O problema existiria toda vez que cada indivíduo o sentisse como tal, não importando as circunstâncias de manifestação do fenômeno. Sabemos, porém, que uma reflexão sobre as condições objetivas em que os homens produzem a própria existência nos permite detectar a ocorrência daquilo que está sendo denominado “pseudo-problema”. (SAVIANI, 2000, p.6-27)
Deixando Deus em paz por um breve instante, cabe, nesse sentido, perguntar: quais as condições objetivas que constituem o problema da senhora do desabamento acima? Ela é pobre, foi morar num barraco, “pendurado no morro, me pedindo socorro” a fim de evitar viver no perigo das ruas vivendo no perigo do desabamento a qualquer momento. Certamente tem filhos e filhas. Marido desempregado ou no subemprego. Pergunto: ela nasceu pobre ou foi tornada pobre? A pobreza é uma condição natural ou um impedimento de acesso à riqueza que nossa sociedade produz? Esta mulher teve acesso a uma escola pública gratuita e de qualidade, ou ela, como milhões de outras mulheres, sofreram a exclusão violenta em suas várias faces? Machismo, racismo, preconceito de classe, de gênero? A favela, e o barraco que a compõe, é expressão da vergonha do pobre ou da falta de vergonha dos ricos? A ausência de uma política habitacional nacional expressa falta de recursos do Estado ou destinação desses recursos para sustentar privilégios e políticas de exclusão? Mas, se foi “Deus que quis assim”, não há problema, tudo se resolve no âmbito da fé: a desnutrição, o analfabetismo, o desabrigo, a fome etc. Essas manifestações do problema são deixadas nas mãos de Deus, que proverá apenas os que têm “fé”, numa exclusão de ordem superior, ideia alimentada por falsos pastores.
Logo, embora cada pessoa sinta o problema enquanto tal, em sua subjetividade, o problema tem uma objetividade que atinge a todos. Mas o pseudo problema cria um imaginário que só deturpa a identificação do problema, nos afastando da solução mais eficaz. Em relação ao momento da pandemia, embora o coronavírus seja um problema objetivo, ele não é o problema principal. Na verdade, ele nos reapresenta o problema principal: o capitalismo. 1. O surgimento deste e de outros vírus ocorre em função do avanço da destruição da natureza, que vão aproximando cada vez mais a vida selvagem das cidades, gerando a disseminação desses vírus mortais para a humanidade. 2. O capitalismo, como sistema produtivo concentrador de riqueza, é o responsável pelo analfabetismo, pelas favelas, pela desnutrição de muitas crianças, pela fome de milhares de pessoas, pelas exclusões e marginalidades em sua maioria. O garimpo, aliado a grilagem de terras por fazendeiros que usam policiais como milicianos, desmata e queima a floresta Amazônica no exercício desse capitalismo que mata e desmata em nome do lucro selvagem.
Quando identificamos o problema, qual então a nossa necessidade maior? Ser alfabetizados? Não. Paulo Freire nos ensinou que antes da leitura da palavra existe a leitura do mundo. Matar a fome? Imediatamente sim. Com atitudes solidárias Betinho nos ensinou que com o pouco de todos podemos fazer muito pelos outros. Mas isso não atinge o problema; arranjar um lugar para acolher as desabrigadas e os desabrigados? Também. Mas do mesmo modo nem nos aproximamos do problema; A necessidade ampla e eficaz para combater tudo isso é o enfrentamento ao capitalismo e suas formas de exclusão. É a transformação do modo de produção global que pode gerar transformações movidas pelo respeito e preservação da natureza, pelo acolhimento do ser humano numa nova forma de solidariedade social e de justiça econômica, pelo rearranjo de uma nova geopolítica global, na qual todos os povos sejam bem vindos, na utopia que jamais cessa de produzir esperanças para um daqui a pouco em nossa história.


