segunda-feira, 28 de maio de 2018

AS VEIAS OBSTRUÍDAS DA AMÉRICA BRASIL

Em torno da greve dos caminhoneiros e seus desdobramentos, a realidade material que dita o ritmo de nossa história é interpretada a partir de diferentes lugares sociais, ideológicos e políticos, gerando tantas interpretações que nos conduzem a um caos no qual a compreensão se perde em seus emaranhados fios, não nos permitindo obter uma visão de totalidade que nos permita identificar os contornos definidores desse processo e, a partir do exercício coerente de nosso entendimento, nos posicionarmos melhor diante dele. As veias e vias de nossa singular América Brasil estão obstruídas, e, o diagnóstico desse fenômeno, embora complexo, nos exige o esforço da reflexão, pois sem esta, nos perderemos em seus circunstanciais desdobramentos, reduzindo nosso potencial político individual e coletivo na condição de passivos telespectadores da realidade capitalista contemporânea que nos pede decifração, sob pena de sermos por ela devorados.
Eu pretendo abordar esta greve a partir dos poucos instrumentos teóricos de que disponho, tais como a relação entre objetividade e subjetividade na definição de um problema que é outra categoria teórica, numa perspectiva filosófica dialética materialista, mesmo reconhecendo as insuficiências de uma abordagem que categoriza a compreensão em função da luta de classes e seus desdobramentos, arrisco-me a entrar nessa ordem do discurso por também reconhecer que a realidade não deixou de ser capitalista, que não estamos numa suposta “sociedade do conhecimento” e que os/as verdadeiros/as produtores/as da riqueza desse país são espoliados por políticas nocivas – como esta praticada pela Petrobrás nesse governo ilegítimo - que visam atender interesses corporativos e financeiros internacionais em detrimento do povo brasileiro.
Adotando as contribuições teóricas de Dermeval Saviani, afirmo que não são condições subjetivas, ou interpretações isoladas de um sindicato, ou de um grupo espontâneo de trabalhadores e trabalhadoras que produzem uma manifestação política consistente e coerente, mas condições objetivas, materiais, verdadeiramente problemáticas para a população. Quando um fenômeno está associado diretamente com a nossa produção da existência – como é o caso da greve dos caminhoneiros desses 2018 anos da civilização ocidental –, gerando desabastecimento de alimentos, combustíveis, materiais hospitalares, este se constitui num verdadeiro problema, no sentido filosófico do termo, pois problema é “uma questão cuja resposta se desconhece e se necessita conhecer”, uma necessidade que deve ser atendida, sem o que, não podemos conviver. (SAVIANI, 1993, p.25). Segundo este autor
Algo que eu não sei não é um problema; mas quando eu ignoro alguma coisa que eu preciso saber, eis-me, então, diante de um problema. Da mesma forma, um obstáculo que é necessário transpor, uma dificuldade a ser superada, uma dúvida que não pode deixar de ser dissipada são situações que se nos configuram como verdadeiramente problemáticas. (SAVIANI, 1993, p.26)
Nesse sentido, problematizar a realidade, é uma atitude filosófica, que procura estranhar o que nos parece natural, correto, inquestionável. A filosofia tem sua importância social na medida em que nos leva a nos assustar com a realidade, a desconfiar das verdades que a justificam, das ordens institucionais que a legitimam, identificar as contradições que a configuram, observando a relação entre subjetividade e objetividade e entre outras, entre as partes e o todo e nos exigindo uma práxis política revolucionária contra o fluxo sistemático de submissão e exploração do ser humano, tendo a emancipação política como horizonte. Desse modo, a greve dos caminhoneiros no Brasil neste ano de 2018 é um problema, porque é um desdobramento político de uma totalidade mais ampla que atinge a sobrevivência desta e de toda cadeia produtiva que afeta diretamente e indiretamente a população brasileira, principalmente a mais pobre, exigindo o desvendamento das tramas estruturais de sua condição, sob pena de repetir a história, “como os nossos pais”.

Subjetividade e Objetividade na Greve dos Caminhoneiros

Diante das inúmeras interpretações sobre o mesmo fenômeno, gerando também inúmeros entendimentos, cabe aqui a discussão breve sobre a relação entre objetividade e subjetividade na determinação do problema pois, segundo o já citado Saviani (1993) “Diríamos, pois, que o conceito de problema implica tanto a conscientização de uma situação de necessidade (aspecto subjetivo) como uma situação conscientizadora da necessidade (aspecto objetivo). Se o problema fosse definido por necessidades de caráter meramente subjetivas não haveria PROBLEMA, ou seja: tudo seria problema, desde o estacionamento dos caminhoneiros no acostamento das rodovias até o desabastecimento geral do país. Para recuperar a objetividade do problema é preciso a reflexão, para “interrogar o real, pensar a experiência, elevá-la à condição de experiência compreendida, para buscar sua gênese e sentido.” (BRZEZINSKI, 2002, p.7). Para Saviani (1993) seria sair da pseudo concreticidade para a concreticidade, do concreto sentido para o concreto pensado. Ou seja, se caímos no subjetivismo espontaneista e imediatista nossa interpretação do fenômeno é alienante, porque confunde a aparência do fenômeno com sua essência, não conseguindo perceber as contradições econômicas, políticas, sociais e culturais que o determinam, aceitando-o enquanto inevitabilidade do acaso e pondo um ponto final à história.
As condições criadas pela divisão do trabalho e pela propriedade privada introduziram um “estranhamento” entre o trabalhador e o trabalho, na medida em que o produto do trabalho, antes mesmo de o trabalho se realizar, pertence a outra pessoa que não o trabalhador. Por isso, ao invés de realizar-se no seu trabalho, o ser humano se aliena nele; em lugar de reconhecer-se em suas próprias criações, o ser humano se sente ameaçado por elas; em lugar de libertar-se, acaba enrolado em novas opressões. (KONDER, 1995, p.30)
A greve dos caminhoneiros nos mostra que a história não acabou e que a realidade objetiva, mesmo diante de tantos subjetivismos, se impõe quando a contradição entre capital e trabalho se exacerba de tal modo que não há outra saída senão a luta política, expressa inicialmente neste movimento grevista. Há, dentro desta mesma greve, uma luta de classes, de caráter setorial, entre os caminhoneiros autônomos e as empresas de transporte de caminhões. Os primeiros sofrem diretamente o aumento constante e abusivo do diesel, sentido na pele a piora de suas condições de existência, ameaçado pelo trabalho que faz em função do contexto cada vez mais precário de seu trabalho. Os segundos vêm suas margens de lucro caírem, reduzindo seu processo de acumulação e, por isso, agindo sorrateiramente, na provocação do denominado “locaute”.
Em função da nova política de preços da maior estatal do Petróleo no Brasil, acionada por um governo obediente aos ditames internacionais de acumulação, cujos desdobramentos atingem o setor de transportes de cargas rodoviárias no país, estão dadas as condições materiais para a greve dos caminhoneiros, que por agora se desenrola. A contradição produzida pelo acúmulo de capital internacional via o setor energético dos combustíveis fósseis, na América Brasil e em toda a América do Sul, provoca o conflito inevitável com aqueles e aquelas que transportam a riqueza e utilizam desse combustível como elemento fundamental do seu trabalho específico. É nessa perspectiva que podemos interrogar o real a fim de buscar sua gênese e sentido.
Desse modo, só podemos compreender os atuais movimentos políticos se identificamos as condições objetivas que asseguram a possibilidade da greve dos caminhoneiros e da certa "aprovação social" que se segue, independente das inúmeras interpretações subjetivas que são elaboradas. É identificando a contradição elementar entre capital e trabalho que vamos percebendo e analisando os movimentos do Estado, neste governo profundamente neoliberal, com paliativos que, logo logo, apesar das mentiras da rede Globo e demais emissoras, mostrarão sua ineficácia, porque protege o acúmulo do capital como um sagrado mantra, provocando ainda mais exclusão quando articulada a outras políticas nefastas como a reforma trabalhista e a reforma da previdência, condições materiais que desencadearão novas greves, não apenas dos caminhoneiros, ainda este ano. Este tempo que este governo ilegítimo acha que ganhou, para tentar consolidar suas posições neoliberais com outros setores da burguesia brasileira, não vai dar tempo para que ele governe essa contradição capital. Nos preparemos, pois.

