domingo, 20 de dezembro de 2015

Povo impávido, colosso

Eu leio comentários daqui e dacolá. A maioria bem parcial. Todos são parciais, inclusive este. Todo texto tem uma abertura semântica que não se fecha. Fico num angústia tremenda. Tendo a não aceitar os governos Dilma e Lula, pois procuraram obter uma hegemonia formando um bloco histórico que, por um certo tempo deu certo, mas com apoio de esquemas de corrupção baseados nas principais empresas estatais do país. Quando tiveram a oportunidade de mudar, deixaram tudo como dantes. Fortaleceram ainda mais um contexto político no qual não há como obter hegemonia sem irrigar os bolsos dos comparsas. 

Não há ideologia que se sustente quando nosso povo ainda está em formação política. Não uma formação política teórica, abstrata, longínqua da língua do povo, mas aquela que sentimos na pele quando associamos uma decisão no Congresso, ou mesmo no campo jurídico do Supremo Tribunal Federal (STF), com o preço da água, da energia elétrica, da alimentação, do transporte, do trabalho, do vestuário, da saúde, enfim, da produção da nossa vida cotidiana. Enquanto jovens de classe média repetiam com Cazuza que queriam uma ideologia pra viver, o povo quer viver para ter uma ideologia. E, por um tempo, as elites nos deixaram respirar fora da penúria. E isso aconteceu historicamente agora, no governo Lula e ainda no primeiro mandato do governo Dilma. Tivemos e, creio, ainda temos, nosso tempo de Quilombo dos Palmares.

Entretanto, quando nossas elites perceberam que estávamos sonhando demais com um país em que houvesse justiça social, o respeito às diferenças e à diversidade, no qual os trabalhadores e trabalhadoras fossem respeitados (as) em sua capacidade de produção coletiva da riqueza nacional, os (as) jovens negros (as) e pobres estavam tendo acesso à universidade e aos escalões superiores do mercado de trabalho e do centro de decisões, aí apelaram para o moralismo cínico e para as violências simbólicas e físicas, tendo o novo Domingos Jorge Velho, a Rede Globo, e boa parte da imprensa no apoio ideológico a tal investida contra as classes populares. 

Aécio, Serra, Alckmin e todo o PSDB, o DEM, os partidos nanicos, e todo o PMDB também se alimentam desse dinheiro sujo que está na base financeira do nosso processo eleitoral. É com esse dinheiro que se pagam os carros de som, os "santinhos", os cabos eleitorais, as propagandas na tv, rádio e jornal, as inúmeras viagens de avião por este país continental, as estadias em hotéis, as compras de lanches, água, passagens para assessores, a assessoria jurídica, a assessoria digital na internet, as camisas, as composições musicais, as faixas, cartazes, os apoios de prefeitos, vereadores, deputados, senadores, partidos. Qualquer um de nós que queira fazer política-eleitoral sem apoio financeiro não vai conseguir nem metade dos votos - com raras exceções, que devem existir e resistir. A maioria dos que não entraram em algum esquema é, basicamente, por duas razões: ou não puderam entrar, ou não quiseram entrar. Os que não puderam não faziam parte da "coalizão", não podiam saber, não tinham poder eleitoral ou grande poder econômico. Os que não quiseram, a minoria, também não souberam e, se soubessem, ou morreriam, ou sofreriam o assédio no mercado de compra e venda de suas convicções. 

Não há saída para nós se não nos unirmos em torno de que país nós queremos. É preciso fazer esse país, mudando urgentemente o nosso sistema político-eleitoral. Mas esse grande feito não vem de graça, como uma dádiva. Vem da luta, da organização popular, da reflexão coletiva e pessoal nas arenas discursivas instauradas em nosso tenso momento histórico contemporâneo. E os movimentos sociais têm um papel preponderante nesse contexto. Para além de "salvar Dilma do golpe", para além de reverenciar Lula como o nosso "novo pai dos pobres", há o caminho em que a história deve continuar sendo feita, apesar dos períodos eleitorais. É preciso que este novo sujeito social apareça na cena pronunciando uma nova proposta que assegure o que foi feito nos governos do PT, mesmo a gente ainda aprendendo a fazer política a partir da "memória da pele". Assim, novos líderes, formados por uma nova história, aparecerão, necessariamente, paridos por um povo que se ergue, impávido, colosso. 

Portanto, nessa angústia em que me vejo, não vejo outra saída senão o fortalecimento dos movimentos sociais e culturais, como escolas públicas de formação política do nosso povo em processo permanente de ascensão e de consolidação de sua hegemonia popular neste palco da história desse país grande, rico, belo e cheio de futuros que somente seu povo organizado pode trazer em seu benefício. 


Joselito Manoel de Jesus, professor.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

BREVE VISÃO SOBRE OS GOVERNOS DO PT

O Governo Dilma se segura. Abalado pela corrupção, pela crise econômica e política, recolhe-se ao silêncio e espera a definição dos contornos da atual conjuntura política que se esboça, pela reação virulenta das classes hegemônicas, conservadoras, contra os avanços que tiveram as classes populares. Embora haja críticas sérias ao desenvolvimento reformista, nos quadros de um capitalismo submisso, preconceituoso e violento, a ascensão de milhões de brasileiros a melhores condições de existência, força a necessária tensão do conflito de classes que estava “apaziguado”, melhor, ocultado na submissão cômoda que atendia aos interesses das classes dominantes brasileiras.

Essa tensão social força o renascimento da política no século XXI fora dos quadros das determinações anteriores, em que somente os representantes das classes sociais e econômicas privilegiadas lutavam pela hegemonia, pelo comando dos rumos de nosso país, seja no PSDB, seja no antigo PFL, hoje DEM, seja no PMDB, seja nos traidores de nossa classe popular representados nos partidos nanicos, tendo como um exemplo o “Paulinho da Força”, no partido “Solidariedade”, solidariedade com os privilegiados. Ao entrarem em cena, os integrantes das classes populares começaram a ocupar um lugar institucional – nas universidades, nos hospitais, nas secretarias de justiça, saúde, ação social, e educação – alô Ana Lúcia Gomes, Amélia Maraux, Érica Capinan, José Carlos e tantos (as) outros (as) –, lugares antes reservados aos obedientes agentes públicos “de confiança”.

Essa ocupação produziu, sem dúvida, distorções, nas quais muitos afoitos se apegaram e se apegam, com um discurso tecnocrático e tecnicista, na tentativa de destruir toda a política pública dos governos do PT. Muitos (as) sujeitos indicados pelos governos Lula e Dilma estavam, de fato, despreparados tecnicamente e emocionalmente para assumir tais posições no quadro do estado brasileiro – cargos sempre ocupados por tecnocratas fiéis aos ditames das classes privilegiadas – tendo de aprender a lidar com os desafios lançados pelas demandas exigidas da sociedade em mudança e de apreender os meandros da burocracia estatal, criada para dificultar mudanças que atendam aos interesses das classes populares.

