sábado, 10 de março de 2018

NEOLIBERALISMO E IDEOLOGIA: economia livre, trabalhador escravizado


Neste editorial acima, do Jornal A Tarde, é muito fácil, para quem tem um pouco de estudo na área, identificar a ideologia que perpassa o discurso que defende a economia de livre mercado como solução para os principais problemas sociais, políticos e econômicos que afetam o Brasil na contemporaneidade, contrapondo a ação ineficiente e corrupta do Estado à suposta eficiência do capital privado através da iniciativa empresarial, operando num mercado livre no qual, patrões e empregados, ricos e pobres, se unam num esforço coletivo e empreendedor, para “transformar e retomar a competitividade do país sem tutela do Estado em excessos” (A TARDE, EDITORIAL, 2018, p.A3).

Leitores desavisados e acostumados a pensar pelas reflexões alheias, facilmente caem na armadilha da falsa consciência disseminada por esse texto, passando a pensar que o Estado, de fato, é o leviatã que devora suas capacidades produtivas e o impede de desenvolver-se em função do livre exercício de suas capacidades, tornando-se assim, mais um a desejar e exigir um Estado Mínimo, conforme propõem os ideólogos neoliberais, não sabendo, entretanto, que estão atirando nos próprios pés. Os/As autor (es)/a (s)texto se aproveita (m) de um traço herdado do colonialismo português no Brasil, o patrimonialismo, que aqui se fortaleceu e consolidou, fenômeno no qual o público e o privado se confundem, gerando as sementes da corrupção – que neste momento são expostas ao grande público, mas sempre existiu no Brasil – com o objetivo principal de retirar do Estado prerrogativas de regulação e mediação que somente este aparelho de poder pode fazer, tais como a proteção do trabalhador diante da exploração do patrão, raiz principal da desigualdade social e dos principais problemas políticos, sociais e econômicos desse país continental.

A função da ideologia é justamente gerar essa falsa consciência que esconde e mascara os aspectos mais duros e antagônicos do domínio, contribuindo para a aceitação passiva e a integração política e social dentro dos princípios do domínio que se quer efetivar e estabilizar, no caso, o Estado Mínimo do pensamento neoliberal na realidade.

[...] porque falsa consciência, a crença ideológica não é uma base independente do poder e a sua eficácia e sua estabilidade dependem, em última análise, das bases efetivas da situação de domínio (para Marx, as relações de produção). [...] A averiguação do caráter ideológico de uma crença política permitiria, na verdade, tirar conclusões significativas sobre a relação de poder a que a crença se refere: por exemplo, sobre sua potencial conflitualidade e sobre sua estabilidade. (BOBBIO, MATEUCCI, PASQUINO, p.586, 1995)  
A crença ideológica acima se refere ao neoliberalismo e aos seus pressupostos, como o exercício das potencialidades individuais num ambiente de liberdade de mercado em um contexto político e econômico de Estado Mínimo, o que não significa Estado Frágil, pois, para manter o domínio todo grupo hegemônico utiliza da coerção - feita pelo aparelho de repressão do Estado - para manter os seus concorrentes e seus subordinados na condição de subordinação. Na Síria, Bashar al Assad não perdeu o domínio sobre o território porque, embora tenha perdido o poder ideológico, não perdeu o poder político, que é, em última instância, o poder da força militar, o poder que mantém o domínio. Sua sorte, diferente de Muammar al Gaddafi, foi estar numa região estratégica, tanto para os interesses russos, quanto para os interesses americanos. Caso a Rússia não entrasse na guerra, o destino de Assad estaria selado, tal como ocorreu com Gaddafi. Quando o poder ideológico não mais convence ninguém, os dominantes acionam seu aparelho de repressão, mobilizando tanques,  bombas e tiros como força de convencimento eficaz contra aqueles que desejam mudar o sistema de dominação, ou, no mínimo, trocar de dominador. 

Entretanto, produz falsa consciência quando deixa de mostrar que somente pela existência entre ricos e pobres já se evidencia a injustiça histórica do capital privado que se acumula sobre o trabalho coletivo, sob as bênçãos do Estado que o Editorial quer eliminar, pois, repito, Estado Mínimo é mínimo para as classes populares e os/as trabalhadores/as e máximo para o capital e seu processo de acumulação.

Se o homem fosse apenas atividade criadora e produtora de si mesmo e do mundo que o cerca, é certo que toda apropriação privada seria fonte de violência e dominação do homem sobre o homem. (Padre Henri Chambre).
E assim o é: de fato, “toda apropriação privada é fonte de violência e dominação do homem sobre o homem”. Quando um ser humano não quer produzir a riqueza para outro, através do trabalho, o poder ideológico, disseminado na sociedade, o classifica rapidamente de "vagabundo", de "desajustado", atingindo-o em seu caráter moral. Depois, o poder da força, a polícia atua sobre seu corpo, aprisionando-o como "meliante".  Enquanto esperava o cinema com Ana e Lucília, fui comprar um chopp, e fiquei observando os rostos das funcionárias e dos funcionários que estavam no atendimento. Vi duas coisas bem nítidas: insatisfação e cansaço. Para não dizerem que foi uma percepção subjetiva, sem nenhum caráter empírico, revelei para algumas delas o que percebia, o que foi por elas confirmado, peremptoriamente. Aquela afirmação do Editorial de que:

O embate entre a classe trabalhadora e patrões, entre ricos e pobres, é enfadonho em demasia no atual cenário econômico, político e social do Brasil. A “guerra” não existe, cravou o empresário Flávio Rocha. [...] Rocha elucidou uma fugaz percepção de que empregado e ‘chefe’ devem, juntos, recender a economia nacional. (A TARDE, EDITORIAL, 2018 p. A3)

O embate existe e a guerra continua sempre, desde que continue a dominação de um ser humano, o ‘patrão’, o ‘chefe’, sobre os demais seres humanos, os ‘trabalhadores’. E com a Reforma Trabalhista, aprovada recentemente, essa guerra tende a se tornar mais cruel, com um grande contingente de subempregados, praticamente sem direito a férias, espremido entre contratos retalhados por hora, por dia, por semana, por mês. Enquanto o empresário ganhou uma ampla vantagem legal para impor sua vontade sobre os trabalhadores e as trabalhadoras que lutam por uma existência minimamente digna. É essa vantagem legal que vai respaldar a exploração perversa do/a trabalhador/a nesse Brasil contemporâneo.
A ideologia disseminada no texto publicado, e aqui comentado, produz falsa consciência quando desdenha da luta de classes entre ricos e pobres. Especulo que, talvez, só não tenha desdenhado do racismo por deduzirem o impacto que uma opinião dessas teria no cenário soteropolitano e baiano para a referida empresa de comunicação que, conforme venho analisando, está cada vez mais conservadora. “[...] Reacender a economia nacional” para que? Para o patrão ficar cada vez mais rico e o empregado cada vez mais pobre, como ocorre quase sempre? Não é o capital que paga o trabalho, é o trabalho que paga o capital. Como reacender a economia nacional se o Brasil, através de sua diplomacia subserviente aos Estados Unidos, não consegue ampliar sua participação no mercado internacional? É culpa do trabalhador também a subserviência dos nossos neoliberais governos?   
O discurso do Editorial se aproveita de uma realidade atual, da corrupção dos/as nossos/as representantes políticos e da má gestão do Estado, que prejudica muito mais os mais pobres, e nem, ou pouco, afeta os ricos, para levantar a bandeira do Estado Mínimo, constituindo-se mais uma bandeira de um punhado de empresários que desejam a dominação política, muito embora neguem e afirmem ser a sua bandeira mais uma bandeira a ser hasteada, como se fosse a bandeira universal dos interesses do país, o que revela a contradição logo no início do texto que a ideologia pretende ocultar para convencer os leitores do referido jornal.

