quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

MENTIRA, MENTIRA, MENTIRA, EU SEI QUE É MENTIRA, MENTIRA, MENTIRA

Tergiversamos constantemente a verdade. Dizer a verdade, ou, pelo menos, ter a coragem de encará-la, não é para qualquer um. E é esse o principal motivo de nossas “desgracenças”. Mentimos para nós mesmos e para os outros, pensando que a mentira nos resguarda de nossos pecados, de nossos defeitos, de nossos erros e até mesmo do nosso eros. A mentira é a saída mais fácil que buscamos para fugir da difícil realidade de nos encarar no espelho. E a mentira circula livremente em nosso desempenho profissional, em nossa relação conjugal, em nossa vida pública e privada, como num grande “contrato social” elaborado e renovado todos os dias, em todas as instituições.

O governo mente na propaganda, exaltando o que considera seus feitos e omitindo as suas insuficiências e os impactos negativos de seus pactos para continuar governando. Nas propagandas da prefeitura e do estado, Salvador é o melhor lugar pra se viver e a Bahia é a terra de todos nós. As Câmaras de Vereadores, as Assembleias Legislativas e o Congresso Nacional são instituições políticas fundamentadas na mentira. Os que nelas entraram, no mínimo mentiram. Mas se fossem somente os políticos profissionais que mentissem o Brasil já estaria num patamar superior de civilização. O sistema educacional mente deslavadamente. Seus resultados são interpretados com mentiras ainda mais estupendas pelas autoridades desse campo. As universidades também são antros de mentira. As igrejas então, essas mentem alicerçadas no discurso sagrado para milhões de fiéis que crêem em padres, pastores, missionários, obreiros, freiras, “irmãos” e adjacentes.

É preciso ter muita coragem para não fugir da verdade. Para não contorná-la sem precisar recorrer ao suicídio. Sei que há, como me ensinaram alguns religiosos sérios, a “mentira bondosa” ou o silêncio bondoso. Mas eu percebo que a verdade dificilmente vem de frente em nossas práticas discursivas. Ela sempre vem no fundo das nossas tramas linguísticas, apagada pela força coercitiva das formações discursivas que determina o que pode e o que deve ser dito. Por isso precisamos de psicólogo. Porque mentimos tanto, tanto, tanto, que as vezes a verdade reprimida retorna poderosa, causando estragos inesperados nas relações que temos, por causa dos comportamentos erráticos, esquisitos, que nossa estratégia mentirosa calculou erroneamente, mesmo que inconscientemente.  Erguidos pela mentira, estruturados em suas tramas maléficas, só apodreceremos como indivíduos e sociedade. Sem o reconhecimento das mentiras que contamos para nós mesmos todos os dias, todas as semanas, todos os meses e todos os anos, jamais conseguiremos sair do sequestro que fizemos de nosso ser, atando nossa boca, amarrando nossos braços e pernas, furando nossos olhos.  

A mentira, portanto, é o Windows ou o Linux de nossos comportamentos. Coloridos, exatos, lineares, fáceis de serem usados e descartados. Mas a verdade é o MS-DOS, no qual os sistemas operacionais “rodam”. Assisti a entrevista de Luciano – da dupla Zezé de Camargo e Luciano – e percebi como aquele cara é arrogante, como mente para si mesmo com uma facilidade espantosa, acreditando-se ser o que todos sabem o que ele não é: um grande artista. Ele é o irmão de uma artista mediano, e só. Da mesma forma mentimos sobre pessoas, sobre nossa cidade, estado, país. Para além do “complexo de viralatas” que dizem o brasileiro ter, o que temos é a percepção imediata de um país sem nação, de lideranças políticas que se comportam como os portugueses do século XVI, que somente sonhavam em fazer riqueza com a exploração dessa “Terra de Santa Cruz” para voltar para a Europa. O nosso sistema educacional é de mentira, a nossa segurança pública é de mentira, a nossa saúde pública é de mentira, as obras públicas são de mentira, a arte é uma mentira, o nosso sistema prisional é de uma mentira “pavorosa”, um verdadeiro “acidente” e até deus foi usado como mentira para arrecadar dinheiro de tolos. O presidente Temer é uma mentira, os partidos políticos são de mentira, nossas empresas mentem para seus clientes, e a maioria das coisas por aqui terminam sendo uma propaganda mentirosa, que projetam produtos e serviços como se fossem impecáveis, maravilhosos e, na prática, são armengues feitos a serviço do/a mentiroso/a que adquire e se satisfaz com a mentira entregue para o seu hedonismo. "Dizei a verdade e a verdade vos libertará".