Joselito Manoel de Jesus, Professor.
Com o auxílio de:
BRZEZINSKI. Iria. Profissão professor: identidade e profissionalização docente. In Iria Brzezinski (org.). Profissão professor: identidade e profissionalização docente. Brasília: Plano Editora, 2002.
KONDER, Leandro. O que é dialética. São Paulo: editora Brasiliense, 1995.
SAVIANI, Demerval. Educação: do senso comum à consciência filosófica. São Paulo: edit. Aut. Associados, 1993.

sábado, 5 de maio de 2018

CRIATIVIDADE DO GROTESCO FANTÁSTICO DO NORDESTE BRASILEIRO


Antes eu, em minha ignorância, não percebia que a expressão artística presente neste clipe representava um estilo cultural da rica e, algumas vezes grotesca, musicalidade nordestina brasileira. Só via graça no grotesco. Mas deixava de ver esse "grotesco" como expressão inteligente dentro das condições contextuais nas quais a criação artística se insere, num Nordeste construído por olhares de "tons tão sudestes" (alô, Chico César) no qual a seca da natureza e a frieza perversa das elites rurais produzem e naturalizam a "morte severina" que é a morte de que se morre
  de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

(Alô João Cabral de Melo Neto! In memoriam) erdício da experiência. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2001. 
A morte é um fenômeno muito próximo e o cemitério um cenário de despedida e de profundo significado da existência neste contexto de ser humano, onde a resignação e a revolta se encontram dialeticamente unidas, onde o fim da espera vã e o início da esperança ativa lutam contra o desespero, que é a esperança sem endereço (alô saudoso Mestre Paulo Freire). No horizonte de produção e reprodução social da pobreza política e econômica (alô Pedro Demo), que tem como consequência desigualdades nefastas, uma das causas da "morte severina", o cemitério pode ser a abertura de novas possibilidades de luta, de criação artística e de organização social e produção cultural que, tendo a morte como ponto de partida conceba a vida como ponto de chegada, invertendo os pólos lineares da história e reinventando a participação, a própria luta na direção da transformação social oposta à morte e ao fim da esperança.
O Homem que canta

O cigarro, o modelo de óculos, os braceletes nos punhos, a corrente no pescoço, o corte de cabelo, a calça de feira, a blusa com o escrito em inglês, remetendo a um sujeito elaborado numa cultura de uma década machista - 1970 do século XX - reiterando um discurso que se consolidou naquela época sobre esse sujeito social que tem de "manter sua fama de mau" - seu jeito de andar e até sua voz, entre outros, são elementos que encontram perfeita harmonia com a letra, a melodia e o arranjo que compõem a música e que, por sua vez, expressam seu trajeto-mundo que o pariu. Contudo, a criatura nascida daquele processo também cria e recria o seu mundo que o desafia à expressão artística, que é uma forma singular de luta. O que eu via apenas como sintoma de pobreza, vejo agora, na dialética da minha percepção, a contradição entre a pobreza econômica, fruto da injustiça social, e a riqueza do resistente povo de minha terra, o Nordeste. Riqueza que, embora transcenda a pobreza, é a expressão mais profunda e fecunda de seus condicionamentos, mostrando, ao mesmo tempo, que nossas mulheres e nossos homens têm uma força ancestral tão poderosa que, se não tivesse esses condicionamentos impostos pela desigualdade econômica e social que as elites burguesas impõem, voariam tão alto que nenhum preconceito - como eu já muito tive - poderia alcançá-los. Nesse sentido, o homem que canta, pode ser o homem que, também, encanta.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.

sábado, 10 de março de 2018

NEOLIBERALISMO E IDEOLOGIA: economia livre, trabalhador escravizado


Neste editorial acima, do Jornal A Tarde, é muito fácil, para quem tem um pouco de estudo na área, identificar a ideologia que perpassa o discurso que defende a economia de livre mercado como solução para os principais problemas sociais, políticos e econômicos que afetam o Brasil na contemporaneidade, contrapondo a ação ineficiente e corrupta do Estado à suposta eficiência do capital privado através da iniciativa empresarial, operando num mercado livre no qual, patrões e empregados, ricos e pobres, se unam num esforço coletivo e empreendedor, para “transformar e retomar a competitividade do país sem tutela do Estado em excessos” (A TARDE, EDITORIAL, 2018, p.A3).

