sábado, 15 de outubro de 2011

Gospel: produto para massas convertidas

O mundo atual cada vez mais de massa. Um mundo onde as pessoas vão tornando-se massas amorfas, envolvidas no frisson imitativo que descaracteriza a criatividade e nos imerge em uma superfície ausente de reflexão. “Erguei as mãos e dai glória a Deus...” E a multidão acompanha os gestos do cantor, padre, pastor, fiel, geralmente branco, que fica em cima de um palco esforçando-se para continuar mantendo a plateia envolvida. Nos Estados Unidos, por exemplo, esse tipo de música geralmente é entoado pelos negros e negras, que, juntando o rhythm and blues ao gospel deram origem ao soul. Cantam do fundo da alma as dores e as superações de sua história naquele país. É uma verdadeira oração cantante e dançante. Eles e elas não imitam ninguém. Construíram o seu próprio estilo de cantar rezando e dançando. Mas no mundo gospel do Brasil, só de observar as imagens fugazes que são passadas nas propagandas dos discos e show’s dessa natureza, além dos sites visitados sobre esse fenômeno, eu fico preocupado com o conjunto do que a minha percepção capta.

Mulheres e homens, predominantemente brancos, cantam com uma suposta autoridade facial, principalmente no olhar e nos gestuais, como se fossem mais próximos de Deus que os que estão abaixo e fora do palco. O show é uma imitação dos show’s de pagode, sertanejo e axé music, pouco ou nada distinguindo-se, a não ser pelo estilo da música. Um cantor ou uma cantora, “Perto da cruz”, “Aos pés do Senhor”, “Nos braços do Protetor”, “Curvada pelo milagre”, “Prostrada diante do trono”, “Alheluya”, “Glória In Rio”. E alguns grupos têm os nomes mais curiosos: “Caçadores de Deus”, “Delirious”, “Diante do Trono”, “antidemon”, “Christafari”, “Day of Fire”, “Os arrebatados”, “Os nazarenos”, “Provérbio X”, “Ministério Trazendo a Arca”, “Rebanhão”, “Tribo do Funk”, “Denisdeith”, “SuperTones”, “Tempero do Mundo”, “Unção Ágape”, entre outros. 

Distinguem-se do demais grupos e cantores, entre outras coisas, através da linguagem, o qual denominam de “cantores seculares”. Os cantores do estilo gospel não mais se contentam com os estilos rítmicos, harmônicos e melódicos que lhes eram próprios. Vão da axé music, passando pelo reggae, sertanejo, pagode, funk, forró, samba, MPB, a música clássica enfim, talvez não haja ritmo onde o gospel não tenha penetrado. Este estilo deu um salto na última década e serve de abrigo, inclusive, para cantores e cantoras “seculares” em decadência que, prevendo seus últimos suspiros no “século”, convertem-se ao Senhor e reiniciam suas carreiras com um público, digamos, “mais fiel”, que tem quase a obrigação religiosa de adquirir alguns cd’s, até mesmo para ficarem bem na fita em termos de decoração do novo lar daquele que “renasceu em Cristo”. É preciso que a casa mostre a conversão. É preciso que o externo mostre o que, teoricamente, se passa no coração daquele “novo irmão”. Portanto, a Bíblia deve ser grande e adornada em tons de ouro, aberta no centro da sala, bem visível, e, ao mesmo tempo, deve haver um CD ou outro tocando ininterruptamente uma “canção de salvação”, além do "novo irmão" se tornar um saco para os demais familiares, com sua ladainha de salvação. O sujeito não se contenta em salvar ele mesmo. Fica tentando salvar os outros numa chateação sem fim. - Vá em paz pro seu céu e me deixe em paz no meu inferno que você assim designou para mim e para os que não ceguem, digo, seguem seus pastores e suas lições de salvação!!!

