terça-feira, 10 de abril de 2012

EU QUERO UM OVO DE CODORNA PRA COMER

Ovo de Codorna
Eu quero um ovo de codorna pra comer
O meu problema ele tem que resolver

O nome de Luíz Gonzaga produz em mim um sentimento muito grande, um sentido inexplicável e transcendental, sentimento bom que emana do reconhecimento da inteligência e da sensibilidade daquele pernambucano maravilhoso. Nesta música, “Ovo de Codorna”, interpretada por Gonzagão, não sei se a letra é dele, o que sinto – que é uma forma de saber com sabor – é que o autor, ou os autores, trabalha (m) de forma magnífica o dizer, utilizando, para isso, o não-dito. Há muitos não-ditos significando por e através do que é dito nessa música, nos ensinando que todo dizer diz com os não-dizeres que apresentam sentidos outros e que somente o contexto, a situação, a memória, a ideologia e os sujeitos, afetados por isso tudo, é que vão dar uma certa precisão na negociação de sentidos que é feita. “De todo modo, sabe-se por aí que, ao longo do dizer, há toda uma margem de não-ditos que também significam” (ORLANDI, 2005, p.82).

A gente logo começa a perceber que o discurso é muito mais complexo do que pensávamos. Os significados e suas desconstruções nascem de relações de poderes. Em todo dizer há sempre o não-dizer presente, há sempre a vontade de que o meu discurso seja sempre “a palavra certa pra doutor não reclamar” (Zé Ramalho, Avôhai).


Quanto ao discurso definido por Pêcheux (1997, p. 77), “[...] é sempre pronunciado a partir de condições de produção dadas [...]”; é prática política, lugar de debate, conflito e confronto de sentido; surge de outros discursos, ao mesmo tempo em que aponta para outros. Não provém de uma fonte única, mas de várias. (SILVA, 2008, p.40)

E, nessa vontade de poder, a gente termina lutando pelo nosso dizer nesse lugar de debate, esquecendo que, só dizemos porque já disseram, e que, só é possível ser entendido, ou seja, só é possível que nosso discurso faça sentido, quando o sentido já está dado na cultura que nos engendra, que nos pari, que nos corta, nos censura, nos estimula, nos cozinha, nos devora e nos pede decifração permanente, para que a gente continue produzindo discursos, e sendo por eles enredados, tecidos. 

O ser humano provém de dois grandes fios que se entrecruzam: o primeiro é o fio da vida. Um fiapo que precisa da materialidade natural para continuar vivo. O segundo grande fio é a rede discursiva que tece o humano em sua complexidade. E o ovo de codorna acompanha esse trajeto, esse entrecruzamento de fios. Transita da materialidade "natural" de um ovo de uma ave, e torna-se construção cultural e simbólica que medeia a relação do agora ser humano com suas necessidades e condições. O ser humano e o ovo são humanizados num processo discursivo interminável - embora o ovo não pronuncie a si mesmo - donde Gonzagão se inclui nesse processo enunciando de forma sensível e muito inteligente o seu discurso sobre este objeto cultural: "ovo de codorna".

O não-dito começa a dizer logo no refrão: “Eu quero um ovo de codorna pra comer, o meu problema ele tem que resolver.” Qual problema Gonzagão tem que resolver mesmo? Em nenhum momento do texto ele explicita isso. Mas a maioria de nós sabe. De forma muito discreta o autor trabalha com o já sabido, tecido culturalmente no seio da sociedade brasileira e que tem sua historicidade peculiar, construída de boca a boca, de bar em bar, de casa em casa, de encontro em encontro, de evento em evento social, até alcançar uma estabilidade de significação que começa a fazer sentido assim que a expressão “ovo de codorna” é desencadeada pelo dizer. E ele joga muito bem com isso. Não é possível entender o sentido do discurso sem a história. Nas estrofes seguintes o autor oferece outras pistas, que vão fortalecendo o sentido do seu dizer

Eu tô madurão
Passei da flor da idade
Mas ainda tenho
alguma mocidade,
Vou cuidar de mim
pra não acontecer
Vou comprar ovo de codorna
pra comer

Mestre Lua já havia passado da “flor da idade”, o que significa [...] Entretanto, ele ainda tem alguma mocidade, significando [...] De qualquer forma ele vai cuidar de si para que não aconteça. Aconteça o quê? O cuidado de si remete e é remetido pelo sentido que o fenômeno cultural "ovo de codorna" dá ao acontecimento. Não é cuidar da pressão, do colesterol, da glicemia, das condições cardiovasculares e respiratórias, mas de uma certa necessidade humana, dada biologicamente e construída social e culturalmente.

Na letra da música o autor ainda procura "aproximar" o conhecimento do senso comum do conhecimento científico, trazendo a figura significativa do “doutor” para legitimar os “poderes afrodisíacos” do ovo de codorna.