Leitores desavisados e acostumados a pensar pelas reflexões alheias, facilmente caem na armadilha da falsa consciência disseminada por esse texto, passando a pensar que o Estado, de fato, é o leviatã que devora suas capacidades produtivas e o impede de desenvolver-se em função do livre exercício de suas capacidades, tornando-se assim, mais um a desejar e exigir um Estado Mínimo, conforme propõem os ideólogos neoliberais, não sabendo, entretanto, que estão atirando nos próprios pés. Os/As autor (es)/a (s)texto se aproveita (m) de um traço herdado do colonialismo português no Brasil, o patrimonialismo, que aqui se fortaleceu e consolidou, fenômeno no qual o público e o privado se confundem, gerando as sementes da corrupção – que neste momento são expostas ao grande público, mas sempre existiu no Brasil – com o objetivo principal de retirar do Estado prerrogativas de regulação e mediação que somente este aparelho de poder pode fazer, tais como a proteção do trabalhador diante da exploração do patrão, raiz principal da desigualdade social e dos principais problemas políticos, sociais e econômicos desse país continental.

A função da ideologia é justamente gerar essa falsa consciência que esconde e mascara os aspectos mais duros e antagônicos do domínio, contribuindo para a aceitação passiva e a integração política e social dentro dos princípios do domínio que se quer efetivar e estabilizar, no caso, o Estado Mínimo do pensamento neoliberal na realidade.

[...] porque falsa consciência, a crença ideológica não é uma base independente do poder e a sua eficácia e sua estabilidade dependem, em última análise, das bases efetivas da situação de domínio (para Marx, as relações de produção). [...] A averiguação do caráter ideológico de uma crença política permitiria, na verdade, tirar conclusões significativas sobre a relação de poder a que a crença se refere: por exemplo, sobre sua potencial conflitualidade e sobre sua estabilidade. (BOBBIO, MATEUCCI, PASQUINO, p.586, 1995)  
A crença ideológica acima se refere ao neoliberalismo e aos seus pressupostos, como o exercício das potencialidades individuais num ambiente de liberdade de mercado em um contexto político e econômico de Estado Mínimo, o que não significa Estado Frágil, pois, para manter o domínio todo grupo hegemônico utiliza da coerção - feita pelo aparelho de repressão do Estado - para manter os seus concorrentes e seus subordinados na condição de subordinação. Na Síria, Bashar al Assad não perdeu o domínio sobre o território porque, embora tenha perdido o poder ideológico, não perdeu o poder político, que é, em última instância, o poder da força militar, o poder que mantém o domínio. Sua sorte, diferente de Muammar al Gaddafi, foi estar numa região estratégica, tanto para os interesses russos, quanto para os interesses americanos. Caso a Rússia não entrasse na guerra, o destino de Assad estaria selado, tal como ocorreu com Gaddafi. Quando o poder ideológico não mais convence ninguém, os dominantes acionam seu aparelho de repressão, mobilizando tanques,  bombas e tiros como força de convencimento eficaz contra aqueles que desejam mudar o sistema de dominação, ou, no mínimo, trocar de dominador. 

Entretanto, produz falsa consciência quando deixa de mostrar que somente pela existência entre ricos e pobres já se evidencia a injustiça histórica do capital privado que se acumula sobre o trabalho coletivo, sob as bênçãos do Estado que o Editorial quer eliminar, pois, repito, Estado Mínimo é mínimo para as classes populares e os/as trabalhadores/as e máximo para o capital e seu processo de acumulação.

Se o homem fosse apenas atividade criadora e produtora de si mesmo e do mundo que o cerca, é certo que toda apropriação privada seria fonte de violência e dominação do homem sobre o homem. (Padre Henri Chambre).
E assim o é: de fato, “toda apropriação privada é fonte de violência e dominação do homem sobre o homem”. Quando um ser humano não quer produzir a riqueza para outro, através do trabalho, o poder ideológico, disseminado na sociedade, o classifica rapidamente de "vagabundo", de "desajustado", atingindo-o em seu caráter moral. Depois, o poder da força, a polícia atua sobre seu corpo, aprisionando-o como "meliante".  Enquanto esperava o cinema com Ana e Lucília, fui comprar um chopp, e fiquei observando os rostos das funcionárias e dos funcionários que estavam no atendimento. Vi duas coisas bem nítidas: insatisfação e cansaço. Para não dizerem que foi uma percepção subjetiva, sem nenhum caráter empírico, revelei para algumas delas o que percebia, o que foi por elas confirmado, peremptoriamente. Aquela afirmação do Editorial de que:

O embate entre a classe trabalhadora e patrões, entre ricos e pobres, é enfadonho em demasia no atual cenário econômico, político e social do Brasil. A “guerra” não existe, cravou o empresário Flávio Rocha. [...] Rocha elucidou uma fugaz percepção de que empregado e ‘chefe’ devem, juntos, recender a economia nacional. (A TARDE, EDITORIAL, 2018 p. A3)

O embate existe e a guerra continua sempre, desde que continue a dominação de um ser humano, o ‘patrão’, o ‘chefe’, sobre os demais seres humanos, os ‘trabalhadores’. E com a Reforma Trabalhista, aprovada recentemente, essa guerra tende a se tornar mais cruel, com um grande contingente de subempregados, praticamente sem direito a férias, espremido entre contratos retalhados por hora, por dia, por semana, por mês. Enquanto o empresário ganhou uma ampla vantagem legal para impor sua vontade sobre os trabalhadores e as trabalhadoras que lutam por uma existência minimamente digna. É essa vantagem legal que vai respaldar a exploração perversa do/a trabalhador/a nesse Brasil contemporâneo.
A ideologia disseminada no texto publicado, e aqui comentado, produz falsa consciência quando desdenha da luta de classes entre ricos e pobres. Especulo que, talvez, só não tenha desdenhado do racismo por deduzirem o impacto que uma opinião dessas teria no cenário soteropolitano e baiano para a referida empresa de comunicação que, conforme venho analisando, está cada vez mais conservadora. “[...] Reacender a economia nacional” para que? Para o patrão ficar cada vez mais rico e o empregado cada vez mais pobre, como ocorre quase sempre? Não é o capital que paga o trabalho, é o trabalho que paga o capital. Como reacender a economia nacional se o Brasil, através de sua diplomacia subserviente aos Estados Unidos, não consegue ampliar sua participação no mercado internacional? É culpa do trabalhador também a subserviência dos nossos neoliberais governos?   
O discurso do Editorial se aproveita de uma realidade atual, da corrupção dos/as nossos/as representantes políticos e da má gestão do Estado, que prejudica muito mais os mais pobres, e nem, ou pouco, afeta os ricos, para levantar a bandeira do Estado Mínimo, constituindo-se mais uma bandeira de um punhado de empresários que desejam a dominação política, muito embora neguem e afirmem ser a sua bandeira mais uma bandeira a ser hasteada, como se fosse a bandeira universal dos interesses do país, o que revela a contradição logo no início do texto que a ideologia pretende ocultar para convencer os leitores do referido jornal.