Contudo, tal ocupação também reproduziu, no interior dos aparelhos do estado brasileiro e baiano, os conflitos que estão na constituição da conjuntura política, econômica, cultural e social que ora podemos perceber nas principais manchetes dos jornais televisivos e impressos. As tensões raciais, de gênero, de sexo, de etnia e, entre outras, de classe, são expressas nas lutas cotidianas, nos avanços e recuos das políticas públicas do Governo Dilma, nas reações moralistas de indivíduos, grupos e instituições que desejam a sociedade como era: só deles (as), tão somente a serviço deles (as). Índios sendo queimados vivos; sem-terra sendo executados; homossexuais agredidos e assassinados; mulheres espancadas e mortas todos os dias; negros e negras sendo ofendidos (as) pelo seu cabelo, pela ocupação de um espaço que apenas era reservado para brancos (as); nordestinos (as) sendo acusados (as) e ameaçados (as) pela eleição de uma presidente mulher, entre tantas outras violências produzidas nos últimos anos, são indícios concretos de como as tensões, ficando mais e mais violentas, estão escancarando uma realidade social que estava oculta sob o “equilíbrio” que governos anteriores mantinham através de suas políticas de exclusão.  

Portanto, antes de começar a atirar no Governo Dilma – que produziu, não deixo de afirmar, seus erros e permitiu o empoderamento do PMDB em seu governo – pense de forma abrangente a realidade brasileira. Não deixe que uma parte da verdade oculte a verdade mais ampla que produz os fenômenos que não conseguimos articular numa racionalidade do movimento constante da história, porque não adotamos uma perspectiva metodológica que permitirá a apreensão desse movimento produzido por um deslocamento social, político, econômico e cultural que as últimas políticas públicas dos governos do PT ensejam e produzem.


Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes, das classes populares e de Jesus, O Emanuel.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

FELICIDADE QUANDO A GENTE QUER AMAR

“Felicidade é uma cidade pequenina, é uma casinha, uma colina, qualquer lugar que se ilumina, quando a gente quer amar.”

Gosto dessa música, desse poema musicalizado. Seu título é “Pão e Poesia”, do grande, grande Moraes Moreira, que deveria ganhar um Nobel da música apenas por esta. Eu não consigo... Nem que esse meu texto “vá pras cucuias” da sua paciência, pois vou fazer uma relação outra, tenho de colocar a letra toda desse homem inteligentíssimo e profundamente sensível!
Felicidade é uma cidade pequenina
é uma casinha é uma colina
qualquer lugar que se ilumina
quando a gente quer amar

Se a vida fosse trabalhar nessa oficina
fazer menino ou menina, edifício e maracá
virtude e vício, liberdade e precipício
fazer pão, fazer comício, fazer gol e namorar

Se a vida fosse o meu desejo
dar um beijo em teu sorriso, sem cansaço
e o portão do paraíso é teu abraço
quando a fábrica apitar

Felicidade é uma cidade pequenina
é uma casinha é uma colina
qualquer lugar que se ilumina
quando a gente quer amar

Numa paisagem entre o pão e a poesia
entre o quero e o não queria
entre a terra e o luar
não é na guerra, nem saudade nem futuro
é o amor no pé do muro sem ninguém policiar

É a faculdade de sonhar é uma poesia
que principia quando eu paro de pensar
pensar na luta desigual, na força bruta, meu amor
que te maltrata entre o almoço e o jantar

Felicidade é uma cidade pequenina
é uma casinha é uma colina
qualquer lugar que se ilumina
quando a gente quer amar

O lindo espaço entre a fruta e o caroço
quando explode é um alvoroço
que distrai o teu olhar
é a natureza onde eu pareço metade
da tua mesma vontade
escondida em outro olhar

E como o doce não esconde a tamarinda
essa beleza só finda
quando a outra começar
vai ser bem feito nosso amor daquele jeito
nesse dia é feriado não precisa trabalhar

Pra não dizer que eu não falei da fantasia
que acaricia o pensamento popular
o amor que fica entre a fala e a tua boca
nem a palavra mais louca, consegue significar: felicidade

Felicidade é uma cidade pequenina
é uma casinha é uma colina
qualquer lugar que se ilumina
quando a gente quer amar

A felicidade, muita gente busca, e muita gente diz que é para poucos. Não concordo com essa medíocre ideia. A felicidade, meu/minha nobre, não é fruto da sorte. A gente, segundo Moraes Moreira, tem uma grande participação nela. “Quando a gente quer amar”, meu/minha camarada, qualquer lugar se ilumina. Felicidade não depende só de dinheiro, felicidade não depende só de boniteza, dessa fabricada por tv’s para idiotas. Felicidade, muitas vezes, é uma rapidinha ofegante encostada num muro, como eu já fiz em minha alegria e ousadia juvenil. Fui e sou feliz muitas vezes, pequenas e fugazes/eternas felicidades.

Se você estuda a felicidade aumenta! Sabe porque? Porque você pode começar a ficar mais sensível com a literatura, com a poesia, com a inteligência alheia. Eu fico muito! Quando você perdoa sua felicidade aumenta! Quando você age corretamente sua felicidade aumenta! Quando você tem coragem de defender quem é injustiçado sua felicidade aumenta! Quando você grita que "o rei está nú", sua felicidade aumenta! Muita coisa de felicidade mora em seu interior na relação que você estabelece com seu exterior. E você pensa que a felicidade está no improvável acontecimento que um dia vai te encontrar numa loteria? 

Não se pode pensar na “grande e definitiva felicidade”. Ela não existe neste planeta. Final de novela e de filme de cinema é coisa de bobos, que, claro, eu também dou uma de bobo as vezes. E ainda choro. Mas sei que aquilo é um exercício de loucura. Como diria Rubem Alves, é preciso acreditar, naquelas duas horas do filme, que seu final é “verdadeiro”, para poder se divertir. Mas, sabemos, não há um final feliz com todas as cenas cronometradas para dar certo com casamentos, gravidezes, perdões, reencontros, etc. Huuummmm. Pode existir felicidade na morte? Creio que sim. Quero morrer na maior felicidade, inclusive dando umas bananas pra uns sacanas que vierem me visitar para se certificarem que morri mesmo, inclusive para fazerem cena pra “sociedade”. Mesmo não sabendo pra onde vou, vou sorrir feito menino mandando-os (as) “pros quintos do inferno”. Réréré. (E não me venham demover de minhas más intenções)!

A grande felicidade não vem meu/minha bom/boa amigo (a)! Desculpe lhe decepcionar. Em compensação lhe direi que pequenas felicidades cotidianas estão aí pra você. Mas se você não perceber que pequenas felicidades estão ao redor do seu dia a dia, vou utilizar jocosamente de um enunciado dos filósofos do “É o Tchan”: –“Toma distraído (a)!” e ainda vou acrescentar: – “Sabe de nada inocente!” Caso você seja mesquinho e esteja esperando a “grande felicidade” porque você é especial, mais especial que todo mundo, porque seus “inimigos” irão ficar embasbacados com a sua “vitória”. Eu posso lhe assegurar: você é um (a) tolo (a). E assim permanecerá enquanto não perceber que poderá amar as pessoas à sua volta, todos os dias e, assim, de felicidade em felicidade, iluminar sua existência na iluminação da existência alheia.