Joselito da Nair, do Zé, da Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

MUTIRÃO MULTITIROS

Mutirão já libertou 432 presos em Manaus

Esse “mutirão” ao qual a manchete do jornal A Tarde se refere é o mutirão coordenado pelo Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM), iniciado em função do massacre de 56 presos do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), “acidente pavoroso” ocorrido no primeiro dia deste ano que promete. Mesmo levando-se em consideração que boa parte desses presos são provisórios – 37% em Manaus e 67% no interior do estado – ainda assim penso que os juízes e demais profissionais envolvidos nessa operação nada entendem de sociologia. Não serão “presos” – esse sujeito imaginário que cometeu algum (ns) delito (s). É preciso saber quem são esses “presos” para que possam voltar a ser “soltos”, porque nesse país, poucos são os “livres”. E isso não é mero jogo de palavras.  
Quando um sujeito é preso nesse país, não importa se roubou a velha e repetida galinha – que deve estar exausta de ser roubada por “ladrão de galinha”, que deve estar cansado de ser assim nomeado, pois não existem mais tantos quintais, nem galinhas neles ciscando para serem roubadas por milhares de “ladrões dessa ave comestível – é atirado no mesmo lugar que assassinos psicopatas, pistoleiros, traficantes, chefes de gangues e facções criminosas. Seu processo fica parado décadas a fio, pois os juízes sempre reclamam que são poucos, mas pouco se vê um juiz trabalhando. O sujeito preso é obrigado, para sobreviver, a entrar numa das facções criminosas, que são as verdadeiras gestoras dos presídios no Brasil. Desse modo, ele passa do mítico “ladrão de galinhas” para o real soldado do crime organizado que comete o terror nas ruas das cidades brasileiras. O filme nacional, “1 Contra Todos” – http://www.foxplaybrasil.com.br/show/13055-1-contra-todos – revela essa face corrupta e decadente do sistema carcerário brasileiro. Portanto, não são presos – esse sujeito generalizado pelo imaginário social – que estão saindo dos presídios e cadeias públicas e privadas, mas membros ativos de facções criminosas que, sabendo de um estado negligente para com sua segurança pessoal e coletiva, continuará obedecendo às ordens dos seus chefes, como forma de continuar sobrevivendo fora das celas e protegendo, o quanto pode, sua família, quando tem. Isso denota que a inteligência por trás de iniciativas como esses mutirões é bem precária.   
Luis Fernando Veríssimo, afirma que o que se pratica no presídio, sob a anuência do estado, é eugenia. Segundo este importante escritor brasileiro:
A eugenia é um bom exemplo, ou um péssimo exemplo, do que ocorre no Brasil há séculos.
Há, por trás do tratamento dado aqui ao negro, ao pardo e ao pobre, cuja amostra mais evidente é esse sistema carcerário ultrajante, um mal disfarçado intuito de purificação.
Empilhar criminosos, independentemente do caráter do crime, em cadeias infectas e esperar que eles se entredevorem é um método prático de depuração. (VERÍSSIMO, 2017, p.A7)
Meus olhos lêem esses acontecimentos através da História. E é pela História que eu vejo escrito nas entradas dos presídios: “Instituição substituta do tronco que ficava no pátio da casa grande, criada especialmente para negros, índios e pardos. Proibida a entrada e permanência de brancos.” E é também pela história que eu vejo escrito nas viaturas policiais e nas atitudes destes para com o que aqui denominamos erroneamente de “cidadãos”: Veículo de transporte de negros fugidos (para as viaturas); Capitães do mato (para soldados, sargentos, tenentes, capitães e coronéis); sujeito suspeito, que deve ser abordado com agressividade (para cidadãos). Quando o “coxinha” do ex-chefe da Secretaria Nacional da Juventude lamentou que não houvesse ainda mais chacinas nas prisões, expressou o pensamento do estado brasileiro e de boa parte da nossa sociedade que, por necessidade ideológica, precisa ocultar a sua verdadeira intenção. Se os nazistas tivessem conhecidos nossos métodos de eugenia, talvez estivessem no poder até hoje.
Portanto, nosso estado não é ineficiente diante do crime organizado que comanda massacres “pavorosos”, acidentalmente ocorridos, segundo o atual presidente golpista. Ele é o próprio crime organizado, que se coloca como extensão do braço armado que pode matar sujeitos indesejáveis pela sociedade branca e elitista, sem precisarem responder por esses crimes contra a humanidade, posto que já são criminosos. O estado não perdeu o poder diante do crime organizado: o crime organizado trabalha para o estado, limpando a sociedade dos negros fugidos que se rebelaram contra as torturas dos capitães do mato de agora. Da mesma forma, a “inteligência” das ações imediatistas do braço jurídico do estado, revela-se uma pantomima, uma cena novelesca de baixa qualidade que busca agradar ao publico e recuperar a “audiência” confiante no final feliz. Não haverá um final feliz. As ruas de Natal, capital do Rio Grande do Norte, já começam a ser incendiadas com as ordens que o tráfico, um dos maiores geradores de riqueza no mundo, está dando para seus soldados fora das masmorras que chamamos de presídios.

