terça-feira, 12 de outubro de 2010

CALAFATE, CHUVA E MAR

Nos dias de chuva o convite estava feito. As águas barrentas traziam mensagens do povo mal educado: garrafas de Q’Boa, vasilhames de margarina, garrafas plásticas.Tudo o que vinha era barco, tudo o que vinha ia abaixo e a gente menino atrás, perseguindo os objetos escolhidos para nos representar naquelo duelo naval singular de menino da periferia de Salvador. Íamos até onde o esgoto esparramava na rua principal do Calafate. Lá, nossos “barcos” ancoravam em algum obstáculo ou se perdiam em alguma “boca de lobo”, mergulhando para sempre naquelas cavernas insondáveis. Voltávamos para a rua de cima para escolher novas “embarcações” e reiniciar nova batalha naval, até a voz estraga-prazeres dos capitães e das capitães nos convocarem para outra realidade: Menino, venha tomar banho pra ir pra escola! Você vai pegar um troço nesse esgoto!

Além de piratas e corsários éramos caminhoneiros de um pneu só. Furado, por sinal. Mas rodávamos assim mesmo o bairro quase inteiro, pois os meninos da “Rua do Bode” funcionavam como policiais rodoviários federais agressivos. Com dois tocos de pau, o volante e a nau, navegávamos nas nossas inesquecíveis chuvas, dobrando a curva do tempo sem querer saber de relógio e do registro autoritário das horas que a modernidade e o capitalismo inventaram para controlar nossos corpos e nossas felicidades pequenas e eternas. Éramos piratas, capitães de areia e de lama; prendíamos bandidos terríveis, namorávamos sereias, pilhávamos navios da Coroa Inglesa hasteando nossa bandeira caveira de dois ossos; Salvávamos baleias encalhadas nas costas de litorais da América e libertávamos cativos das mãos de tiranos do mundo inteiro; resgatávamos amigos presos por canibais vorazes dos atóis do Pacífico – claro que, para chegar a saber o que eram atóis e onde ficava o Oceano Pacífico havia um debate e uma longa pesquisa na casa de nossos pais. O “Outro Social” privilegiado daquela época não era a internet. Tempo e espaço se misturavam na imaginação menina dos meninos de lama do Calafate.

A chuva era enfim um mundo à parte, onde éramos destemidos meninos, navegadores do imenso mundo que nos rodeava. Nós éramos mundo, universo, que se chamava Calafate. Aquelas enxurradas traziam o mundo que nos rodeava e exigia a criação de novos mundos e nós, imundos, ali por inteiro. Tudo o que boiava poderia ser um de nós no tobogã das correntes de águas imundas que naquela época não eram tão perigosas como hoje. Binho, Valter (Lobo), Cacau, Fernando, Ecinho (meu irmão), Júlio, Bertinho, Joilson, “Ovo”, entre outros meninos, compunham o espaço lúdico onde dávamos sentido e significado. As vezes, melhor, muitas vezes, apareciam umas “perebas” em nosso corpo, como tatuagens que marcavam nossas odisséias, mas depois nosso corpo tratava de impor-se perante aquelas bactérias oportunas. Acredito que nenhum daqueles meninos invencíveis tenha problema de doenças graves causadas por bactérias. Nossos corpos tem anticorpos para dar e vender.

Além do curso “natural” das enxurradas, devido à topografia local, ainda criávamos obstáculos, trilhas aquáticas, mini cachoeiras, diques e lagoas artificiais – um pouco menor que o Lago Paranoá – que ilustravam e dinamizavam nossas batalhas, em torno das quais havia verdadeiros colóquios, que nos animava a criar e projetar novas formas de potencializar nossas batalhas navais, pois criança cria. Nesses momentos éramos todo oceano. O mar era nossa inspiração, nosso destino, nossa missão. Ilustrando nosso mundo peculiar estavam Aquamen, Namor (o Príncipe Submarino), o navio de pesquisa Calipso acompanhado, é claro, de Godzila. Tinha também Mobdick (“A Grande Baleia Branca”), além de outros heróis dos desenhos de TV e de revistas, cujo acesso era raro, mas marcante, que inspiravam nossa imaginação poderosa no combate aos males marinos e submarinos.