Joselito da Nair Dórea, do José Manoel, do Rafael Araújo, da Ana Lúcia Gomes, de Você, que me lê, de Tanta Gente Boa, e de Jesus, o Emanuel, Senhor Maior que me guia.  

sexta-feira, 31 de julho de 2015

PEDINDO A BENÇÃO

Quando meus pais vieram do interior ainda não eram os meus pais. Eram jovens que acompanharam suas famílias tangidas pela indústria da seca. A seca que reside no coração e no cérebro dos homens que governam nossa nação. Um dia, não sei como, cruzaram olhares e depois as bocas, os desejos, as pernas e fomos nascendo. Bom, mas não é isso que me interessa neste texto de hoje. Estava ontem à noite quando pensamentos bateram à minha porta. Eu não abri ontem. Pirracei. Além do mais poderia acordar Ana, coitada, tem que trabalhar logo cedo. Mas eles mostraram que queriam falar. Então, aqui estou eu, nesta tarde de sexta-feira, colocando-os na arena discursiva.

Quando éramos crianças, eu e meus irmãos pedíamos a benção aos nossos pais, tios e avós. – “Bença” minha “vó”; -“Bença” minha mãe; “Bença” meu tio “Filuca”; “Bença” meu tio “Louro”; “Bença” minha tia Lourdinha; – “Bença” Minha tia “Lurde”; “Bença” minha tia “Cecé”, - “Bença” meu tio “Ciriro”. Era natural chegar, pedir a benção aos mais velhos e cumprimentar a todos (as), na entrada e na saída. E aquele ritual bonito e cheio de significados nos adentrava no ambiente da família, simbolizando respeito e acolhimento, muito embora nem sempre, por vários motivos, houvesse acolhimento.

E de onde veio a “benção”? Logo, tenho de fazer um exercício de alteridade para tentar entender esse fenômeno cultural, carregado da religiosidade de uma época. Quando vieram “pra Bahia” do interior do estado – e “vir pra Bahia” era vir para Salvador – os jovens pobres com suas famílias traziam a si e ao seu mundo junto. Não havia como ser diferente. Se nós vamos, vamos com nossas crenças, nossas marcas, nossos hábitos, nossas dores, nossas flores, nossas paisagens que a memória conta em histórias em roda de fogueiras, ou do candeeiro. Por muito tempo não tínhamos energia elétrica em casa. Foi assim que a “benção” veio junto. Precisávamos dela para resistir ao admirável e perigoso mundo novo que nos esperava nas periferias da cidade que crescia, sempre com a cachaça - naquele tempo a cerveja era algo muito distante dos homens. A cachaça era mais barata e, portanto mais acessível e cultuada como símbolo de masculinidade - fazendo presepadas ou ameaças entre a rua e a casa.

A “benção” era mais um mecanismo que nos lembrava o princípio da autoridade e a necessidade do respeito ao entrar e ao sair de uma casa. Lembrávamos a quem devíamos obediência, a quem devíamos nos reportar e a pedir conselhos para poder aceitar um emprego, um casamento, realizar uma viagem, planejar a realização de uma esperança. A palavra de nossos pais, tios, tias e avós tinham uma sacralidade que nos dava segurança diante dos desafios que eram lançados, permitindo ou negando. Nossa família assim caminhava, de benção em benção, todos os dias.

Meu pai, José Manoel, quando estava zangado, respondia – Deus que te dê vergonha!”. E a gente passava envergonhado diante dele. Ou: – “Deus te faça feliz!” e a gente passava radiante diante dele. Minha Mãe, Nair Dórea, sempre nos dava uma boa benção de esperança. O contexto daquele momento de nossa história, do ponto de vista material, econômico, não foi dos melhores. Como a seca não estava no sertão, mas estava no cérebro e no coração dos homens que nos governavam, ela nos acompanhou durante muito tempo, não importava o lugar onde morávamos. Mas tínhamos a família mais de perto. Aquela atmosfera de cumplicidade, de aceitação das regras definidas desde lá, onde fomos forjados pela terra, pelo sol e pela esperança que caminha obstinada rumo à vida pelo sertão de Remanso e pela paisagem dos sítios de uma Entre Rios de outro tempo.

A benção nos conectava com nossos pais e parentes, mediando o tipo de relação que estabeleceríamos com eles e elas. Esse ritual ficou vivo por muito tempo, tecendo elementos importantes de nossa humanidade no círculo familiar, protegendo-nos dos inimigos e fortalecendo-nos diante das adversidades. Não saíamos de casa sem pedir a benção de nossos pais. Era mais fácil sair sem tomar banho.

Mas, nossos avós, tios e pais foram morrendo. E nós deixamos de ensinar a nossos (as) filhos (as) a pedir a benção. Talvez porque não fomos ensinados a pensar a benção em nossas existências. Talvez porque nos tornamos ateus nesse mundo de consumo, em que Deus e o sagrado foi substituído pelos produtos e serviços, máquinas e equipamentos que as lojas dos famigerados shopping’s exibem como promessas de felicidade. Pedir a benção se tornou cafona – outra palavra cafona -, passado, caindo em desuso. Deixou de abençoar nossa entrada e nossa saída de casa. Talvez porque a autoridade deixou de exercer a sua força admirável de comando. Talvez porque os pais perderam o que o interior, lá, aonde a Bahia não vai, nos oferecia daquela forma de organização, talvez porque a própria igreja substituiu Deus por milagres vendidos nas telas de TV por falsos pastores. Talvez porque perdemos exemplos de fé, de autoridade, pessoas-faróis que iluminam o caminho de uma gente perdida na confusão desse fim de mundo. É como afirmava o grande filósofo cantor Renato Russo:

E há tempos nem os santos têm ao certo
A medida da maldade
Há tempos são os jovens que adoecem
Há tempos o encanto está ausente
e há ferrugem nos sorrisos
Só o acaso estende os braços
a quem procura abrigo e proteção.

Meu amor, disciplina é liberdade
compaixão é fortaleza
ter bondade é ter coragem
lá em casa tem um poço
mas a água é muito limpa.


A desmedida da maldade precisa ser enfrentada. Mas não com uma fé reles. Mas, quem sabe, cada um de nós acendendo a luz que habita cada um, para irmos, despretensiosamente, iluminado ao seu redor, a começa pelos que estão à nossa volta na família que formamos na contemporaneidade. 


Meus pais não estão mais aqui. Mas eu sinto que eles existem. E, mesmo daqui, quando entrar e quando sair, eu quero lhes pedir a “bença”. Pedir a “bença” aos que ainda estão vivos, desejando entrar e sair dos seus lares com o consentimento do céu que eles e elas mediavam e mediam nesse gesto tão breve, e, ao mesmo tempo, tão longo, da nossa história humana brasileira e baiana.
“Bença” meus tios! “Bença” minhas tias! “Bença” meus ancestrais!  