Existem bandeiras demais [e eles erguem mais uma] tremulando pelos rincões de um pouco competitivo Brasil, bombardeado de apontamentos sobre o destravamento da economia nacional. São bandeiras que tremulam sob desacreditados conceitos de representar “realidades”, defender a luta de classes (ricos X pobres), do protecionismo governamental ou emoldurar o levante de empregos diante da “ensandecida” máquina do neoliberalismo. (A TARDE, EDITORIAL, p.A3)

Ora, é neoliberalismo sim a bandeira que o jornal levanta em seus marcos institucionais, deixando-a tremular sob os auspícios de sua direção gerêncial. Eles negam o que afirmam, sob a mentira descarada da união entre ricos e pobres e entre patrões e empregados, sob o apelo de uma suposta união nacional tendo como objetivo maior “reacender a economia”. É pura falácia! A não ser que esse “reacendimento” dessa economia seja como sempre foi: queimando as energias vitais dos/as trabalhadores/as, aumentando a produtividade para que seus patrões fiquem mais ricos, vivam mais tempo, tenham mais tempo, e matem o nosso tempo nas fornalhas que nosso trabalho escravizado por leis severas, mantém acesas. A economia já está livre, mas os/as trabalhadores/as ainda se encontram mais escravizados, e queimando no fogo do inferno das boas intenções neoliberais que o jornal A Tarde publica.

Joselito Manoel de Jesus, Professor e Poeta. Com o apoio de: 

BOBBIO, N.; MATTEUCI, N.; PAQUISNO, G. Dicionário de Política, Vol I.8. ed. Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília, 1995.

EDITORIAL. Estímulo à economia livre. A Tarde, Salvador. Página A3, 6/3/2018.

domingo, 4 de março de 2018

CAPITALISMO CANIBAL

O capitalismo é um sistema econômico que sobrevive do canibalismo. Nele, um ser humano sobrevive de outros seres humanos, produzindo a desumanização, destruindo a natureza e concentrando a riqueza, muito embora diga o contrário. A mais-valia, tão bem identificada por Marx, é a expressão da negação da liberdade do trabalhador, da exploração de suas forças para atividades criativas e de lazer, e do consumo do seu tempo para a família e para outras atividades livres, nas quais possa investir seu tempo da maneira que bem quiser.
Segundo Flávio Rocha (2018), empresário, CEO do grupo Guarapapes que compreende, entre outras, a rede de lojas Riachuelo,
Os países que enriquecem, que são prósperos, são aqueles de economia livre. É inquestionável que existe relação entre as duas coisas: quanto mais livre o país, mais próspero porque não existe outra forma de gerar riqueza se não do talento individual que vem dentro de nós. Estado só destrói riqueza. O indivíduo que cria. O talento individual não é a forma de gerar riqueza, é a única. (ROCHA, 2018, p.B2)
É bastante questionável esta associação estreita e paupérrima, feita pelo empresário, entre as duas coisas. Ele caminha no raciocínio baseado nos princípios liberais e neoliberais, que, entre outras coisas, exige o estado mínimo e defende a iniciativa individual como ele mesmo afirma, como a única forma de gerar a riqueza. Contudo, não admite um dado essencial: a geração de riqueza acontece mais pela organização coletiva e sistemática dos seres humanos em seu conjunto, porque os talentos individuais produzem muito mais juntos, num trabalho conjunto e coletivo, que sozinhos, pois, como canta Beto Guedes, “um mais um é sempre mais que dois”. Outra coisa que Rocha não admite, é que essa riqueza gerada não é distribuída com a igualdade dos esforços individuais dos/as trabalhadores no trabalho conjunto de transformação da natureza. No Capitalismo a injustiça é regulamentada por lei, como se fosse natural, e então ocorre o canibalismo, no qual o empresário, como este senhor que cito acima, se alimenta das forças dos “seus”/“suas” empregados/as, roubando-lhes tempo de vida, de lazer, de estudo e de ócio para viver sua verdadeira liberdade, tomada de assalto por um sistema montado para que poucos seres humanos enriqueçam com a pobreza dos demais.  
A liberdade à qual este “empresário” se refere é a de explorar o trabalho alheio pagando míseros salários que mal sustentam, com a nutrição adequada, seus/suas empregados/as. Outra omissão grave é a histórica. Ele se refere aos “países que enriquecem” como se o enriquecimento dos Estados Unidos, da Inglaterra, da França, da Alemanha e de alguns outros, fosse fruto da conquista do trabalho engenhoso, criativo e árduo dos capitalistas que determinam essa suposta riqueza. Pois eu digo de onde ela vem: vem da exploração dos continentes africano, asiático e americano (da América do Sul) da produção de guerras e milhões de mortes ao longo dos séculos de dominação numa barbárie talvez mais perversa do que a dos antigos bárbaros. Vem da exploração do ouro e de riquezas diversas desses continentes, com a utilização da mão de obra escrava dos seus povos. Foi assim que a Europa Ocidental e os Estados Unidos enriqueceram.