Daí que aprender a nadar foi um pulo. Quer dizer, para mim foram muitos sustos, cansaços e água salgada na garganta. Jorge, meu irmão mais velho, era a encarnação de nossos heróis submarinos. Ele sabia nadar como um peixe, tinha fôlego de gato e parecia mesmo ter barbatanas nos pés. Jorge era nosso “Aquamen Dórea de Jesus”. Quando íamos à praia de Boa Viagem, em Salvador, ficávamos a admirar aquele sujeito ultrapassando o perigoso limite das pedras. Para nós, ir até as pedras já era um desafio que só venceríamos no verão seguinte, imagine então quão não era o nosso espanto ao ver nosso “Aquamen Sênior” romper a barreira do impossível? Jorge era nosso referencial supremo em se tratando de coisas aquáticas. Eu e Ecinho, irmãos dele, tivemos o privilégio de aprender a nadar primeiro, com sua assessoria impecável. Ecinho aprendeu mais rápida e eficientemente que eu, acompanhando Jorge até as pedras, onde eles subiam e descansavam. Ecinho aproveitava muito bem esses momentos, tirando sarro da minha cara e dos demais colegas de sufoco marítimo. Eu morria de inveja de Ecinho. Ficava com raiva daquele menino-irmão mais novo, descansando sobre aquele marco de vitória e derrota: as pedras, que pareciam longínquas para minhas braçadas tímidas e defeituosas. Qual era o segredo de Ecinho? Como ele aprendeu tão rapidamente aquela habilidade suprema de ficar acima das águas salgadas da praia de Boa Viagem? Qual o segredo do corpo que aprende? Até hoje eu me pergunto. Só Aquamen ou Namor podem responder. Ou apenas Deus. E quando tinha alguma menina que morava lá no bairro aí era que a humilhação ficava maior, porque Ecinho aproveitava sua larga vantagem e desfilava no palco das águas salgadas rumo ao pódio das pedras, onde se erguia tal qual um gigante ante nossa presença humilde e "insignificante”. Como naquele tempo eu não dispunha dos recursos da retórica, que ajudam a minimizar os impactos de uma derrota, era obrigado a reconhecer que o “inimigo” estava bem mais preparado e que não podia enfrentá-lo em seus domínios. E o pior: Ecinho não aceitava tréguas. Durante um tempo incontável, todo um verão, ele reinou soberano frente a nós. Quando Binho ia, o que era raro, ainda havia alguma disputa acirrada, pois Binho, sendo do interior da Bahia, Conceição de Jacuípe, ou melhor, Berimbau, aprendera a nadar em rio, antes de vir para Salvador. Mas nos demais domingos, era Ecinho, o “Rei da Praia”

A Boa Viagem foi, durante toda uma parte de nossa infância e adolescência, um campo empírico importante de formação da nossa personalidade. Tinha, por exemplo, o desafio do “Buraco da Sereia”, uma passagem que havia no meio de uma pedra. A distância não era grande, mas, para os iniciantes, eram “2000 Léguas Submarinas”. Mitos eram criados pelos meninos mais experientes para amendrontar-nos. Alguns diziam que ali havia morrido alguns meninos e que suas almas rondavam o buraco em busca de salvação. Outros diziam que as sereias, servas de Iemanjá, se aproximavam do buraco na pedra para pegar os presentes de sua Senhora e assustar os moleques que ousavam furtar os seus valiosos presentes, enviados pelos fiéis no dia 02 de fevereiro. E assim tínhamos que enfrentar mitos e lendas, além de saber a hora certa de cair na água, um pouquinho antes da onda enchê-lo, pois quando a onda estivesse voltando, a gente realmente poderia ficar preso na pedra ou, no mínimo, sair todo arranhado, como aconteceu comigo algumas vezes. Outro desafio importante era o Farol do Humaitá, onde só os “miseravãos” se arriscavam a pular do lugar onde ficava a lanterna do farol. O máximo que eu consegui pular foi de cima da porta do farol. Eu era um “miseravinho”, um tipo médio entre os contendores. Só que entre os demais, agora rapazes, da minha rua, eu me sobressaia nos saltos sobre a água, devido mesmo à minha paixão por altura, que eu descobri enquanto pulava dos muitos pontos de iniciação dos adolescentes de periferia, é claro. Daniel, filho de Dona Bao, era outro que pulava de qualquer lugar de onde eu pulasse. Ele e Evando, de Dona Edite, foram os dois caras mais corajosos da minha rua e de muitas outras ruas desse Brasil. Aparentemente nada temiam. Daniel não sabia pular, sempre caia “de barriga”, ele apenas não queria ser sobrepujado por qualquer desafiante que fosse. Se eu pulasse do Empire States, lá dos EUA, ele também pularia, acredito. Antes morto que derrotado, essa era, ou é, sua filosofia de vida/morte.

