sexta-feira, 13 de agosto de 2010

UMA BOA AULA?

Nós professores estamos sempre aprendendo com os nossos educandos-educadores. Quer dizer: estamos sempre aprendendo quando estamos querendo aprender, pois algumas vezes não escutamos devidamente o que as pessoas ao nosso redor nos ensina sem ensinar, porque só aprendemos quando a gente muito deseja, quando a gente esforçar-se para compreender profundamente o que foi dito e, nesse dito, os não-ditos, os implícitos, os significados e sentidos que ficaram nas entrelinhas a espera de entendimento, de decifração, de interpretação, afinal, como disse Nietszche, “Contra o positivismo, que pára perante os fenômenos e diz: ‘Há apenas fatos’, eu digo: ‘Ao contrário, fatos é que não há; há apenas interpretações.” (NIETZSCHE apud Alves, 2006, p. 133). Então, não aprendemos simplesmente porque o outro nos ensina, aprendemos porque transformamos o conteúdo do diálogo estabelecido com o outro, em objeto de aprendizagem, que, por isso mesmo, transforma-se em conteúdo de ensino. Aliás, Piaget nos ensina desse modo, demonstrando que o processo de ensino-aprendizagem parte da ação do sujeito aprendente, ou, utilizando sua categoria teórica, sujeito epistemológico.

A constatação acima não dispensa o papel do ensino no processo de aprendizagem. Há educadores e educadoras que potencializam a aprendizagem, não necessariamente facilitam, aliás eu sou contra essas categorias fácil/difícil para tratar o processo educativo. Penso com minha experiência, que não é tão grande quanto pareço ensejar, que quando um educador, uma educadora, “facilita” a aprendizagem ele(a) mata a aula, impedindo o educando de pensar, de refletir, de buscar informações, de errar, de reavaliar o caminho de seu pensamento lógico, de inferir, de se perder e se achar. Talvez quando o professor, a professora, “facilite” a aula, esteja colocando-se no papel da autoridade intelectual indiscutível, referência única de conhecimento e verdade, obstaculizando a passagem da heteronomia dependente do educando para sua autonomia intelectual responsável, passagem essa que a escola propaga em seus princípios escritos no seu projeto político-pedagógico. Do mesmo modo, penso que quando pretendemos facilitar a aprendizagem estamos, na verdade, dificultando-a. As vezes sou tomado por uma necessidade obsessiva de dar a “resposta certa” que o educando tanto me pede, para fugir da ansiedade, tanto a dele quanto a minha. O currículo e os programas oficiais praticamente nos obrigam a pular de um conteúdo para outro, sem mesmo avaliar com seriedade se houve aprendizagem, pois temos que dar cabo dos conteúdos, e não necessariamente da aprendizagem. “É preciso muita calma nessa hora”, pois todas essas ansiedades acumuladas vão nos pressionando para uma espécie de ensino formal e destituído de significado, tanto para nós, quanto para os educandos e, contraditória e paradoxalmente, para a própria sociedade que exige ensino e aprendizagem “de qualidade”.

De fato, o problema não é facilitar ou dificultar a aprendizagem, mas torná-la significativa para o educando, e isso acontece quando o educador propõe desafios, problemas, obstáculos contextualizados, que motivam os educandos quando estão produzindo algo importante para eles. Quer potencializar a aprendizagem da leitura e da escrita? Por que não trabalhar com a elaboração de jornais, cujos temas e conteúdos refiram-se a problemas, dificuldades e conquistas que motivam os educandos a escreverem suas experiências e divulgarem-nas, utilizando pontuação e acentuação correta, linguagem apropriada para cada conteúdo, entre outras coisas. Quer fazer uma aula introdutória à Geometria? Vá para a quadra de esportes e aproveite o círculo do meio de campo e ensine diâmetro, raio, PI; o retângulo da pequena área, o perímetro do campo, a diagonal que forma dois triângulos retângulos, a área total e as demais áreas da outras figuras geométricas. Aproveite a linguagem dos narradores de partidas de futebol e construa textos singulares e lúdicos, aproveitando para ensinar pontuação, ortografia, entre outros; aproprie-se do jornal de domingo, onde tem a Revista da TV e motive seus educandos e educandas a escreverem os capítulos da próxima semana, além de discutir alguns temas por eles e elas apresentados como traição/fidelidade, amizade, sinceridade, riqueza/pobreza, a forma como os jovens e crianças aparecem nas novelas; envolvimento com drogas; quer ensinar função, elaboração de gráficos? Faça a partir de enquetes e levantamentos em sala de aula sobre namoro, futebol, família, gravidez na adolescência na cidade, alcoolismo; vá ao posto de saúde e levante, com os educandos e auxiliares de enfermagem e enfermeiras, as doenças mais comuns que assolam a região entre tantos outros temas e assuntos que fazem sentido para quem a gente quer fazer aprender (ensinar).