O grande intelectual, Leandro Konder, afirmava com propriedade que
O trabalho não é só liberdade, desenvolvimento econômico e social. Ele também é, sobretudo numa sociedade capitalista, exploração, sofrimento, impotência, castração, por causa da divisão social do trabalho. (KONDER,
Desse modo, o/a trabalhador/a, sempre uma subjetividade gestada em uma coletividade reunida por desafios e interesses comuns, é reduzido/a a “indivíduo”, cujos talentos e esforços são utilizados por um/a empresário/a, não para potencializar as forças e melhorar a qualidade de vida desse “indivíduo”, mas como modo de produzir riqueza para si, tratando este tal “indivíduo” como um mecanismo da grande máquina de moer gente, que pode ser trocado quando estiver doente, quando estiver velho, quando reduzir suas capacidades de gerar riqueza no ritmo determinado por essa engrenagem sistêmica que devora seres humanos. O dono, ou os donos, da Riachuelo estão cada vez mais ricos, mas seus funcionários passageiros, peças descartáveis dessa maquinaria empresarial perversa, cada vez mais explorados, lutando pela sobrevivência, enquanto suas vidas vão sendo consumidas pela engrenagem que o estado sanciona e legitima.
A imagem possível que me vem à cabeça é a de poucos seres humanos se alimentando das energias dos demais, numa espécie de vampirismo universal que atinge todo o planeta. É assim que vejo a produção da riqueza sob as bases do capitalismo: um vampirismo legitimado pelo Estado, que eles/as mesmos criticam. Segundo o empresário
O Brasil está em queda livre em matéria de competitividade. Isso é decorrente do engessamento da economia. As economias prósperas são economias livres com pouca regulação e com estados pequenos”. (ROCHA, 2018, p.B2)
Esses “Estados pequenos” a que se refere o entrevistado do jornal A Tarde, não significa, como afirma Azevedo(2004), “Estado fraco”. Apesar de dizer que o estado atrapalha, na verdade, Rocha (2018) omite que o Estado é o regulador principal das relações entre capital e trabalho, a favor do capital, e, em última instância, a instituição fundamental que legitima o uso da violência contra a organização e luta dos trabalhadores quando revoltados com a exploração desumanizante que constitui o modo de produção do sistema capitalista, através de seu aparato repressor: polícias e exército. Já que a produção e distribuição da riqueza é uma injustiça, é preciso um Estado forte para legitimar o domínio dos capitalistas, para proteger o patrimônio privado e para reprimir toda e qualquer manifestação dos/as trabalhadores/as contra essa injustiça que é a apropriação da riqueza produzida coletivamente nas mãos de poucos. É esse “Estado Mínimo” que garante e oficializa o canibalismo capitalista nacional e internacional na forma de decretos e leis, tais como a recente reforma trabalhista imposta sobre o/a trabalhador/a brasileiro.   
Outra importante questão omitida para produzir um efeito ideológico a favor do capitalismo é a de que o Brasil está em “queda livre” por conta da competitividade baixa do/a sistema produtivo nacional. Para entender isso é preciso examinar a posição do Brasil no comércio internacional, colocado como aquele que oferece matéria-prima e alimentos neste âmbito de relações internacionais. O caso recente das tarifas de importação de aço e alumínio, vendido para os Estados Unidos, feitas por Trump, é exemplar. Vendemos um alumínio com pouco valor agregado a este produto, ou seja: vendemos matéria-prima que, por sua vez, será transformada em lâminas de alumínio que são revendidas aqui por um preço muito mais elevado. Ou seja: nossa produtividade não está associada simplesmente a uma iniciativa individual do/a trabalhador/a brasileiro/a ou de liberdade no mercado nacional para o empresário fazer o que quer e o que lhe “dá na telha” em relação ao que produzir, ao quanto produzir e ao como produzir, mas principalmente, a determinações internacionais que definem os contornos principais das relações comerciais internacionais entre os países.  
Portanto, a prosperidade de uns, a minoria do seres humanos, é consequência da exploração de outros, a maioria dos seres humanos, não fruto do exercício individual das potencialidades humanas tornadas ato. A produção é fruto de um trabalho coletivo, e não individual, e a riqueza daí produzida, e apropriada por uns poucos, não é resultado de uma competição justa, mas de uma injustiça social legitimada por um estado mínimo para a população brasileira e máximo para a defesa dos interesses dos capitalistas. O resto é falácia de burguês, empresário vampiro e controlador do capital financeiro.   

Joselito da Nair, do Zé, da Ana Lucia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.
Com o apoio de:

AZEVEDO, Janete Maria Lins de. A educação como política pública. 3. ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2004
KONDER, Leandro. O que é dialética. 1. reimpr. São Paulo, SP: Editora Brasiliense, 1995.
ROCHA, FLÁVIO. A liberdade é o caminho para destravar a economia. Salvador: 4/3/2018, A Tarde, p.B2). Entrevista concedida à repórter Ainá Soledá.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

CIDADANIA de PAPELÃO NO FRIO DA NOITE ABANDONADA PELO ESTADO BRASILEIRO

Gosto muito das reflexões de Leandro Karnal, mas tem momentos em que discordo completamente de suas opiniões, como foi o caso hoje, no Jornal da Cultura, 19 de fevereiro de 2018, quando este competente intelectual falava sobre o anarcocapitalismo. Nesta fala, ele afirma, não com minhas palavras, que o cidadão deseja é o estado competente e organizado, independente de direita ou esquerda, que ele considera ultrapassado associando tal identificação ao anacrônico período da Guerra Fria e, portanto, desqualificando quem assim classifica as representações políticas e as filiações ideológicas das classes sociais. Ora, pelo que eu saiba o capitalismo não acabou e a exploração do trabalhador continua, como sempre foi desde o princípio desse sistema, variando historicamente de acordo com o contexto histórico de luta e organização das classes trabalhadoras. Esse “cidadão” não é abstrato, um ser universal das democracias também iguais.

Aí o Senhor Karnal não cortou a carne com a navalha de compreensão correta. Porque não existe cidadania no Brasil! Porque o Estado é seletivamente e preconceituosamente branco! E por isso o racismo é estrutural, tratando de modo negligente e criminoso as populações negras e mestiças desse país, muitas delas sem ter uma ideia de sua suposta cidadania e de seus direitos elementares que, embora escritos na Constituição Federal, são apagados no atendimento nos postos de saúde, nas escolas públicas de péssima qualidade, na abordagem policialesca de um estado-capitão-do-mato. A guerra não é fria professor Karnal, ela continua quente, está próxima da erupção, e o cidadão é uma falácia que a materialidade das relações sociais, políticas e econômicas prova.

O brilhante professor Leandro Konder, seu xará, afirma que “ao tratar de forma idealista a realidade, muitas pessoas não conseguem sair do plano abstrato dos conselhos e “boas ideias” e ficam numa pregação moralista e em projetos ingênuos de reforma dos costumes e das “mentalidades”. (KONDER, 1995, p.31). Desse modo, se o senhor não aborda a realidade em sua materialidade dialética, porque o capitalismo não acabou e a divisão social do trabalho permanece fazendo vítimas nas classes sociais excluídas do acesso a esta cidadania branca, deixa de compreender a história em seu processo dinâmico e, perde a oportunidade de colocar-se como intelectual que identifica suas contradições principais e seu movimento dialético no aparecimento de novos personagens que entram em cena na história em função das determinações mais amplas de nosso tempo. É preciso, portanto, abandonar esse idealismo que a direita brasileira e americana que impor como verdade discursiva e aliar-se à esquerda brasileira que se renova e que não pode ser reduzida à experiência de governo do Partido dos Trabalhadores, que foi uma experiência muito significativa para as classes populares de nosso país.