O interessante é a mudança mais que repentina, quase súbita, do vocabulário. Homem torna-se “varão”; mulher, ou “patroa”, torna-se “varoa”; a vida cotidiana torna-se “o mundo”; Os desejos tornam-se “tentações”; o corpo torna-se “a carne”; e o “espírito” torna-se, inexplicavelmente, “puro”. E então começa a longa e interminável batalha, interminável porque baseada numa falsa dialética, entre corpo e espírito (ou alma), entre “o mundo” lá fora e o nosso mundinho reto, puro, honesto e desprovidos de desejos, entre a história humana, secular, e a história de Deus, eterna. Só que esquecem ou fingem esquecer, que corpo e espírito é uma coisa só. A gente demonstra o que é. Não existe uma essência em contraposição a uma aparência. Nós aparentamos o que somos. E todo esse “admirável mundo novo” vai se erguendo em torno de líderes diversos, inclusive que lançam suas candidaturas para deputados, vereadores, senadores, presidentes, formando uma bancada nada desprezível no Congresso Nacional, muito embora eu não tenha ouvido de nenhum deles um grito ou ao menos uma palavra de indignação contra a corrupção que por lá galopeia sem rédeas. Deve ser porque isso também “estava previsto” no Apocalipse ou Revelação e não cabe combater o diabo por lá, afinal, o diabo no Congresso Nacional pode vetar muitas emendas desses representantes evangélicos.

E o fenômeno Gospel parece-me ir no mesmo caminho. Os antidemons preocupam-se mais com os demon’s da vida pessoal dos outros que os demon’s que estão institucionalizados no Congresso Nacional, nas Câmaras de Vereadores e nas Prefeituras. Eu nunca vi um movimento evangélico contra a corrupção das prefeituras locais! Nunca vi. O que sempre vejo são pregações rasteiras, que me parecem precisar mais do diabo do que de Deus como estratégia para arrebatar novos “irmãos” para suas fileiras, irmãos geralmente das classes sociais mais baixas, porque, como se sabe, “é mais fácil um camelo passar pelo vão de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus.” Não é mesmo?

E vai se formando uma multidão de “consumidores” de produtos e serviços específicos, perdão: fiéis. E vai se formando uma demanda que precisa ser atendida por pastores, cantores e cantoras, vestuário, lazer, esportes, entre outros e outras. É preciso não se misturar ao mundo, mas também “ninguém é de ferro”. É preciso a criação de um mundo próprio. Um mundo em que a vaidade seja uma vaidade evangélica; onde o esporte seja um esporte de e para Cristo, em que a música secular dê espaço para outro estilo em que Deus, Cristo, “a salvação”, “o trono”, sejam os temas exclusivos daqueles que abandonaram o mundo e começaram “nova vida em Cristo”. Inclusive daqueles que abandonaram o mundo quando esse mundo do show bussines já tinha dado uma bonita banana para eles e elas. Adentram num novo mundo: o mundo das massas que consomem cristo e deus em forma de cd’s, de livros sacramentados dos pastores escribas e de ideais que se materializam em forma de diversos produtos e serviços. A propósito: quando criarão a cerveja de Cristo ou a Cristo'sBeer?

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Das Comunidades Eclesiais de Base para o Tráfico de Drogas: a transição da juventude brasileira

Quando eu era mais jovem minha subjetividade encontrou amparo para além da família. É que quando a gente é mais jovem fica um pouco mais solto que de costume e o mundo oferece muitas de suas caixas para que a mão insatisfeita, imprudente e apressada abra a caixa de pandora, de onde sonhos maravilhosos e pesadelos horrendos podem emergir. O mundo da juventude, povoado de sonhos e esperanças cheias de vigor, alimenta o mundo do viço fortalecedor das ações, das atitudes, dos valores, das utopias que impedem o mundo de sucumbir definitivamente na barbárie. Um dos meus amparos na juventude mais viçosa foi a Igreja Católica, através das comunidades eclesiais de base, que nos ensinavam valores e crenças para transformar o mundo da desesperança no mundo da esperança perene no ser humano renovado pela fé num Deus comprometido com os injustiçados, com os mais pobres, com os desesperados, com os mais humildes humanos que compartilham as datas da história.

Na Comunidade formávamos grupos jovens, orientados por freiras, padres e pessoas mais experientes da comunidade, onde construíamos nossas subjetividades compartilhadas por valores cristãos dirigidos por uma perspectiva teológica da libertação. Não rezávamos para Deus e contra o mundo. Rezávamos no mundo, pelo mundo e com Deus, que nos ensinou que o pão e a oração andam juntos, que fé e vida constituem o mesmo processo de existir em nome de princípios, valores, utopias de transformar as velhas estruturas desse mundo em estruturas a serviço da vida, da verdade e do amor. Isso fazia um efeito poderoso em nossa formação de jovens da periferia. Não era uma formação qualquer. Era um processo vivo de aprender fazendo algo que dava resultados benéficos e deixava pessoas que mais necessitavam bem mais felizes. Os mutirões provocavam esses efeitos. Vinham homens e mulheres e consertavam pingueiras, derrubavam e reerguiam paredes, trocavam telhados, consertavam camas, sanavam infiltrações e vazamentos. Depois tomávamos cerveja, suco, pinga e comíamos feijoada, bolinhos, pãezinhos feitos pela bondade de todos e todas. Olhávamos uns para os outros e descobríamos as potencialidades de cada um através das ações solidárias que empreendíamos. 

