quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

NÃO É RECORTE. É ESTRUTURANTE!

A morte violenta de jovens em Salvador não pode ser entendida historicamente nesta frase. Somente se acrescentarmos a palavra negros (as), aí começamos a explicar o fenômeno social, político, econômico e cultural no Brasil e, em especial, na Bahia. O racismo em nosso país, desdobramento perverso do processo de escravatura que aqui enriqueceu essa elite ordinária, expressa a sua lógica em números bem claros, levando-se em consideração inicialmente dados educacionais.

Desses 981.964 estudantes da Rede Estadual de Ensino na Bahia, 312.963 estão no Ensino Fundamental, 596.909 estão no Ensino Médio e 72.092 no Ensino Profissional. A tais dados acrescentem-se os recortes abaixo, por gênero e por cor/raça.

Os pardos estão em primeiro lugar em número de matrículas, não necessariamente de frequência às aulas, vindo em seguida os que não têm identidade racial, os brancos e os negros em seguida. Mas vamos verificando mais dados fornecidos pelo Censo/INEP 2014.


Nos dados acima vamos percebendo o cruzamento de dados que vai refletir na reportagem especial do jornal Correio de hoje, quinta-feira, 18 de dezembro de 2014, páginas 22 e 23 no especial “Tempo Perdido”. Observamos que os homens estudam menos que as mulheres, isso eu percebo nas salas de aula que frequento, do Ensino Fundamental ao Doutorado. Como vimos no gráfico acima no Ensino Fundamental tudo bem. A lei obriga as famílias a colocar seus filhos e suas filhas na escola e, associado ao Programa Social Bolsa-Família, há um resultado muito bom de acesso e frequência à instituição escolar.

Contudo, à medida que avança o nível de ensino as mulheres brancas e os homens brancos vão sendo a maioria dos estudantes. Mesmo no Ensino Médio o número de homens brancos já é maior que o de mulheres negras, delineando-se uma situação que irá piorar no Ensino Superior, com apenas 10,9 % das mulheres negras e 7,4 % dos homens negros ou pardos neste nível de ensino. Ora, ao olharmos novamente para o número de matriculados na Bahia, de um total de 3.767.970 estudantes, com 1.632.145 de pardos e 291.928 de negros, o que juntos dá um total de 1.924.073 estudantes pardos e negros e a maioria dessas crianças e jovens vão sendo excluídos do sistema de ensino baiano até que, somente poucos deles e delas consigam acesso ao ensino superior, um importante indicador nos dias de hoje para alguma esperança de ascensão social e econômica.

Entre pedras e passarinhos.

Misturando os renomados poetas Mário Quintana com Carlos Drummond de Andrade, perguntaria: que pedras são essas que atravancam o caminho desses e dessas jovens pardos (as) e negros (as)? Segundo o jornal Correio, página 3, de hoje, numa reportagem de Naiana Ribeiro e Agências, sobre a queda da taxa de fecundidade das mulheres baianas e brasileiras

O índice dos chamados “nem-nem” – geração de jovens entre 15 e 29 anos que nem estudam nem trabalham – é de 20,3% no Brasil, já no Nordeste vai para 35,2%; na Bahia os “nem-nem” são 23,9% e na Região Metropolitana de Salvador (RMS) 21,6%, diz Joilson. O funcionário do IBGE observa que esse fenômeno acontece em todos os estratos sociais. “É uma figura que, tendo uma formação básica ou até mesmo superior, não conseguiu encontrar as atividades profissionais desejadas. Entre as pessoas de classes sociais mais baixas, tem a ver com a baixa qualificação e exclusão da atividade de trabalho. Entre as mulheres, que são 69% dos “nem-nem”, tem a ver com atividade doméstica, por terem filhos, explica. (RIBEIRO, p.3, 2014)

Os “nem-nem” negros e pardos e mulheres negras vão deixando de frequentar as escolas, deixando de perceber a educação como caminho viável para a conquista de uma vida digna. Eles e elas em sua maioria vão abandonando a escola no Ensino Médio e vão para onde mesmo? Reportagem supracitada do Correio, feita por Alexandre Lyrio e Edvan Lessa – p.22 e 23 – nos ajuda a responder boa parte dela.
Há algo estruturante socialmente que está na raiz da produção desse fenômeno, que não pode ser compreendido apenas por um recorte de cor/raça, de gênero, nem mesmo de classe. E esse “algo estruturante” tem um nome bem específico: racismo institucional. Esta praga ideológica, alimentada pelas brasas vivas da escravidão e do modo como ela ocorreu no Brasil, produz efeitos perversos sobre milhões de jovens que não conseguem oportunidades e possibilidades de prosseguir suas vidas adiante. E a maioria esmagadora desses jovens, como bem o demonstram os gráficos acima elaborados pelos jornalistas do Correio, são negros (as). Somente este ano em Salvador foram 115 adolescentes, prestem bem atenção: adolescentes! Assassinados na capital da Bahia.

Da minha geração foram vários conhecidos, jovens ou ainda adolescendo, que desapareceram pela violência crescente que nos cerca. O racismo institucional não está apenas na polícia baiana. Está na escola, está nas igrejas, nas famílias, nas universidades, nos hospitais e postos de saúde. A polícia é violenta porque temos uma sociedade igualmente violenta que legitima as execuções. A ideologia perversa que legitima a morte de milhares de jovens e adolescentes negros por ano, é retroalimentada, atualizada e aperfeiçoada em muitos espaços institucionais, produzindo cadáveres e sofrimentos daqueles que deveriam ser orientados amorosamente por nós para ocupar a nossa história no mais alto grau de dignidade.

Este texto, fala pra mim também. Perguntando-me sobre o meu modo sutil e muitas vezes inconsciente, de participar desse processo de negação do outro por conta da cor de sua pele, de sua raça, de sua identificação. Se a gente não se dispuser a perceber como estamos enredados nessa trama macabra, jamais conseguiremos superar esse fenômeno que nos nega ao negar o outro, julgando-o e encaminhando sua execução para a naturalidade de nosso cotidiano. Por isso meu caro licenciando, minha cara licencianda, que agora está adentrando o sistema de ensino baiano. Pense neste fenômeno com cuidado e examine os seus passos em sala de aula, a fim de combater o racismo institucional. Ele, de fato, como afirmou Fátima, mulher negra comprometida com as causas raciais e de gênero, não é recorte. É estruturante! 



Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel com o auxílio de

LYRIO, Alexandre; LESSA, Edvan. Sangue amargo: Adolescentes são mortos mais que matam. Correio. Caderno MAIS, Especial Tempo Perdido. Salvador, quinta-feira, 18/12/2014, p.22-23.

RIBEIRO,  Naiana e Agências. Menos Mães. Correio. Salvador, quinta-feira, 18/12/2014, p.3.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

ABRA O PRESENTE “ABENÇOADO”... ABENÇOADO?

Quando eu era menino, fui levado a acreditar em Deus através da fé de minha mãe. E, por tabela, vieram os anjos, os santos, os padres, os pastores e as freiras. Tinha um homem, pastor Isidório, do qual minha mãe falava com admiração pela fé que esse homem expressou. Segundo ela, no dia em que esse homem foi “se converter” uma dor muito forte o atacou no estômago. Mas ele permaneceu firme. Orou, orou e conseguiu concretizar, em sua vida, a sua fé. Sempre lembrei dessa história como uma lição para muitas outras coisas. Quando minha mãe contou, ela estava me dando um presente. Muito embora receber e desembrulhar o presente, como o faço agora, sempre dependeu da minha vontade. E ela me deu. Sem saber se eu iria gostar.

E lá venho eu, depois de sua morte. E lá venho eu, tendo que lidar comigo mesmo, sem mãe e sem pai. E agora sendo pai e tendo elaborar presentes para que meu filho possa desembrulhar, quem sabe, algum dia. Tenho de continuar a história de minha família, tenho de continuar a história da minha vida. Mas, será que nós percebemos o valor dos presentes que recebemos? Será que nós pensamos em desembrulhar-los para aproveitar as suas dádivas?

No bairro onde morei alguns conhecidos me chamam, seguindo o campo semântico de enunciação deles, de “abençoado”. Eu escuto e finjo que não ligo, pois entendo – pode ser equívoco meu – que “abençoado”, significa relativamente bem sucedido no mundo material da existência. Caso o sentido seja esse, não me considero “abençoado”. Porque em breve a doença e a morte irão tornar essas “bênçãos” insignificantes, do ponto de vista espiritual. Mas isso não significa que eu faço uma ode à pobreza como forma de "salvação", de expiação necessária para alcançar o Reino de Deus. Isso é ideologia fajuta dos donos do poder e do dinheiro! Quero que todos e todas tenham uma vida boa, com moradia decente, acesso a bens e serviços públicos e privados de qualidade, etc. 

Faz-me lembrar de um poema que escrevi ao final de uma prova de Psicologia da Educação, muitos anos atrás...

DE REPENTE RIO

De repente acontece e,
nessa corrente,
desaparece.
O que fica?

O rio caminha serenamente
Silencioso
Vai vagaroso
e eternamente fundir-se ao mar...

Ele me ensina que,
devagar e sempre
em minha sina
eu vou chegar eternamente.

O que fica? O que fica dessas “bênçãos”? Penso.
E hoje, quando acordei, uma leveza revelou-se em meu ser. Acordei como se estivesse acordando mesmo! Acordando de um eu que, dormindo, não percebia certas coisas preciosas. Percebi que Deus não abençoou-me quando fui relativamente “bem sucedido” em minha vida material. Não foi salvando a minha vida de algum acidente, ou curando-me de alguma doença, nem foi possibilitando-me acesso ao dinheiro ou ao poder que Deus me abençoou. Foi possibilitando melhorar o meu ser, avaliar minhas carências espirituais, meus atrasos como pai, como marido, como padrasto, como amigo, como professor, como uma pessoa, um ser humano, que Deus foi me mostrando o seu presente, não apenas para mim, para a humanidade inteira, a fim de que eu me tornasse uma mensagem Sua. Uma mensagem de amor, de compreensão, de paciência comigo e com os outros, de cuidado com a natureza, com as forças vivas do universo enfim.

Eu quero abrir esse presente que me foi dado. Um presente que me tornará uma pessoa melhor nesse mundo e nos outros. Um presente que eu só abro se eu mesmo me abrir para ele. Só assim poderão me chamar de abençoado.



Joselito da Nair (Grande Mãe!), do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel. 

domingo, 2 de novembro de 2014

A HISTÓRIA NA COZINHA AQUI DE CASA

Hoje, estava auxiliando Rafael nos estudos de História e de Matemática, pois ele estava encontrando dificuldades para entender a dinâmica da história e suas ressonâncias na economia, na política e na cultura. Nos estudos de História fomos analisando O reinado de D. Pedro II: modernização e imigração. Nesta análise fomos percebendo que o Brasil não foi dividido pelo PT, como alguns ideólogos querem nos fazer crer.

O Brasil não saiu dividido das urnas. Na verdade, ele sempre esteve dividido e qualquer um que tenha estudado a nossa história deveria saber que nunca existiu um “povo brasileiro” em abstrato, mas senhores e escravos, brancos e negros e trabalhadores e patrões, e isso não é uma genial invenção do PT. O que acontece hoje em dia, ou melhor, o que vem acontecendo desde que o PT assumiu o governo, e que se acirrou ainda mais a partir das jornadas de junho de 2013, foi que os setores subalternos se deram conta de que o país nunca foi de todos e então partiram para cobrar sua parte no butim. (SENA JÚNIOR, 2014, p.A2)

Fui orientando Rafinha a perceber a formação histórica de nossa divisão entre sudestinos e nordestinos, norte/sul, negros, índios e brancos, trabalhadores e patrões, etc, como o historiador Sena Júnior apresenta acima. E, lendo, fomos percebendo os indícios históricos dessa divisão:

Durante o longo reinado de D. Pedro II (1840-1889), o Liberal e o Conservador eram os partidos políticos com maior poder no Brasil. Seus líderes eram fazendeiros, comerciantes, funcionários públicos ou militares; pertenciam às elites e tinham interesse em manter a maioria da população excluída da vida política nacional. (BOULOS JÚNIOR, 2012, p.221)

Assim fui mostrando as raízes do Brasil e de sua divisão nascida do modo como nossas relações étnico-raciais, econômicas, políticas e culturais foram sendo delineadas, atravessadas pelos inúmeros preconceitos, pela escravidão e pela exclusão da maioria da população do acesso à riqueza nacional, produzida por todos. “O Brasil é o café e o café é o negro”. – Frase que circulava no Império pelos idos de 1875.