Existem bandeiras demais [e eles erguem mais uma] tremulando pelos rincões de um pouco competitivo Brasil, bombardeado de apontamentos sobre o destravamento da economia nacional. São bandeiras que tremulam sob desacreditados conceitos de representar “realidades”, defender a luta de classes (ricos X pobres), do protecionismo governamental ou emoldurar o levante de empregos diante da “ensandecida” máquina do neoliberalismo. (A TARDE, EDITORIAL, p.A3)

Ora, é neoliberalismo sim a bandeira que o jornal levanta em seus marcos institucionais, deixando-a tremular sob os auspícios de sua direção gerêncial. Eles negam o que afirmam, sob a mentira descarada da união entre ricos e pobres e entre patrões e empregados, sob o apelo de uma suposta união nacional tendo como objetivo maior “reacender a economia”. É pura falácia! A não ser que esse “reacendimento” dessa economia seja como sempre foi: queimando as energias vitais dos/as trabalhadores/as, aumentando a produtividade para que seus patrões fiquem mais ricos, vivam mais tempo, tenham mais tempo, e matem o nosso tempo nas fornalhas que nosso trabalho escravizado por leis severas, mantém acesas. A economia já está livre, mas os/as trabalhadores/as ainda se encontram mais escravizados, e queimando no fogo do inferno das boas intenções neoliberais que o jornal A Tarde publica.

Joselito Manoel de Jesus, Professor e Poeta. Com o apoio de: 

BOBBIO, N.; MATTEUCI, N.; PAQUISNO, G. Dicionário de Política, Vol I.8. ed. Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília, 1995.

EDITORIAL. Estímulo à economia livre. A Tarde, Salvador. Página A3, 6/3/2018.

domingo, 4 de março de 2018

CAPITALISMO CANIBAL

O capitalismo é um sistema econômico que sobrevive do canibalismo. Nele, um ser humano sobrevive de outros seres humanos, produzindo a desumanização, destruindo a natureza e concentrando a riqueza, muito embora diga o contrário. A mais-valia, tão bem identificada por Marx, é a expressão da negação da liberdade do trabalhador, da exploração de suas forças para atividades criativas e de lazer, e do consumo do seu tempo para a família e para outras atividades livres, nas quais possa investir seu tempo da maneira que bem quiser.
Segundo Flávio Rocha (2018), empresário, CEO do grupo Guarapapes que compreende, entre outras, a rede de lojas Riachuelo,
Os países que enriquecem, que são prósperos, são aqueles de economia livre. É inquestionável que existe relação entre as duas coisas: quanto mais livre o país, mais próspero porque não existe outra forma de gerar riqueza se não do talento individual que vem dentro de nós. Estado só destrói riqueza. O indivíduo que cria. O talento individual não é a forma de gerar riqueza, é a única. (ROCHA, 2018, p.B2)
É bastante questionável esta associação estreita e paupérrima, feita pelo empresário, entre as duas coisas. Ele caminha no raciocínio baseado nos princípios liberais e neoliberais, que, entre outras coisas, exige o estado mínimo e defende a iniciativa individual como ele mesmo afirma, como a única forma de gerar a riqueza. Contudo, não admite um dado essencial: a geração de riqueza acontece mais pela organização coletiva e sistemática dos seres humanos em seu conjunto, porque os talentos individuais produzem muito mais juntos, num trabalho conjunto e coletivo, que sozinhos, pois, como canta Beto Guedes, “um mais um é sempre mais que dois”. Outra coisa que Rocha não admite, é que essa riqueza gerada não é distribuída com a igualdade dos esforços individuais dos/as trabalhadores no trabalho conjunto de transformação da natureza. No Capitalismo a injustiça é regulamentada por lei, como se fosse natural, e então ocorre o canibalismo, no qual o empresário, como este senhor que cito acima, se alimenta das forças dos “seus”/“suas” empregados/as, roubando-lhes tempo de vida, de lazer, de estudo e de ócio para viver sua verdadeira liberdade, tomada de assalto por um sistema montado para que poucos seres humanos enriqueçam com a pobreza dos demais.  
A liberdade à qual este “empresário” se refere é a de explorar o trabalho alheio pagando míseros salários que mal sustentam, com a nutrição adequada, seus/suas empregados/as. Outra omissão grave é a histórica. Ele se refere aos “países que enriquecem” como se o enriquecimento dos Estados Unidos, da Inglaterra, da França, da Alemanha e de alguns outros, fosse fruto da conquista do trabalho engenhoso, criativo e árduo dos capitalistas que determinam essa suposta riqueza. Pois eu digo de onde ela vem: vem da exploração dos continentes africano, asiático e americano (da América do Sul) da produção de guerras e milhões de mortes ao longo dos séculos de dominação numa barbárie talvez mais perversa do que a dos antigos bárbaros. Vem da exploração do ouro e de riquezas diversas desses continentes, com a utilização da mão de obra escrava dos seus povos. Foi assim que a Europa Ocidental e os Estados Unidos enriqueceram.

O grande intelectual, Leandro Konder, afirmava com propriedade que
O trabalho não é só liberdade, desenvolvimento econômico e social. Ele também é, sobretudo numa sociedade capitalista, exploração, sofrimento, impotência, castração, por causa da divisão social do trabalho. (KONDER,
Desse modo, o/a trabalhador/a, sempre uma subjetividade gestada em uma coletividade reunida por desafios e interesses comuns, é reduzido/a a “indivíduo”, cujos talentos e esforços são utilizados por um/a empresário/a, não para potencializar as forças e melhorar a qualidade de vida desse “indivíduo”, mas como modo de produzir riqueza para si, tratando este tal “indivíduo” como um mecanismo da grande máquina de moer gente, que pode ser trocado quando estiver doente, quando estiver velho, quando reduzir suas capacidades de gerar riqueza no ritmo determinado por essa engrenagem sistêmica que devora seres humanos. O dono, ou os donos, da Riachuelo estão cada vez mais ricos, mas seus funcionários passageiros, peças descartáveis dessa maquinaria empresarial perversa, cada vez mais explorados, lutando pela sobrevivência, enquanto suas vidas vão sendo consumidas pela engrenagem que o estado sanciona e legitima.
A imagem possível que me vem à cabeça é a de poucos seres humanos se alimentando das energias dos demais, numa espécie de vampirismo universal que atinge todo o planeta. É assim que vejo a produção da riqueza sob as bases do capitalismo: um vampirismo legitimado pelo Estado, que eles/as mesmos criticam. Segundo o empresário
O Brasil está em queda livre em matéria de competitividade. Isso é decorrente do engessamento da economia. As economias prósperas são economias livres com pouca regulação e com estados pequenos”. (ROCHA, 2018, p.B2)
Esses “Estados pequenos” a que se refere o entrevistado do jornal A Tarde, não significa, como afirma Azevedo(2004), “Estado fraco”. Apesar de dizer que o estado atrapalha, na verdade, Rocha (2018) omite que o Estado é o regulador principal das relações entre capital e trabalho, a favor do capital, e, em última instância, a instituição fundamental que legitima o uso da violência contra a organização e luta dos trabalhadores quando revoltados com a exploração desumanizante que constitui o modo de produção do sistema capitalista, através de seu aparato repressor: polícias e exército. Já que a produção e distribuição da riqueza é uma injustiça, é preciso um Estado forte para legitimar o domínio dos capitalistas, para proteger o patrimônio privado e para reprimir toda e qualquer manifestação dos/as trabalhadores/as contra essa injustiça que é a apropriação da riqueza produzida coletivamente nas mãos de poucos. É esse “Estado Mínimo” que garante e oficializa o canibalismo capitalista nacional e internacional na forma de decretos e leis, tais como a recente reforma trabalhista imposta sobre o/a trabalhador/a brasileiro.   
Outra importante questão omitida para produzir um efeito ideológico a favor do capitalismo é a de que o Brasil está em “queda livre” por conta da competitividade baixa do/a sistema produtivo nacional. Para entender isso é preciso examinar a posição do Brasil no comércio internacional, colocado como aquele que oferece matéria-prima e alimentos neste âmbito de relações internacionais. O caso recente das tarifas de importação de aço e alumínio, vendido para os Estados Unidos, feitas por Trump, é exemplar. Vendemos um alumínio com pouco valor agregado a este produto, ou seja: vendemos matéria-prima que, por sua vez, será transformada em lâminas de alumínio que são revendidas aqui por um preço muito mais elevado. Ou seja: nossa produtividade não está associada simplesmente a uma iniciativa individual do/a trabalhador/a brasileiro/a ou de liberdade no mercado nacional para o empresário fazer o que quer e o que lhe “dá na telha” em relação ao que produzir, ao quanto produzir e ao como produzir, mas principalmente, a determinações internacionais que definem os contornos principais das relações comerciais internacionais entre os países.  
Portanto, a prosperidade de uns, a minoria do seres humanos, é consequência da exploração de outros, a maioria dos seres humanos, não fruto do exercício individual das potencialidades humanas tornadas ato. A produção é fruto de um trabalho coletivo, e não individual, e a riqueza daí produzida, e apropriada por uns poucos, não é resultado de uma competição justa, mas de uma injustiça social legitimada por um estado mínimo para a população brasileira e máximo para a defesa dos interesses dos capitalistas. O resto é falácia de burguês, empresário vampiro e controlador do capital financeiro.   

Joselito da Nair, do Zé, da Ana Lucia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.
Com o apoio de:

AZEVEDO, Janete Maria Lins de. A educação como política pública. 3. ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2004
KONDER, Leandro. O que é dialética. 1. reimpr. São Paulo, SP: Editora Brasiliense, 1995.
ROCHA, FLÁVIO. A liberdade é o caminho para destravar a economia. Salvador: 4/3/2018, A Tarde, p.B2). Entrevista concedida à repórter Ainá Soledá.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

CIDADANIA de PAPELÃO NO FRIO DA NOITE ABANDONADA PELO ESTADO BRASILEIRO

Gosto muito das reflexões de Leandro Karnal, mas tem momentos em que discordo completamente de suas opiniões, como foi o caso hoje, no Jornal da Cultura, 19 de fevereiro de 2018, quando este competente intelectual falava sobre o anarcocapitalismo. Nesta fala, ele afirma, não com minhas palavras, que o cidadão deseja é o estado competente e organizado, independente de direita ou esquerda, que ele considera ultrapassado associando tal identificação ao anacrônico período da Guerra Fria e, portanto, desqualificando quem assim classifica as representações políticas e as filiações ideológicas das classes sociais. Ora, pelo que eu saiba o capitalismo não acabou e a exploração do trabalhador continua, como sempre foi desde o princípio desse sistema, variando historicamente de acordo com o contexto histórico de luta e organização das classes trabalhadoras. Esse “cidadão” não é abstrato, um ser universal das democracias também iguais.

Aí o Senhor Karnal não cortou a carne com a navalha de compreensão correta. Porque não existe cidadania no Brasil! Porque o Estado é seletivamente e preconceituosamente branco! E por isso o racismo é estrutural, tratando de modo negligente e criminoso as populações negras e mestiças desse país, muitas delas sem ter uma ideia de sua suposta cidadania e de seus direitos elementares que, embora escritos na Constituição Federal, são apagados no atendimento nos postos de saúde, nas escolas públicas de péssima qualidade, na abordagem policialesca de um estado-capitão-do-mato. A guerra não é fria professor Karnal, ela continua quente, está próxima da erupção, e o cidadão é uma falácia que a materialidade das relações sociais, políticas e econômicas prova.

O brilhante professor Leandro Konder, seu xará, afirma que “ao tratar de forma idealista a realidade, muitas pessoas não conseguem sair do plano abstrato dos conselhos e “boas ideias” e ficam numa pregação moralista e em projetos ingênuos de reforma dos costumes e das “mentalidades”. (KONDER, 1995, p.31). Desse modo, se o senhor não aborda a realidade em sua materialidade dialética, porque o capitalismo não acabou e a divisão social do trabalho permanece fazendo vítimas nas classes sociais excluídas do acesso a esta cidadania branca, deixa de compreender a história em seu processo dinâmico e, perde a oportunidade de colocar-se como intelectual que identifica suas contradições principais e seu movimento dialético no aparecimento de novos personagens que entram em cena na história em função das determinações mais amplas de nosso tempo. É preciso, portanto, abandonar esse idealismo que a direita brasileira e americana que impor como verdade discursiva e aliar-se à esquerda brasileira que se renova e que não pode ser reduzida à experiência de governo do Partido dos Trabalhadores, que foi uma experiência muito significativa para as classes populares de nosso país.

Por fim, existe direita e esquerda sim! Sempre vão existir enquanto houver sistemas que geram desigualdades perversas, tais como a fome na abundância, a favela em meio aos edifícios de luxo, a miséria na fartura, o racismo na cidadania idealista, a morte prematura em meio à longevidade dos brancos. A direita identificada com os privilégios e com a propriedade privada, e a esquerda com a justiça social, os pobres da terra, a luta pela emancipação humana. A cidadania que existe - fazendo uma intertextualidade com Gilberto Dimenstein - é a de papelão, aquela com a qual se cobre o morador de rua para não morrer de frio nas noites abandonadas pelo estado desse país. Eu sou de esquerda, e estou na guerra contra a exploração do ser humano por outro ser humano.

Joselito Manoel de Jesus, professor, poeta e membro da esquerda brasileira e mundial.    

REFERÊNCIAS

KONDER, Leandro. O que é dialética. 1. reimpr. São Paulo, SP: Editora Brasiliense, 1995.


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

DEUS SEM PARTIDO

Quem me apresentou Deus foi minha mãe. Acredito que a maioria de todas as mães da década de 70 do século XX tenham apresentado aos/às seus/suas filhos/as a ideia do divino e do sagrado. Não porque as mães sejam sacerdotisas, mas porque, no contexto cultural de minha infância o machismo não permitia aos nossos homens-pais terem a sensibilidade para falar diretamente de Deus conosco, creio eu. Isso deveria ser “trabalho de mulher.” Eu, sinceramente, não lembro muito do que minha mãe falou de Deus, mas lembro que ela me falou com carinho. Não lembro de quem me falou do diabo pela primeira vez. O diabo nunca fez muito sucesso comigo. Mas o inferno... Ah. O inferno foi “um inferno”! Lembro do inferno e do poder dos diabos de levar as almas dos “desobedientes” para pracolá com um filme que assisti numa igreja Batista. No filme os “cãos” vinham pegar a alma de uns jovens motoqueiros que morreram num acidente, arrastando-os inferno adentro, deixando um rastro horripilante de terror em forma de gritos horrendos. O filme foi um sucesso! Eu e a maioria da plateia “aceitamos Jesus” no finalzinho, antes mesmo das letrinhas subirem tela acima. O garfo do diabo me empurrou para os braços de Jesus. Mas agora fiquei pensando: será que naquele dia, não foi uma combinação entre ambos que o pastor e sua assistência armou pra gente?

Durante minha existência Deus e o diabo foram se fazendo presente. Deus foi adquirindo seus contornos sisudos, com sua barba grande e sua vigilância enorme. Deus é grande! O diabo também foi ficando cada vez maior, à medida que meus hormônios foram me adolescendo. O pecado dos homens que exercem seus podres poderes não era discutido. Somente o nosso, adolescentes com hormônios fervilhando nossa sexualidade potente. Não havia lugar para me esconder de Deus e do seu foucaultiano Olho Panóptico. Mas os espermatozoides pediam movimento! A exigência biológica e a imposição “celestial” brigaram durante muitos anos como um hobbit fugindo do olho vigilante de Sauron. E aquilo me fez sofrer. Eu era um culpado, um cristão menor que não conseguia conter meus próprios instintos. Que perversidade as igrejas fazem conosco! Nesse caso, não há diferença alguma entre deus e o diabo. Eu procurava sombras e esconderijos, mas havia um olho em mim. Um olho que uma cirurgia diabólica inscrita na moral social dominante, colocou dentro de mim. Era me confessando num dia e “pecando” num outro. E o inferno estava logo ali, bem quentinho, com um diabo preparando minha alma para churrasco.

Até aquele momento, não havia elementos históricos ao meu alcance para questionar uma coisa: o paraíso era branco! O candomblé me dava arrepios! Os atabaques me deixavam inquieto. A família falava daquele som como se fosse uma celebração diabólica. E eu acreditava piamente nisso. Por incrível que pareça, e aí lá se vão as contradições da vida, contradições que formam brechas de esperança, o candomblé foi reaparecendo de modo respeitoso em minha subjetividade através de um padre, muito rigoroso eu o achava, mas que revelou-me a experiência de Deus de outro padre com o Candomblé. Falou-me rapidamente dos orixás, dos ritos e da profunda fé do povo de santo, etc, mas o suficiente para que eu entendesse que Deus não tinha partido. Deus era muito maior do que me disseram e do que imaginava. Me falaram de um deus pequeno e mesquinho. Me contaram de um deus que tinha cor e raça: um deus branco europeu, que parecia não ter saído do povo judeu. Esse deus no qual eu acreditava estava mais para um Odin ou Zeus, e Jesus estava mais para Thor ou Hércules, do que para aquele humilde pescador cujo julgamento é suave e cujo fardo é leve.

Esta semana peguei aleatoriamente uma revista dos Testemunhas de Jeová e procurei um negro em suas imagens. Não achei. Não havia, naquela revista daquele número, uma família negra! Deduzi que o céu desses camaradas é branco. Esses deus deles tem partido: é capitalista, branco e macho. O macho, adulto, branco, sempre no comando (Caetano Veloso) tem um deus sob medida para suas crenças políticas, sociológicas, biológicas, histórica, gráficas e geográficas. Um deus republicano! Um deus industrial e urbano, um deus financeiro que empresta (abençoa) somente para os que se filiaram às suas agências. Um deus que tem horror à Débora, a Esther, a Sara, à Simone de Beauvoir e às mulheres fortes e sábias de modo geral. Esse é o deus de Trump, o deus de Silas Malafaia, do Pastor Waldomiro, de deputados pastores, o deus da Veja, da Rede Globo, etc.

Deixei de acreditar nesse deus que me fizeram acreditar a ponta de garfo ardente. Comecei a perceber que Deus era bem maior do que eu pensava, repito. Bem maior. Comecei a rever Jesus na estrada, na favela, na roça, na taba, no Candomblé, na floresta, nas passeatas, na roda de samba, na capoeira, na ciranda, nas tranças que a existência foi fazendo em minha cabeça. Eu deixei de pegar o ônibus pro inferno cristão. Saltei bem antes. E comecei a caminhar com meus próprios pés em direção à Deus. Um Deus de todas as cores, inclusive negro. Um Deus de olhos puxados e cabeça raspada, um Deus de cabelos trançados e cachimbo na boca. Um Deus vestido ora à Ghandi, ora à Nelson Mandela. Um Deus que dança com sua gente e que celebra a humanidade que ele criou e que continua se recriando, surpreendendo-o a cada século; Deus, que só me censura se eu ofender e agredir ao outro, à outra; Deus, que as vezes se finge distraído para que eu não me sinta constrangido com sua onipresença; Deus, que não tem partido, mas sempre toma partido em favor dos excluídos, dos que morrem afogados no meio do deserto oceânico, fugindo das guerras provocadas pelos homens brancos gananciosos que querem beber toda água doce, mas nunca se saciam; Deus, que está ao lado das mulheres, dos/as homossexuais, dos adolescentes e jovens negros assassinados sistematicamente pela indústria da morte que funciona nas favelas suas máquinas assassinas.

Não há consciência humana no Brasil e no mundo se não há uma consciência negra. Negar a consciência negra, apagando-a dentro de uma suposta concepção superior de consciência – geralmente branca – é negar a história humana e ocultar ideologicamente o racismo praticado todos os dias, todos os anos de nossa existência coletiva, “pacificando” a guerra que ocorre todos os dias de nosso tempo histórico . E, negar a história humana, é negar à justiça o seu apelo à verdade, é mentir, é ocultar, é recriar as bases para que um deus com partido, com cor, causador de exclusão, sofrimento e dor retome seu antigo apogeu, criando fiéis cujo racismo não será pecado, mas o aborto causado em função de um estupro, um pecado imperdoável. Eu creio em Deus, mas não mais num deus pequeno, restrito, tacanho e mesquinho. Deus, de fato, é grande, mas não do tamanho do racismo religioso e cristão, nem da cor branca que a sociedade salva antecipadamente no seu paraíso privado. Esse deus, esse deus... É o diabo!


Joselito Manoel de Jesus, O Filho de Deus, O Negão.     

terça-feira, 14 de novembro de 2017

A caminho do inferno

O bom do envelhecimento é ir se tornando humilde, cada vez mais. Além disso, eu estou sentindo que não preciso mais de tanta coisa comigo. Estou deixando cair ao longo do caminho o peso desnecessário, que nunca valeu a pena carregar comigo. De fato, Saint-Exupéry estava certíssimo: “O essencial é invisível aos olhos, só se vê bem com o coração”. Como ver com o coração? Ah. É coisa difícil. É preciso fazer aquele exercício proposto por Gilberto Gil, “se quiser falar com Deus”.

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
dos desejos, dos receios
tenho que esquecer a data
tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
tenho que comer o pão
que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
dos palácios, dos castelos
suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração
Assim, fazendo esse exercício espiritual, podemos abrir um olho em nosso coração, porque o próprio coração já estará aberto para ver pela primeira vez o que sempre foi visto com olhos marcados pela ignorância, pela maldade pela vontade de submeter o outro, a outra, aos nossos caprichos. 

Por isso temos que nos achar medonhos. Quem se acha medonho? Poucas pessoas. Porque a feiúra, o pecado, a mesquinhez, a violência, a agressão a fofoca, é sempre o outro, a outra, que fazem e cometem. E a gente é belo, não é mesmo? Nós somos “os escolhidos”. Somos nós que merecemos o paraíso e não “o pão que o diabo amassou”. Ora, se não aceitarmos a dor de que somos iguais, ou até piores, que os outros e as outras, e que também contribuímos com a degradação do mundo, jamais poderemos ver com o coração, muito menos falar com Deus. Como é que Deus vai ouvir algo que não é sincero? Se não temos “as mãos vazias, a alma e o corpo nus”?  

É muito difícil esse exercício de aproximação com Deus. “Aceitar Jesus”, como dizem uns por 
aí e por acolá, é a coisa mais fácil que existe. Cruzamos uma linha imaginária, depois de um ritual simples de passagem, entre "o mundo" e o Reino de Deus; entre o mal e o bem, entre a “carne” e o espírito; entre o injusto e o justo e, a partir daí, começamos a apontar o dedo para os outros, os do lado de lá daquela fronteira que foi criada para excluir. Pegam suas pedras nas mãos e se preparam para atirar nos “pecadores”, naqueles e naquelas que andam no pecado, no “mundo”. E se, por alguma esperteza, no seio da história humana, alguém desenhou essa fronteira pra lá do seu pecado? E se essa cartografia espiritual começou errada, desde o princípio e, de repente, a gente descobre que Deus anda mais do lado de lá que do lado de cá? De que Deus não está nem aí para qual agremiação eu pertenço como gado, nessa vida imbecil de seguir pastores que me pedem dinheiro para provar minha fé? De que Deus quer ver “minhas mãos vazias, minha alma e meu corpo nus”. E "apesar de um mal tamanho, alegrar meu coração", porque o encontro com Deus se dá quando abrimos mão de nossas vaidades, de nossa necessidade de controlar a nós, os outros, as outras, o destino e tudo o mais, para encontrarmos a felicidade face a face, na alegria do coração, que nos desarma e nos acalma na profunda realização de nossa existência.  

Aí o MBL iria atirar suas imprecações contra o próprio Deus. Porque a nudez é tabu. A nudez será castigada. Porque alguns seres humanos querem ser “anjos” e não conseguem ser o que são, porque seus olhos estão cerrados pela ignorância e pela arrogância. Eu queria estar no momento dessas pessoas encontrarem com Deus, se conseguirem. Ia ser uma decepção! Então seguiriam alegremente o diabo, com uma arma na mão, uma bíblia na outra, cantando as glórias da racionalidade que o diabo pregaria, rumo ao inferno, que, como diria Sartre, é sempre o outro”.


Joselito Manoel de Jesus, Professor, Poeta e Corredor de Rua.    

sábado, 14 de outubro de 2017

SUJEITO-POLÍCIA x SUJEITO-BANDIDO: GUERRA DE UM PARADIGMA FALIDO

No final do século, encontramos-nos perante a desordem tanto da regulação social como da emancipação social. O nosso lugar é em sociedades que são simultaneamente autoritárias e libertárias. (Boaventura de Sousa Santos)

O autor acima citado, discutindo a transição paradigmática, elege duas dimensões privilegiadas para assim o fazer: a dimensão epistemológica e a dimensão societal. Segundo ele
A transição epistemológica ocorre entre o paradigma dominante de ciência moderna e o paradigma emergente que designo por paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente. A transição societal menos visível ocorre do paradigma dominante – sociedade patriarcal; produção capitalista; consumismo individualista e mercadorizado; identidades-fortaleza; democracia autoritária; desenvolvimento global desigual e excludente – para um paradigma ou conjunto de paradigmas de que por enquanto não conhecemos senão as “vibrations ascendentes” de que falava Fourier (SANTOS, 2001, p.16)
Essa transição, com suas dimensões, estão ocorrendo neste momento, gerando um desafio enorme em nossa capacidade de entendimento. Alguns recorrem, com o avanço do evangelismo de resultados, a explicações do fim do mundo na base do maktub, e assim se resignam ao “inevitável” armagedom, apontado os dedos para os pecadores que, segundo eles e elas, perecerão por não aceitar o deus deles/as. Outros fingem não ver o que acontece a sua volta, mesmo porque não entendem e, desse modo, se acomodam em viver nesse “caos” como se não houvesse amanhã. Alguns, porém, recorrem à reflexão sistematizada porque desconfiam que as partes só podem ser apreendidas coerentemente por um todo complexo que lhe dê explicação em seu conjunto de ocorrências, aparentemente sem nexos.
Há uma mudança de paradigmas que está provocando no mundo reações que geram inúmeros acontecimentos que exigem decifração sob pena de sermos devorados pelo sem-sentido que pode nos levar à loucura coletiva. As mudanças começaram antes da segunda guerra mundial e agora estão se acelerando, o que dificulta nossa forma de entender, exigindo outro entendimento para além da luta do “bem contra o mal” que alguns idiotas querem nos impor como discurso “verdadeiro e justificável”. Ou superamos esse maniqueísmo fácil e tolo, ou sucumbiremos em guerras que nos estraçalharão eternamente num inferno terreno. Somos bons e maus e, assim sendo, como posso combater o mau alheio se preciso travar uma grande batalha dentro de mim mesmo? Como eliminar meu/minha inimigo/a se ele/a apresenta dimensões de bondade que me faltam? Quais foram os critérios de escolha dos/as meus/minhas inimigos/as? Quem me ensinou a identificar e a odiar aquele que eu penso que escolhi para inimigo?
Saiu recentemente um estudo do Fundo das Nações Unidas da Infância (Unicef) que mostra que o Brasil bate recorde na morte de adolescentes e jovens negros, principalmente no Nordeste, tendo Fortaleza e a minha cidade de Salvador como as primeiras colocadas nesse holocausto sinistro. Segundo o repórter responsável pela matéria
Os dados mais recentes, de 2014, divulgados ontem [11/10/2017], mostram que o Índice de Homicídios na Adolescência (IHA) brasileiro alcançou a marca de 3,65 pessoas entre 12 e 18 anos assassinadas para cada grupo de mil jovens.
A pesquisa analisou os homicídios de jovens nos 300 municípios com mais de cem mil habitantes e se baseia nos dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde. (ANTÔNIO JÚNIOR, 2017, p.B5)
E muitos de nós somos levados a pensar, na base ideológica do “bandido bom é bandido morto”, que se eles morreram é porque mereciam, na medida em que é muito difícil morrer um “inocente” nessa guerra urbana, na qual o tráfico se torna o maior responsável, como se o tráfico de drogas fosse uma entidade maligna que explica por si só, a tragédia anunciada e proclamada.
E então se reforçam as condições ideológicas para o fortalecimento do sujeito-polícia como o herói que vai restituir a ordem perdida ou, quando muito, nos proteger da desordem da orda barbaria que invade nosso "território de segurança e bem-estar", o que o mesmo Santos denominou de "zonas civilizadas", em contraposição às "zonas bárbaras". Quando eu era menino ouvia discursos pronunciarem uma frase que me deixava esperançoso: “- polícia é polícia, bandido é bandido. Os dois não se misturam". As linhas de fronteira estavam bem delineadas. A polícia era a ordem e o bandido a desordem. E quando eu me refiro à polícia incluo todas as forças armadas. Mas o sujeito-polícia e o sujeito-ladrão com o tempo foram interpenetrando as fronteiras proibidas, e os bárbaros, desde aquele momento, já estavam invadindo nosso “sagrado” território moral, portando a farda como se da ordem fossem. Já não se contrapõem tanto assim nessa ordem em frangalhos, falida, apodrecida, sobre a qual tentamos nos agarrar. Já se confundem entre tiros e fugas, entre planos e assaltos, entre pontos de drogas e munições. Os filmes de José Padilha, Tropa de Elite e Tropa de Elite, o inimigo agora é outro, retrata isso.
E o estado-regulador entrou em colapso. Não consegue mais responder à “novidade que veio dar à praia” (Gilberto Gil). Os arrastões, feitos por adolescentes, em sua maioria negros, são assustadores sim, mas expressam o grito da barbárie - não dos novos “bárbaros” – esses sujeitos gerados pelas ausências criminosas de um estado burguês que estraçalha tanto o policial pobre que recebe uma merreca para combater o pobre revoltado, e o pobre revoltado que assume a violência e o crime como caminhos únicos desse labirinto mortal no qual, como ratos em um experimento maquiavélico, fazemos atrás da comida e da sobrevivência. Nesse sentido, o sujeito-polícia e o sujeito-ladrão-traficante, fazem parte da mesma desordem, a desordem burguesa e, no caso do Brasil, criminosamente racista.
O sujeito-polícia, deixou de ser o herói, mesmo porque, para grande parte da população, ele não representa mais a ordem, mas compõe a mesma desordem que aflige uma cidadania de papel (Dimenstein), com sua suposta autoridade agressiva e violenta, tentando obter respeito com a arma na mira da cidadania questionadora de seus métodos de capitão-do-mato. Ao lado do sujeito-ladrão, o sujeito-polícia atua, com balas perdidas oferecidas aos cidadãos. Essa "ordem" foi engolida pela desordem burguesa deste momento histórico e não vai ser esta que nos proporcionará esperança. Não vai ser essa democracia autoritária, nem esse neopatriarcalismo na forma humana de um Bolsonaro posando de herói nacional, com sua violência à ponta da arma, que vai nos dar esperança. A nova ordem precisa ser gestada num novo paradigma. Quem sabe não seja um paradigma prudente, desarmado, no qual nossos/as adolescentes tenham escola pública de qualidade, saúde pública, lazer e arte, que caracterizam uma vida decente e dissolvem os sujeitos-morimbundos de uma dimensão societal que insiste em voltar no tempo. Brasil Nunca Mais!

Joselito Manoel de Jesus, Professor, Poeta e insone
Com o auxílio de

JÚNIOR, Marco Antônio. Brasil bate recorde na morte de jovens negros. A Tarde, quinta-feira, 12/10/2017. Salvador, Bahia.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. Vol.1 3. ed. São Paulo: Cortez, 2001.      

domingo, 24 de setembro de 2017

O DES-CONFORTO DE dEUS NA TEOLOGIA DO “ME-DAR-BEM”

Nesse país tão cristão, há tantos cristãos que, desconfio que, se o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) fizer uma séria “recontagem de votos”, teremos mais cristãos que seres humanos. Com tantos jovens negros assassinados nas periferias de Salvador, Bahia, deve haver mais soldados que cristãos, muito embora isso seja paradoxal do ponto de vista do racional IBGE. Porque um soldado não pode ser cristão, já que ele é o braço armado do estado. E na cidade mais negra do Brasil, os números também devem mentir, porque devem ser soldados brancos, orgulhosos de sua raça, limpando Salvador de sua juventude negra. Ou, então, podemos inferir que um soldado não tem cor, não tem religião, nem tem fé. Quando aquele ser coloca a farda, ele se torna um agente do estado e, como tal, sua humanidade se submete às ordens de um poder inquestionável, um poder controlado, não pelos brancos (não é isso?), mas pelo estado incolor, inodoro e, principalmente, insípido que o caracteriza. E o estado, convenhamos, não tem nada a ver com a misericórdia e a piedade divina. E o estado, por ser “incolor”, prende, arrebenta e mata apenas marginais, sujeitos que roubam o povo, todos negros e pobres, como cantava Gil e Caetano. Embora me pareça muito estranho o braço armado do estado não arrebentar nem prender, muito menos matar, e o braço jurídico do estado não manter presos os brancos congressistas que roubam o povo de todo o território nacional.
Que deus é esse? Que lei é esta? Que fé conveniente é esta que se apresenta como uma propaganda comercial, como qualquer outra. Com a teologia da prosperidade inventaram um deus conveniente para cada um. Há um deus que traz meu marido ou minha mulher de volta; há outro deus que me faz ter sucesso no trabalho; existe um deus que faz meu/minha filho/a deixar o vício das drogas e há um deus emergente que cura milagrosamente meu/minha filho/a do homossexualismo, o deus-cura-gay. A fé virou moeda de troca: se eu fizer isso, deus me dará aquilo; se eu rezar três a quatro vezes ao dia aumento a minha possibilidade de obter melhorias divinas na minha situação financeira, que foi o meu pecado, e não o injusto, desigual e cruel sistema econômico e político desse mundo que me jogou nessa condição.
A partir daí vamos criando definições como “abençoado”, que seria aquele/a que está em melhores condições financeiras, políticas e econômicas. Nesse caso, deus está diretamente proporcional à minha posição no mercado. Se tenho um carro, foi deus quem me deu. Quem não tem carro certamente foi o diabo quem providenciou o transporte coletivo. Se tenho uma casa para morar, foi deus quem me deu. Quem mora embaixo da ponte ou nos alugueis da cidade, foi deus quem vetou, por que quem mora de aluguel é mais pecador do que eu. Diziam que a fé não tinha como ser medida. Agora, com a teologia da prosperidade, tem. A medida da fé pode ser em dólar, em real, em euro, em posses que expressam o quanto de fé eu tenho. Pensando no carro ano 2012 que restam 18 parcelas ainda a pagar e nas tantas outras coisas cujo dono é o banco do Brasil e o bando do Brasil, minha fé deve ser bem pequena, quase um ateu. Nada de poupança, dois empréstimos... Huuum. Minha situação tá mal com esse deus emergente das lucrativas igrejas da fé de resultados financeiros. Num país de uma cristandade tão forte, devo ser um herege. Dá até pra medir minha distância desse deus: uns dois a três milhões... de dólares. Porque real não é moeda pra se medir nada com respeito, quando mais tendo um presidente como Temer.  
Creio que muitos “cristãos” devem se imaginar um “Noé”, ou um “Moisés”, os novos super-heróis das novelas, filmes e seriados na base do eu, o bem, o belo e o bom, contra todos os maus. Haverá algum filme de algum santo negro? E quem seriam esses "maus"? Esse é o grande problema desta falsa dialética: os maus são os negros que professam a umbanda e o candomblé; os homossexuais e travestis que contrariam nossas medidas exatas do corpo e do seu gozo; os/as ativistas políticos que reclamam desse suposto estado sem cor e sem raça, sem sexo e sem graça, que torna a nossa vida uma desgraça. Os maus seriam as pessoas que não acreditam em Deus, principalmente nesse deus de resultados imediatos inventado para atender a cada cliente, conforme suas necessidades específicas – desemprego? Separação? Problemas familiares? Problemas de ereção? Temos um deus para o seu caso! Ligue já! Assista nossa programação e venha à nossa igreja, a única que tem um pastor/padre especializado em seu problema e que tem ligação direta com as repartições celestes. Os maus também são os pequenos traficantes, jovens negros que, ali no bairro, matam e morrem a sua esperança numa vida melhor. Os consumidores brancos são "vítimas" do tráfico e merecem o apoio e a misericórdia divina.

É tão fácil usufruir desse deus! É tão prático “aceitar Jesus”! Um deus que vai me dar tudo que eu quero. É tão difícil reconhecer e abandonar a hipocrisia! É tão fácil apontar abençoados e amaldiçoados aqui e ali, é tão difícil identificar que somos preguiçosos e covardes em reconhecer que nosso cristianismo é falso e superficial! Num Brasil com tantos cristãos, não deveria haver mais tantos assassinatos; num Brasil com tantos cristãos não deveria haver tanto feminicídio; num país com tantos cristãos não deveria ocorrer tanta especulação financeira. Num Brasil com tantos cristãos não deveria haver mais pedofilia, como no caso do assassinato de Lucas Terras entre tantos outros e outras. Num país com tantos cristãos não deveria haver tanta corrupção; num território assim “abençoado” é muito estranho essas coisas ocorrerem. E assim, esse nosso cristianismo de resultados do terceiro milênio vai nos salvando da pobreza, da doença, da violência, da morte, da separação, porque deus financia o homem justo com automóveis, apartamentos com piscinas, contas milionárias, harmonia na família e sucesso no trabalho e, com isso tudo, não tem "abençoado" que reclame, muito embora, segundo o IBGE, o número de “abençoados” cristãos venha caindo assustadoramente com a nova política econômica do estado incolor, inodoro e insípido politicamente. Essa política econômica deve ser coisa do "diabo".

Joselito Manoel de Jesus, Sem religião alguma. 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

ELEIÇÕES 2018 NA BAHIA: as esquerdas precisam ressurgir!

O Partido dos Trabalhadores cresceu à luz de setores organizados da sociedade civil como sindicatos, alas progressistas da igreja católica, grupos organizados das universidades públicas, parte da sociedade que se apresentava através de associações de bairro, movimento negro, blocos afros, entre outros que foram saindo da ditadura cruel – que Zezé de "Amargo" afirma em sua tolice oportunista ter sido um "militarismo vigiado" – e começaram a esboçar um poder que estava silenciado no fundo dos calabouços onde as torturas transformavam esperança de igualdade social e dignidade humana em gritos de desespero e de dor. Zezé de "Amargo", em sua "sapiência" de ocasião, deve confundir pau de selfie com pau de arara. Ele não teve unhas arrancadas lentamente, não foi estuprado por milicos psicopatas, nem tomou choques elétricos na genitália. O cantor não deve ter tido parentes que desapareceram para sempre, sem que a família tivesse ao menos o corpo para se despedir. Deve pensar que as pessoas que foram assassinadas pelo regime militar devem ter sido marginais que mereceram ser torturadas, pois “bandido bom é bandido morto”, não é filho de Francisco? Na verdade, os filhos e as filhas das famílias que apoiavam o regime militar são esses/as que usam o patrimônio público como se fora privado, propriedade particular de sua família e de seus/suas amigos/as e apoiadores/as. Desse ponto de vista, foi o “militarismo vigiado” do Senhor José de Amargo que preservou a corrupção, matando as pessoas que queriam um país melhor e protegendo as pessoas que aí estão nos roubando o presente e o futuro, além do passado, em propostas como escola-sem-partido. Os/as paneleiros não estão interessados em combater corrupção alguma. O que eles queriam é que a empregada voltasse a ser escrava, que o encanador voltasse a andar de ônibus, que o pedreiro voltasse a pedir um salário de fome e todos/as voltassem a pedir de joelhos a concessão da classe média e das elites à sua existência precária. 
Mas, voltando ao Partido dos Trabalhadores (PT), penso que, muito embora tenha sido, para a maioria do povo brasileiro, a melhor experiência de governo até agora em nossa história, o partido foi envelhecendo e não procurou formas de renovação fora dos seus quadros de poder, no qual medalhões começaram a luta pela disputa da eleição nas majoritárias, não permitindo a renovação necessária para oxigenação do partido e de sua inserção maior na sociedade, conforme governava o país. Os mesmos de sempre lançavam suas candidaturas, pleito após pleito eleitoral, e, de certa forma, principalmente aqui na Bahia, foram se fortalecendo com a decadência do PFL – hoje DEM (ônio) – com a morte do Capo di tutti capi Antônio Carlos Magalhães (ACM) e a desarticulação do carlismo. A juventude do partido não apareceu, nem deu as caras, como se as correntes do partido tivessem os seus donos que não abriam mão de suas posições conquistadas àquela altura e, dessas posições, buscavam melhores lugares ao sol nos quadros da hierarquia da instituição partidária.
Por outro lado, ao chegar ao poder do estado, o PT não conseguiu sair do ciclo da corrupção alimentado pela cultura política arraigada em nosso sistema de poder. Fomos admitindo que, para governar, é preciso corromper. É preciso fazer pagamentos extras a deputados, senadores, prefeitos, e governadores. Admitimos que, para governar, é preciso oferecer ministérios a partidos para serem usados como formas de roubar os cidadãos e as cidadãs brasileiros/as. Então alguns dizem que o PT não é culpado. Pois sem corrupção não há solução. De fato, não foi o PT que inventou a corrupção, nem o partido que mais roubou, a ARENA/PFL/DEM está aí como prova. O PMDB, o PODEMOS, o AVANTE, o PSDB estão aí nos oferecendo elementos suficientes para vermos que esses partidos utilizam o estado como extensão de suas casas. Mas o PT não conseguiu romper essa cultura secular que nos mantém aos pés do processo civilizatório nacional. Muito pelo contrário, se aproveitou dela e aliou-se politicamente ao que é mais antigo nesse país. Povo que consome mas que não pensa, não é povo. É massa eleitoral! E o que aconteceu?
A igreja católica desarticulou as Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s) e os movimentos de esquerda em seu interior, tais como a Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) e outras pastorais que formavam uma boa base de pensamento crítico para as populações mais pobres do país – por isso saí da igreja. Aqueles encontros de jovens da periferia, assessorados por pessoas do calibre de Wiliam e de ValdirMarina, foram sendo extintos. O próprio PT, quando começou a ser questionado pelos sindicatos e movimentos sociais, cooptou boa parte das lideranças políticas e as colocou em cargos no estado, onde suas ações foram se tornando inócuas. De todo modo o partido também se deu conta da insuficiência de quadros preparados para assumir o estado e teve de deixar antigo quadro de pessoal que preservava uma velha forma de exercer o poder. Os movimentos sociais foram enfraquecendo e o movimento negro desapareceu da cena pública, pelo menos como era quando o Ylê Ayê, o Olodum, entre outros blocos e afoxés traziam esperança com a negritude de Salvador que reclamava por “força e pudor”. E lá ia eu, ela, ele, todos nós naquele “arrastão” nordestino pelas ruas da cidade onde todo mundo é d’Óxun, mas nem todos/as são assim tratados/as.
E o PT foi perdendo fôlego. Para usar uma expressão de Game of Thrones, não conseguiu “quebrar a roda” que alimenta esse falido e corrupto sistema político e foi se parecendo, cada vez mais, com os partidos contra os quais antes tensionava sua existência. Foi perdendo membros importantes, que foram formando outros partidos, pois nele não mais encontravam canais de expressão ideológica, e, com a ascensão do neoconservadorismo brasileiro – na forma de Bolsonaro, Alexandre Frota, Zezé de Camargo, entre outros/as – o partido se viu enfraquecido, pois não tem mais discurso, nem para um lado, nem para o outro. Não tensiona mais, não representa o sujeito trabalhador fortalecido nas centrais sindicais, que estão sucateadas diante dos rumos que nossa história toma. Não tem mais trabalhador para representar. Aquele sujeito político surgido no fim da ditadura no ABC paulista, não existe mais. O capitalismo achou uma forma de enfraquecê-lo. E sem os jovens das periferias organizados em torno das pastorais de juventude do meio popular; e sem a negritude de Salvador; e sem as classes populares reunidas em movimentos, grupos e instituições que alimentam a esperança de um Brasil melhor para todos/as; aonde o PT vai encontrar força para eleger seus candidatos em 2018?
No discurso da eficiência capitalista na gestão do estado. Pelo menos é este discurso no qual Rui Costa (Rui Correria) está se apegando, não para se contrapor a ACM, o Neto (como bem lembrava Hilton 50), mas para sobrepujá-lo perante os olhos da massa disforme que é a população baiana em sua abordagem mais ampla. E, de fato, Rui é correria mesmo! Foi com ele que o metrô andou a passos largos, mesmo com toda suposta crise econômica vivida neste momento. É com ele que a agricultura familiar é tratada com respeito e dignidade, contrapondo-se ao famigerado agronegócio, entre outras. E tomara que seja suficiente, para não cairmos nas garras dos Magalhães. Votarei em Rui Costa, sim. Contudo, é preciso mais que isso. O posicionamento ideológico das esquerdas não pode ser devorado pela fome insaciável da ideologia instrumental do capitalismo de estado, que reduz a subjetividade ao desejo de poder ter seu trabalho explorado por um patrão empreendedor. E por isso votarei no PSOL para deputados e senadores. É preciso repensar a relação do partido com os homossexuais, com a negritude, com as mulheres, com a juventude, com a população que ficou órfã de espaços para discutir e fortalecer os movimentos políticos, sociais e culturais que fazem surgir e fortalecem novos sujeitos que tensionam com esse bolsonarismo ultraconservador e esse doreanismo de resultados que São Paulo quer que o Brasil inteiro engula, como remédio amargo somente para a pobreza que ascendeu economicamente e socialmente nos últimos anos. As esquerdas precisam ressurgir!


Joselito Manoel de Jesus, Professor