Foi um tempo tão bonito da minha vida! Não tínhamos tempo para as drogas nem para as lamentações. Pensávamos sempre a esperança e a utopia. Ninguém era menos entre nós. Cada um fazia a sua parte no todo e cada um era todo nas partes. A nossa totalidade orgânica traçava a rede onde cada um era tecido enquanto tecia, não propriamente a si mesmo, mas a todos em si mesmo e o si mesmo, inevitavelmente, era tecido em todos. Uma rede de gente pescando gentilezas, humanidades reconciliadas com o cosmos e com Deus no mar da história humana. Os encontros da juventude promovidos pela comunidade eram fundamentais para a celebração e partilha disso tudo. Vinham grupos da Capelinha, do Bom Juá, da Baixa do Cacau, da Fazenda Grande do Retiro, do Calafate, da Fonte do Capim, do Alto do Peru, da Jaqueira do Carneiro, da Boa Vista do São Caetano e da Sussunga. Nomes de lugares estranhos para quem pensa numa Salvador a partir da Geografia das elites soteropolitanas. Nomes de lugares que minha memória guarda com carinho precioso de um tempo inesquecível. Nesses encontros nos conhecíamos e, o melhor: nos reconhecíamos! E isso era o mais importante. Reconhecer aqueles e aquelas que veem traçando uma história diferente consigo e com os outros. A gente talvez sabia sem saber o quanto era importante agir diferente e viver outro rumo nesse mundo que está á espreita do tolo e do insensato. Esse mundo que vai devorando a nossa alma e nos transformando em consumidores também vorazes; esse mundo que retira nosso tempo de pensar e nos faz trabalhar cada vez mais, não mais em nome de algo aparentemente digno e valoroso, como o suposto progresso que a ideologia dominante nos afetava, mas em nome do consumo mesquinho que descaracteriza nossas identidades e nos uniformiza como “clientes”, seres que compram, engrenagens que fazem o novo deus mercado funcionar, “para o bem da economia”. 

E essa transição foi nos tomando e os ventos da nossa história peculiar foram tomando outros rumos. A Igreja Católica foi esquecendo os Encontros Episcopais de Puebla e Medellin e foi desarticulando as Comunidades Eclesiais de Base, as pastorais comprometidas com uma perspectiva cristã revolucionária, entre elas, a Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP), e foi nos impondo uma Pastoral da Juventude de orientação carismática, que só rezava, rezava, rezava, cantava, cantava, cantava, e nos afastava de Deus. Ficou o impasse: ou a juventude da periferia se adequava aos ditames de Dom Lucas Moreira Neves, de Ratzinger e do Papa João Paulo II, ou seria melhor que saíssemos. A segunda opção nos pareceu melhor. E a Igreja levou a comunidade consigo para o céu. De lá, a comunidade só pôde ficar observando a história sem mais poder formar subjetividades rebeldes, comprometidas com um novo mundo que Jesus Cristo propôs. Sem poder trazer o céu pro mundo, por orientações históricas dos poderosos da Igreja Católica que impediram as comunidades de participarem ativamente da história, tais comunidades perderam seu élan vital e sucumbiram. A juventude desapareceu, pois suas lideranças foram começando a serem indesejadas, pois suas palavras queimavam pensamentos arcaicos, gestados em segredo no alto comando da Igreja. Os jovens abandonados foram se tornando presas fáceis para os novos arautos das periferias: os traficantes. Quem sabe um pensamento articulado com os altos comandos da política brasileira? Quem sabe sarney’s e os “dons” (bispos e cardeais), não estejam estrategicamente nesse jogo de xadrez impedindo que os peões deem um xeque-mate definitivo nessa história mal contada de poderes podres que se articulam contra os filhos dessa mãe nada gentil?