Joselito da Nair, do Zé, da Ana Lúcia, do Rafael, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel. Com o apoio de:

SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum à consciência filosófica. 13. ed., Campinas, SP: Autores Associados, 2002.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

AS DESORDENS DO PROGRESSO BRASILEIRO


A 1.ª é a desordem da homogeneidade. Na ditadura o silenciamento emudece todas as vozes que não vêm ao encontro da “voz única” do general. Há indivíduos que ocupam o lugar de pastores, de padres, de empresários, de lideranças e que não admitem a voz dissonante. Suas autoridades são sustentadas pelo exercício da violência, na potência assassina da arma, no banimento daquele/a que discorda. A imaturidade psíquica dessas pessoas é evidente. Elas se acham únicas, mais especiais que todas as pessoas, fonte de sabedoria e poder. Elas se acham deuses/as, embora usem o nome de Deus para dizerem que servem a Ele. A diversidade é negada e perseguida em nome de uma homogeneidade homicida. Homossexuais, pretas e pretos, trabalhadores/as, travestis, pessoas com deficiência, intelectuais, pastores, padres e freiras críticos etc., são banidos/as ou assassinados/as.
A 2.ª desordem é a ordem do racismo de classe social. As classes altas e médias ressentem de compartilhar os espaços públicos com os pobres e pretos/as. E a explicação é muito clara: são herdeiros/as da escravidão. Um preto, uma preta alcançar uma posição de destaque é uma afronta à Casa Grande que agora se encastela em condomínios fechados. Odeiam quando alguém de uma classe social não privilegiada alcança postos de comando. "- Como ousa um 'inferior' ocupar um espaço reservado para nossos filhos e nossas filhas?" Perguntam eles e elas. "- Que ousadia vencer o racismo e o machismo estrutural que nós montamos ao longo da história no aparelho do Estado para afastar essa 'gentinha' de nosso convívio!" Insistem. Logo, utilizar o aparato militar do Estado para fazer o que eles e elas não têm coragem, eliminando os indesejáveis do convívio social, intitulados de "comunistas", é perfeito.
A 3ª desordem é a ordem do Estado como patrimônio particular de um grupo social. Bernardo Sorj já ensinava que não dá para compreender o capitalismo no Brasil sem considerar os efeitos do patrimonialismo em seu processo. O Estado sempre foi, ao longo da história, um patrimônio exclusivo das elites brasileiras. Nem sei se ainda tivemos, de fato, uma res pública neste país. Tanto é que o aparato militar do Estado brasileiro está a serviço das elites. As polícias matam milhares de jovens pretos ao ano, mais que o Corona Vírus. A última guerra que o Brasil participou foi no final da 2.ª Guerra. O primeiro grupo de militares só chegou à frente de combate em julho de 1944, atendendo interesses nortes americanos. De lá pra cá sustentamos esse aparato militar que está mais em guerra com seu próprio povo, servindo aos interesses das elites e servindo de ameaça constante à nossa própria soberania, quando entrega, de mão beijada, parte estratégica do nosso território ao inimigo norte americano. Se o fizesse com os chineses, ou qualquer outro país, eu diria o mesmo. Quem vai para as frentes de batalhas, claro, não são generais, mas soldados recrutados no seio da população, jovens despreparados para uma guerra perdida são os primeiros mortos. A ordem que as forças armadas mantêm é a ordem da dominação perversa das elites brasileiras, coronelistas, racistas, escravocratas, agora lideradas por um capitão sociopata, nada inteligente e que desmerece o pouco de brilho que ainda sustenta as forças armadas brasileiras. O Estado brasileiro tem dono. É dos militares, dos empresários e das elites do mercado financeiro. O povo é o mesmo escravo de sempre, cuja escravidão está institucionalizada na Reforma da Previdência, na Reforma Trabalhista e, em breve, na Reforma Administrativa do Estado.  
A 4.ª desordem é a ordem do privilégio da classe média. Antes, a classe média tinha acesso privilegiado aos cargos, aos postos no aparelho do Estado. Mas agora, com a ascensão educacional, econômica e social dos pobres, feitas pelos governos do PT que, mesmo com corrupção, confrontaram antigas ordens e afirmaram o povo brasileiro na cidadania impedida de alcançarem ao longo de nossa história, desde a colonização deste país. A classe média se viu ameaçada pelo avanço de pobres talentosos e focados em abandonar a pobreza, do ponto de vista econômico, sem esquecer quem são e de onde vieram. Então, a classe média, se vestiu de verde e amarelo, retomou para si um discursos vazio de uma ordem e um progresso construído sobre a exclusão do povo brasileiro e foi para as ruas clamar pela restauração dessa ordem perdida. Agora com o apelo à violência de Estado, sob a denominação de AI 5. Alguns/mas colegas e amigos/as dizem que a classe merda não tem ideia do que foi a ditadura. Eu discordo completamente. A classe merda sabe bem o que foi a ditadura! Por isso mesmo pedem a sua volta.
A 5.ª ordem é a dos religiosos que vendem a palavra de Deus nas bodegas que eles e elas chama de “igrejas”. Para lá se dirige uma população sofrida, com um nível de instrução e de educação formal precário, que não lhes permite a consciência crítica para perceberem o quanto são manipulados/as e explorados/as por esses mercadores da fé. Um bando de cínicos que exploram as fragilidades psíquicas das pessoas, advindas de seus sofrimentos cotidianos provocados pelas ordens desordeiras do Estado autoritário, racista, patrimonialista e preconceituoso, que os excluem de uma existência digna. Eu chamei de bodegas porque essas igrejas instaladas em muitos bairros pobres das cidades brasileiras, funcionam como bodegas mesmo. Vendem esperanças alucinógenas para serem consumidas por aqueles que embebidos dela, começam a falar suas verdades para o "mundo cruel".   
Na ditadura os perversos se tornam autores da agonia alheia. Os psicopatas que trabalham nas polícias e nas forças armadas assumem as funções de tortura como algo natural, pois que não sentem remorso. São demônios num inferno em vida que vai se tornando pior que a morte para os/as torturados/as e seus/suas familiares. Para esses que estão pedindo ditadura, deveria haver uma experiência bem próxima na carne deles, para sentirem no corpo o peso de suas palavras. Sabem do mais: pelo nível educacional dessa turma, creio que eles e elas ressentem de não passarem em concursos, de sua pouca inteligência, de sua reduzida capacidade de sentir o mundo. A crueldade é feita pelas mãos legitimadas de um militarismo brasileiro que trava uma guerra permanente contra seu próprio povo, enquanto a classe média e alta usufruem de uma civilidade que não possuem, pois conquistada com o apelo à ignorância, com o sangue dos inocentes, que nem armas têm, nem querem ter, para se defender. Eu, por exemplo, seria acusado de “traidor da pátria”, classificado como “comunista” e assassinado em alguma cela, pelas mãos de um torturador, que faria as maiores perversidades comigo para realizar o seu prazer psicopata e garantir o conforto e o privilégio das classes e grupos sociais que são donas do Estado brasileiro.