Joselito da Nair, do Zé, dos Tios, Tias, Avós e Família

quinta-feira, 18 de junho de 2015

MATA-SE DEUS

Disse um mestre do Espírito: «Se eu falto ao amor ou se falto à justiça, afasto-me infalívelmente de Vós, ó meu Deus, e o meu culto não é mais que idolatria. Para crer em vós, preciso crer no amor e crer na justiça e vale muito mais crer nesta coisas que pronunciar o Vosso Nome. Fora do amor e da justiça é impossível que eu alguma vez Vos possa encontrar. Mas aqueles que tomam o amor e a justiça por guia estão no caminho verdadeiro que os conduzirá até vós».

Acabei de assistir Elysium, com Matt Damon, Alice Braga, Jodie Foster e Wagner Moura. Neste filme a morte do herói é o grande tema da narrativa. A morte do herói. Por que o herói sempre tem de morrer? Por que? Não que deseje o mesmo happy end de sempre, mas a questão da morte do herói me leva a pensar. Essa morte especial vem de longe. Suas façanhas são contadas por outros (as), não por ele mesmo, ou ela mesma, o herói, a heroína. Talvez esse fim seja o sentido da salvação humana. O herói dá a vida pela salvação de muitos, senão de todos (as). Talvez para que os que foram salvos possam saber que suas vidas pequenas e medíocres possam ser justificadas por um ato tão sublime, tornando-se importantes em sua continuidade.

Se um herói, ou uma heroína, deu a vida por nós, essa vida deve valer alguma coisa, no mínimo. Coletivamente ou individualmente. Talvez por isso muitos de nós nos achemos “especiais”. E, por assim nos achar, procuramos, egoístas e mesquinhos, “usufruir” da vida que nos foi permitida. E aí Jesus entra em meu discurso. Este "Herói" não morreu pela nossa vida mesquinha de poucos anos no planeta. Não foi para que a gente simplesmente tivesse um carro (onde colocamos adesivos idiotas do tipo: “Rastreado por Jesus”, “Blindado por Deus”, Etc.), plano de saúde, emprego, “futuro”, uma vida de conforto e prazer. No plano escatológico isso é muito pouco para justificar a sua morte. Ele morreu e ressuscitou pela nossa existência! Esta é maior que nossa vida curta nesses dias na terra. Nossa existência é um plano mais amplo que ultrapassa a mesquinhez de nossa vida medíocre, cercada de medos e ameaças de todo tipo, com a morte espreitando-nos em cada esquina, a cada dia.

A morte do herói significa que todos nós podemos nos sacrificar para que a vida continue. E esse gesto é que salva a nossa existência, para além dessa vida curta e temerosa que temos. A luta pela vida inclui o respeito às diferentes formas da gente se relacionar com Deus. Deus é um. Mas se revela de muitas formas. Deus é negro também. Mas o racismo que dispara a bala da arma do policial nas periferias de Salvador, mata a Deus também, junto com aqueles que morrem. Deus é feminino também. Mas a violência contra a mulher mata essa dimensão humana de Deus em nome do domínio do macho. Deus é, como Seu Filho mesmo falou, criança. Mas a pedofilia e a agressão física contra os pequenos matam o sorriso infantil de Deus que ainda habita entre nós.

Mas a pior morte, é a morte de nossos valores e convicções. Parece que, a nível social, estamos perdendo-as. Não desistimos de roubar porque nossa consciência moral nos acusa. Matamos nossa consciência moral para, nessa vida mesquinha, viver nababescamente em detrimento da pobreza e da desconfiança que produzimos com nosso ato vil. Nossos políticos são assim, porque nós somos assim também. Não desistimos de mentir, de trair, de matar, de enganar, de violentar em nome de nossa fé e de nosso amor, que nos leva a comprometer-nos com o outro. Quando encontramos um celular perdido, retiramos rapidamente o chip e instalamos o nosso. Esquecemos nossos valores e nossos compromissos e enveredamos em nome de nossa ganância, da satisfação de nosso prazer imediato. Não temos convicções. Pouco lutamos pelo que acreditamos. Quando as coisas começam a ficar difíceis, desistimos facilmente, nos recolhendo ao conforto da nossa ignorância presumida. Somos um povo fraco, sem convicções. Nossos líderes atuais: Lula, Aécio, Dilma, Eduardo Cunha, Renan Calheiros, representam o povo que ainda insistimos em ser. Líderes pequenos, que enriquecem às nossas custas, desprovidos de um Projeto Brasil de Nação.

Muito embora haja um crescimento no número de “fiéis”, eu, sendo Deus, abriria mão desses fiéis sem convicção. Fiéis frágeis, que temem os desafios do mundo e se escondem embaixo da saia de suas crenças. Fiéis que não lutam pela vida esperando outra eterna de presente, simplesmente porque foram a alguma igreja e fizeram suas orações de domingo a domingo. Esses, não serão dignos da continuidade de sua existência do Reino de Deus. Fiéis lutam pela vida. Fiéis se comprometem com a justiça! Fiéis combatem a hipocrisia! Fiéis lutam por vida digna para todos, por hospitais públicos com atendimento digno, por um sistema de ensino público funcionando com qualidade para todos (as), por rede de esgoto, moradia, equilíbrio ecológico.

Não. Eu não quero mostrar para os outros, de Bíblia na mão, que sou mais “fiel” do que o outro. Não quero mensagens de fé para “salvar os outros”. Quero que minha vida, como diria o sábio Ghandy, seja uma mensagem com outras vidas em nome da justiça e do amor, porque a verdade, bom, a verdade, viva em si mesmo (a). Pregar o Evangelho é viver o Evangelho em si mesmo. É deixar os outros em paz com suas crenças e convicções e, antes de tudo fazer uma profunda avaliação autocrítica de nossa própria fé e convicção. Chega de tanta hipocrisia!!! Pois assim mata-se a Deus apontado o diabo nos outros. Temos nossos próprios demônios que precisamos exorcizá-los. Perder tempo com a crença dos outros termina fortalecendo nossos próprios demônios.


Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel 

sexta-feira, 22 de maio de 2015

MODELOS DE UNIVERSIDADE: A universidade como campo de treinamento para as profissões liberais

A universidade como modelo de campo de treinamento para as profissões liberais pressupõe que exista certo número de papéis ocupacionais definidos socialmente e que, para serem exercidos exigem educação superior e treinamento técnico especializado. Um profissional liberal é aquele que atua submetendo seu trabalho à avaliação de outros membros da profissão. Assim, o advogado e o médico funcionam em seu processo de profissionalização, através de um controle interno da categoria que lhe confere considerável status social.

Tais papéis ocupacionais são organizados como grupo auto-reguláveis e autocredenciáveis de homens e mulheres que possuem e exercitam uma habilidade especial ou um conjunto de conhecimentos técnicos. [...] Muito do alto status social das profissões na sociedade norte-americana advém dessa autonomia de credenciamento, pois ela é uma espécie de poder que confere dignidade a seus portadores. [...] O alto status (e os salários elevados correspondentes) das profissões liberais serve como um incentivo permanente para a profissionalização dos papéis ocupacionais mais diversos. (WOLFF, 1993, p.36)

Embora a universidade desse modelo de formação seja a instituição que forneça os elementos básicos para a formação do profissional liberal, ela não é, de modo algum, quem credencia o estudante de Direito ou de Medicina a exercer a profissão. No Brasil é a OAB e o Conselho Federal e os Regionais de Medicina – no caso da Bahia o CREMEB – respectivamente, que os credenciam e regulam a profissão através de normas e fiscalização, pelo menos no âmbito legal.

Uma questão de identidade profissional logo se impõe: até que ponto um professor de Direito ou um professor de Medicina é professor da universidade? Quando eles (as) mantêm seus consultórios e escritórios particulares que tempo lhes sobram para dedicar-se às atividades acadêmicas? 

De inúmeras maneiras, as atividade de professores e alunos das escolas profissionais vão além da universidade, e, assim, o espírito de corpo está inevitavelmente dividido. O corpo docente das escolas profissionais não pode comprometer-se com todas as suas energias incondicionalmente com a universidade, como os professores das Artes e das Ciências fazem regularmente. Não foi surpreendente, portanto, que, durante a crise na Universidade de Colúmbia, o corpo docente da graduação e membros do corpo docente da pós-graduação em Artes e Ciências tenham-se envolvido mais completamente no problema, enquanto membros dos corpos docentes das faculdades de Direito, de Medicina e de Administração o mais que fizeram, com raras exceções, foi assistir às várias reuniões gerais de todo o corpo docente, convocados pelo Reitor. (WOLFF, 1993, p.39)


Mesmo discordando da ideia do autor de que a universidade deve afastar o que ele denomina de escolas e programas profissionais do seu âmbito de formação, a citação acima parece bastante atual no que se refere à presença do professor da universidade na universidade. Neste momento em que uma greve se desenrola na Universidade do Estado da Bahia, Uneb, motivada principalmente pela garantia de um orçamento para que esta instituição de ensino superior funcione a contento, percebemos o pouco envolvimento da grande maioria dos colegas em torno de questões relevantes apresentadas por esta greve. E, nessa grande maioria, quanto professores de Direito, de Medicina, de Administração e de áreas de considerado status social e profissional consolidados, estão presentes ativamente nesta greve?   

Identidade profissional é uma identidade coletiva, tecida na rede de relações humanas por intensas mediações, através das quais há reorganizações de significados diante das influencias e tendências culturais e sociais enraizadas na sociedade contemporânea. (BRZEZINSKI, 2002, p.9) As identidades profissionais do advogado e do médico não são dadas pela universidade, mas por seus poderosos órgãos de controle interno da profissão, regulada por seus pares. Um (a) advogado (a) não surge, por exemplo, porque ele (a) adquiriu o diploma de bacharel em direito na universidade, mas porque passou no temido Exame da OAB. É o referido exame que regula o currículo da universidade. A universidade “deu certo”, pelo menos para essas profissões, porque os órgãos reguladores das mesmas aprovaram seus outrora estudantes de Direito e de Medicina que, enfim, podem exercer a profissão com dignidade,ou sem dignidade mesmo. A tal da autonomia didático-científica da universidade vai pras cucuias!

    
Diante do reconhecimento desta realidade, como um advogado pode vir a ser professor? A tendência é que a esfera de influência e atração do advogado atraia muito mais este último, corrompendo sua própria profissionalização? E o professor? Pode ser denominado de profissional liberal levando em consideração as condições da profissão acima colocadas? Em que medida um professor tem domínios técnicos e científicos específicos de seu papel ocupacional na sociedade que demandam uma formação rigorosa na universidade e exige um acompanhamento e controle desse exercício profissional por sua categoria organizada em órgãos afins? Ou seja: em que medida a profissionalidade do professor é reconhecida socialmente e garantida pelo estado?


CONTINUA... 

quinta-feira, 21 de maio de 2015

CURRÍCULO-DE-TROIA

Bom, venho pensando muito sobre o currículo e sua importância na formação de professores através do ensino, da minha experiência de professor, e, devido à necessidade de institucionalizar esse pensamento, do meu/nosso projeto de pesquisa. E assistindo algumas palestras promovidas pelo II.º Colóquio de Docência e Diversidade na Educação Básica: política, práticas e formação, promovido pelo Grupo Diverso, liderado pela nossa colega Jane Adriana V. P. Rios, e, diante das propostas de reflexão e mudança do nosso currículo de Licenciatura em Geografia, comecei a pensar neste objeto específico como um presente. Um presente de grego às avessas.

Um presente de troiano para ser mais exato. Ou seja: a universidade com suas muralhas firmes e impenetráveis oferece para os que estão fora, um Currículo-Cavalo de presente para a Educação Básica e para a comunidade cujo seio esconde conteúdos troianos insignificantes ou que, no máximo, vão ter impactos muito pouco relevantes naqueles níveis de ensino, refletidos no Ideb ou na precariedade que penetra os portões de nossa cidadela através do analfabetismo funcional que nos adentra. Acredito que nós temos, uma que pode ser excelente, oportunidade da construção de uma ponte bem feita entre nós e os outros. Nós, professores (as) e estudantes da Uneb, DCH IV, Curso de Licenciatura de Geografia em Jacobina, e os outros, professores (as), gestores (as) e estudantes da Educação Básica, movimentos sociais, etc., através da construção de um currículo implicado em nosso contexto, respondendo às nossas questões, insuficiências e possibilidades, que efetive seus objetivos e atinja suas metas através das potencialidades que temos juntos, tornando o diálogo entre ambos os níveis de educação uma expressão democrática de construção do Curso de Formação de Professores (as) em Geografia de mãos dadas com a Educação Básica e com interlocutores interessados e interessantes.

Não estou interessado na proposta de dividir tarefas. Para mim, fazer currículo é, antes de tudo, refletir sobre quem deve fazê-lo, com quem e pra quem? É fazê-lo com, não para. Não desejo trabalhar numa grade curricular cerrada e árida, com muralhas impenetráveis, como se a verdade sobre formação de professores (as) de Geografia estivesse somente do lado de dentro da muralha. Muito menos desejo atuar na elaboração de um cavalo troiano às avessas, como se tivesse de vencer uma guerra contra os que estão do lado de fora do nosso "santuário do saber", produzindo silenciamentos a partir de um Currículo-Cavalo de batalha. Não desejo um currículo isolado, arrogante, baseado num pseudo bacharelado que nem forma professor de Geografia, nem forma o pesquisador da área. Quero ouvir o que professores e professoras da Educação Básica têm a dizer e a contribuir ao nosso lado. Não numa guerra, mas numa solidária construção entre pares que se respeitam e que apenas atuam em diferentes níveis de ensino que se complementam. Quero a mulher no currículo e o homossexual também. Quero o negro e o candomblé, o moto taxi, quero o filósofo e o ativista político. Todos (as) a partir de seus lugares, geografando o Currículo de Licenciatura em Geografia na construção desse espaço, aí sim, multirreferenciado socialmente.

Minha proposta é, então, um seminário, através da proposta concreta do planejamento participativo, no qual os sujeitos outros que atuam na Educação básica e na Sociedade Civil Organizada de Jacobina possam pronunciar seu currículo conosco, que formaremos uma comissão de acompanhamento e sistematização a fim de elaborarmos o Currículo de Licenciatura em Geografia, tanto levando em consideração a proposta da PROGRAD, como incorporando sugestões advindas desse processo implicado na sociedade local.

Alguns efeitos benéficos podem ser apontados:

Aproximação maior entre universidade e Educação Básica na formação dos licenciando de Geografia;
Aproximação maior entre universidade e sociedade civil local;
A possibilidade de elaboração de um currículo tramado com as culturas locais;
Desenvolvimento potencial do Estágio Supervisionado;
Elaboração de uma proposta curricular que faz a passagem do senso comum para o conhecimento científico sem negação um do outro;
Fundação de uma condição epistemológica em que saberes oriundos das culturas populares, da Educação Básica e dos sujeitos que as integram, norteiem nossas práticas de ação (pensamento é ação) na formação dos (as) licenciandos (as) em Geografia.,etc.

Desejo ir além das "tarefinhas" que a PROGRAD passou pra gente fazer.

Matriz Curricular:
1. Elaborar um tronco comum de componentes obrigatórios;
2. Avaliar a necessidade da presença de pré-requisitos nos componentes que necessitam de um sequenciamento lógico;
3. Criação de componentes optativos para atender as especificidades dos campi;
4. Discutir nomenclaturas dos componentes para que possam chegar a um acordo;
5. Julgar a proposta das disciplinas de 45 horas passarem a serem de 60 horas.
6. Decidir nas ementas dos componentes Prática de Ensino o que será trabalhado em cada uma delas, de modo a evitar a sobreposição;
7. Definir nas ementas dos componentes de Estágio Supervisionado os conteúdos teóricos a serem trabalhados, uma vez que a questão prática já é bem definida. E discutir se há necessidade de implantação de pré-requisitos nos estágios.

Podemos fazê-las. Vamos fazê-las. Mas desejo “fazê-las com”. Não estou mais a fim de brincar com cavalinhos de guerra.



Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, da Uneb, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

MODELOS DE UNIVERSIDADE

A Universidade como santuário do saber

Nesta, a principal preocupação são com as questões de ordem exegéticas, livrescas. Seus intelectuais não estão preocupados com o mundo, mas com os textos, com as grandes ideias dos mestres do conhecimento. [...] a preocupação do erudito é com o mundo textual e não com o mundo sobre o qual o texto fala. (WOLFF, 1993, p.31). Este modelo fomentou principalmente nas humanidades, pois dificilmente poderia encontrar respaldo nas ciências exatas nem nas ciências sociais. Decorreu disso que o ideal de erudição produziu uma curiosa prole pedagógica no currículo de graduação. (WOLFF, 1993,p.31). O ideal de professor desse modelo de universidade é descrito por Paulo Freire (2001) quando este, em sua Pedagogia da Autonomia, o critica:

Daí a impossibilidade de vir a tornar-se um professor crítico se, mecanicamente memorizador, é muito mais um repetidor cadenciado de frases e ideias inertes do que um desafiador. O intelectual memorizador que lê horas a fio, domesticando-se ao texto, temeroso de arriscar-se, fala de suas leituras quase como se estivesse recitando-as de memória – não percebe, quando realmente existe, nenhuma relação entre o que leu e o que vem ocorrendo no seu país, na sua cidade, no seu bairro. [...] Fala bonito de dialética, mas pensa mecanicistamente. Pensa errado. (FREIRE, 2001, p.30)

Este modelo de universidade, distanciado do seu contexto social, produz, na maioria dos casos, indivíduos inúteis para a sociedade, que os admiram pela palavra, ou por isso mesmo os odeiam, mas não conseguem deles nada mais do que isso.

Na melhor das hipóteses, a erudição desenvolve uma sensibilidade refinada e uma sábia apreciação das complexidades dos caminhos de Deus e do homem; na pior das hipóteses, a erudição se petrifica num pedantismo absurdo a que falta o espírito e o gênio criativo daqueles que escreveram os grandes textos. (WOLFF, 1993, p.31)

Tivemos esse modelo no passado de nossa escola pública, Por onde passaram personagens da nossa política baiana, tais como Antonio Carlos Magalhães, Roberto Santos, Raul Seixas, entre outros. Um professor que adquiria livros na livraria onde eu trabalhava, falava com orgulho daquele tempo em que eles eram obrigados a recitar poesias em latim e em francês, insinuando explicitamente a grandeza do caráter erudito do ensino daquele seu período de garoto e de jovem.

Uma universidade assim

Será uma comunidade de intelectuais autogovernada de que participarão intelectuais-aprendizes cujos estudos são guiados por professores mais experientes sob cuja orientação trabalham. A universidade como comunidade será pequena, informalmente organizada, carregada de tradição e governada, em grande medida, pelo comprometimento de seus membros com a vida de erudição. Terá pouco a ver, de modo geral, com a sociedade mais ampla, limitando-se a seus próprios assuntos e julgando suas atividades por normas internas de erudição e não por normas sociais de produtividade ou utilidade. (WOLFF, 1993, p.32)

Os eruditos se comportam como sacerdotes protetores do conhecimento da tradição, afinal, a universidade é, para eles, um santuário do saber. Seus estudantes são verdadeiros seguidores, apóstolos seguindo um grande mestre atrás do saber. Em nosso caso, nos tornamos "puxa sacos" de professores esperando a mísera aprovação no mestrado ou no doutorado. De todo modo, é preciso "fazer o que o mestre, ou a mestra, manda". 

Esse saber não pode ser contaminado pela vulgaridade do senso comum ou de saberes contemporâneos, de agora, visto que, todo saber de agora, deve ser legitimado pelo saber de outrora, o saber universal, verdadeiro, autêntico. As demandas sociais não interessam para esta universidade, que se fecha em si mesma, acreditando-se purificada das emergências que a história impõe. No texto que tenho em meu blog, “Uma boa aula?”, tem um contexto em que eu fingia ser um erudito, dando a “aula-show”, a fim de impressionar os estudantes e evitar o constrangimento de ser questionado em minha insegurança de professor, sem me preocupar se, de fato, os estudantes aprendiam. 