Os lugares onde morávamos e moramos foram sendo tomados pelos traficantes. Não mais a comunidade andante procurando servir a quem precisa e atraindo jovens esperançosos para atuar nesse processo. Isso acabou. A Igreja deu uma contribuição inestimável para essa mudança trágica. As esquinas foram sendo ocupadas por jovens com armas na cintura, tomados por expressões de ameaça à vida dos moradores. Foram tornando-se feras a serviço de outros poderes, poderes desumanizantes, a serviço do consumo de drogas por jovens das classes médias e altas. Uma juventude servindo a outra e as duas a serviço dos grandes traficantes que foram tomando corpo no estado da Bahia. O Governo sonolento foi deixando tudo ocorrer sem combater a ameaça que se articulava contra a vida e a paz dos humildes. Deslocados do Rio e São Paulo os grandes traficantes montaram novas bases aqui e a violência começou a matar milhares de jovens todos os anos. As bases são outras agora e a Igreja Católica tem uma responsabilidade muito grande nisso. Assim como a rede da vida se estendia em ações solidárias e atraiam os jovens para sua luz, assim também a rede da morte se estende pelos confins de nossa cidade, de nosso estado e de nosso país, e mata milhares de jovens todos os anos, pois a última luz que eles e elas veem na vida, é a dos disparos impiedosos das armas, que assinam com sangue seu relatório funesto da participação da juventude em suas hostes. 

E o Bispo Primaz do Brasil jamais terá a capacidade de escrever um relatório contrário, pois sabe dos meandros do poder que silencia aqueles que têm coragem de pronunciar a tessitura da morte em função da ânsia de poder e controle que a Igreja exerce desde que foi assumida pelo estado Romano, pois sua poderosa mão também abriu a caixa de pandora, de onde a fumaça das drogas emergiu para o nosso mundo. A juventude abandonada precisa de espaços para reconstruir o seu destino vital de transformar esse mundo sujo, podre, doente, viciado em vitrines, cocaínas e crack. 

Joselito Manoel de Jesus, um jovem professor da UNEB e um jovem que saiu da comunidade por não mais crer naquele deus inventado pela igreja, que não se compromete com o ser humano na mudança das estruturas nocivas do nosso mundo.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Abortos e ressurreições





Tudo começa desinteressadamente, com uma conversa com Saane. Dai..
Falaria não em mortos, mas em abortos. Quantos abortos não residem em meu ventre existencial? Quantos possíveis eu's não deixaram de ser fecundados em minha subjetividade cambiante? Quantas pessoas boas eu não poderia ter sido, quando o deixei? Por isso a maturidade (relativa, claro) nos convida para ressurreições de outros possíveis eu's que sucumbiram. E aí o sofrimento e a dor são, na verdade, momentos que precisamos para sentir as perdas e refletir sobre o que fizemos para causá-las. É Buda quem afirmou: "Nós travamos lutas contra mil exércitos, mas a maior luta que a gente trava é contra nós mesmos. Não é o outro que está forte e nos humilha, nos despreza e nos magoa. Somos nós, na verdade, que estamos frágeis e deixamos o outro nos desprezar, nos magoar, nos humilhar. Por isso estou na fase do espelho, olhando o meu reflexo e tentando enxergar a mim de fora, como um estranho, numa metareflexão que me conduzirá a mim mesmo. Recomendo, como educador que sou, que leia "Sidarta", de Herman Hesse.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

Poesia nos encontra no encanto

Depois de um poema mandado por Geisiane...
Que coisa linda!!! 
Quando a poesia nos encontra e
nos fala do milagre mais fecundo, 
a gente se encanta e desperta em outro mundo.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

Arqueologia da Salvação


Renasço a cada manhã.
E por isso não morro na noite anterior.
O sabor desse mundo é fundo.
No raso eu colho e mergulho
E é somente profundo
que eu desfruto o sabor.

É somente lá embaixo
que eu provo o sabor
das coisas sublimes e etéreas
o rastro eterno do divino
que ficou sob camadas.

É na arqueologia dos sentidos
que encontro os vestígios de minha salvação.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Corrida e existência

O vício começa assim. Depois toda distância chama, convida gentilmente a ânsia para disparar em busca. Aí a gente não corre mais para disputar com ninguém, mas com a gente mesmo, se é que assim o é. Chegaremos sempre e nunca. Até que a grande corrida se cumpra em cada um de nós, cada qual a seu tempo. O corredor de rua luta consigo todos os treinos. Eu vi isso bem em Lucas, em Michel, em Dina, em Lucília, entre outros e outras, corredores e corredoras de rua. E ainda ficam felizes com todo o esforço em busca de algo que não sabem bem explicar, ou talvez o saibam muito bem, tão bem, que nem precisem falar. Algo dado em suas subjetividades, que acolhem os desafios e procuram traçar suas metas, algumas vezes não muito claras, outras vezes ofuscantes de tão claras. 