Por fim, existe direita e esquerda sim! Sempre vão existir enquanto houver sistemas que geram desigualdades perversas, tais como a fome na abundância, a favela em meio aos edifícios de luxo, a miséria na fartura, o racismo na cidadania idealista, a morte prematura em meio à longevidade dos brancos. A direita identificada com os privilégios e com a propriedade privada, e a esquerda com a justiça social, os pobres da terra, a luta pela emancipação humana. A cidadania que existe - fazendo uma intertextualidade com Gilberto Dimenstein - é a de papelão, aquela com a qual se cobre o morador de rua para não morrer de frio nas noites abandonadas pelo estado desse país. Eu sou de esquerda, e estou na guerra contra a exploração do ser humano por outro ser humano.

Joselito Manoel de Jesus, professor, poeta e membro da esquerda brasileira e mundial.    

REFERÊNCIAS

KONDER, Leandro. O que é dialética. 1. reimpr. São Paulo, SP: Editora Brasiliense, 1995.


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

DEUS SEM PARTIDO

Quem me apresentou Deus foi minha mãe. Acredito que a maioria de todas as mães da década de 70 do século XX tenham apresentado aos/às seus/suas filhos/as a ideia do divino e do sagrado. Não porque as mães sejam sacerdotisas, mas porque, no contexto cultural de minha infância o machismo não permitia aos nossos homens-pais terem a sensibilidade para falar diretamente de Deus conosco, creio eu. Isso deveria ser “trabalho de mulher.” Eu, sinceramente, não lembro muito do que minha mãe falou de Deus, mas lembro que ela me falou com carinho. Não lembro de quem me falou do diabo pela primeira vez. O diabo nunca fez muito sucesso comigo. Mas o inferno... Ah. O inferno foi “um inferno”! Lembro do inferno e do poder dos diabos de levar as almas dos “desobedientes” para pracolá com um filme que assisti numa igreja Batista. No filme os “cãos” vinham pegar a alma de uns jovens motoqueiros que morreram num acidente, arrastando-os inferno adentro, deixando um rastro horripilante de terror em forma de gritos horrendos. O filme foi um sucesso! Eu e a maioria da plateia “aceitamos Jesus” no finalzinho, antes mesmo das letrinhas subirem tela acima. O garfo do diabo me empurrou para os braços de Jesus. Mas agora fiquei pensando: será que naquele dia, não foi uma combinação entre ambos que o pastor e sua assistência armou pra gente?

Durante minha existência Deus e o diabo foram se fazendo presente. Deus foi adquirindo seus contornos sisudos, com sua barba grande e sua vigilância enorme. Deus é grande! O diabo também foi ficando cada vez maior, à medida que meus hormônios foram me adolescendo. O pecado dos homens que exercem seus podres poderes não era discutido. Somente o nosso, adolescentes com hormônios fervilhando nossa sexualidade potente. Não havia lugar para me esconder de Deus e do seu foucaultiano Olho Panóptico. Mas os espermatozoides pediam movimento! A exigência biológica e a imposição “celestial” brigaram durante muitos anos como um hobbit fugindo do olho vigilante de Sauron. E aquilo me fez sofrer. Eu era um culpado, um cristão menor que não conseguia conter meus próprios instintos. Que perversidade as igrejas fazem conosco! Nesse caso, não há diferença alguma entre deus e o diabo. Eu procurava sombras e esconderijos, mas havia um olho em mim. Um olho que uma cirurgia diabólica inscrita na moral social dominante, colocou dentro de mim. Era me confessando num dia e “pecando” num outro. E o inferno estava logo ali, bem quentinho, com um diabo preparando minha alma para churrasco.

Até aquele momento, não havia elementos históricos ao meu alcance para questionar uma coisa: o paraíso era branco! O candomblé me dava arrepios! Os atabaques me deixavam inquieto. A família falava daquele som como se fosse uma celebração diabólica. E eu acreditava piamente nisso. Por incrível que pareça, e aí lá se vão as contradições da vida, contradições que formam brechas de esperança, o candomblé foi reaparecendo de modo respeitoso em minha subjetividade através de um padre, muito rigoroso eu o achava, mas que revelou-me a experiência de Deus de outro padre com o Candomblé. Falou-me rapidamente dos orixás, dos ritos e da profunda fé do povo de santo, etc, mas o suficiente para que eu entendesse que Deus não tinha partido. Deus era muito maior do que me disseram e do que imaginava. Me falaram de um deus pequeno e mesquinho. Me contaram de um deus que tinha cor e raça: um deus branco europeu, que parecia não ter saído do povo judeu. Esse deus no qual eu acreditava estava mais para um Odin ou Zeus, e Jesus estava mais para Thor ou Hércules, do que para aquele humilde pescador cujo julgamento é suave e cujo fardo é leve.

Esta semana peguei aleatoriamente uma revista dos Testemunhas de Jeová e procurei um negro em suas imagens. Não achei. Não havia, naquela revista daquele número, uma família negra! Deduzi que o céu desses camaradas é branco. Esses deus deles tem partido: é capitalista, branco e macho. O macho, adulto, branco, sempre no comando (Caetano Veloso) tem um deus sob medida para suas crenças políticas, sociológicas, biológicas, histórica, gráficas e geográficas. Um deus republicano! Um deus industrial e urbano, um deus financeiro que empresta (abençoa) somente para os que se filiaram às suas agências. Um deus que tem horror à Débora, a Esther, a Sara, à Simone de Beauvoir e às mulheres fortes e sábias de modo geral. Esse é o deus de Trump, o deus de Silas Malafaia, do Pastor Waldomiro, de deputados pastores, o deus da Veja, da Rede Globo, etc.

Deixei de acreditar nesse deus que me fizeram acreditar a ponta de garfo ardente. Comecei a perceber que Deus era bem maior do que eu pensava, repito. Bem maior. Comecei a rever Jesus na estrada, na favela, na roça, na taba, no Candomblé, na floresta, nas passeatas, na roda de samba, na capoeira, na ciranda, nas tranças que a existência foi fazendo em minha cabeça. Eu deixei de pegar o ônibus pro inferno cristão. Saltei bem antes. E comecei a caminhar com meus próprios pés em direção à Deus. Um Deus de todas as cores, inclusive negro. Um Deus de olhos puxados e cabeça raspada, um Deus de cabelos trançados e cachimbo na boca. Um Deus vestido ora à Ghandi, ora à Nelson Mandela. Um Deus que dança com sua gente e que celebra a humanidade que ele criou e que continua se recriando, surpreendendo-o a cada século; Deus, que só me censura se eu ofender e agredir ao outro, à outra; Deus, que as vezes se finge distraído para que eu não me sinta constrangido com sua onipresença; Deus, que não tem partido, mas sempre toma partido em favor dos excluídos, dos que morrem afogados no meio do deserto oceânico, fugindo das guerras provocadas pelos homens brancos gananciosos que querem beber toda água doce, mas nunca se saciam; Deus, que está ao lado das mulheres, dos/as homossexuais, dos adolescentes e jovens negros assassinados sistematicamente pela indústria da morte que funciona nas favelas suas máquinas assassinas.