Joselito Manoel de Jesus. Professor

sábado, 11 de abril de 2020

ATIVIDADE MENTAL DO NÓS

O lugar mais seguro agora é nossa atividade mental. Mas essa atividade não é nossa, de cada indivíduo em particular em seu mundo privado. Nossa atividade mental não é uma atividade isolada em nosso cérebro privilegiado. Quanta falta faz a educação agora!!! Segundo Bakhtin toda elaboração interior de uma expressão verbal é organizada pela orientação social de quem se expressa. Por isso, nada do que digamos é uma criação única e primeira de uma individualidade primordial e absoluta, à frente ou acima do seu tempo. Somos todos paridos pelo mundo! E, por isso, é que somos humanos. E, por isso, é que somos históricos e sociais. Nascemos biologicamente do ventre de nossa mãe e nascemos socialmente e historicamente do ventre de nosso mundo.

Isso nos leva a saber que quanto mais interagimos, mais a gente renasce! Mais temos dúvidas, mais estranhamos o mundo e, por conta disso mesmo, mais o apreendemos. É um paradoxo maravilhoso! quanto mais renascemos, quanto mais ampliamos o nosso ventre-mundo, mais crescemos e adquirimos saber e sabedoria: sofia e episteme de mãos dadas!

Se nosso ventre-mundo é pequeno, ou seja, se a gente só interage nas margens de nossas crenças, de nossas bolhas, de nossas certezas absolutas, mais envelhecemos e ficamos pequenos e nossa atividade mental enferruja e desaba. Outro sintoma é afastar cada vez mais as pessoas de nossa presença, porque a gente começa a ficar intransigente, rabugento, sectário. Nos tornamos uma espécie de vírus. Porque estamos certos e fim! Alcançamos a verdade absoluta! E, sinceramente, não há mais nada a discutir. Somos deuses!