É nesse sentido que eu não paro de aprender, e por isso também que eu não paro de escrever, pois a comunicação da aprendizagem é uma necessidade mais que pessoal, é social. Deve haver algum dispositivo psíquico que, para além da vaidade pessoal, aciona o mecanismo que dispara a necessidade de comunicar nossas produções intelectuais. É no compartilhamento de nossos “achados”, através de encontros dialógicos, que melhoramos nossa percepção, potencializamos nosso comportamento, afiamos nossa inteligência e transitamos para um patamar superior de compreensão de determinado fenômeno. Esse “patamar superior de compreensão” pode ensejar uma interpretação errônea sobre a dialogicidade, na medida em que gera interpretações de superioridade racial, social, cultural. Somos sempre ignorantes em relação a algo que não sabemos e sempre sábios em relação a algo que não ignoramos, já dizia, com outras palavras, o mestre Paulo Freire. Por isso, o diálogo entre os seres humanos não pode jamais ser pautado numa relação hierarquizante, pois os verdadeiros sábios são aqueles que aprendem com as sabedorias e ignorâncias dos seus interlocutores, e os ignorantes são aqueles que ignoram os saberes que os outros lhes trazem, enfatizando, desdenhosamente, suas ignorâncias, como se não tivesse as suas próprias. E é justamente num diálogo que tive com uma educanda-educadora de uma cidade da Bahia, que encontrei inspiração para escrever este texto.

Estava dando aula sobre plano, planejamento e projeto, quando a mesma, em tom de desdém, afirmou que um professor dá uma boa aula independente de planejamento. Seu principal argumento foi o seguinte: Quando o professor domina o conteúdo do ensino, a boa aula acontece. Bem, pode ser que sim. Pode ser que não. E claro, mesmo com o planejamento e com o plano de aula, também pode ser que sim, também pode ser que não. Não apenas os professores sabem disso. Mesmo na vida cotidiana, geralmente quando a gente planeja “aquele final de semana”, a coisa não acontece, pois choveu, alguém ficou doente, outros desistiram, entre outras variáveis imprevistas. Entretanto, o reconhecimento da incerteza e da imprevisibilidade dos eventos não justifica a ausência do planejamento e do plano como referência da ação, principalmente quando essa ação lida com o imponderável, que brota das interações previstas e imprevistas que acontecem. Quanto mais incerteza, mais a necessidade de planejamento, para garantir alguma segurança no trajeto quando fatores circunstanciais e imprevisíveis aparecerem, e que bom que aparecem! A intervenção educativa exige um alto grau de organização, que o planejamento e a didática propiciam. Às vezes, quando pensava que tava dando uma “boa aula”, percebia que os educandos não aprendiam, apesar da tal “boa aula”. Naquele tempo eu, apesar de dominar teoricamente alguns conceitos interacionistas, só dominava de fato, de um ponto de vista bem abstrato, não tinha capacidade de operacionalizar na sala de aula aquele suposto conhecimento que detinha em meu discurso. Acreditava ser um “bom professor”. Mas, graças a Deus! Descobri, espero que não seja tarde, que dava uma “boa aula” para mim mesmo. Por isso os educandos e as educandas não aprendiam! Porque eu ensinava olhando para a minha vaidade e não para a necessidade e o nível de desenvolvimento cognitivo de meus educandos. Como fui tolo por um bom tempo! Nessa perspectiva a pergunta-título desse texto é provocativa e elucidativa. E abre, pelo menos para mim, caminhos fecundos de reflexão (auto) biográfica, de onde podem emergir frutuosas possibilidades de uma mudança autêntica de minha docência. Nesse sentido, a melhor aula que eu dei foi aquela em que os educandos efetivamente aprenderam.

Um abraço: Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

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