Queremos chegar a cada tempo e participar da festa onde todos os diferentes parecem iguais, dirigidos pelo sentido de cada prova que, a cada prova, vai deixando de ser competição e transformando-se em participação. Ninguém corre contra mim, nem contra nós. Correm conosco tentando chegar ao mesmo destino. Correm sentido o frisson inexplicável de correr e alcançar a si mesmo, a si mesma, ou até de ultrapassar-se, num trajeto traçado para sempre, todos os anos, todos os treinos, todas as horas que se seguem antes e depois de todas as corridas, onde o corredor, nesse processo, vai descobrindo boas novas a respeito de si mesmo em comunhão com os demais.

Vou pegando essa experiência do correr e expandindo-a, quem sabe, para o todo o mais viver, pra ir vivendo melhor e lutando comigo a fim de alcançar objetivos outros. Procurando traçar outros destinos para chegar a tempo da comemoração, de completar mais uma etapa no processo da minha existência. Muitas vezes sinto que posso chegar mais cedo e fazer um pouco mais. Enfrentar os meus demônios, os meus cansaços, os meus desânimos e “baixar meu tempo” na prova da vida. As vezes sinto que possuo um potencial ainda maior que fica sabotado pela minha preguiça, e por outros sentimentos mesquinhos que vão corroendo todo o esplendor do meu ser. E paro. Paro, sentindo um cansaço confortável, um cansaço que procura explicar o porquê de não ter chegado, de não cumprido, de ter desistido num trecho do caminho. EU NÃO ACEITO MAIS ISSO! EU QUERO TERMINAR A PROVA! COMPLETAR O PERCURSO TRAÇADO! E sei que POSSO. Sei que posso e vou convicto alcançar o meu prêmio, o meu lugar entre eles e elas, mas sobretudo, o lugar que sempre deixei alguém ocupar, por ser indolente e preguiçoso, permitindo o rebaixamento do nível, ao abrir mão da luta, do suor, do sacrifício sadio e recompensador de cumprir o objetivo traçado.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

domingo, 28 de agosto de 2011

POR QUE NÃO NOS INDIGNAMOS?

Quando eu era bem mais jovem havia uma atmosfera política e ideológica em torno da grande contraposição capitalismo/socialismo, de onde decorriam outras contraposições, tais como: burguesia/proletariado; ricos/pobres; direita/esquerda; conservadores/progressistas, entre outras. Tais contraposições nos faziam pensar, tomar posições, associar-se a grupos que nos davam identidade política e moral. Pensávamos, quer dizer, eu pensava, que devíamos lutar contra nossos opositores para garantir a hegemonia do Estado e, assim, instaurar a tão sonhada utopia socialista. Foi um tempo bom. Tínhamos alguns partidos que asseguravam forças e energias para se pensar um país diferente, melhor para todos, com distribuição de renda e um sistema de saúde, educação, cultura, infraestrutura, saneamento, transportes, lazer, esportes, que oferecessem condições básicas de acesso aos bens públicos, principalmente pelas classes populares.

Infelizmente, quando um desses partidos chegou ao poder do estado, percebemos que os homens e as mulheres que determinam os encaminhamentos desse partido não estavam interessados em corrigir as “maracutaias”, a concentração de renda, a escorcha dos impostos, principalmente para os mais pobres e para a classe média. Alguns trechos do texto de Malu Fontes, “Bang bang, cinismo e mortes”, publicado na página 09 da Revista da TV do jornal A Tarde de hoje, 28/08/2011, apresenta, mais uma vez, a face contemporânea desse estado lastimavelmente governado por corruptos de primeira grandeza. Vamos a alguns trechos:

(...) Um outro argumento sempre usado pelo ajuntamento desumano de gente doente em porta de hospital é o de que as pessoas, se doentes e sem possibilidades de atendimento, jamais devem vir para a capital em busca de atendimento. O discurso é belo e aparentemente funcional: devem procurar as prefeituras locais, cadastrar-se e esperar que estas providenciem o agendamento do atendimento em Salvador, via centrais de regulação. Quem acreditar na eficiência desse sistema ganha um doce e quiçá um vale funeral.  