Parte de nossas almas foi constituída na Península Itapagipana. Faz um tempão que não apareço por lá. Quando fui lá me senti estranho. Os saltos foram proibidos pelo poder público, o farol foi isolado, o píer foi fechado e os meninos de hoje encontram apenas uma fresta para saltar, mesmo assim sob os olhos atentos e ameaçadores dos vigias. Meu/nosso tempo foi sendo privado, meu espaço de subjetividade foi sendo reduzido, trancafiado. Agora escrevendo, minha alma vai desfiando os fios da minha história naquele lugar dentro/fora de mim/nós. Fios se estendem do Calafate, perpassando-me, atravessando-me, ligando-me àquela Península, cujos contornos delineiam-se em minha pessoa. Descubro-me muitos: ondas, marés, pedras, conchas, areias, ventos, saltos, mergulhos, meninos-adolescentes da minha rua (Fernando, Binho, Cacau, Amigo, Buzigo, Manuel, Ecinho, Valter, Jorge etc) e dos demais bairros da periferia de Salvador. É como se não houvesse diferença entre mim, as coisas e as demais pessoas daquele cenário. Como se tudo fosse uma mesma coisa, dentro de infinitas coisas em sentidos que delineamos e, por isso, estamos de acordo porque somos um fio da grande rede que é a vida em sua continuidade. Somos construídos pelos contextos vividos e construímos significados que nos escapam e que voltam para nós, construindo-nos dialeticamente.

Hoje em dia já não existem mais enxurradas como antigamente. Quase tudo já foi asfaltado. Com a nossa luta no movimento popular, através da Associação de Moradores Batalhadores do Calafate, conseguimos saneamento e asfaltamento para a nossa rua. Mal sabia que estava, ao mesmo tempo, e num mesmo movimento, enterrando parte de minha alma, que é também de lama e enxurradas. Quando hoje passo que vejo a água que corre sobre o asfalto em dias de chuva, ainda ouço o grito dos meninos nas pedras banhadas de espumas salgadas, cortadas pelo vento da Boa Viagem. Uma alegria discreta e profunda me escapa quando lembro que foi Jorge, meu irmão, o mestre que me/nos ensinou o milagre de “andar sobre as águas”, onde fui tecendo minha subjetividade em permanente interação com os outros meninos da periferia que, historicamente, são sangue do meu sangue. 

Mas os pés se lembram de antigos passos. Cada visão de um ângulo, cada touceira de beldroega ou capim, uma folha, o terminal do córrego emendando-se ao mar, cada ave, cada som isolado do vento e das ondas está ligado a uma emoção, corresponde a um gesto e de gestos na solidão de ilhas foi transcorrida sua vida, a ela retornando agora. (Moacir C. Lopes, A Ostra e o Vento, 1974)


Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel


4 comentários:

  1. Viajei de volta à minha infância nesse seu belo texto de memórias! Embora meu cenário seja rural e não urbano como o seu, eu tb brinquei nas enxurradas, nadei em rios, desci ladeira abaixo numa bicicleta sem freio...Vivi intensamente a melhor fase de minha vida!
    Gosto muito da sua escrita, professor! Já possui algum livro publicado?

    Abraço!

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  2. Ainda não Maiyre. O objetivo do blog é justamente este: a publicação de um livro de crônicas. É que escritor nesse país... E obrigado pela sua sensibilidade compartilhada. E seu blog é muito belo, sensível e inteligente, além de ser colorido.

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  3. Emoçã e Saudade do que vivi e do que quis viver alí, bem alí naquele mundo chamado Calafate foi o que senti ao ler essa bela crônica daquele lugar tão meu/seu/nosso.
    Obrigada pela Emoção proporcionada.

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  4. Que bom. Que bom que os fios que brotam do Calafate se entrelaçam aos fios de sua subjetividade, tornando-nos irmãos nas emoções que brotam de nossa sensibilidade singular.

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joselitojoze@gmail.com