Aproximava-se o horário do almoço e a fome foi nos convocando para a cozinha. Ana preparou um delicioso almoço. Concluímos o primeiro tempo do estudo e almoçamos. Bom, depois do almoço, fui lavar os pratos e as panelas e solicitei que Rafinha fizesse o mesmo com o seu prato. Ao que ele retrucou: – Mas meu pai, porque a gente não deixa aí na pia se a moça – a senhora que vem duas vezes na semana, segunda e quinta-feira nos ajudar na limpeza da casa – vem amanhã? Eu lhe respondi: – Meu filho, você não entendeu a história que a gente acabou de estudar? Você quer continuar num passado em que as elites deixavam ao povo o trabalho pesado e ainda usufruíam da produção dessa riqueza? Você quer que, nesta cozinha, do dia 02 de novembro de 2014, a história de negação do povo brasileiro se repita, colocando-se no lugar do privilegio e da negação do trabalho e do trabalhador? Como você se vê na história brasileira? Como um "filhinho de papai" a ser servido em seus mesquinhos desejos?

Então, fomos refletindo sobre a história como processo permanente de luta, de posicionamento ideológico baseado em convicções firmes que nos exigem coerência, e não em estudos abstratos descomprometidos com as mudanças e transformações históricas, essas sim, que exigem comportamentos diferentes em todos os âmbitos e situações, desde a cozinha de nossa casa e da qualidade das relações que estabelecemos com o outro até a gestão nacional dos recursos de nosso território.

Joselito do Zé, da Nair, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel. Com o auxílio de:

BOULOS JÚNIOR, Alfredo. História sociedade & cidadania, 8.º ano. 2. ed. São Paulo: FTD, 2012.

SENA JÚNIOR, Carlos Zacarias. Os anéis e os dedos. Salvador. A Tarde do sábado, 1/11/2014.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

INTELIGÊNCIA SOLTA

Quando alguém está imaturo e outro alguém lhe diz que esse alguém tem a inteligência solta, logo, ele vai cair na tentação de amarrá-la a alguma instituição disponível que, como diria Foucault (1999), “há muito tempo cuida de sua aparição [Discurso], que lhe foi preparado um lugar que o honra, mas o desarma; e que, se lhe ocorre ter algum poder, é de nós, só de nós, que lhe advém. (p.7).

O dizer administra politicamente o sentido, dando-lhe um direcionamento ideológico. O que não foi dito, com seus “poderes e perigos que mal se imagina” (FOUCAULT, 1999, p.8), enseja a “amarração” nas múltiplas instituições existentes: família, igreja, escola, movimentos sociais, órgãos da administração pública, empresas privadas, organizações criminosas, instituições de ensino superior e, entre essas últimas, as universidades. Contudo, apesar de todas essas “opções” institucionais, a materialidade histórica de nosso país aponta a universidade como a instituição privilegiada para amarrar a inteligência solta. Um dos efeitos dessa prática discursiva, no contexto do capitalismo patrimonialista brasileiro, é o fortalecimento da instituição universitária como o portal da legitimação da desigualdade social.

Os professores não se consideram engajados em um processo de seleção social. Eles verdadeiramente amam e acreditam no valor do que ensinam e estudam. [...] Mas, todos nós, apenas por participar institucionalmente da atribuição de créditos, notas e diplomas, servimos sem intenção como porteiros-guardiães dos níveis superiores da pirâmide social. (Robert Paul Wolff, 1993)

Amarrar a “inteligência solta” à instituição universitária brasileira é aprisioná-la no contexto de uma sociedade capitalista e patrimonialista ainda com um amplo grau de desigualdade nesta primeira década do século XXI. E há um efeito ainda pior: domesticar a inteligência, para que ela se familiarize com a desigualdade, naturalizando o que é produzido pela história.

A “inteligência solta”, de um ponto de vista emancipatório, pode filiar-se ao movimento social, sem deixar a universidade, onde, se assim o quiser, pode vincular-se politicamente e ideologicamente a fim de elaborar princípios gerais que orientem sua competência técnica e o seu domínio tecnológico a serviço da ascensão política e econômica das classes populares, pois a transformação da universidade não vem dela mesma.

Ninguém tenha dúvida, o destino, a forma futura da universidade brasileira está sendo decidida neste momento muito mais num comício de camponeses do Nordeste, do que nas salas de reuniões dos Conselhos de Educação.” (PINTO,1994, p.13).


Quem dará nova forma e atuará decisivamente na reestruturação da universidade e já está fazendo isto é o movimento negro, é a organização e a ação política dos indígenas, dos trabalhadores rurais, do movimento feminista, do movimento gay, e, espero, dos estudantes e professores de modo geral, de braços dados com os movimentos sociais na transformação do projeto cultural mais amplo que rege essa nação, em direção a sentidos democráticos emancipatórios, atuando na superação das estruturas que asseguram a desigualdade em nosso país.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.  Com o auxílio de 

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Tradução de Laura Fraga de Almeida Sampaio. 5. ed., Edições Loyola. São Paulo: 1999.  

PINTO, Álvaro Vieira. A questão da universidade. 2. ed., São Paulo: Cortez, 1994. 

WOLFF, Robert Paul. O ideal da universidade. Tradução de Sonia Veasey Rodrigues, Maria Cecília Pires Barbosa Lima. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1993. 

