segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

CARNAVAL DO CAPITAL, CAPITAL DO CARNAVAL

Estava lembrando-me da metáfora do Rei Midas que tudo que tocava virava ouro. O homem mais rico do mundo e, ao mesmo tempo, o mais infeliz. O ouro não serve para amar, nem para comer, nem para matar a sede e muito menos para viver. Recordei-me também de um filme: “O ouro de Mackenna”, com Gregory Peck, Omar Sharif e Telly Savalas, três excelentes atores do passado. O agora velho Omar Sharif de vez em quando aparece fazendo algum filme como “O 13º Guerreiro”, com Antônio Banderas. A sinopse de “O ouro de Mackenna” é a seguinte:

O delegado MacKenna perseguia a gangue do bandoleiro Colorado quando, ao cavalgar pelo deserto, é alvo de tiros dados por um velho chefe Apache. Ao responder aos tiros, achando que eram os bandidos, MacKenna acaba ferindo mortalmente o índio. Antes de morrer, o chefe lhe dá um antigo mapa que, segundo ele, traz o segredo da localização do 'Canyon del Oro'. Mas o alerta que, ao encontrar o veio de ouro, despertará a fúria de antigos deuses. MacKenna conhecia a lenda sobre o rico veio de ouro dos Apaches e do garimpeiro Lost Adam, que o teria descoberto e fora tornado cego pelos índios para que não achasse mais o local. Ele não acredita no velho e joga o mapa no fogo. Mas grava o desenho na memória.
O desfecho do filme vai comprovar a ira dos deuses e demonstrar a modificação do comportamento de homens e mulheres diante do brilho sedutor do valorizado mineral. Amigos tornam-se inimigos, parceiros matam-se, ali mesmo, deixando sobre o pó amarelo um rastro escarlate de sangue. Todos querendo para si todo o ouro, impossível de ser transportado naquele contexto. O sábio é o personagem cujo nome dá origem ao filme: Mackenna. Mas, claro, se você quiser saber todo desfecho, só assistindo. Acredito que poucas pessoas neste mundo recusariam uma aventura em busca do ouro. Aliás, creio que já vivemos assim, numa aventura em busca de mais e mais algumas graminhas de ouro para concretizar sonhos pessoais. Garipamos aqui e ali. Viajamos acolá onde notícias nos trazem informações sobre algum ganho amarelo a mais. É certo que nesse mudo sem dinheiro não há conforto, não há o carro, não há casa, não há saúde, nem há educação e segurança. Mas o grande problema que o filme mostra é que, ao chegar ao fim do arco-íris, com toda aquela abundância que daria para todos e ainda para muito mais pessoas, os seres humanos são tocados pela febre do ouro, e a insanidade se instaura, desejando tudo apenas para si. E nesse momento o ser humano abandona os seus valores e torna-se um homicida impiedoso. Esquecemos que o mais importante da aventura do ouro não é o ouro propriamente dito, mas a aventura. É a aventura que é o ouro! É nesta que o ser humano é transformado, é lapidado ou não, e, o fim do arco -íris, encontramos a nós mesmos, sempre outro,  algumas vezes mais humanos.

Mas o ouro carrega com ele uma maldição: desperta a ira dos deuses e não dá sossego a quem o possui. O ouro provoca uma febre no ser humano e o destitui de seus valores no instante imediato que seu brilho brilha nos olhos dos insensatos. Já não basta o conforto, nem o bem-estar. É preciso mais, é preciso proteger o bem adquirido e isso exige poder concentrado. Isso exige que a indústria da morte comece a operar e fabricar os corpos oferecidos no altar adornado de ouro. Os filhos se matam pela herança amarela que o falecido pai ou a falecida mãe deixou; os parentes se enfrentam e se aniquilam, tentando concentrar em suas mãos toda a riqueza produzida por quem morreu. E quem morre, morre sempre à míngua. Nada leva, nem o próprio corpo que os vermes apreciam saborosamente. Mas o que isso tem a ver com o título deste texto? Qual a relação com o carnaval?