Não há consciência humana no Brasil e no mundo se não há uma consciência negra. Negar a consciência negra, apagando-a dentro de uma suposta concepção superior de consciência – geralmente branca – é negar a história humana e ocultar ideologicamente o racismo praticado todos os dias, todos os anos de nossa existência coletiva, “pacificando” a guerra que ocorre todos os dias de nosso tempo histórico . E, negar a história humana, é negar à justiça o seu apelo à verdade, é mentir, é ocultar, é recriar as bases para que um deus com partido, com cor, causador de exclusão, sofrimento e dor retome seu antigo apogeu, criando fiéis cujo racismo não será pecado, mas o aborto causado em função de um estupro, um pecado imperdoável. Eu creio em Deus, mas não mais num deus pequeno, restrito, tacanho e mesquinho. Deus, de fato, é grande, mas não do tamanho do racismo religioso e cristão, nem da cor branca que a sociedade salva antecipadamente no seu paraíso privado. Esse deus, esse deus... É o diabo!


Joselito Manoel de Jesus, O Filho de Deus, O Negão.     

terça-feira, 14 de novembro de 2017

A caminho do inferno

O bom do envelhecimento é ir se tornando humilde, cada vez mais. Além disso, eu estou sentindo que não preciso mais de tanta coisa comigo. Estou deixando cair ao longo do caminho o peso desnecessário, que nunca valeu a pena carregar comigo. De fato, Saint-Exupéry estava certíssimo: “O essencial é invisível aos olhos, só se vê bem com o coração”. Como ver com o coração? Ah. É coisa difícil. É preciso fazer aquele exercício proposto por Gilberto Gil, “se quiser falar com Deus”.

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
dos desejos, dos receios
tenho que esquecer a data
tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
tenho que comer o pão
que o diabo amassou
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
dos palácios, dos castelos
suntuosos do meu sonho
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração
Assim, fazendo esse exercício espiritual, podemos abrir um olho em nosso coração, porque o próprio coração já estará aberto para ver pela primeira vez o que sempre foi visto com olhos marcados pela ignorância, pela maldade pela vontade de submeter o outro, a outra, aos nossos caprichos. 

Por isso temos que nos achar medonhos. Quem se acha medonho? Poucas pessoas. Porque a feiúra, o pecado, a mesquinhez, a violência, a agressão a fofoca, é sempre o outro, a outra, que fazem e cometem. E a gente é belo, não é mesmo? Nós somos “os escolhidos”. Somos nós que merecemos o paraíso e não “o pão que o diabo amassou”. Ora, se não aceitarmos a dor de que somos iguais, ou até piores, que os outros e as outras, e que também contribuímos com a degradação do mundo, jamais poderemos ver com o coração, muito menos falar com Deus. Como é que Deus vai ouvir algo que não é sincero? Se não temos “as mãos vazias, a alma e o corpo nus”?  

É muito difícil esse exercício de aproximação com Deus. “Aceitar Jesus”, como dizem uns por 
aí e por acolá, é a coisa mais fácil que existe. Cruzamos uma linha imaginária, depois de um ritual simples de passagem, entre "o mundo" e o Reino de Deus; entre o mal e o bem, entre a “carne” e o espírito; entre o injusto e o justo e, a partir daí, começamos a apontar o dedo para os outros, os do lado de lá daquela fronteira que foi criada para excluir. Pegam suas pedras nas mãos e se preparam para atirar nos “pecadores”, naqueles e naquelas que andam no pecado, no “mundo”. E se, por alguma esperteza, no seio da história humana, alguém desenhou essa fronteira pra lá do seu pecado? E se essa cartografia espiritual começou errada, desde o princípio e, de repente, a gente descobre que Deus anda mais do lado de lá que do lado de cá? De que Deus não está nem aí para qual agremiação eu pertenço como gado, nessa vida imbecil de seguir pastores que me pedem dinheiro para provar minha fé? De que Deus quer ver “minhas mãos vazias, minha alma e meu corpo nus”. E "apesar de um mal tamanho, alegrar meu coração", porque o encontro com Deus se dá quando abrimos mão de nossas vaidades, de nossa necessidade de controlar a nós, os outros, as outras, o destino e tudo o mais, para encontrarmos a felicidade face a face, na alegria do coração, que nos desarma e nos acalma na profunda realização de nossa existência.  

Aí o MBL iria atirar suas imprecações contra o próprio Deus. Porque a nudez é tabu. A nudez será castigada. Porque alguns seres humanos querem ser “anjos” e não conseguem ser o que são, porque seus olhos estão cerrados pela ignorância e pela arrogância. Eu queria estar no momento dessas pessoas encontrarem com Deus, se conseguirem. Ia ser uma decepção! Então seguiriam alegremente o diabo, com uma arma na mão, uma bíblia na outra, cantando as glórias da racionalidade que o diabo pregaria, rumo ao inferno, que, como diria Sartre, é sempre o outro”.


Joselito Manoel de Jesus, Professor, Poeta e Corredor de Rua.    

sábado, 14 de outubro de 2017

SUJEITO-POLÍCIA x SUJEITO-BANDIDO: GUERRA DE UM PARADIGMA FALIDO

No final do século, encontramos-nos perante a desordem tanto da regulação social como da emancipação social. O nosso lugar é em sociedades que são simultaneamente autoritárias e libertárias. (Boaventura de Sousa Santos)