Joselito, pardo, sujeito suspeito, com o auxílio de:

VERÍSSIMO, Luís Fernando. Coxinhas. A Tarde, Salvador, p. A7, 19/1/2017.

LASSERRE, Luiz. (Edit/coord.). Intensificadas ações para conter crise. A Tarde, Salvador, p.A4, 18/1/2017

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O TEMPO NO JORNAL A TARDE: O PASSADO SEMPRE PRESENTE

Ao lermos o conceituado jornal A Tarde e sua Revista Muito, vamos sendo convidados a ler o tempo e sua complexidade. Foi o que me aconteceu ao ler os jornais dos dias 8 e 9/1/2017. Sonhamos em invadir o tempo, contornando o seu avanço. Colocando-nos em qualquer ponto da história em que desejarmos, seja no passado, seja no futuro, seja no presente imediato que emerge daqui a alguns segundos. Segundo Anilton Santos, arquiteto e urbanista,
O presente é uma sombra que ronda o ontem e o amanhã, nisso repousa a nossa esperança e a nossa agonia. O que somos hoje é fruto do que construímos no passado, amanhã seremos fruto do que construímos no presente. (SANTOS, A Tarde, 9/1/2017, p.A2)

Para Santos o tempo tem um fluxo inevitável, como se o passado desembocasse no presente e este, num futuro historicamente inexorável. Pode ser, contudo, que amanhã sejamos passado, não passados para o pretérito, mas passados para o futuro, isto é, na destruição de nosso futuro. Somos passados desde o presente. É o que percebemos nas reflexões da artista visual Gadra Kilomba.
As vezes tenho a impressão de que vivemos numa atemporalidade, em que o passado está sempre no presente. Nós vivemos no presente, mas o passado está sempre sendo construído. E a mudança parece algo muito pontual. O caso Obama, sucedido por Trump, é um exemplo disso. (KILOMBA, Revista Muito, 8/1/2017, p.9)

Essa ideia de que estamos reconstruindo de maneira permanente o passado me parece mais sentida neste momento histórico. Parece-me que a máquina colonial brasileira religou os seus motores e recomeçou a moer a carne humana dos negros, trabalhadores, nordestinos e nortistas, mulheres e homossexuais, conforme charge do criativo Simanca. (A Tarde, 9/1/2017, p.A3)
Somos profetas ao inverso no Brasil: nossas palavras e ações convidam a história a voltar no tempo e avançar para o futuro do pretérito. Em nossas atitudes, iremos para a “casa-grande”, voltaremos para a senzala e pediremos servis aos nossos brancos senhores, a mão para beijar, humilhados perante o poder, a beleza e a força dos nossos brancos, únicos no mundo em perversidade e artimanhas de continuidade de um tempo que se foi.

Nessa máquina do tempo nós ligaremos nossa “contra-redenção”, funcionaremos novamente na mesma condição de paz degradante em que nos encontrávamos num passado sempre presente nas instituições sociais, dos bancos aos hospitais, das escolas às universidades, da família à igreja, realimentando as relações patrimonialistas, racistas, homofóbicas, machistas. Em nossas mãos e em nosso cérebro o passado é reconstruído, dia a dia, na direção do futuro sem futuro. 