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Ecinho, Cira e Jorge, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel
Com o auxílio de:

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 20. edição, São Paulo, SP: Paz e Terra, 2001.  
WOLFF, Robert Paul. O ideal de universidade. Tradução: Sonia Veasey Rodrigues, Maria Cecília Pires Barbosa Lima. São Paulo: SP: editora da Universidade Estadual Paulista, 1993.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

A PORTA

Abri a Porta
Dominguinhos

Abri a porta 
Apareci
A mais bonita
Sorriu pra mim
Naquele instante
Me convenci
O bom da vida
Vai prosseguir

Vai prosseguir
Vai dar pra lá do céu azul
Onde eu não sei
Lá onde a lei
Seja o amor
E usufruir do bem, do bom e do melhor
Seja comum
Pra qualquer um
Seja quem for

Abri a porta
Apareci
Isso é a vida
É a vida, sim


Essa porta não se abre para a gente. Ao contrário. Colocam muros cada vez mais altos, cercas elétricas, cães pitbull, seguranças privados, policiais com armas e spray's de pimenta. Mas nós queremos "usufruir do bom, do belo e do melhor." Nós e todas as pessoas, a começar pelos nossos terceirizados funcionários de salários atrasados da Uneb. Nós queremos a vida plena e nos queremos plenos, para provar seu mel. Não aceitamos mais migalhas. Vivemos num país rico e queremos partilhar dessa riqueza. E queremos uma universidade rica com professores, alunos e funcionários produzindo riquezas intelectuais diante das demandas e exigências da nossa política, da nossa ciência, da nossa vida enfim. Porque a Uneb e as demais UEBAs são as universidades do pobre do interior da Bahia! Vamos abrir essa porta e aparecer na cena política! A mais bonita realidade vai nos sorrir!

Abrir a porta na perspectiva dialética não é algo de colocar a mão no trinco e empurrar. Nessa perspectiva será preciso forçar a porta. Porque há um pequeno grupo que se coloca do outro lado da porta. Do lado do privilégio, do lado de dentro da inclusão. E nós, estamos do lado de fora. Estamos na chuva, no frio da exclusão. Não queremos de jeito algum ficar à deriva no mar da história, com sede, com fome, bebendo urina para sobreviver num oceano cujo horizonte oferecido é a morte, apenas a morte. Mais do que querer, precisamos entrar para viver. O portão da universidade precisou ser fechado para que ele sempre fique aberto. Paradoxo? Paradoxo para enfrentar a contradição. A porta: abri-la ou derrubá-la? Acabar com a cisão entre o lado de dentro e o lado de fora? Construir uma outra história? Sim. Somente unindo-nos poderemos ficar fortes o suficiente para derrubar a porta, para acabar com o lado de fora e o lado de dentro e construirmos outras realidades possíveis, de portas abertas e tapete vermelho, ou mesmo sem portas, sem luxo, sem privilégios que geram a pobreza política da nossa gente.

Logo percebemos que, na perspectiva dialética de entender o fenômeno no contexto da realidade baiana e brasileira, abrir a porta exige de nós a percepção crítica de nossa condição humana no planeta, vivendo no interior da Bahia, na Bahia, no Brasil. Exige uma identificação de nossa ontologia. Quem somos? Como nos vemos? Como nos definimos? A dialética tem seu momento de conservação da essência. Essência de uma ontologia gestada historicamente, marcada pelo contexto em que somos engendrados e nos engendramos, nos parimos e quando nascemos historicamente, nossas identidades vão sendo re-definidas. As dores do nosso parto, só nós sentimos. É preciso saber quem somos e onde estamos para saber para aonde precisamos ir.  Depois, é preciso saber como chegamos onde estamos. Precisamos saber quais forças e estruturas nos colocaram e nos mantêm na pobreza, na negação. Que forças e estruturas nos negam uma universidade decente, pública, com qualidade. Precisamos deixar de pagar o preço do acúmulo do capital, do superávit primário para pagar a ganância que nos apaga a esperança. Precisamos nos colocar na antítese dessa história. É a hora. É sempre a hora. Agora.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, da Ana Lúcia, de Cira, Jorge e Ecinho, Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

quarta-feira, 13 de maio de 2015

GREVE E PARTICIPAÇÃO

Mais uma greve. E aqui estamos nós. Depois da dor de cabeça, tomei um comprimido e fui dormir. Acordei pensando nesta greve. Quer dizer: fui dormir pensando nela. E pensando como nossas greves são e como elas podem ser. O que é greve mesmo? Para que ela serve? Como a greve pode ser gestada? A greve é uma ação ou uma reação de uma categoria profissional? É de uma categoria profissional ou, em se tratando da universidade estadual baiana, uma greve de categorias lutando pela sobrevivência da universidade estadual neste território? A greve envolve toda a categoria ou, pelo menos, maior número de indivíduos que a compõem? Existe uma maioria silenciosa na greve de professores, estudantes e funcionários que são contra seu desencadeamento? Essa maioria deve ser levada em conta? Nossos (as) dirigentes sindicais têm um modelo de universidade a ser defendido, colocado como proposição? Em caso de Estatuinte, que modelos de universidade seriam contrapostos dialeticamente para que a construção do modelo possível historicamente seja implantado numa síntese construída na participação?

E todas essas perguntas passam também pela greve. Esta pode ser apenas uma parada para ver como o Governo age diante de nossas demandas e exigências, ou pode ser mais um momento intenso que, para além de fechar portões e ocupar órgãos públicos, pode intensificar reflexões sistemáticas que vão aprimorar nosso entendimento do significado da universidade estadual baiana para nosso território, fortalecer nossas convicções em torno de sua defesa e de sua construção rigorosa, e melhorar a qualidade dos serviços que prestamos à população como funcionários públicos, como estudantes de universidades públicas baianas, como intelectuais – professores (as), estudantes e funcionários (as) (meu conceito de intelectual é gramsciano) – a serviço da emancipação do ser humano e do desenvolvimento de nossa sociedade, baseado em princípios democráticos, na produção científica e na solidariedade com aqueles e aquelas que sofrem as exclusões dessas “velhas formas do viver”, a começar pela defesa dos nossos terceirizados funcionários da limpeza e da vigilância.

A greve pode ser mais uma possibilidade de identificar e enaltecer esse nosso “Tempo-Rei” na universidade baiana. Um tempo em que a pesquisa seja algo comum, parte do ensino e a extensão seja um serviço projetado com a comunidade – nunca para a comunidade, também aliada à pesquisa e ao ensino, num currículo construído ativamente por metodologias dirigidas por princípios acionados e acionando o planejamento de nossas atividades acadêmicas. E isso tudo passa pela participação. Segundo Habermas (1975) apud Catani e Gutierrez (2000) Participar significa que todos podem contribuir com igualdade de oportunidades, nos processos de formação discursiva da vontade. Ou seja, participar consiste em ajudar a construir comunicativamente o consenso quanto a um plano de ação coletivo. (GUTIERREZ e CATANI, 2000, p.62).