Eu já procurei
Um doutor meu amigo
Ele me falou
"Pode contar comigo”
Ele me ensinou
e eu passo pra você
Vou lhe dar ovo de codorna pra comer

Quem ensinou ao Mestre Lua não foi alguém destituído de autoridade no assunto. Não, foi o “doutor”! E não foi um doutor, entidade generalizada e uniforme que cabe em nossa memória em seu jaleco, seu estetoscópio e seus sapatos brancos. Foi um "doutor meu amigo". Esse doutor além da autoridade científica, reconhecida e legitimada socialmente, tem uma proximidade familiar, o que permite inferir que um conselho dado por ele, um "conselho de amigo", que é outra entidade discursiva sedimentada na sociedade brasileira, visa melhorar a situação do amigo em apuros, apontando uma solução infalível: o "ovo de codorna". Há aí também um velho truque retórico utilizado por todos nós: a tomada de empréstimo da autoridade do outro a fim de potencializar o nosso argumento pessoal. Aqui o argumento de autoridade supera a autoridade do argumento. Fica claro que não importa a verdade das premissas, mas o efeito de sentidos que provém dos enunciados que a música apresenta. E “doutor”, principalmente naquele tempo e naquele contexto, tinha,e ainda tem hoje, a palavra certa para ninguém reclamar. A origem desse saber dá ao ovo de codorna a credibilidade que, porventura, possa ser questionada. Ao vir do doutor, amigo pessoal de Gonzaga, a “receita”, torna-se um documento institucionalizado que qualquer feirante, digo, farmacêutico, não pode retrucar. O ovo de codorna começa a ganhar o status do mesmo ovo de outra entidade discursiva: a "galinha dos ovos de ouro". Isso me lembra duma piada antiga que me contaram quando ainda era criança. Ativo minha memória agora para fortalecer o sentido do meu dizer. A mulher acompanhava o esposo morimbundo, prestando-lhe os últimos cuidados e ouvindo-lhe as últimas orientações e conselhos. Em determinado momento o médico passa e avisa: “- Infelizmente o seu marido acaba de falecer”. O marido, ainda vivo, levanta forçosamente a cabeça e retruca para a mulher: “- eu ainda estou vivo!” Ao que a mulher sentencia: “ – Você morreu fulano! Quer saber mais que o doutor?” 

No passo seguinte Luíz Gonzaga revela certa situação pessoal

Eu andava triste
quase apavorado
estavam me fazendo
de um pobre coitado
Minha companheira
Tá feliz porque
eu comprei ovo de codorna pra comer

Ele andava triste por um motivo bem específico. “Quase apavorado”, o que significa o comportamento do homem em nossa sociedade em relação ao que não preciso dizer, porque já está dito. Lembro-me de um professor amigo meu. Quando conseguiu sair com a tão desejada mulher, falhou na “hora H”. Tomado pelo pavor – palavra que o mesmo também usou – pegou um avião, foi à São Paulo, e voltou todo feliz, com seu problema resolvido. Com Gonzagão estavam fazendo-o de um pobre coitado. Então, concluímos um não-dito no dito: a notícia vazou. Ou a mulher comentou com alguém que comentou com outro alguém, apesar da “certa mocidade” alegada do Luíz, ou ele mesmo o fez, com algum mui amigo que comentou com outro amigo. E foi assim que “eles” souberam e estavam fazendo-o de um “pobre coitado”. 

Mas a mulher estava feliz. Decerto ele conseguiu algum efeito positivo e elegeu o elemento cultural que, sabia, teria farta aceitação no meio popular, como um enunciador persuasivo que deseja ser ouvido por seu público. Observem que outros motivos, inclusive de ordem psicológica, para que o problema tenha acontecido, nem são cogitados. De qualquer forma, o autor refere-se à felicidade da companheira nesse processo. Não é algo que diz respeito somente ao homem, mas à mulher também. Ao casal. O marido estando mal, a mulher também sofre, porque a diversão é sempre a dois, ou a mais, depende do casal, de seus valores e do tipo de relação que estabelecem. A fidelidade feminina está implícita nessa estrofe, o falo masculino como fonte única de gozo também é outro não-dito que está significando aí. E todo o contexto de uma época significa nessa música em relação ao matrimônio, ao amor, ao sexo, à relação marido/mulher e à felicidade humana, tendo o ovo de codorna como expressão-chave dessa formação discursiva. Termino com João Cabral de Melo Neto, citado por Obdália Silva, quando afirma belamente que: 

O curso de um rio, seu discurso-rio, chega
raramente a se reatar de vez; um rio precisa de
muito fio de água para refazer o fio antigo que o fez.
(MELO NETO, [1975])

Ao saudoso Luiz Gonzaga, o reconhecimento de sua arte, de seu discurso vivo que penetro interdicursivamente para continuar pronunciando o mundo, sendo por ele penetrado e pronunciado. Ao mestre que nos ensina a, sabiamente, dizer com o não-dito, pronunciando pelo já dito e já sabido pelo e com o outro sobre o admirável ovo de codorna novo.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Luíz Gonzaga, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel. Com o apoio de: 

Zé Ramalho. Avôhai.

MELO NETO, João Cabral de. Rios sem discurso [1975]. Disponível em: . Acesso feito por Obdália S. F. Silva (2008) em: 14 jun. 2007.

ORLANDI, Eni. P. Análise do discurso: princípios e procedimentos. 5. ed., Campinas, SP: Pontes, 2005.

SILVA, Obdália Santana Ferraz. Os ditos e os não-ditos do discurso: movimentos de sentidos por entre os implícitos da linguagem. R. Faced, Salvador, n.14, p.39-53, jul./dez. 2008.

2 comentários:

  1. Análise perfeita!
    Parabéns!!

    ResponderExcluir
  2. Agradeço pela apreciação. Só vi hoje o comentário e, por isso, demorei para responder.

    ResponderExcluir

joselitojoze@gmail.com