Joselito da Nair, do Zé, da Ana Lúcia, do Rafael, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

MERCADO BRASILEIRO DE SERES POLÍTICOS

Comprei um senador outro dia. E não é que o desgraçado valeu a pena? Apesar de ter cobrado um preço alto, em euro depositado em contas nas ilhas fiscais no exterior, ele cumpriu o contrato e defendeu meu interesse criminoso. No início fiquei desconfiado. Ele aparentava decência e lisura em suas breves palavras na Casa Senatorial. Mas isso faz parte do teatrinho lá deles. O senador me fez favores até acima do que imaginei. Fiz pequena fortuna, ganhei vantajosas concorrências, intimidei concorrentes honestos e atingi meus objetivos escusos. Como essa primeira negociação ocorreu bem resolvi, com parte do lucro, comprar dois deputados na Câmara Federal. Antes fiz uma pesquisa de mercado e identifiquei os mais influentes naquela “Casa”. Eram mais caros que o senador, cada um. Foi difícil poder pagá-los, mas vi que também valeria a pena, afinal, os parceiros do contrato têm de sair ganhando para a roda da fortuna fácil com o dinheiro público continuar girando na Câmara e no Senado.
Com esses dois deputados obtive algumas leis que beneficiaram bastante minhas empresas. Ganhei dinheiro que jamais imaginaria com trabalho honesto. Aliás, nunca ganharia, pois quanto mais eu trabalhasse mais o estado levaria a maior parte dos meus lucros. Comprei lanchas, mansões, terras privilegiadas com rios e florestas prontas para serem desmatadas em nome de um suposto “crescimento econômico” e “geração de empregos”. Tal como os deputados, comprei prostitutas de luxo, noites nababescas em iates também de luxo, jantares regados a vinhos finos e caríssimos, com risos e pantomimas expressando aquela patética celebração que a corrupção tanto me ofereceu. Comprei também uma jornalista gostosa de uma rede nacional de TV. Vi que nesse campo também tinha um mercado. As da rede mais lucrativa só para ex-presidentes. Resolvi, tal como um senador espertíssimo que jamais foi preso, comprar uma de uma rede nacional mais em conta, pois esta não exigia tantas jóias caríssimas para ostentar em noites frívolas para amigas igualmente frívolas.
Quando tudo “estourou” na imprensa, essa maldita, tive que fazer muitas manobras para esconder toda a riqueza obtida de modo ilícito. Começaram as ameaças vindas de antigos colaboradores na Câmara e no Senado. A euforia de outrora transformou-se em medo. O país começou a afundar pois há furos por todos os lados e a água começa a afogar muita gente. Os pobres, desde cedo aprenderam a viver à míngua. Para meu desgosto, eles sobreviverão. Apesar de serem os primeiros a receberem os impactos da situação desesperadora. Esses apreenderam o Brasil desde a colônia e não morrerão. Também, comem qualquer coisa. Fazem feijoada e mocotó e vão sobrevivendo em suas senzalas contemporâneas. Eu, aqui preso, sei que sairei em breve, pois nossos aliados no legislativo nacional estão modificando as leis ao nosso favor. Eu quero tanto o meu Brasil de volta à farra!


Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

A POSSE

Estava fazendo algo completamente alheio ao que escrevo agora. Acontece que a maioria dos textos que escrevo não são pensados antecipadamente. Eles vêm. Como que amalgamados em meu ser, lá no profundo silêncio que recolhe as percepções indizíveis, os sentidos vão viajando em fluxos socioculturais que os direcionam para a expressão verbal. Os fluxos socioculturais são dinâmicas constituídas no estoque social de signos disponível e na competência linguística, que é também extralinguística, que caracteriza minhas expressões verbais. E é dessa complexidade que os sentidos se expressam em pensamentos que, por sua vez, expressam sentidos outros que se filiam nessa corrente discursiva, colocando em discussão o alcance da autoria dos “meus” textos.
Eu não sou o primeiro ser humano dizendo as primeiras palavras, embora ache isso quando falo. Nem os sentidos partem de mim, embora também eu acredite nisso quando me expresso. Ao aceitar essas duas ilusões, penso que produzo as ideias. Mas, na verdade, as ideias me produzem. Ou seja: eu não sou o sujeito de minha expressão verbal, pois os sentidos não partem de mim, eu apenas os retomo em minha prática discursiva. Eu entro na discursividade e, nesse movimento, não sou o sujeito de onde parte o sentido. Há, como diria Althusser, um assujeitamento, pois, ao retomar sentidos já ditos e esquecidos que se encontram na memória discursiva, sou atingido pela ideologia que foi se sedimentando no processo histórico, independente se no plano racional concordo ou discordo da ideologia que produz seus efeitos de sentido e, por isso, não interessa o sentido real do que digo, mas o real do sentido, onde seus efeitos tomam forma.
E foi o tema da posse que veio no fluxo que me atingiu há pouco. Eu percebo o quanto gostamos de ser “donos” de algo. Ter a posse parece nos proporcionar uma satisfação momentânea significativa. Quando temos, geralmente queremos mostrar, exibir. A posse parece induzir um significado que a cola a algo ou a alguém à nossa pessoa, nos dando prestígio. Ao tirarmos fotografia com uma pessoa “famosa” acreditamos, muitas vezes através do inconsciente coletivo, que compartilhamos um pouco do prestígio dessa pessoa, mesmo que de modo muito fugaz. Ao brincarmos tirando fotografia ao lado de um carro sofisticado, como se o tivéssemos abrindo sua porta para dirigi-lo, também expressamos através desse gesto, essa ideia coletiva. Da mesma forma, ao passearmos com uma mulher considerada bonita e gostosa, ou com um homem assim concebido em nosso contexto estético, exibindo-os discretamente ou não, também gozamos dessa admiração pelo olhar e avaliação alheias. Este que vos escreve, quantas e tantas vezes não caiu nessa armadilha da posse? Várias! Várias vezes e ainda caio.
Não somos donos de nada, nem mesmo de nossa existência. Vivemos míseros anos. A maioria esmagadora de nós nem consegue chegar ao centenário. E não somos donos nem das palavras que pensamos escolher ao falar? Se levamos em consideração que somente a razão é que impera, então não. Mas se o inconsciente é reconhecido como constituinte dos sentidos ideológicos que se materializam na ligação entre a língua e o inconsciente, então sim, podemos reivindicar autoria, ainda que precária do ponto de vista de sua posse individual, ou de sua elaboração primordial. A tentativa de colar o suposto prestígio à nossa pessoa denota o quanto ainda carecemos da compreensão de que a posse é um fluxo ideológico que afeta a nossa existência de modo prejudicial à nossa emancipação individual e coletiva. Indica também o quanto necessitamos nos apossar de algo ou de alguém para poder ser alguém. O quanto vazio estamos de nós mesmos, em nossa decadência espiritual. 

Quando não tiver mais nada
nem chão, nem escada
escudo ou espada
O seu coração… Acordará

Quando estiver com tudo
lã, cetim, veludo
espada e escudo
Sua consciência… Adormecerá

E acordará no mesmo lugar
do ar até o arterial
no mesmo lar, no mesmo quintal
da alma ao corpo material
Não ter a mim, como senhor, como dono, pode abrir a possibilidade do reconhecimento de que temos a nós mesmos. Podemos ter a comunidade em seus gestos de solidariedade, reterritorializando espaços fechados por dinâmicas individualistas e reconstruindo possibilidades emancipatórias em nosso cotidiano. Tenho a mim porque muitos me têm. É pelo outro que me constituo enquanto eu. Parece grande novidade. E é! Alguns/mas já disseram isso, mas poucos de nós vivenciamos.
O porquê eu preciso ser dono num mundo capitalista reducionista até se explica. Mas o sentimento de poder e realização de “ser dono” se expande das coisas às pessoas, porque muitos/as de nós acreditamos que podemos comprar tudo à nossa volta: fidelidade, admiração, respeito, submissão, e até amor! Que se compra juízes, deputados, senadores, prefeitos, governadores e até presidentes, disso não tenho dúvida, principalmente nesse Brasil decadente de agora. Mas, comprar amor? Ser dono exclusivo do coração de alguém? Huuum. Tenho certeza que não é possível essa aquisição no mercado. Lerei nestas férias um livro de Jacques Cazotte, O diabo enamorado, no qual este, para ter a posse da alma de um homem, transforma-se numa mulher - Biondetta - para seduzi-lo e, surpreendentemente, termina se apaixonando por este. Nessa bela ficção o amor vence as artimanhas do diabo, traindo-o a si próprio. Bela ficção. O "Cão" queria a posse da alma do outro, mas terminou sendo traindo pelo sentimento que tinha certeza de não possuir. Réréré.  
Eu não quero ser dono da alegria, nem do prazer, nem perdão. Não quero ser senhor da emoção que brota nos momentos mais sublimes, quando as pessoas esquecem de suas posses e vaidades e se entregam à vivência feliz do compartilhamento de um grande momento comum.  A posse não me faz feliz. A posse não me torna melhor. Algumas vezes a posse me torna mais triste e vazio. Se tudo isso passar por mim, a alegria, a sabedoria, o prazer, o perdão, as emoções, a posse da terra, dos rios, dos dinheiros, das fábricas, das universidades e escolas e penetrarem os/as outros/as, num ciclo vivo de humanidade que se compraz na alegria alheia, aí sim, eu realizarei todos os meus sonhos abrindo mão de controlar, sob o meu domínio exclusivo, o que foi permitido a qualquer um/a. Quem sabe assim meu coração e minha consciência não acordarão? 