Se, ao contrário, no mundo da cibercultura, nós invadimos o ciberespaço na humilde procura de entendimento, e perguntamos, com mais dúvidas do que com certezas, provavelmente o universo em rede pode nos oferecer possibilidades de descobertas, não respostas prontas, mas possibilidades. Possibilidades criadas no debate aberto, sincero, de frente, num mundo ampliado no qual sua atividade mental, que é sempre, como diria Bakhtin, uma "atividade mental do nós", em contraposição a uma atividade mental do eu", amplia suas possibilidades de entendimentos, porque orientada socialmente.
Bakhtin (2002, p. 115) explica que:
A atividade mental do nós não é uma atividade de caráter primitivo, gregário: é uma atividade diferenciada. Melhor ainda, a diferenciação ideológica, o crescimento do grau de consciência são diretamente proporcionais à firmeza e à estabilidade da orientação social. Quanto mais forte, mais bem organizada e diferenciada for a coletividade no interior da qual o indivíduo se orienta, mais distinto e complexo será seu mundo interior.
É do envolvimento do indivíduo nas práticas sociais desenvolvidas por diferentes formas de coletividade organizada que a atividade mental deste indivíduo vai refinando e ampliando suas capacidades intelectuais, críticas e operativas. Sua percepção categorial, por exemplo, como uma das suas funções psicológicas superiores, amplia suas possibilidades de percepção, identificação e organização de problemas que afetam sua existência, que passariam despercebidos não fosse a sua participação nos grupos, comunidades e instituições que provocam e exigem o desenvolvimento da atividade mental do nós.

Nossa atividade mental do nós, que é sempre nossa e não minha, nem sua, nem dele, nem de outras pessoas, mas porque de outras pessoas também é nossa, deve procurar sempre dialogar, estabelecer interlocução, conversando com uma, conversando com outro. Tem um ditado que diz: “Quem anda com porcos, farelos come”. Quem fala com porco também. Por que? Porque quando nós falamos com alguém que pensa de certa forma, e se reduz a somente ouvi-lo e somente a dialogar com ele ou com um grupo que pensa e age do mesmo modo, certamente que os efeitos produzidos pelas conversas nos levarão a agir e a se comportar como aquelas pessoas, constituindo um fenômeno sociolinguístico que nos levará a comer farelos, como o alimento mais saboroso ou, ao menos, o mais nutritivo do universo contido em nossa bolha. Por isso, além de porcos, precisamos conversar com gatos e gatas, cachorros e cadelas, aves e peixes, ursos e leões, insetos, vírus e bactérias! Pois é na diversidade que fortalecemos nossa atividade mental, sempre aberta a ouvir os sinais, a interpretar os signos, a utilizar os ícones para nos apropriar de nossa cultura e comunicar/comungar nossas ideias com as ideias alheias. Pois, nos ensina Bakhtin (2002, p.115): “Quanto mais forte, mais bem organizada, e diferenciada for a coletividade no interior da qual o indivíduo se orienta, mais distinto e complexo será o seu mundo interior”. A forma que temos de fortalecer nossa atividade mental tornando-a cada vez mais sofisticada, é interagindo, participando de diferentes grupos e instituições, abrindo nossa mentalidade para uma dialogia permanente com diferentes interlocutores, fundando, enfim, novas gestações de nosso próprio ser no mundo, com o mundo, paridos por ele.

Portanto, se você apenas ouve os porcos, pensará apenas em chiqueiros e coisas que tais. Se você se comunica apenas com o leão, saberá apenas de savanas e do comportamento dos predadores alfas; se você interage tão somente com formigas, saberá das folhas e do trabalho na devida estação; se com cigarras, aprenderá a importância do sinal sonoro para sua existência; se com abelhas, a relevância dos odores para a sobrevivência e, assim, é preciso interagir com todos e todas, pois, desse modo, vamos tornando distinto e complexo o nosso mundo interior, ampliando nosso ventre-mundo e refinando nossa presença nele. Estourar as bolhas nas quais nós estamos, é uma atitude essencial para não nos alienarmos do mundo, para não nos tornamos amargos e agressivos, degradando nossas conquistas civilizatórias e mergulhando no obscurantismo que nos isola, nos ameaça a saúde mental. Precisamos, neste tempo de confinamento forçado pela pandemia do corona vírus, pronunciar o mundo juntos aos outros e às outras, numa dialogia elaborada na atividade mental do nós.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes que pronunciam o mundo comigo, e de Jesus, A Palavra pronunciada que gerou a Vida e o Mundo.