QUAIS OS INTERESSES QUE ESTÃO POR TRÁS DAS ELEIÇÕES DE 2014? DO MORALISMO UDENISTA À COBIÇA DOS TRILHÕES DE DÓLARES DO PRÉ-SAL

Rualdo Menegat,
Professor do Instituto de Geociências da UFRGS


As eleições em curso demostram que houve uma radical mudança no Brasil. Os temas em debate dizem respeito às questões sociais, étnicas e culturais. Discute-se com afinco o papel e a importância do programa a bolsa-família, às políticas de educação, habitação e direitos humanos. Também marcam o tom da campanha as questões de gênero, homofobia, e os direitos das minorias.  Todos esses temas abafados por décadas fizeram emergir as forças do retrocesso. Depois de campanhas intensivas contra a política e os partidos, buscando surfar na onda das manifestações de massa de 2013, a direita brasileira converge para um mesmo fluxo furioso. Busca transformar a política em uma espécie de religião que opera apenas com base no moralismo. Dessa forma, suprimem-se os interesses de classe por uma ideia simplificada de combate à corrupção.

Essa simplificação que reduz a política a uma mera disputa moral abriu espaço para que em vez de discussões programáticas e estratégicas, o palco fosse ocupado por uma impressionante onda de evangelizadores moralistas.  Todavia, os moralistas de plantão atuais não resistem sequer a um bafômetro. Isso quer dizer que são moralistas na medida em que esse discurso serve para demonizar o PT, o governo Dilma e as políticas sociais. Nesse engodo, entrou a evangelizadora Marina, que rapidamente abandonou seu discurso verde para cair no catecismo aecista.

Essa tática não é nada nova na política brasileira. Tem suas raízes no udenismo, nos camisas verdes do integralismo (versão tupiniquim do fascismo), que levou ao suicídio de Getúlio e ao Golpe de 64, que depôs o governo de João Goulart. Contra as políticas sociais e progressistas, as forças do retrocesso atacam com discursos moralistas: “a corrupção está tomando conta”, é o que apregoam por meio de seus jornais marrons.  Certamente que para a elite brasileira, políticas públicas a favor dos excluídos devam ser vistas como uma anomalia na trajetória republicana brasileira em que as elites com muito pouco virtuosismo comandaram esse país.

Portanto, é hora de se fazer uma pergunta que Brizola brandia em época eleitoral: que interesses se escondem por trás desse falso moralismo, na verdade, golpista, capitaneado pela mídia monopolista? O que essa nuvem moralista está escondendo?

O pré-sal e o índice de cobiça pelo Brasil

Vamos encontrar a resposta de forma muito evidente: a descoberta do petróleo do pré-sal, cujas reservas ultrapassam 100 bilhões de barris, ou seja, valem entre 5 a 10 trilhões de dólares, elevou sobremaneira o índice de cobiça pelo Brasil por parte do capital internacional. Se há quatro anos o pré-sal ainda era uma promessa, hoje ele já é uma realidade tangível, isto é, já está sendo explorado.
Foi exatamente o governo da Dilma que preparou o Brasil para a exploração do pré-sal, tanto do ponto de vista logístico e industrial (ampliação das refinarias, portos, indústria naval, etc.), quanto político (repartição dos royalties advindos de sua exploração para todos os estados e para políticas sociais definidas). O governo Dilma tem desenvolvido políticas efetivas para que o pré-sal seja inteiramente nosso, da exploração ao refino até a divisão de royalties, o Brasil poderá incrementar como nunca seu desenvolvimento social, sua saúde e educação.

A crise econômica que se abate sobre a Europa e nos EUA fez aumentar sobremaneira o interesse do capital internacional pelos trilhões do pré-sal brasileiro. Desde a eleição de 2010, o índice de cobiça aumentou mais de cem vezes.  O Brasil hoje está na mira do capital internacional como nunca esteve em sua história. Injetar nos cofres dos países ricos um montante dessa ordem em curto prazo pode ser estratégico para a política de torniquete imposta pela Alemanha e os Estados Unidos.

Não há dúvidas que políticas oriundas da cartilha neoliberal, como as de Aécio, facilmente vão colocar essa riqueza nas mãos do capital internacional, em vez de colocá-la na mesa e nas escolas dos brasileiros. Até porque essa elite brasileira historicamente sempre se nutriu de seu complexo de dependência colonialista, e agora, está com pressa para entregar o pré-sal ao capital internacional (a título de que não sabemos explorar e que na Petrobras somente há corrupção) e de se alinhar à política de torniquete e exclusão social capitaneada pelos ricos, o que os faz parecerem austeros para combater a inflação. Os interesses por trás dessa eleição são claros e nos resta rechaçar essas forças do retrocesso e do entreguismo – como se dizia antigamente – que estão enevoadas pelo manto evangelizador do falso moralismo golpista, e nada emancipatório, como bem sabemos por meio de bons manuais de história do Brasil.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