A questão não é o ouro. É o ser humano e seu modo de viver e compartilhar as riquezas desse mundo. O modo como construiu historicamente a forma de distribuir tudo o que produz: a economia, a ciência, a educação, a cultura, o lazer, os objetos de uso, e todas as coisas produzidas pela humanidade. Criamos o capitalismo para organizar a distribuição da riqueza. E o capitalismo é uma força produtiva poderosa! É como diz Caetano Veloso: “a força da grana que ergue e destrói coisas belas.” Marx reconheceu que não existia, até aquele momento histórico, nenhum sistema produtivo que aglutinasse tantas forças produtivas para produzir rapidamente a transformação da natureza através do trabalho. Entretanto, nenhum sistema criado pelo ser humano é tão eficiente para produzir o ouro e, ao mesmo tempo, concentrá-lo nas mãos de poucos, produzindo, nessa febre, uma imensa miserabilidade, resultado da imposição da concentração do ouro nas mãos de poucos que, durante todas as suas vidas, não precisarão de todo aquele ouro, pois não terão nem tempo suficiente para gastá-lo. E assim a maldição vai passando de geração a geração. Raul Seixas explica bem isso para mim em sua música “Ouro de tolo”. 

Eu devia estar contente
por ter conseguido
tudo o que eu quis
mas confesso abestalhado
que eu estou decepcionado...
Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"
Eu tenho uma porção
De coisas grandes prá conquistar
E eu não posso ficar aí parado...
Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Pra ir com a família
No Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos...
Ah!
Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro
Jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco...
É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal...

Eu me sinto assim também. Percebo a grande insensatez que é o acúmulo desenfreado de riquezas e a consequente produção de suas pobrezas e miserabilidades. Sei. Também corro atrás do ouro para pagar minhas contas e atender minhas básicas necessidades. Mas não quero o ouro só para mim. Tem ouro pra todo mundo, se todo mundo quiser retirar suas cercas, reduzir seus depósitos, dividir suas posses. Mas isso, neste contexto histórico, soa como ingenuidade romântica, quase como uma loucura. Mas, quem sabe se não é esse romantismo e essa quase loucura que vai nos salvar da destruição total e da barbárie?

O carnaval era uma festa popular, onde a criatividade, a espontaneidade e a liberdade libertária do carnaval, com um alegórico governo momentâneo, o Rei Momo, com as chaves da cidade na mão, “abria os trabalhos” para que imperasse o povo nos seus domínios. Havia os cordões, os grupos que inventavam suas fantasias, suas críticas, suas sátiras e seus teatros mambembes, transformando as ruas em espaços democráticos de manifestação. O colorido era muito mais colorido e os sons eram muito mais criativos e diversos. Não era todo mundo que entrava na brincadeira! Só quem trouxesse alegria. E na alegria a gente fazia um povo inteiro, de todo o mundo. Da Cochinchina à Patagônia, quem trouxesse alegria era baiano, era irmão de fé e podia abraçar a gente, suado e fedendo. Mas aí chegou a indústria cultural. E inventou o abadá, um pedaço de pano cheio de merchandising, que torna todo mundo igual, como produtos de uma mesma máquina. O toque de Midas manifestou-se em sua maldição. Tornou ouro o carnaval e paralisou sua criatividade, sua espontânea manifestação. Criou o critério do financeiro e impediu que a alegria do povo adentrasse carnaval adentro. O baiano foi afastado do circuito. Numa cidade onde mais de 80% da população é negra, as cantoras que fazem mais sucesso são brancas. Isso é muito estranho. Márcia Short e Margareth Menezes deveriam, com suas poderosas vozes, fazer muito mais sucesso do que fazem. O professor Ubiratan Castro de Araújo afirma que

As mães de hoje hesitam agir como as nossas há 50 anos: sair dos bairros com 5 filhos fantasiados para brincar o carnaval. Somando o dinheiro do transporte, a roupa nova, o refrigerante, o hambúrguer, o picolé, etc... Pior é a questão da segurança: apertucho e criança perdida. É preciso levar o carnaval aonde o povo está, com a mesma qualidade artística do centro da cidade. (ARAÚJO, A Tarde, Salvador, domingo, 19/02/2012)

Esse é o grande efeito negativo do “toque de midas”, o brilho do ouro paralisa, retira a ontologia fundadora das manifestações culturais e esvazia de sentido o conteúdo cultural. Não há festa quando o povo que a faz é dela expulso. E, nesse sentido, discordo do excelente professor Ubiratan C. de Araújo, historiador e membro da academia de Letras da Bahia, quando ele afirma que