Com o auxílio de
BAKHTIN, M.; VOLOCHINOV. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. 9.ed., São Paulo, SP: Editora Annablume, 2002.

domingo, 29 de março de 2020

TEMPO DO VÍRUS: TEMPO PARA NÓS E PARA O PLANETA?


Neste momento de nossa história, no qual o Corona Vírus provoca a COVID 19 por todos os continentes deste planeta, levando milhares de pessoas à morte, poderemos aprender, entre outras tantas coisas, duas coisas fundamentais que se interligam, para nossa continuidade neste planeta: 1. Se continuarmos nos comportando como vírus, o próprio planeta Terra vai nos eliminar. Essa ideia não é minha, é de Leonardo Boff. Não são as pessoas o vírus, mas a ideia que elas carregam: de transformar tudo em fonte de lucro, levando nosso planeta ao colapso e desencadeando suas reações emergenciais diante da ameaça humana. 2. Temos uma nova chance de repensar a humanidade como um só povo, todos moradores desta nossa casa única. E, ao invés de ficarmos delimitando cada vez mais fronteiras e erguendo cada vez mais muros, e criando atalhos para mais e mais guerras, podemos construir cada vez mais pontes, compartilhando nossa moradia como terráqueos, enfrentando o desafio mais gratificante para nossa conciliação conosco e com a natureza. 

O capitalismo desencadeia, no mundo inteiro, uma economia devastadora para o planeta, poluindo rios, mares, desmatando e queimando florestas, extinguindo milhares de espécies da fauna e da flora – o que abre o caminho para pandemias sucessivas – e nos aproxima do precipício de nossa autodestruição. É como lembra Rubem Alves que, citando Guimarães Rosa, afirmava mais ou menos isso: Eu sou escritor, penso em eternidades, não sou político nem economista, que pensa em minutos. E acrescenta: feliz quem planta árvores em cuja sombra nunca se deitará. O economista e o político são lenhadores, destroem para consumo imediato. Mas fomos criados para sermos jardineiros e cuidar do planeta. O economista pode ser um economista-jardineiro, bem como o político, trabalhando na administração dos jardins públicos, da proteção das florestas, dos rios, cachoeiras, montanhas e mares. Mas um economista que sempre olha para natureza e vê somente possibilidade de lucro, bem como um político liberal e neoliberal que administra essa ideia, deixando passar o trator, a motosserra, a serra elétrica, o lança-chamas, a dinamite, o lixo e a poluição atmosférica, só vai destruir a beleza que resta, desequilibrando definitivamente nosso planeta e nos lançando na má sorte da autodestruição.

O capitalismo nos torna indivíduos virais, que atacam os órgãos do planeta, destruindo sua proteção e provocando-lhes enfermidades que podem levá-lo à morte. Cidades que poderiam ser ainda mais lindas, com rios límpidos e margens arborizadas cortando o seu centro, como Jacobina, Itabuna entre tantas outras no mundo, tornam-se uma fonte de podridão, pois despejam no rio suas fezes, seus venenos, suas podridões, revelando o fracassado modelo de desenvolvimento que impera no lugar. É muito triste e espantoso isso. A gente tem de desacostumar com isso. Não é natural um rio ser assassinado por nossa carga viral! Será que não existe saída? Será que não há inteligência suficiente neste planeta para produzirmos novas culturas na economia e na política que recuperem o estrago feito neste corpo vivo que é nossa Casa Maior? Não podemos ter uma economia mais comedida? Para que tantos dinheiros nas mãos de tão poucos? Por que esse dinheiro não é devolvido para quem o produziu, os trabalhadores e as trabalhadoras do mundo?