MEU SINCERO VOTO

Neste ano eleitoral, em que decidimos quem vai governar nosso país, precisamos pensar criticamente a propaganda eleitoral que decorre desse importante processo. Percebo que alguns grupos defendem com veemência a reeleição de Dilma e os grupos antagônicos endemonizam a mesma e o PT, colocando o Aécio como o candidato da “mudança”, num falso jogo maniqueísta que em nada esclarece a situação real em que nos encontramos. O velho jogo do (a) santo (a) e do (a) demônio (a) está instaurado, silenciando sobre projetos, ações, avaliações, atitudes e comportamentos que serão tomados baseados em princípios gerais de governo. Os debates e a propaganda política pensam que engana a população brasileira, que chegou, graças ao próprio PT, a um maior e melhor nível de acesso à informação e à formação, mas que, dialeticamente, reflete sobre os rumos que o Brasil deve tomar para que suas conquistas sejam preservadas e para que nos tornemos uma nação de fato.
A crítica que faço é a respeito de posicionamentos ideológicos rasteiros, que vão na esteira desse maniqueísmo instaurado em quase todas as eleições, mas potencializado nesta. Um desses sentidos é baseado na ideia da negação da dialética, na medida em que, indivíduos que eram pobres, tornaram-se classe média graças, segundo essa ideia, tão somente ao PT e ao “Pai Lula”, a quem devem ser eternamente gratos, só votando nos candidatos que ele apóia. Nesse sentido, eu melhorei minha condição econômica porque Lula leu bastante – coisa difícil de acreditar – pagou a inscrição em 2002, fez o concurso público por mim e colocou-me na universidade pública baiana na função de professor, como um bom companheiro de partido. Não. Eu lutei e minha vontade e um pouco de sorte, me fez chegar até aqui. Depois, eu e minha esposa, fizemos um planejamento, economizamos em função deste planejamento e, em alguns anos conseguimos juntos, melhorar nossa condição humana. Sou um intelectual e me recuso a votar obedientemente, como um ser medíocre que não tem capacidade de selecionar, sistematizar e interpretar informação. Recuso-me a abandonar minha capacidade de pensar criticamente. Não é o PT que paga minhas mensalidades. Não posso, de forma alguma, afirmar que o PT não cometeu erros grosseiros e não se envolveu no “toma lá dá cá” que caracteriza quase todos os partidos brasileiros, incluindo o PSDB.   
Contudo, essa mesma capacidade crítica não pode deixar de reconhecer que foi o PT que criou as possibilidades concretas para que eu e tantos outros pudéssemos avançar nas conquistas que permitiram nossa chegada até aqui nas condições que temos atualmente. Sem a ampliação do financiamento da Caixa Econômica Federal não seria possível conseguir morar onde moramos atualmente. Sobre automóvel eu não considero uma boa política, prefiro a melhoria do transporte público. Mas sobre moradia, educação superior e a contratação dos médicos cubanos, entre outros, não há como negar. Essa mesma capacidade crítica não pode deixar de perceber que no Governo Fernando Henrique Cardoso, embora tivesse o mérito de combater de forma criativa e competente a inflação, nossa mudança foi conservadora. Nela, pobres, negros e nordestinos não tiveram vez. As políticas para a Educação Básica do PT deixam muito a desejar, embora a questão do piso nacional do professor e as universidades federais na Bahia e no Nordeste tenham sido iniciativas salutares e que vão provocar transformações significativas mais à frente.
Os médicos cubanos foram fundamentais para a saúde das pessoas mais pobres dos lugares onde médicos brasileiros, branco e homem em sua maioria, não queriam ir, além de ver isso como um fardo de início da profissão. O Programa “Mais Médicos” combateu, na prática, a arrogância e o preconceito do suposto “doutor” – sem doutorado – em cujo plantão, escondia-se em algum cômodo secreto do hospital ou posto de saúde e mal atendia a população pobre das cidades interioranas e das periferias de Salvador, com poucas exceções. Os médicos e as médicas cubanas, negros e pardos em sua maioria, vão às residências das pessoas mais simples. Fazem o diagnóstico enquanto estabelecem relações de respeito com atenção e cuidado. É uma lição ética e política para os “nossos” “doutores”. O “Mais Médicos” vem contra toda uma história que foi inaugurada quando a Faculdade de Medicina da Bahia foi fundada, para servir à aristocracia que chegava de Portugal e não ao sofrido e abandonado povo da colônia, principalmente negros e pardos, que nem povo era para eles. Nesse sentido, o PT acertou em cheio!
Na questão dos direitos humanos o PT apresentou avanços em relação à negritude, e à mulher, embora tivesse titubeado em relação aos homossexuais. Mas, de qualquer forma, é preciso o enfrentamento aos pastores do apocalipse, entre eles, o Malafaia, a fim de ver respeitados direitos fundamentais dos seres humanos. Malafaia e Feliciano apoiando Aécio não vejo com bons olhos. Significa retrocesso dos brabos. Assim como na Igreja Católica, que teve recentemente aqui em Salvador um de seus religiosos assassinado covardemente, há homossexuais, nas evangélicas também há. A hipocrisia é que impede que muitos (as) “saiam do armário”. Todos (as) são do mesmo mundo. Mas, como diria Sartre, “o inferno é o outro”, não é mesmo?
 Por essas, e outras, é que voto na Dilma, contrariado, porque esperava que este governo fosse mais sério, mais ético, que não vendesse ministérios a preços de banana para os "metralhas de Patópolis", contradizendo suas políticas sociais positivas. O Brasil não pode voltar ao regime de capitanias hereditárias e nem à Idade Média. Com Aécio muito menos. O PT poderia se reeleger com facilidade. Mas, seu modo de governar no campo da ética e da decência, sem romper com velhos modos de se fazer política nesse país, demonstra seu cansaço. Boa parte da população rejeita esse jeito de governo, em que ministérios, secretarias, empresas símbolos do país como o Correios e a Petrobrás e demais órgãos públicos estão à venda. 

Joselito da Nair, do Zé, de Rafael, de Ana Lúcia, de tantas Gentes e situações e de Jesus, O Emanuel.

sábado, 11 de outubro de 2014

CARTA ABERTA DE UMA NORDESTINA PARA OS SULISTAS por Fabiana Agra*

Meus irmãos sulistas – sim, queiram vocês ou não, somos irmãos, somos filhos de uma nação chamada Brasil, que vem sendo construída há 514 anos – como nortista de nascimento e por convicção, sinto-me obrigada a escrever para vocês após os últimos acontecimentos, em que vimos reacender a mais vil xenofobia endereçada a nós, do Norte e do Nordeste, devido os resultados do primeiro turno das Eleições 2014.

Em primeiro lugar, meus irmãos, não somos nem melhores nem piores do que vocês, somos fruto de um país continental, cheio de diferenças e de contrastes e que, por circunstâncias históricas, nós daqui de cima fomos explorados através de uma colonização vil e de uma política perversa, que retiraram o melhor de nós, que foi usufruído por vocês; sem contar que houve uma imigração planejada para os estados do Sul e Sudeste, onde vocês tiveram a oportunidade de desenvolver-se de uma forma bem mais organizada.

Sim, nós daqui de cima já passamos fome, já fomos muito ignorantes, uma massa de milhões de analfabetos, que vivia das esmolas que os governos anteriores vez por outra mandavam, governantes esses que nunca se importaram em preparar o nosso povo para conviver com as intempéries do clima e nem de diminuir o abismo social em que vivíamos.

Somente após 2002, meus irmãos, é que esse quadro começou a mudar e, hoje em dia, o Norte/Nordeste é também uma terra de amplas possibilidades: seu povo está melhorando de vida, a educação chegou através de dezenas ou até mesmo de centenas de estabelecimentos educacionais federais, obras estruturantes estão sendo erguidas e, se os bons ventos continuarem favoráveis para nós, a geração nascida neste novo século estará em pé de igualdade econômica com vocês, que tiveram a “sorte” de receber a maior fatia do bolo até bem pouco tempo atrás.