O autor acima citado, discutindo a transição paradigmática, elege duas dimensões privilegiadas para assim o fazer: a dimensão epistemológica e a dimensão societal. Segundo ele
A transição epistemológica ocorre entre o paradigma dominante de ciência moderna e o paradigma emergente que designo por paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente. A transição societal menos visível ocorre do paradigma dominante – sociedade patriarcal; produção capitalista; consumismo individualista e mercadorizado; identidades-fortaleza; democracia autoritária; desenvolvimento global desigual e excludente – para um paradigma ou conjunto de paradigmas de que por enquanto não conhecemos senão as “vibrations ascendentes” de que falava Fourier (SANTOS, 2001, p.16)
Essa transição, com suas dimensões, estão ocorrendo neste momento, gerando um desafio enorme em nossa capacidade de entendimento. Alguns recorrem, com o avanço do evangelismo de resultados, a explicações do fim do mundo na base do maktub, e assim se resignam ao “inevitável” armagedom, apontado os dedos para os pecadores que, segundo eles e elas, perecerão por não aceitar o deus deles/as. Outros fingem não ver o que acontece a sua volta, mesmo porque não entendem e, desse modo, se acomodam em viver nesse “caos” como se não houvesse amanhã. Alguns, porém, recorrem à reflexão sistematizada porque desconfiam que as partes só podem ser apreendidas coerentemente por um todo complexo que lhe dê explicação em seu conjunto de ocorrências, aparentemente sem nexos.
Há uma mudança de paradigmas que está provocando no mundo reações que geram inúmeros acontecimentos que exigem decifração sob pena de sermos devorados pelo sem-sentido que pode nos levar à loucura coletiva. As mudanças começaram antes da segunda guerra mundial e agora estão se acelerando, o que dificulta nossa forma de entender, exigindo outro entendimento para além da luta do “bem contra o mal” que alguns idiotas querem nos impor como discurso “verdadeiro e justificável”. Ou superamos esse maniqueísmo fácil e tolo, ou sucumbiremos em guerras que nos estraçalharão eternamente num inferno terreno. Somos bons e maus e, assim sendo, como posso combater o mau alheio se preciso travar uma grande batalha dentro de mim mesmo? Como eliminar meu/minha inimigo/a se ele/a apresenta dimensões de bondade que me faltam? Quais foram os critérios de escolha dos/as meus/minhas inimigos/as? Quem me ensinou a identificar e a odiar aquele que eu penso que escolhi para inimigo?
Saiu recentemente um estudo do Fundo das Nações Unidas da Infância (Unicef) que mostra que o Brasil bate recorde na morte de adolescentes e jovens negros, principalmente no Nordeste, tendo Fortaleza e a minha cidade de Salvador como as primeiras colocadas nesse holocausto sinistro. Segundo o repórter responsável pela matéria
Os dados mais recentes, de 2014, divulgados ontem [11/10/2017], mostram que o Índice de Homicídios na Adolescência (IHA) brasileiro alcançou a marca de 3,65 pessoas entre 12 e 18 anos assassinadas para cada grupo de mil jovens.
A pesquisa analisou os homicídios de jovens nos 300 municípios com mais de cem mil habitantes e se baseia nos dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde. (ANTÔNIO JÚNIOR, 2017, p.B5)
E muitos de nós somos levados a pensar, na base ideológica do “bandido bom é bandido morto”, que se eles morreram é porque mereciam, na medida em que é muito difícil morrer um “inocente” nessa guerra urbana, na qual o tráfico se torna o maior responsável, como se o tráfico de drogas fosse uma entidade maligna que explica por si só, a tragédia anunciada e proclamada.
E então se reforçam as condições ideológicas para o fortalecimento do sujeito-polícia como o herói que vai restituir a ordem perdida ou, quando muito, nos proteger da desordem da orda barbaria que invade nosso "território de segurança e bem-estar", o que o mesmo Santos denominou de "zonas civilizadas", em contraposição às "zonas bárbaras". Quando eu era menino ouvia discursos pronunciarem uma frase que me deixava esperançoso: “- polícia é polícia, bandido é bandido. Os dois não se misturam". As linhas de fronteira estavam bem delineadas. A polícia era a ordem e o bandido a desordem. E quando eu me refiro à polícia incluo todas as forças armadas. Mas o sujeito-polícia e o sujeito-ladrão com o tempo foram interpenetrando as fronteiras proibidas, e os bárbaros, desde aquele momento, já estavam invadindo nosso “sagrado” território moral, portando a farda como se da ordem fossem. Já não se contrapõem tanto assim nessa ordem em frangalhos, falida, apodrecida, sobre a qual tentamos nos agarrar. Já se confundem entre tiros e fugas, entre planos e assaltos, entre pontos de drogas e munições. Os filmes de José Padilha, Tropa de Elite e Tropa de Elite, o inimigo agora é outro, retrata isso.
E o estado-regulador entrou em colapso. Não consegue mais responder à “novidade que veio dar à praia” (Gilberto Gil). Os arrastões, feitos por adolescentes, em sua maioria negros, são assustadores sim, mas expressam o grito da barbárie - não dos novos “bárbaros” – esses sujeitos gerados pelas ausências criminosas de um estado burguês que estraçalha tanto o policial pobre que recebe uma merreca para combater o pobre revoltado, e o pobre revoltado que assume a violência e o crime como caminhos únicos desse labirinto mortal no qual, como ratos em um experimento maquiavélico, fazemos atrás da comida e da sobrevivência. Nesse sentido, o sujeito-polícia e o sujeito-ladrão-traficante, fazem parte da mesma desordem, a desordem burguesa e, no caso do Brasil, criminosamente racista.
O sujeito-polícia, deixou de ser o herói, mesmo porque, para grande parte da população, ele não representa mais a ordem, mas compõe a mesma desordem que aflige uma cidadania de papel (Dimenstein), com sua suposta autoridade agressiva e violenta, tentando obter respeito com a arma na mira da cidadania questionadora de seus métodos de capitão-do-mato. Ao lado do sujeito-ladrão, o sujeito-polícia atua, com balas perdidas oferecidas aos cidadãos. Essa "ordem" foi engolida pela desordem burguesa deste momento histórico e não vai ser esta que nos proporcionará esperança. Não vai ser essa democracia autoritária, nem esse neopatriarcalismo na forma humana de um Bolsonaro posando de herói nacional, com sua violência à ponta da arma, que vai nos dar esperança. A nova ordem precisa ser gestada num novo paradigma. Quem sabe não seja um paradigma prudente, desarmado, no qual nossos/as adolescentes tenham escola pública de qualidade, saúde pública, lazer e arte, que caracterizam uma vida decente e dissolvem os sujeitos-morimbundos de uma dimensão societal que insiste em voltar no tempo. Brasil Nunca Mais!

Joselito Manoel de Jesus, Professor, Poeta e insone
Com o auxílio de

JÚNIOR, Marco Antônio. Brasil bate recorde na morte de jovens negros. A Tarde, quinta-feira, 12/10/2017. Salvador, Bahia.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. Vol.1 3. ed. São Paulo: Cortez, 2001.