E ainda temos o grande desafio de nos despir das ideias tolas e perigosas de supremacia branca anglo-saxônica. Enquanto cada um de nós se achar mais especiais, mais perfeitos, mais puros e mais santos que os outros povos, sempre estaremos criando motivos para guerras. Sempre estaremos fazendo apologia às armas como instrumento de proteção pessoal e de ameaça coletiva, como um pistoleiro do velho oeste ou “a cavalaria” que matava índios – mulheres, crianças e anciãos também – pelo domínio de suas prósperas terras. O primeiro filme norte americano que eu assisti no qual os indígenas foram as vítimas de um massacre foi “Dança com Lobos”. Antes, todos os brancos eram heróis e vítimas do “ataque covarde” do índio “selvagem”.  

Nossa humanidade tem de repensar isso! Agora mesmo o que sobrou dos indígenas no Brasil, está sofrendo ameaças de garimpeiros, "latifudincendiários" e seus assassinos profissionais, que já mataram algumas lideranças indígenas. Tudo isso sob a influência desumana de um presidente [BolsoNero] perverso que “governa”, por ora, o nosso país. A violência contra as mulheres disparou, a violência gratuita de policiais contra jovens da periferia aumentou consideravelmente, o assassinato de jovens negros favelados disparou e as ameaças virtuais nas redes sociais ameaçam a cibercultura como espaço de liberdade e de criação coletiva de novos cenários de esperança e inovação.

Eu já passei por isso. Achava que era especial, mais especial que as outras pessoas. Mais especial que meu vizinho, minha namorada, meu irmão, meu colega de futebol, mais inteligente que meu colega de sala de aula etc. Eu fui infectado por essas ideias. E, se há algo bom que aprendi é que naquele momento eu era o mais tolo e insensato de todos/as. E, ao despertar dessa insensatez, dessa babaquice inconsequente, pude perceber que somente juntos conseguimos ser mais. Não mais que o outro, mas mais que nós mesmos. E mais, justamente porque sei que não sou mais que ninguém, muitas vezes até menos, no sentido de que dependo da sabedoria e da competência alheia para melhorar a minha intervenção na realidade, podendo também contribuir com minha singularidade. Começo a prestar atenção e a escutar melhor para entender a curiosa lógica de quem interage comigo. Fico mais observador para contemplar admirado as invenciones alheias, os saberes que estão em suas diferentes expressões. E começo a deixar de ver no/a outro/a um potencial inimigo, mas alguém que pode me ajudar a ver por outros ângulos o que minha limitação ainda não permite. E, no desenvolvimento desse processo, quem sabe, nossas fronteiras não vão se abrindo e permitindo capilaridades que potencializam trocas enriquecedoras entre pessoas, grupos, povos e nações?

Utopia? Ingenuidade ou possibilidade? Somos destinados à guerra eterna ou podemos encontrar jeitos de paz? Somos vírus consumindo o planeta, queimando suas florestas, devorando suas raízes, poluindo seu ar, sua água doce, seu mar, sua terra? Até quando vamos consumir sem nos preocupar em preservar o que nos é mais sagrado diante do mistério da vida? Ah. Esse Corona Vírus nos trouxe a oportunidade de refletir, de nos reencontrar conosco, com quem somos casados, com quem convivemos mais de perto. Houve muito pedidos de divórcio agora na liberação controlada da cidade de Wuhan, na China. Será que, quando ficamos juntos, o pior de nós vem à tona e a pessoa que está ao nosso lado começa a ser eleita como nossa principal inimiga, e, as guerras do sexo disparam seus canhões e bombas atingindo nossas filhas e nossos filhos? Se não aguentamos nossos/as filhos/as em casa, se eles também se tornam o inferno, como diria Sartre, que tipo de humanidade nós temos? Será que não é um egoísmo entranhado que temos o principal motivo que nos afeta neste momento? De onde vem nossa impaciência com o/a outro/a?