Nesta definição percebemos que a construção do consenso quanto a um plano de ação coletivo requer a participação com qualidade política, onde todos (as) podem contribuir com igualdade de oportunidades (mesmo tempo de fala, ambiente de respeito às diferenças, autonomia responsável, capacidade de articulação, domínio de informação de fontes seguras, exercício da liderança, espaços formativos e autoformativos, etc.) nesse processo. Contudo, a participação apresenta problemas que devem ser levados em conta para não construirmos uma visão ingênua e superficial sobre este aspecto da política.

A vontade de poder quantificar os graus de participação, aliada à inexistência de um critério consensual que a defina, leva o pesquisador a ter que lidar com duas questões que dificultam qualquer análise. Em primeiro lugar é muito complexo dar conta da consciência individual do ator chamado a participar, sua verdadeira e íntima vocação, compreendida aqui como a disposição pessoal para engajar-se no processo. Outro problema é que esta situação permite associar o grau de participação ao número de pessoas consultadas; ou seja, induz a acreditar que muitos indivíduos, interferindo fortemente em muitas decisões, constitui um sistema bastante participativo. Ora, sabendo que é característico do homem dar palpite em todo e qualquer assunto do qual tome conhecimento, ao associar-se o maior grau de participação ao maior número de pessoas interferindo no processo, entra-se numa espiral de expectativas impossível de atender nas organizações, que pouco ou nenhum compromisso têm com qualidade e eficiência. (GUTIERREZ e CATANI, 2000, p.61)  

Assim, para que a participação tenha bom êxito é preciso que haja uma gestão inteligente do processo decisório. É preciso que as lideranças que estão guiando o caminho que a instituição quer trilhar – seja escola, seja sindicato, seja um movimento social, uma ONG, seja uma cooperativa, etc. – precisam planejar bem suas reuniões, sugerir prioridades a partir do debate que a plenária enseja, lembrar os objetivos gerais que orientam as ações da instituição e gestar o processo de decisões coletivas, caso contrário a participação pode sucumbir a própria instituição em situações contrárias aos objetivos emancipatórios que a orientam. [...] a consulta individual aos atores envolvidos não garante, por si só, a participação consciente. Uma decisão prejudicial ao grupo, ou simplesmente equivocada, pode ser autorizada por um número imenso de pessoas. (GUTIERREZ e CATANI, 2000, p.61) 

Nesta greve algo que gostei logo de cara foi o protagonismo dos (as) estudantes. Elas e eles deixaram de vir a cabo nas greves, com falas marcadas por clichês da simbologia discursiva sindical ou política. Começaram a falar sua própria língua: a língua dos (as) estudantes. Com o domínio de sua própria língua abre-se o caminho de uma historicidade própria, do surgimento de um sujeito político-institucional autêntico, com suas próprias pautas, que as vezes coincide com as nossas de professores (as), em torno da defesa da universidade pública. A participação exige conteúdo. Exige legitimidade discursiva. E esta legitimidade tem de ser engendrada nas entranhas de uma ontologia histórico social que forja e fortalece identidades amplas que aglutinam identidades pessoais nas lutas pelas garantias de seu espaço, de suas palavras, de seu lugar no mundo – mundo entendido aqui como universidade estadual baiana – de forma respeitosa e até orgulhosa. O orgulho de ser estudante da universidade estadual baiana, que tem o direito de decretar sua própria greve e de construir a sua própria ágora.

É neste contexto, por fim, que a greve pode ter uma qualidade política, contrária a toda uma pobreza política que nos assola e que nos reduz à condição de escravos obedientes aos nossos senhores que decidem sozinhos o nosso destino. Participar da greve é exercer a indignação diante dos dados levantados sobre a situação da nossa universidade! Participar da greve é associar interesses comuns para fortalecer nosso exército diante do asfixiamento financeiro que nossa universidade estadual baiana sofre, produzindo precarizações que podem nos levar ao descredenciamento. Participar da greve significa entender que a Uneb, por exemplo, é a universidade do pobre do interior do estado, mas que esta universidade não deve ser pobre, mas, ao contrário, rica, com recursos, pesquisa e ensino atrelados; professores e funcionários bem pagos, estudantes protegidos e assessorados, produzindo artigos desde a graduação; funcionários satisfeitos com seu trabalho, produzindo a universidade conosco, protagonizando lutas e defendendo seus direitos. Participar da greve é, sobretudo, entender que os privilegiados não desejam universidade pública e gratuita para o povo, que já paga tanto para esse país andar, e ainda tem de pagar por saúde, educação, habitação, transporte, esporte e lazer. Participar da greve é entender que, como professores de universidade, devemos desenvolver nossas pesquisas, participar da gestão, ser cogestores, lutar pela mudança do poder decisório no interior da Uneb, que concentra suas principais decisões no CONSU – Só havia um diretor na Assembleia de deflagração da greve – e tudo isso exige de nós maior concentração, maior envolvimento, um protagonismo ativo de sujeitos que se constituem, de fato, em sujeito com qualidade política. Participar da greve é discutir o modelo de universidade que queremos:
  • ·  Um santuário do saber?
  •     Um campo de treinamento para profissionais liberais? 
  • ·    Uma agência de prestação de serviços?
  •     Uma linha de montagem para o ser humano do sistema? 
  •     Uma universidade que trabalhe formação profissional, engajamento político e comprometimento ético no ensino na pesquisa e a extensão no contexto local e global?

Assim, com essa qualidade, a participação pode fazer uma greve, de fato, acontecer. Uma greve grávida...

GREVEDEZ

A greve é grave
é grávida
A greve é chave,
é ávida.

A greve é válida
contra o agrave
do Estado ao estudante, 
ao professor, 
ao funcionário.
A greve é dor,
é o estado grave
da educação pública superior.

Grave isto: sem greve
não arde
não há alarde
da nossa gravidade.

Estamos na base
do pão e água,
a universidade estadual baiana 
quase de fome, à míngua
vivendo de nome.

A greve é grávida
e essa é a chave
da nossa labuta ávida
nossa árdua luta
contra uma política árida.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes, da UNEB e de Jesus, O Emanuel
Com o auxílio de:
BOBBIO, Norberto. Estado, governo, sociedade: para uma teoria geral da política. 4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
BUARQUE, Cristovam. A aventura da universidade. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista; Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994. 
DEMO, Pedro. Pobreza política. A pobreza mais intensa da pobreza brasileira. Campinas, SP: Armazém do Ipê (Autores Associados), 2006.   
GUTIERREZ, Gustavo Luis; CATANI, Afrânio Mendes.  Participação e gestão escolar: conceitos e potencialidades in Naura S. Carapeto Ferreira (org.). Gestão democrática da educação: atuais tendências, novos desafios. 2. ed., São Paulo, SP: Cortez, 2000.
MAXIMO, Antonio Carlos. Os intelectuais e a educação das massas: o retrato de uma tormenta. Campinas, SP: Autores Associados, 2000.
WOLFF, Robert Paul. O ideal de universidade. Tradução: Sonia Veasey Rodrigues, Maria Cecília Pires Barbosa Lima. São Paulo: SP: editora da Universidade Estadual Paulista, 1993.