A realidade da saúde pública no país é lastimável, enquanto isso o governo Wagner tenta economizar dinheiro público com a redução de direitos do PLANSERV. Ninguém pensa em reduzir o vale combustível dos carros utilizados pelos deputados da Assembleia Legislativa, por exemplo. As ambulâncias que vêm das cidades de toda a Bahia – salvo aquelas cidades fronteiriças que preferem utilizar os serviços públicos de saúde de outro estado – vão de hospital em hospital de Salvador em busca de atendimento e internação para os doentes e seus familiares que viajam horas em busca de uma esperança mesquinha, de um favorzinho do estado e de seus médicos, que pode custar a diferença entre a vida e a morte.

O impostômetro instalado em São Paulo corre voraz todos os dias anunciando quantos milhões, bilhões, os brasileiros estão deixando nos cofres públicos a cada bala que compram e a cada salário que recebem. O sistema que faz faltar dinheiro para maternidades ampliarem vagas, instalar leitos, contratar médicos ou para a construção de novos hospitais é o mesmo que sempre dá um jeito de reservar uma dinheirão para os mensalinhos e para o combustível dos helicópteros da polícia militar  do Maranhão que conduzem o mais prestigiado dono de capitania hereditária do Brasil, José Sarney, em sobrevoos para ver as belezas de sua ilha de estimação no estado.

Nunca faltará dinheiro para esse país, porque nós, escravos públicos do estado, pagadores de impostos em cascata, mantemos as mordomias dos corruptos, desde o paletó até a viagem com a família num jatinho de um empresário bem sucedido. Precisamos de uma primavera política, ideológica e moral, para tirar esse país das mãos desses malandros bem sucedidos e devolver à população o direito efetivo aos seus direitos constitucionais. Precisamos reinaugurar a República!!! E não é pelo voto que vamos conseguir isso. Não é votando no DEM ou no diabo que os carregue, pois quando eles estiveram no poder fizeram a mesma coisa e, quando voltarem, farão novamente, pois eu acredito até em recuperação de presidiário, mas não em recuperação de político corrupto. Quem acredita nisso, vá proteger Chapeuzinho Vermelho contra o Lobo Mau. E Malu Fontes continua...

Autoridades do sistema de saúde e jurídico diziam ter havido falta de solidariedade no caso da grávida. Todos têm razão sob seu ponto de vista, enquanto o mais elementar fica desfocado: os homens públicos, que deveriam empreender todos os esforços para reduzir o sofrimento humano no país, estão mesmo é exercendo o cinismo, as ameaças, as chantagens à companheirada e interessados tão somente na briga por poder, cargos e desvios de dinheiro. Pacientes em desespero e médicos incapazes de dar conta da demanda que se entendam e se acusem entre si por negligências e mortes. Esse é o recado que boa parte de ministros, deputados e senadores mandam de Brasília. Justo Veríssimo é a tendência no Planalto Central.

Caso você não queira se explodir, como o bem deseja o espírito público dos nossos representantes políticos, é melhor cuidar antes de sua saúde política, melhorar sua capacidade de organização e indignação, transformar essa indignação em clamor popular, indicar líderes confiáveis e supervisionar as atividades que se dão no âmbito do estado. Não sabemos mais como posicionar a nossa subjetividade e rebelá-la diante disso tudo. A "esquerda" tornou-se uma direita pragmática, pior que a direita. A "direita" perdeu identidade, nunca soubre fazer oposição, nem saberá, pois não poderá se opor ao que acredita piamente ser o correto. Os progressistas, por sua vez, tornaram-se "conservadores" e esqueceram os movimentos sociais, a organização da sociedade civil, as classes populares, adquirindo postura populista e minando a força desestabilizadora que renova o poder e direciona sua ação, inspirada nas utopias.

Está mais do que provado historicamente que, sem saúde civil e política, as classes populares irão sucumbir cada vez mais nas mãos da violência que o estado imprime ao povo, seja sob a forma de ação, violência dos policiais contra a população, seja em forma de inação, negligência dos nossos representantes políticos diante das necessidades imediatas de brasileiros tratados como estrangeiros, como ninguém, como um nada que merece desaparecer mortalmente para não incomodar aqueles que desejam apenas uma ilha, uma lancha, uma fazenda, um coleção de carros de luxo, ou “miudezas”, como diria nosso ancestral antigo. E os simplórios que “se explodam!”, porque não querem saber as causas de sua dor, porque não se movimentam politicamente, a não ser, claro, apadrinhados por um aspirante político que deseja ingressos (votos) para participar do espetáculo do crescimento, pessoal com dinheiro público, em Brasília.

 Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A CORRUPÇÃO COMO UMA POLÍTICA PÚBLICA

A corrupção no Brasil é uma política pública de estado e de governo, assentada por uma cultura patrimonialista com selo nacional, onde as elites retrógradas e ultraconservadoras, aliada aos modernos gestores, articulam-se aos interesses do capital internacional e se apropriam das riquezas produzidas coletivamente, usurpadas por uma pesadíssima carga de impostos que retira dos verdadeiros trabalhadores desse país o direito de usufruir dos frutos do seu trabalho. De fato, o estado não devolve para a sociedade os recursos que dela retira em serviços básicos de qualidade que a população precisa, pois tais serviços, em forma de políticas públicas sociais, são marcados pela ineficiência decorrente da corrupção que permeia seus processos de implementação. A merenda escolar, o amistoso da seleção brasileira, a compra de automóveis para uma secretaria, a farda dos militares, o transporte escolar, a recuperação de uma estrada ou a construção de uma ponte, entre tantos outros exemplos, são indicadores inegáveis dessa tragédia à moda Brasil que se abate sobre seus habitantes: o patrimonialismo selvagem (como afirmou um político da oposição atual, que também não merece confiança) que domina este o governo e este estado lamentável de coisas.

O patrimonialismo é, segundo Sandroni (1987), um “sistema de dominação política ou de autoridade tradicional em que a riqueza, os bens sociais, cargos e direitos, são distribuídos como patrimônios pessoais de um chefe ou de um governante” (p.317). De modo geral pode ser entendida como a não distinção entre a esfera pública e a particular, por parte dos governantes e administradores públicos, dos detentores do poder político administrativo. (http://jus.uol.com.br/revista/texto/18960/o-patrimonialismo-no-brasil-da-colonia-ao-fim-do-segundo-reinado), Acesso em 17 de agosto de 2011, às 17:07 h. 

A República pouco tem de res publica. Nenhum dos três poderes parece interessado em combater a corrupção que grassa nas ações do Estado. A Polícia Federal está atada pelo Judiciário que, por sua vez, está atada ao Legislativo que, por sua vez, ata o Executivo e, num ciclo vicioso, por este é atado. Nesses nós, nesses atos e atas, os filhos dessa “mãe gentil” permanecem atados nas consequências nefastas desse modelo não declarado de ação estatal. O Ministério é de fulano que é o dono do PM Não Sei de Quê; o outro Ministério é do PC não Sei Mais de Onde; A Secretaria Disso é da Fulana, apadrinhada do Dono do P da "Ré Pú". E os donos, evidentemente, não prestam contas nem satisfações a ninguém, a não ser a eles mesmos. "(...) Em caso de prisão, os empoderados não serão ofendidos em sua dignidade pelo uso de algemas, desde que a prática também seja condenada pelos queixosos de agora quando magotes de acusados pobres e pretos forem enfiados algemados nos camburões policiais das grandes metrópoles brasileiras para a TV vespertina e seus urubus filmarem, como acontece todos os dias." (FONTES, Malu, A TARDE, Revista da TV, Salvador,  2011, p. 09).

A lei em nosso país, quer dizer, no país só deles e delas, é um mero detalhe. O que impera é a arbitrariedade do chefe, do dono, do senhor. E esta cultura é contagiosa e impregna nossas ações de alto a baixo. 
(...) Tentou-se esclarecer que o corrupto subiu na vida, sim, pelo menos em matéria de dinheiro, mas subiu roubando dinheiro público. Toninho, que tem esse apelido de leso, mas de vez em quando surpreende pela agilidade de raciocínio, retrucou que, se o dinheiro era público, não tinha dono e, assim, nada mais justo que o primeiro que pudesse metesse a mão nesse dinheiro - e era assim desde que inventaram dinheiro, o resto é conversa. "Eu acho bonito quando vejo esses corruptos passeando aqui de lancha americana, cheios de mulheres, tomando o uísque deles e desfrutando a vida", disse ele. "Meus filhos, Deus ajudando, vão ser todos corruptos, vou querer pelo menos um, minha família vai melhorar. Quero ver meu filhão lá nos salões, um corrupto respeitado por todos, bem-sucedido, bonitão, cheio das mulheres, esse vidão de corrupto mesmo...  O sujeito que não tem esse grande ideal não é bom pai de família. (RIBEIRO, João Ubaldo. Isso não vai dar muito certo. Jornal A TARDE, Caderno 2, p.2, Salvador, domingo, 21/08/2011)
Ribeiro expressa sua indignação através da ironia feroz e bem humorada, pois assim ajuda-me também a expressar a minha indignação diante dessa descaração oficial que se  institucionaliza. E não se surpreenda se a corrupção for proposta como direito constitucional por algum desses deputados esdrúxulos que compõe a corja de assassinos, ladrões, torturadores, estelionatários e cafetões que usam gravatas e bravatas para enganar os tolos eleitores, tais como certo deputado. É preciso recorrer a outra categoria teórica para compreender esse furdunço: a microfísica do poder de Foucault. O senhor e o dono pode bem ser o motorista de ônibus, a diretora da escola, o policial ou o presidente. É a arbitrariedade que dita a norma e normatiza o absurdo. Ninguém se engane: um taxeiro tem muito poder. Algumas vezes perverso. É só ele constatar que você não é da cidade, que a conhece pouco que ele vai fazer o percurso mais longo possível contra você, sem importar-se com as circunstâncias que o (a) cercam naquele momento. Assim também é com professores (as), médicos, vendedores ambulantes, gerentes de bancos, vendedores de automóveis, garçons, enfim, todos aquelas pessoas que, do seu lugar, disparam sua perversão contra os outros e contra o mundo. 


Tem uma cantora, Wanessa Camargo, que, em uma de suas músicas, afirma que o mundo dela caiu assim que "lá ele" a deixou. Sinto quase a mesma coisa. Meu mundo caiu. Sou da década de 70 do século XX e sinto uma certa vertigem diante do mundo contemporâneo. A degradação moral que percebo e sinto corrói e estala as estruturas institucionais e tudo parece certo, quando está errado. A juventude quer ser "dona de sua vida" sem fazer esforço para adquirir sua autonomia financeira, intelectual e moral. O suor não constitui mais uma alegoria importante de produção da existência. Nesse mundo em ruínas, minha subjetividade procura escombros onde amparar-se das intempéries. Mas não tem abrigo seguro, pois é o mundo que está assim, e não apenas um canto dele. Até nas instituições religiosas a corrupção encontra estadia segura, indicando que a fuga é impossível. E eu rezo para que esteja desantenado. Rezo para que esteja redondamente equivocado. Rezo para que a indignação esteja sendo gestada nas entranhas dos grupos sociais que não aceitam a ruína sem um projeto de reconstrução sob outras bases, fundada na ética, na distribuição de renda, na destruição do luxo privado para o sossego da maioria.  


Eu tenho um sonho, assim como Mister King. O sonho onde os espaços públicos do meu país não sejam privados, nem por cancelas nas rodovias, nem por ocupações irregulares dos mais espertinhos. Eu tenho um sonho onde as pessoas sejam educadas para deixar o que não lhes pertence no lugar onde achou e que preservem tanto o meio ambiente, quanto os bens públicos, cuidando do que é de todos, não como se fosse seu, mas como se fosse de todos mesmo! Dos filhos da terra, mãe gentil, que une filhos e filhas ao redor de si para erigir uma nação baseada em valores que não podem ser negociados. Eu sonho com um país onde as lideranças trabalhem a favor da sua gente e simbolizem a virtude que a nação precisa para romper com um processo civilizatório que desdenha de sua população, que maltrata seus servidores e assassina aqueles e aquelas que não negociam a sua alma por trinta moedas de ouro, nem mesmo pela própria vida, como foi o caso da juíza Patrícia Acioli. Precisamos de uma revolução em nosso país! A maior contribuição do PT foi a de nos alertar que as mudanças profundas que desejamos não vem pela via partidária e eleitoral. Esse caminho está inviabilizado pelos vícios assegurados pela tradição patrimonialista. Há uma verdadeira política pública que atua a serviço privado e não realiza o fim a que se destina seu discurso oco. Outros caminhos possíveis devem ser abertos pela força indestrutível das mulheres e dos homens que rejeitam o cinismo daqueles que se locupletam com os bens que pertencem a todos e a todas. Quando teremos a nossa primavera?


Joselito da Nair, do Zé, de Ana Lúcia, de Rafael, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.