Este, portanto, é um momento de profunda reflexão que pode nos trazer de volta à amorosidade, ao afeto, à autocompreensão das ideias que nos controlam, que nos fazem agir de um modo, sempre previsível, e não de outro. Não é fácil. É preciso muita coragem para isso, para enxergar nossa imagem no reflexo que miramos em nosso interior profundo. Esse é um momento da gente perceber também que o capitalismo sem a exploração do trabalhador, da trabalhadora, muitas vezes desumana, não é nada! Suas máquinas, seus dinheiros em formas de papel, suas terras e suas marcas de distinção, não alimentam ninguém. E que a natureza, sem nossa circulação e atividades destrutivas, respira melhor por um tempo, o tempo que o vírus ganhou para ela e, talvez, para nós também.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel


sábado, 21 de março de 2020

FIEL DO TIPO


Aonde está a fé? Está ali, num templo erguido num terreno adquirido pelo dinheiro dos fiéis? De que lado fica a fé? Do lado de lá, naquela margem que nos divide? A fé está em cima de uma árvore? A fé está no fundo do mar? Essas são perguntas retóricas, para chamar a atenção sobre a importância de refletirmos sobre os critérios que escolhemos para geografizar nossos valores, sentimentos e crenças, geralmente colocando do nosso lado Deus e a virtude e, do outro lado da margem, o diabo, o vício, a imperfeição. E assim caminha a humanidade, encontrando indícios de divisão e empurrando-os para o outro lado da margem, lado de lá. 

Algumas pessoas dizem que elas têm e "guardam" a fé. Contra o "mundo". E criam uma linha divisória entre "nós", que estamos do lado de cá - o lado certo - e "eles", que estão do lado de lá, o lado errado. Observem: não havia lados. Algum espertinho traçou uma linha, com ideias toscas, e criou o contexto para a guerra. Os europeus cristãos, assim o fizeram: traçaram uma linha imaginária entre eles e os povos do Oriente e instauraram a "guerra santa", matando milhares de inocentes do "lado de lá". E aqui no Brasil essa linha está cada vez mais acentuada, fomentando a guerra que em breve pode ser desencadeada, afinal, matar pessoas que não seguem os ditames cristãos proclamados pelos meus líderes religiosos (que professam a "verdade"), é um serviço que presto para o bem da humanidade. Alguns/mas pensam assim. E os ateus; e aqueles e aquelas que professam a fé através das religiões afrobrasileiras; e aquelas e aqueles que se recusam a serem fiéis, mas resolvem pensar em sua autonomia intelectual, estão todos e todas do lado de lá. É simples! O lado de cá vai vencer, porque Deus, está do nosso lado. E assim se justifica a guerra com o simplismo de discursos fáceis e perigosos, que coloca irmãos de lados distintos, através de uma linha imaginária que as palavras traçaram no mesmo campo de território de sobrevivência: a cidade.

Quando há uma guerra, Deus não está do lado de cá, nem do lado de lá. Deus não mais está. Porque Deus está por todo lado e Ele é o Deus da Vida em abundância para todas e todos. Mesmo que a gente queira que Ele só esteja do nosso lado, como uma criança egocêntrica, uma "bananinha". Ele é Alá! Ele é Olodum! Ele é Jesus Cristo! Ele é Buda! Ele é Krishna! Ele é Deus! Nos filmes e seriados estadunidenses existem os walking dead's. Nós somos os walking dead's, que caminham pelo mundo em busca de sobrevivência. Só que walking dead's podem ser mortos sem culpa, pelas pessoas que despejam suas perversidades em tiros legitimados pela benção de "deus". 

E assim se multiplicaram os padres e pastores, os missionários, e outros líderes religiosos, que se aproveitam da pouca formação educativa das pessoas e da fragilidade psicológica delas para criar cada vez mais divisões, retroalimentando sua liderança através de justificativas de que cumprem uma "missão" dada por Deus. A missão de "salvar" você do mal. E você, sem apoio psicológico, sem ter adquirido hábitos intelectuais que o/a leve a desconfiar das palavras fáceis, ditas em contextos nos quais não há debate - pois se foi Deus quem mandou dizer aquilo, quem é corajoso o suficiente para debater com o próprio Deus? Só Jó, é claro -, com reduzido acesso à leitura ou, quando o tem, pouca vontade de ler, acredita piamente nas palavras do seu líder religioso, porque, se existem dois lados, e o lado de lá é o lado do mal, você quer estar do lado do bem. Não é assim? É fácil! O que é difícil é desconfiar dessas palavras fáceis que brotam rapidamente desses homens que te trazem a "salvação", arregimentando-o/a como um soldado armado de ideias fáceis e perigosas "do lado de cá". 