[...] Na mesma linha de farisaísmo, bradaram [os que criticam o capitalismo atuando na direção do carnaval] contra o pecado capital do carnaval, a mercantilização, como se fosse possível organizar uma festa para multidões na base da gratuidade geral. (ARAÚJO, A Tarde, Salvador, domingo, 19/02/2012)

Não é possível organizar uma festa para multidões na base da gratuidade geral. Concordo. Mas é indecente e paradoxal organizar uma festa para multidões quando o povo da terra que criou a festa é dela expulso. A indústria cultural corre desesperadamente atrás do ouro, concentrando-o nas mãos de poucos. E o atrai para nossa terra, não tão boa quanto antes, prometendo a alegria que retiraram do povo. Mas não é possível vender a alegria do povo. Assim como não é possível vender sua alma. Por isso o homicídio cultural impera no carnaval, concentrando em axés e pagodes sem sentido negando a musicalidade singular que o baiano tem. Eu que morei a maior parte de minha vida em bairro popular, ali no Calafate, San Martin, sei que festa não é tanto questão de dinheiro quanto de alegria compartilhada na espontaneidade do querer, que pulsa em nossos entrelaçamentos sociais e culturais. O "cordão do Bola Preta" no Rio de janeiro é uma prova disso. O "Paroano sai Milhó", aqui em Salvador, da mesma forma, com a participação de jovens, anciãos e coroas como eu, provam que com pouco dinheiro, se faz uma festa com muito glamour, muito povo, muitos encontros de alegres foliões que voltam às ruas para transformá-las em carnaval. Os turistas e seus “ouros”, nos acompanha, nos abraçando suados e alegremente surpresos com nossa forma de fazer uma festa.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes, do Carnaval e de Jesus, O Emanuel

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

EU QUERO É POESIA

Eu quero poesia em minha vida:
Poesia pra andar e pra partir;
Poesia para mandar para a puta que o pariu
Poesia para sorrir e para chorar
Poesia para dormir e para sonhar outro Brasil.

Quero poesia para criticar a politicagem
poesia para desabafar minha agonia
dessa imensa e nacional vagabundagem
quero poesia para revolucionar a cidadania.

Quero poesia para viajar pelo país
poesia para imaginar outra nação
poesia para contemplar o povo feliz
poesia para compartilhar a criação

Quero poesia para acordar o povo brasileiro
poesia para avivar a nossa débil democracia
poesia contra os impostos e os pedágios
poesia a favor da necessária rebeldia.

Eu quero poesia pra não morrer mudo
de coração, câncer ou susto.
Sem poesia nem democracia
a minha vida é feia e fria.

Joselito de Tantas Gentes, da poesia e de Jesus, O Emanuel.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

DESEJAR O NOVO

Rubem Alves, num de seus muitos textos, afirma que não podemos desejar o novo, pois só desejamos aquilo que já experimentamos e que nos deu sabor, nos deu delícia, realizou em nós “o princípio do prazer, sonho que o tempo não desfaz.” O beijo ardente, “a sensação suprema dos mortais, o gozo são e soberano dos animais”, o carinho materno, o abraço orgulhoso do pai. “Um dia feliz as vezes é muito raro”. Verdade. Se não o fosse, seria mais um dia banal. Fala-se muito mal dos dias banais, bem como se teme a escuridão. Mas, fico pensando: o que seria dos dias felizes se não fossem os dias banais? E o que seriam dos vagalumes e do luar se não fosse a escuridão?

Alves nos fala que desejamos repetir eternamente, mesmo sabendo racionalmente ser impossível, a experiência do que nos fez felizes. Desejamos que o raro se torne banal em nossas vidas, e nem pensamos sobre isso, porque, se pensarmos, deixamos de desejar ardentemente o retorno eterno do sabor que a língua nunca esqueceu e que, tocada inteiramente, espera reencontrar. O sorvete, o beijo, o gozo, o olhar, a paz, a festa, a fogueira acesa, a família, a viagem, o rio, o frescor e a transparência de suas águas, os risos, as mãos, cantos e encantos tudo isso num encontro de céu que a gente deseja que nunca acabe. E tudo isso espera em nós, pulsando uma saudade, uma vontade poderosa de reencontro, que nos impulsiona à busca do impossível. Desejamos retornar ao paraíso perdido.

Talvez por isso o passado e o futuro sejam tempos tão importantes para nós. No passado reside a experiência. No futuro habita a realização. E assim, se não foi hoje, amanhã será melhor. Algo bom vai acontecer ainda que não exista nem indícios de sua concretização, para que alguém que espera possa novamente provar do gosto que faz a vida valer a pena. E esse dia ainda não chegou, mas há de vir! Para que Deus possa voltar a existir na vida de muitos que creem.

Entretanto, na vida de muita gente, não há tempo para o eterno retorno. Não há futuro, nem há passado, só um presente ameaçador e desconfortável. Não há tempo para pensar, somente para sofrer e para fugir. Fogem todos os dias para qualquer lugar distante do sofrimento, muito embora este último tenha pouco de permanência e muito de fugaz. Essas pessoas sofridas enfrentam todos os dias a face cruel do mundo, sem finais e sem pausas para os comerciais. E só lhes resta imaginar e inventar brechas, becos, vielas, estreitos espaços por onde alcancem seus momentos de fuga da barbárie. Os sabores são odores; o carinho é a agressão; o abraço é o tapa; a fogueira é a ameaça acesa; a mãe é a perdida, o pai é o vilão. O que há para voltar? A mesma barbárie em suas mãos? A violência em suas atitudes? O sabor da morte no coração? O abandono como presente? E o futuro com uma única indagação: – por que?

O que será o novo para essas pessoas? O que pensar para frente de suas vidas se até agora o poder da morte imperou? Morte com morte? Crueldade com crueldade ainda maior? Como sair dessa equação infernal? Como? Creio que a saída é procurar empiricamente todos os indícios que a vida deixa no império da morte. Na linguagem, nos gestos, nos pequenos detalhes há rastros de esperança que ficam como vagalumes no escuro. Mesmo que precários, em seu acende e apaga, os lumes são traços de esperança de que a vida nunca desiste, e se mantém corajosa e criativa diante da imensidão do breu. Os lumes vagos e intermitentes até flertam com a escuridão e a enfeitam, dando-lhe um toque mágico que prenunciam o amanhecer fundante de toda pequena ou grande esperança. É preciso procurar esses lumes nas pessoas sofridas, aviltadas em sua dignidade e identificá-los como elementos imprescindíveis de fé, esperança, justiça e amor. É preciso crer numa gestação de um novo ser dentro do sofrido e amargurado ser. Mas isso não é fácil.

O mais fácil é marginalizar aquele que sofre. Assim não nos sentimos responsáveis pela desgraça alheia e não nos incomodamos com seus desdobramentos. Não podemos nem transformá-lo em coitadinho, nem em um animal perigoso e devorador da precária ordem em que nos movemos com dificuldade. Mas é difícil. Vivemos num mundo que requer cada vez mais o nosso tempo e nos suga com muitos canudinhos, cada um de uma instituição e espaço social. Além do tempo que dedicamos à família, temos que dedicar tempo ao trabalho que cada vez mais invade nossa privacidade, além do tempo que temos de dedicar aos múltiplos apelos do cotidiano. E, além disso, ainda temos isso como justificativa para nos escondermos do que mais importa e que vale a pena.

Eu não sei. Para as pessoas que estão sofrendo nesse momento os dias banais não existem. Não existem porque o sofrimento, pode até ser tornado banal para a sociedade, mas, para quem sofre, é bastante relevante. Nesse contexto é preciso desejar o novo, o que ainda não existe, o que ainda não foi provado como sabor gostoso da vida, como amor, carinho, atenção, companheirismo, abraço e ombro amigo. É nesse momento que todo ser humano entende que, mais do que qualquer mercadoria, o encontro solidário entre os seres humanos é que nos dá a paz e nos realiza enquanto pessoas em sua plenitude. Não é o tempo que vai nos conduzir à nossa humanidade sublime. Nem sei se alcançaremos isso. Mas, a partir das vidas de pessoas como Leonardo Boff, Divaldo Franco, Irmã Dulce, Madre Teresa, Santo Dias, Betinho, Frei Beto, entre tantos outros e tantas outras, anônimos ou não, nutro esperanças. Suas vidas são, como a de todos os humanos, fugazes, mas suas ações ficam como lumes na escuridão da humanidade, piscando a esperança imortal na alvorada humana.