Meus amigos sulistas, sinceramente eu não entendo o porquê de tanto ódio direcionado a nós. Eu nasci e cresci ouvindo dizer que o Brasil era a terra da gentileza, uma nação de povo amigo e hospitaleiro – quer dizer que tal máxima só se aplica para os gringos que aqui chegam para usufruírem das nossas belezas naturais, do nosso clima e, muitos deles, das nossas mulheres e crianças? Quer dizer que vocês se consideram uma “gente diferenciada” e se acham no direito de tratarem a nós, daqui de cima, como uma “sub-raça”? Eu gostaria muito de ter esses meus questionamentos respondidos de forma coerente.
Outra coisa: vocês estão alardeando, do Oiapoque ao Chuí, que nós, do Norte/Nordeste, não sabemos votar. Ah, é? E o que vocês me dizem da votação esmagadora recebida por Tiririca, Bolsonaro, Feliciano, Coronel Telhada e Delegado Olim? Como vocês explicam esses votos tão conscientes e inteligentes? Quem não sabe mesmo votar, hein? Nós daqui, votamos majoritariamente em Dilma porque somente a partir dos governos de Lula e Dilma a classe mais pobre desse imenso Brasil saiu da linha da miséria, são mais de 40 milhões de pessoas que hoje em dia tem a mesa farta, roupas compradas com o seu próprio dinheiro, e milhares de pessoas que estão tendo a oportunidade de estudar, de viajar, de trocar experiências… Eu votei e votarei em Dilma, meus amigos sulistas, porque, entre outros avanços, o Brasil não é mais devedor do FMI – pelo contrário, nosso país agora empresta dinheiro -, e caso vocês ainda não saibam, o Brasil saiu do mapa da fome, algo que somente 35 países do mundo foram capazes de realizar.

Pois é, meus irmãos. Eu continuo sem entender o motivo de tanto ódio da parte de vocês – será o stress dessa vida caótica? Pode ser. Então, para acabarmos de vez com essa coisa horrível, chamada “cultura do ódio”, da minha parte eu perdoo as ofensas gratuitas que recebi nos últimos dias e convido-os a nos visitar. Venham para cá passar uns dias, garanto a vocês que serão muito bem recebidos! Venham para cá que nós daqui faremos questão de mostrar para vocês o nosso lugar, a nossa gente, a nossa gastronomia. Vocês irão perceber que o Norte/Nordeste é um lugar repleto de encantos e com um povo que sempre foi receptivo – mas que, agora, além de receber bem, também está tendo as mesmas oportunidades que vocês sempre tiveram.

Mas caso vocês não possam dar uma esticadinha até aqui, há outras formas de conhecer a nós, nortistas: basta pegarem uma das milhares de obras escritas por um de nós; vocês irão deliciar-se com os livros de Jorge Amado, Rachel de Queiros, Ariano Suassuna, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar… E se não gostam muito de ler, que tal ouvir uma boa música daqui dessas bandas? Temos de todos os estilos, de Zé Ramalho, Raul Seixas, Alceu, Djavan, Gil, Caetano, Bethânia, Fagner, a Zeca Baleiro, Ivete, Pitty, Herbert Viana, Chico César, Elba…
Finalmente, sem querer aprofundar-me na política, creio que já justifiquei meu voto para vocês – apesar de desnecessário, faço questão. Já vocês, meus irmãos, sintam-se à vontade para elegerem quem vocês bem entenderem, o nome disso é democracia. Infelizmente, a escolha de vocês, caso não seja a melhor, refletirá em todo o país que, até o momento, está tomando um rumo certo e confiável.

Ah, ia esquecendo de uma coisa: nós daqui temos a maior admiração pelos jumentos, animais inteligentes e que desde o início da colonização, foram companhia de todos os desbravadores dessa terra. Portanto, eu particularmente, não me sinto ofendida em ser chamada de burra, de jumenta, de maneira alguma. Fiquem à vontade.
É isso, meus amigos do Sudeste/Sul. A nossa bandeira é uma só, e o nosso pavilhão verde-e-amarelo não pode agasalhar esse tipo de ódio pela sua própria gente nem por povo nenhum do planeta! Vamos deixar de propagar essa raiva gratuita, que só faz diminuir moral e eticamente quem a espalha. Vamos sim, ajudar a construir a grande nação que merecemos! Quem se habilita?
* Fabiana Agra é advogada, jornalista, escritora e paraibana com muito orgulho.



Fórum Político Inter-Religioso BH

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

POLÍTICA E RELIGIÃO NO BRASIL CONTEMPORÂNEO




Diferentemente do comunismo, um mito capaz de seduzir muita gente com seu sonho igualitarista, o fundamentalismo religioso islâmico, hoje o principal adversário da civilização, só pode convencer os já convencidos. (Mario Vargas Llosa)

Religião, pelo que me lembro, é religação. Religação entre terra e céu, Deus e ser humano, pão e oração. Mas, que ser humano? Que Deus? E, quando fazemos essas perguntas, o caldo entorna. A religião se torna prenúncio de guerra. Não há uma só religião, nem há um ser humano padrão, nem há apenas uma concepção de Deus e, por isso mesmo, não há uma religião ou “A” religião. Mas há aqueles e aquelas que consideram a sua religião como “A” religião, onde os sensatos e fiéis devem congregar para alcançar a vida eterna, ou seja lá o que se passe pela cabeça deles e delas.

Logo, os que não seguirem a “minha”, a “nossa” religião, que é a verdadeira, a original, com selo de qualidade de pureza santa, são os ímpios, os impostores, os “falsos profetas”. Então, todos os esforços devem ser feitos para limpar a terra dessas "excrescências diabólicas" que ofendem a nossa concepção do sagrado. Pois é isso que está fazendo um candidato pastor, Elionai Muralha, do PRTB, conforme reportagem do A Tarde do dia 6/9/2014. Este candidato quer a retirada das esculturas dos orixás do Dique do Tororó e imagens de orixás de espaços públicos, em Salvador, Bahia. Alega que o Estado é laico. Por esse pensamento a estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, também deveria ser demolida, pois o estado não pode ser laico apenas para ele e para seu "cristianismo de resultados", eleitoreiros, por sinal.