Assim o é o Silas Malafaia e outros/as similares. São homens e mulheres de palavras fáceis de escutar, porque dizem falar em nome de Deus. E ele se institui desse poder de mediador do divino, do sagrado, agindo sem contestação. Ele está do lado de cá. O lado de "deus". Ele se institui como agente de salvação, enviado de "deus" [ou será do diabo?]. E ninguém pode detê-lo! Nem a justiça humana. porque acredita-se que ele está com a "justiça divina". Mas... Será? 

Silas Malafaia, neste contexto de pandemia do Corona Vírus (COVID-19), no qual milhares de pessoas morrem no mundo inteiro, utiliza desse artifício da fé para colocar-se acima da realidade, desafiando as orientações médicas e recomendações do Estado brasileiro e colocando seus/suas próprios/as fiéis, além de seus parentes, amigos/as e vizinhos/as em risco de contágio. Sua fonte de renda principal são seus cultos, onde dezenas de pessoas se juntam para ouvir as palavras fáceis desse espertalhão da fé. Ele cria as condições para que o vírus se espalhe entre mais pessoas, colaborando com o avanço da pandemia e confundindo intencionalmente fé com ciência. 

Silas Malafaia não vive entre os pobres, como Jesus. Silas Malafaia não divide sua riqueza entre os pobres, como Jesus recomendou. Silas Malafaia enriquece a olhos vistos, retirando dinheiro da sua capacidade de discursar para um público ingênuo, facilmente manipulável. Sua fonte de renda não é o trabalho duro, que a maioria das pessoas fazem. São seus cultos! E por isso ele ficou indignado com a possibilidade de suspensão de aglomerações de fiéis em seus templos, onde, supostamente, a fé está. O dinheiro míngua para ele também, que já tem tantos dinheiros! Mas ele quer mais! Ele não está nem aí para Deus! Nem para a segurança de seus/suas fieis. Sua fé é tão pequena que o impede de oferecer seus templos para acomodação dos futuros contaminados com o vírus. Ao contrário de clubes de futebol, como o Bahia, ele usa os templos como espaços de propagação do vírus. Por causa da fé? Não. Por causa do dinheiro que ele vai ganhar com a boa fé dos seus fiéis, que estão ao lado dele, na pandemia e na morte. 

Joselito Manoel de Jesus, que quer estar em todos os lados, com Deus.                        

quarta-feira, 18 de março de 2020

PENSE!

PENSE!
VALE A PENA PENSAR
NÃO PENSE EM DISPENSAR ESTA CHANCE
DE SER MAIS

PENA
QUEM MAL PENSA.
É UMA PENA 
UMA MENTE TÃO PEQUENA

É UMA VIDA TÃO FUGAZ!
QUE NÃO CHEGA À EXISTÊNCIA
VIVE APENAS
A REPETIR COISAS PEQUENAS

VIVE APENAS
A DURAS PENAS
E NADA MAIS
E NADA A MAIS.

REPENSE SUAS ATITUDES
DE REPLICAR NOTÍCIAS FALSAS
DÁ UM BRAKE NESSE FAKE
E EVITE ESSA MALTA


SE SEU PENSAMENTO É CURTO
NÃO ALCANÇA O UNIVERSO
SE APAGA, SE AMARGA
NA INDIFERENÇA DO DIVERSO

REPENSE!
NÃO RECUSE ESSE DOM
TENHA PENA DO DESPERDÍCIO
DE POTÊNCIA INTELECTUAL

PENSAR NÃO DÓI
REFLETIR NÃO FAZ MAL. 

APROVEITE O TEMPO
VALE A PENA ENCARAR!
É TEMPO DE ENTENDER
O ENTENDIMENTO

DE REFLETIR SEU PENSAMENTO

É TEMPO DE SER GENTE
E NÃO APENAS "ANIMA"
É TEMPO DE REFLETIR
E NÃO APENAS "ANIMAR". 

Joselito da Nair, do Zé, da Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel