Estou tentando achar uma
fila. É. Uma fila. Mas não é uma fila qualquer. Há filas enormes em todos os
cantos. Fila para pegar ônibus, fila para pagar contas, taxas e multas em
bancos; filas em órgãos do Estado para ter acesso a informações; filas para comprar
o novo modelo do iphone; fila para
atendimento médico; fila para comprar ingressos do jogo do time; fila, paciência
e fé gigantesca para atravessar a Baía de Todos os Santos em direção à Ilha de
Itaparica; fila para ter acesso a direitos básicos; fila nas lojas de
departamentos dos shoppings da
cidade; filas para adquirir abadás de carnaval; filas em banheiros dos bares em
finais de semana e imensas filas para participarem de shows de talentos de canais televisivos, entre tantas outras filas.
Fila é que não falta.
A fila já é uma tradição
cultural. Tanto é que, quando conseguimos acesso a algo sem fila ficamos desconfiados
e terminamos por desvalorizar o que adquirimos ou poderíamos adquirir, afinal,
sem a fila para legitimar o selo de qualidade do produto ou serviço, deve haver
algo errado com os mesmos. Como é que não há uma fila demonstrando a importância
do produto ou serviço para a ampla maioria das pessoas? Não havendo fila, há
algo de errado. Poucas pessoas querem? Então não vale a pena querer. Não é um
serviço ou produto valorizado socialmente e, portanto, sem a fila, eu não entro
nessa. Tem até gente que entra em fila só para se sentir importante. A fila
também é uma terapia. Alguém passa e vê o suposto cidadão, conhecido seu, na fila de compra de
algum bem considerado valioso e diz para si mesmo: - Este tá podendo. Um carro que demanda uma fila
de compradores e que será recebido alguns meses depois, com certeza, começa a
ser visto como um automóvel de qualidade e passa a ser mais valorizado, afinal foi
um bem que gerou uma espera paciente em nome de algo que, supostamente, vale a pena o esforço.
No Brasil e na Bahia sem
fila não dá. Tanto é que, quando a gente quer dar uma de importante na frente
de nossa companheira ou de nosso companheiro, principalmente quando estamos com
raiva, dizemos: - Ficando solteiro ou solteira, vai se formar uma fila de
dobrar quarteirão a candidatas ou candidatos a namorar comigo, necessitando de
distribuição de senha. Réréré. Pois é, acionando o interdiscurso, podemos dizer que "a fila anda". De outro modo, quando um jogador faz fila em campo, deduzimos se tratar de um craque. O nosso craque no Supremo Tribunal Federal, o excelentíssimo - excelentíssimo aqui não é pronome de tratamento, é qualidade pessoal mesmo! - Joaquim Barbosa, está driblando a impunidade, o cinismo dos poderosos, os argumentos insustentáveis de advogados e grupos de advogados ricamente pagos, para fazer o gol da justiça nesse país tão injusto e fazer a gente vibrar na fila desse estádio chamado Brasil. A excelentíssima Eliana Calmon, do mesmo modo, é nossa "Marta", corrigindo, com seu avanço firme, atos, atitudes e comportamentos obscuros de juízes suspeitos com suas togas manchadas pela desconfiança de sua imparcialidade. Há de haver justiça contra os fura-filas. Esses que atropelam direitos, que desrespeitam a ordem de chegada ou que negligenciam a prioridade de crianças, anciãos, grávidas e portadores de deficiências, entre outros e outras. Esses fura-filas não merecem apenas a punição de irem para o final da fila, devem ser retirados dela, porque não aprenderam o valor do não que seu pai e sua mãe deixaram de ensinar e cresceram pensando que o mundo é só deles e delas.
E é por essas filas e outras
que eu reclamo a minha fila também. Eu quero uma fila para acesso à bibliotecas, para assistir aos eventos do esporte amador.
Eu gostaria de ver uma fila para acesso à leitura e uma fila especial: a de
espera da publicação de um livro com lançamento nacional em todas as livrarias
do país. Eu gostaria de ver uma fila de pessoas aplaudindo a prisão dos mensaleiros, ativos e passivos, desse Pt e de outros Psdb's. Eu gostaria de ver uma fila imensa para cumprimentar um escritor,
outra fila gigantesca para assistir um recital de poesias; outra fila
interminável para adquirir o mais novo livro de um político decente, com ideias
interessantes e possíveis de aplicação na área de administração, saúde,
educação, infraestrutura, cultura e lazer. Ah, como eu gostaria de ver uma fila
espetacular para ouvir um debate de juristas renomados sobre um sistema penal e
prisional eficiente para identificar a corrupção e manter os corruptos atrás das
grades. Ah. Tudo isso com filas a legitimar a importância desses eventos, filas
que, prazerosamente, eu entraria para ser mais um baiano brasileiro, a aumentar.
Eu não quero tchu, nem quero tchá. Nem tererê tê tê algum. Essas filas não me interessam, não há nada de
útil no final delas.
Eu não quero a fila do voto inútil, nessa democracia fingida, dessas promessas com engrenagens de mentiras, lubrificadas com cinismo de sobra. Não. Essa fila não me interessa. Eu quero entrar na fila dos que não sejam obrigados a votar em canalhas unidos pela grana dos impostos dos verdadeiros trabalhadores brasileiros. Eu sonho com a fila dos indignados com essa cidade suja, maltratada, abandonada, com essa Bahia que não anda, que cria filas em pedágios, com esse Brasil que voa feito galinha. Eu quero, no fundo, no fundo, que a fila seja transformada numa frente, num avanço de pessoas, grupos e instituições que, em sua diversidade, formem uma força poderosa na destruição das velhas formas do viver e na construção da novidade revolucionária, que vale a pena uma grande fila, com ingressos gratuitos para o mundo ver.
Eu não quero a fila do voto inútil, nessa democracia fingida, dessas promessas com engrenagens de mentiras, lubrificadas com cinismo de sobra. Não. Essa fila não me interessa. Eu quero entrar na fila dos que não sejam obrigados a votar em canalhas unidos pela grana dos impostos dos verdadeiros trabalhadores brasileiros. Eu sonho com a fila dos indignados com essa cidade suja, maltratada, abandonada, com essa Bahia que não anda, que cria filas em pedágios, com esse Brasil que voa feito galinha. Eu quero, no fundo, no fundo, que a fila seja transformada numa frente, num avanço de pessoas, grupos e instituições que, em sua diversidade, formem uma força poderosa na destruição das velhas formas do viver e na construção da novidade revolucionária, que vale a pena uma grande fila, com ingressos gratuitos para o mundo ver.
Joselito da Nair, do Zé, do
Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus,. O Emanuel.