Joselito da Nair, do Zé, de Ana Lúcia, do Rafael, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

CORRUPÇÃO EM TODOS OS DESENCANTOS

Ao nascer de forma muito simples, Jesus nos deu o exemplo de cuidar desse valor. Jesus não quis a riqueza, pois a riqueza, como nos ensinou Karl Marx, só existe pela pobreza que ela provoca. A riqueza é expressão legalizada do seu contrário, a pobreza. Jesus, como filho da cultura judaica, via abundância, e não a riqueza, como sinal de benção. E como é bom quando a abundância nos chega! Usufruímos alegremente. Mas não é disso que desejo falar.

Eu sou contra essa institucionalização de Jesus através, inicialmente durante muito tempo, da igreja católica e, atualmente, desta e das igrejas neopentecostais. Toda religião que ganha muito poder, no afã de fazer com que todos e todas sigam suas interpretações particulares de Jesus, termina se corrompendo, inevitavelmente. Nós, brasileiros e brasileiras, estamos sendo bombardeados/as pelas cargas nocivas da corrupção alastrada em nosso país. Contudo, ao se olhar para a Igreja Católica percebemos que não há muita diferença em relação a isso. A misteriosa e suspeita morte do Papa Paulo I, que estava investigando os negócios escusos entre o Banco Ambrosiano e o Banco do Vaticano, é apenas um exemplo, além dos casos antigos e recentes de pedofilia. Papas tinham mulheres e filhos, lutavam para permanecer no poder e viviam no luxo que aquele poder proporcionava. Como a gente viu nas últimas notícias relacionadas a isso, cardeais do alto escalão também tinham, ou têm, mansões e nelas faziam reformas milionárias com o dinheiro da igreja. A chegada do Papa Francisco tenta colocar um freio nisso, investigando também a corrupção no Banco do Vaticano.

Da mesma forma, as religiões neopentecostais também estão envolvidas com corrupção. Ninguém conduz coercitivamente um homem poderoso como Silas Malafaia sem algum indício sério de seu envolvimento em lavagem de dinheiro sujo. Da mesma forma, os líderes dessas religiões enriquecem a olhos vistos com o dinheiro de milhões de tolos/as que pensam que podem pagar Deus para obter benefícios pessoais. Malafaia, R. R. Soares, Edir Macedo, Valdemiro Santiago, “Bispa” Sônia, entre outros e outras, são todos/as hipócritas e envolvidos com dinheiro alheio. Não são “abençoados/as”, são canalhas! Eu sempre fiquei incomodado quando melhorei minha vida econômica e meus colegas de infância, agora evangélicos, começaram a me chamar de “abençoado”. Se essa era a principal associação para assim me denominarem, então essas pessoas pensam errado. Eu sou “abençoado” como você que lê este texto agora também o é. Não acredito que Deus me abençoou e deixou de abençoar outra pessoa até melhor que eu do ponto de vista espiritual.

Acho essa ideia ridícula a de tentar converter o mundo inteiro para sua religião. Não quero que ninguém venha tentar me converter. Por trás de quase todo processo de tentativa de conversão há geralmente a imposição de interpretações que legitimam a injustiça social, o controle político das elites e a resignação dos pobres diante das injustiças. Ao tentar pregar a verdade para o outro, na tentativa de aumentar o número de fiéis a serem “salvos”, estamos apenas contribuindo para o massacre de culturas, o silenciamento da crítica e a impossibilidade da denúncia de nossos crimes, ou melhor, “pecados”. Malafaia foi recebido pelos “seus fiéis” como um injustiçado, não como um possível criminoso ralé que participa de esquemas ilícitos de desvio e lavagem do dinheiro público.

Diante disso tudo, eu vejo o caminho da diversidade religiosa como princípio fundamental de convivência salutar entre nós. Embora não seja de nenhuma delas, eu sou do candomblé, sou do espiritismo, sou budista e sou cristão, não sou e sou de todas as religiões. Não desejo converter nem salvar a ninguém, senão a mim mesmo, não como uma busca por uma recompensa pós-morte, mas como uma vivência de fé, resguardando os valores que acredito com convicção, assegurando-me na força divina que a todos/a acolhe em sua misericórdia. Assim como a riqueza é a consequência da pobreza e vice-versa, assim também uma religião única é sinal de repressão a outras formas de crer e de manifestar suas relações com Deus. Uma só religião é a denúncia de que seus/as líderes massacraram outros povos em nome de Deus, afinal Josué e Moisés “passaram ao fio da espada” muitos povos que se encontravam em seu caminho rumo à terra de onde emana “leite e mel”, sem discriminação de mulheres e crianças. Muitos/as sofreram naquela passagem. Hebreus e, principalmente, não-hebreus. Os judeus até hoje ressentem do fato de que Jesus não veio exclusivamente para eles, como esperavam. Jesus não veio numa carruagem ornada a ouro, acompanhado de um imenso exército que destruiria os "infiéis" e daria a "salvação" somente para eles. Veio pobre no meio dos pobres, simples, humilde e amoroso. O perdão e a misericórdia em Jesus, valem mais que a vingança e o castigo. E por isso é Natal para todos e todas!   

A fé que não se pensa gera o fundamentalismo que produz a corrupção, o sofrimento e a morte.

Joselito (Zé Pequeno) Manoel de Jesus

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

AMOR-NATAL

O amor é a coisa mais alegre
O amor é a coisa mais triste
O amor é a coisa que eu mais quero.
Adélia Prado

Fiquei imaginando que o amor é como um círculo. Cada vez mais minha ignorância me ensina que o amor é a realização plena do nosso ser, num retorno eterno aos mesmos lugares. É porque, depois de tantos erros causados pela própria ignorância cega de minha tola vaidade, a gente vai entendendo o quanto faltou de amor e o quanto nos desviamos de nossa realização plena rumo a Deus.

No amor, sempre passamos pelos mesmos pontos, mas, de forma inexplicável, parece que estamos chegando pela primeira vez àquele lugar. Não há saída fora do amor. Somente a maldade, a corrupção e a guerra respondem aos desvios de nossa humanidade pra longe de Deus e, desse modo, perecemos distantes do caminho maravilhoso que nos conduziria à plenitude de nosso ser no encontro com Aquele Que É.

Mas o amor é tão difícil! É tão difícil apaziguar o nosso ser diante de um contexto que nos convida à violência, ao consumo, à falsa realização baseada na obtenção de tantas coisas inúteis, ao apego desesperado a um ego mal tecido na alienação de nossa realização legítima em Deus. É tão complicado agir com a sabedoria que nos leva à superação do conflito rumo ao perdão e à reconciliação. É preciso um exercício permanente através de atitudes firmes, baseadas em convicções fortalecidas por nossa fé. E constantemente nos pegamos nos desviando do caminho do amor. Porque não é fácil amar. Porque somos crianças birrentas ainda, com atitudes tolas que não conseguem mergulhar profundo em si, porque, caso assim o fizéssemos, descobriríamos a originalidade insubstituível de nossa existência a serviço do amor, amando a cada gesto, tornando-nos  “deuses” com Deus, por causa do amor vivido.

E eu, que aqui escrevo, ainda tolo sem saber amar, talvez somente em fugidios momentos de milagre, em que abro mão de “ser mais-não-sei-o-quê” para servir a mais o ser outro que me aponta o destino da humanidade no seu ciclo espiritual no planeta terra.

E somente amando é que eu me encontro. Não um amor piegas, instituído por uma ideologia rasteira. Mas o amor profundo que me faz encontrar no outro a mim mesmo e a Deus.

Feliz Natal, Feliz Amor Nascendo no coração de Todas e de Todos. O Amor Menino em sua plenitude divina.


Joselito Manoel de Jesus, O Emanuel.