Claro, com um sujeito desses – que eu não sei bem classificar se é fundamentalista louco ou se é apenas um oportunista eleitoreiro, como é mais comum em nosso país – não dá para estabelecer diálogo. Mas dá para antecipar-se ao que pode vir a acontecer num futuro próximo com o fortalecimento de correntes religiosas na sociedade política, ou seja: nas estruturas de poder do estado. Eu não pertenço a religiões afro-brasileiras, mas defendo o direito dessas religiões terem reconhecidos seus símbolos religiosos em espaços públicos. Aqui em Jacobina tem a “Praça da Bíblia” e o Cruzeiro, este último um dos principais símbolos da cidade, e nunca vi um evangélico ou católico ser contra a sua criação e institucionalização. E concordo que seja assim.

Esse pastor não apresenta e nem deve conhecer a história de nossa gente, que é principalmente, não apenas a história dos brancos, mas também, sobretudo na Bahia, a história da África e dos africanos no Brasil e na Bahia, porque desconhece o sofrimento de quem foi negado em suas crenças, em seus símbolos, em suas construções subjetivas, além das inúmeras atrocidades que sofreram/sofremos. Fico fazendo um devaneio de outras possibilidades históricas. Ao invés de termos sidos colonizados por portugueses, poderíamos ter sidos colonizados por africanos, de algum país a oeste deste continente. Qual seria a nossa língua? Qual seria o nosso padrão de beleza? Teríamos um padrão estético? Qual seria a nossa religião? Como seria a nossa relação com os indígenas? Creio que reuniríamos a família e iríamos aos terreiros de candomblé ou de umbanda, caso existissem, para exercer nossa fé comunitária, sem problema algum, pois o diabo não foi Exú nem os africanos quem inventaram: foram os brancos de outrora. Foi a sociedade branca e racista que associou ideologicamente o candomblé e a umbanda com o que é demoníaco. Pois eu vejo o candomblé e a umbanda como expressões de povos, comunidades religiosas, grupos e pessoas, de suas relações com o SAGRADO, assim como fazem evangélicos e católicos.

Tenho grande preocupação com esse tema, pois percebo que podemos ter a nossa “guerra santa” ainda em breve, caso o Estado não coíba iniciativas desse tipo, que estão ficando cada vez mais ousadas e desrespeitosas, por causa da crescente bancada evangélica na sociedade política do Brasil. Já temos problemas demais, como o racismo, a homofobia, a qualidade de nossa saúde, nossa educação, a condição do nosso sistema presidiário, nossa insegurança pública, a corrupção institucionalizada, o sistema penal frouxo, entre tantos outros. Tem pastores de tv, aliás milionários com o dinheiro da inocente fé alheia, que se preocupam mais com os homossexuais e com o diabo que terminam se esquecendo do Próprio Deus. A criação do Partido Popular da Liberdade de Expressão (Pepelê) vem em boa hora nos representar contra essa sanha populista de candidatos que procuram eleger-se com propostas estapafúrdias, mas polêmicas, que eles e elas sabem, irá atingir ideologicamente muitos evangélicos e católicos que converterão seus medos diante de temas considerados apocalípticos em votos fáceis para suas eleições. Esses(as) idiotas metidos (as) a espertos (as), mal sabem que estão plantando não a semente da paz, do respeito às diferenças, da compreensão e do amor diante da convivência, mas a semente do ódio, do racismo e da guerra que virá, se essas sementes germinarem no terreno da ignorância  e do ódio historicamente alimentado por ideologias racistas. Deus passa longe, bem longe, desses pastores da extinção dos (as) outros (as).

VIVA O PEPELÊ!!! VIVA A LEI 10.639/03! VIVA AS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS!!! VIVA DEUS, EM TODA FORMA DE EXPRESSÃO!

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.     

terça-feira, 12 de agosto de 2014

“POR QUE SIM”? POR QUE NÃO?


A filosofia nos coloca perguntas que muitas vezes, a maioria delas, não sabemos responder satisfatoriamente. E é nesse ponto que reside sua força de saber que não se conforma com o óbvio, rejeitando-o e exigindo respostas cada vez mais profundas e sofisticadas. E essa possibilidade formativa foi tirada da juventude. Desde o período mais cruel da ditadura no Brasil, apoiada pelo governo norte americano, a filosofia e a sociologia foram retiradas do currículo escolar, prejudicando severamente o desenvolvimento do pensamento critico naquele período pós 64. Formar trabalhadores servis, inseridos no quadro profissional e social daquele período e obedientes às determinações emanadas de cima, prejudicou o surgimento de um povo que iria construir uma nação.

Em minha juventude, parte da Igreja Católica desempenhou um importante papel em minha formação humana, recuperando elementos críticos oferecidos pelo universo da Teologia da Libertação e das organizações em Comunidades Eclesiais de Base, que criaram espaços abertos para a juventude expressar sua força, suas contradições e seus processos de construção cultural e social. A Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP), desempenhou um papel importantíssimo no desenvolvimento de minha inteligência e de minha percepção critica diante do mundo que se descortinava na esperança de sua transformação a favor dos oprimidos, dos lascados das periferias do mundo. Havia muita filosofia na forma como nossas lideranças – William, ValdirMarina, Rita, Maria José, Robson, Marta, Fátima, Irmã Elena, Irmã Amparo, Padre Renzo Rossi, os ex-padres Lorenzo e Rodolfo, Padre Justino, Jailton, Padre Carlos, Marquinhos, Moisés e tantos (as) outros (as) – abordavam a realidade: o mundo e o Reino de Deus. Nós acreditamos num Deus vivo, que deseja que seus filhos cresçam, com capacidade de enfrentar as injustiças e identificar as origens das estruturas que a sustentam, com reflexão crítica.

Lideranças que trabalhavam com o povo, com lavadeiras, pescadores (as), desempregados (as), subempregados (as), pintores, padeiros, poetas populares, garis, sindicalistas, etc., partilhavam saberes da luta e organização política recolhido da vivência com essas pessoas, com seus sonhos, suas sabedorias, suas esperanças. Partilhavam reflexões fecundas sobre o ser humano e seus direitos fundamentais, bem como identificavam as contradições que levavam essas pessoas à margem da sociedade, deixando-as na condição de, como gostávamos de definir, e nos definir, “lascadas”. Então, nosso canto e nossa oração nos conduzia à luta organizada, e, dialeticamente, a luta exigia uma compreensão fecunda de nossa fé no enfrentamento às contradições que se apresentavam, seja nos outros, seja em nós mesmos. O Pai Nosso, tinha uma conotação encarnada historicamente
PAI NOSSO,
DOS POBRES MARGINALIZADOS
PAI NOSSO
DOS MÁRTIRES, DOS TORTURADOS
Assim cantávamos na fé de Jesus Cristo encarnado no meio do povo, sofrendo com ele, libertando-nos com ele, caindo e levantando-nos com o povo brasileiro crucificado por políticas de estado de negação do ser humano.

Toda essa rica vivência exigia de nós um pensamento mais longínquo, além da miopia de um horizonte imediato que a história do momento nos concebia. O Reino de Deus ultrapassava essa história imediata e nos apontava para a emancipação humana num mais além que não nos deixava aquietar com mesquinharias do estado brasileiro. Nosso horizonte era mais amplo.

Mas, com a ascensão de João Paulo II ao poder central da Igreja em Roma e com a vinda de D. Lucas Moreira Neves como cardeal primaz para a Bahia, tivemos um retrocesso enorme nos quadros da instituição eclesial e fomos abandonados à própria sorte. A Igreja, com seu poder e sua tradição europeia, deu um basta no crescimento de um novo modo de ser igreja na América Latina, de onde os gritos dos lascados clamavam por justiça e por igualdade. Grupos de jovens foram extintos, principalmente aqueles que apresentavam um pensamento crítico sobre a formação social baiana e brasileira. O conservadorismo da igreja preferiu abandonar a juventude.

Agora esta juventude morre aos milhares, principalmente se for negra e indígena e morar nas periferias de Salvador, da Bahia, do Brasil e da América Latina. Todos os anos são entregues ao tráfico de drogas desumanizante. Outras igrejas surgiram, fazendo “lavagem cerebral”, transformando homens e mulheres jovens em súditos subservientes, servos cegos de uma religião que se torna, a cada dia, mais poderosa e mais perigosa. A ponto de tentar criar leis que controlam os corpos e a sexualidade. A estrutura dessas religiões funciona para os numerosos que se mantêm em silenciamento, não em silêncio. A atitude filosófica foi varrida do processo formativo, que gera pessoas extremamente seguras de suas crenças, utilizando-as para enviar os demais para um inferno bem articulado no seio ideológico de falsos pastores que são eleitos por palavras fáceis de serem ditas, mas que suas obras só apontam para seus enriquecimentos pessoais. Os jovens são educados para a aceitação resignada de sua má-sorte, na medida em que compreendem que não são as estruturas injustas do mundo que os marginalizam, mas a sua fé que, ainda, é pouca.

Uma propaganda atual de cerveja serve de exemplo. Ensina-nos a não problematizar o mundo na frase óbvia e paupérrima “Porque sim”. Esse “porque sim” não precisa de explicação, nem de problematização, pois o mundo, as atitudes e os comportamentos, segundo tal propaganda, são assim mesmo, não precisam passar pela mediação crítica que leva aos questionamentos profundos do modo das coisas e das pessoas serem. A resignação é o resultado de humanos paridos por esse ventre imundo que conduz à perdição do próprio ser humano brasileiro.

E desconfio que todos os podres poderes se beneficiam com isso. O poder político vê milhões de jovens sem o domínio da percepção crítica das estruturas de poder que marginalizam, torturam e matam, além de eleitores aparentemente fáceis para suas promessas impossíveis. Certamente que esses jovens não incomodarão as estruturas políticas, sociais, econômicas, jurídicas, educativas, etc., com suas reclamações, organização e luta. O fato é que sem a filosofia ocorre a naturalização da injustiça, da discriminação, do cinismo trágico que empobrece a juventude, assassinando a sua subjetividade rebelde. Da mesma forma, as igrejas e seus padres, freiras, pastores, obreiros e diáconos ficam felizes em terem ovelhas resignadas com seu destino infeliz agradecendo a deus pelo lobo que purificará sua alma do “pecado”. Os grandes traficantes também ficam gratos com a rebeldia que escapa ao religioso “canto da sereia”, tendo à sua disposição gerações de soldados do tráfico a seu dispor, bem como usuários certos para suas drogas. Para os policiais psicopatas não faltam alvos para as suas balas satisfazerem seus perversos instintos assassinos. Para os demais policiais, sem entender a estrutura econômica, cultural e social produtora da formação do marginal, ficam entrincheirados, com receio de serem surpreendidos pela morte que o marginal traz em seus instintos de vingança. Os políticos, em tempo de eleições, acreditam em todos os deuses, de todas as religiões, beneficiando-se do voto “porque sim”.

E assim, matamos e morremos, todos os dias, naturalizando a morte entre jovens, na ilusão religiosa de que o deus de sua religião vá salvá-lo contra as estruturas funestas que tais religiões celebram, cada vez mais, como motivação para o crescimento do número de seus fiéis, pois, conforme um clássico clichê, “quem não vem pelo amor, certamente vem pela dor.” Para quem você vem? Para Deus? Para o pastor ou para o padre que fica doido para te guiar pelo “caminho” que ele definiu como "correto"? Nunca vi um tipo pra gostar tanto de ovelha como pastor (a)! E que deus é esse que é associado a conquistas financeiras e econômicas pessoais como forma de representação de sua fé? Acredito que precisamos de um antigo espírito crítico luterano contra esse modo contemporâneo de ser dessas religiões, cheias de falsos pastores que enriquecem às custas da cegueira de seus fiéis. Fico com minha "pastora" Rita Lee:

Levava uma vida sossegada
Gostava de sombra
E água fresca
Meu Deus!
Quanto tempo eu passei
Sem saber!
Han!! Han!...

Foi quando meu pai
Me disse:
"Filha, você é a Ovelha Negra
Da família"
Agora é hora de você assumir
Uh! Uh! E sumir!..
.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.