Joselito de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel   

sábado, 11 de fevereiro de 2012

VÁ PRA FIFA QUE O PARIU!!!

Texto de JC Teixeira Gomes, A terceira guerra, jornalista e membro da academia brasileira de letras da Bahia, publicado no jornal A Tarde de hoje, sábado, 11/2/2012, traz importante reflexão que resolvi compartilhar convosco um trecho da mesma. Segundo ele,

Não é possível admitir que o governo desconheça a indagação que milhões de brasileiros fazem, pelo país afora: se não há dinheiro para o essencial, como pode sobrar para a construção de tantos estádios de futebol, muitos dos quais tendo passado por reformas recentes, como o Maracanã? No Rio, além do Maracanã, pronto em 2007 para os jogos panamericanos, o governo levantou ainda o caríssimo estádio do Engenhão, tão ocioso que foi entregue a um clube para administrar. Outras perguntas pertinentes: como o poder público se dispõe em São Paulo a ajudar a construção do estádio do Corinthians para a copa, numa cidade dotada do excelente Morumbi? Por que implodir o velho estádio Fonte Nova, cuja arquibancada antiga nem terremoto derrubaria, toda ela, desde a fundação assentada num morro? A mesma pergunta percorre o Brasil inteiro, em cujas cidades principais faraônicos estádios estão sendo erguidos, para uns poucos jogos em poucos dias. Exigências da Fifa? Mas que obrigação tinha o Brasil de assumir esses gigantescos eventos esportivos e, pior ainda, em sucessão?

Falta dinheiro ao poder público? E o que dizer do que está acontecendo no Rio e em São Paulo (não são exemplos isolados), onde juízes “receberam verbas entre 400 mil e 1,5 milhão (sic!) relativas a reajustes e auxílio moradia”, além de numerosos magistrados terem obtido “pagamentos antecipados, sem que constassem em seus contracheques”, segundo noticiou “O GLOBO”?

Enfim, ninguém desconhece neste país o que os governos despendem com assembleias, câmaras de vereadores, órgãos do judiciário, verbas orçamentárias, cartões de crédito, em suma, uma cornucópia sem fundo do dinheiro do contribuinte, que sustenta com folga a orgia do desperdício.

JC Teixeira Gomes nos traz outros elementos ocultados pela Rede Globo por seus repórteres e reportagens sobre a greve dos policiais e dos demais funcionários públicos, que deveriam ser precipitados no ostracismo da audiência, por mentir, ocultar a verdade, colaborar com o processo sistemático de marginalização dos movimentos sociais. Devemos tentar aglutinar os movimentos e representações sindicais para expormos toda essa mentirada oficial, orquestrada pelos poderes de uma burguesia insana que não está nem aí para o sofrimento da população brasileira e daqueles que servem a essa população, a despeito de serem tratados como trabalhadores de segunda classe. Devemos usar a informação em rede e discutir, canto a canto, boca a boca, esse processo de homicídio dos direitos de organização, representação, mobilização e luta dos trabalhadores brasileiros, que a Globo, junto aos governos, tenta exterminar.

Ah. Gostaria de solicitar encarecidamente ao PT: Desça desse seu muro ideológico completamente! Troque a denominação partidária! Tenha coragem de assumir sua condição de representante dos interesses capitalistas nacionais e internacionais!!! Deixe em paz os movimentos sociais e instituições sindicais, retirando deles os seus observadores e fingidos representantes de araque. O seu Brasil, PT, pode até estar crescendo, mas o nosso, o Brasil das classes populares e dos trabalhadores, o Brasil da educação, saúde e segurança públicas, está definhando. Vá com o seu Brasil para a Fifa que o pariu!!!

Joselito Manoel de Jesus, professor universitário do estado lastimável de coisas da Bahia.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Por João Bosco de Jacobina

 João Bosco, com sua bela escrita, poética ou crônica, reflte os clamores daqueles e daquelas que já não aguentam tanto cinismo, tanta injustiça, tanta impunidade. De fato, não aguentamos mais olhar para tantos malandros de gravata, toga e paletó, vestido fino e bolsas caríssimas,  terem tantos privilégios e luxos com o dinheiro público, enquanto nós, a maioria, estamos aqui pagando caro por tudo isso e ainda sendo punidos com mais impostos sobre nossos suados ganhos. Parabéns para esse escritor de Jacobina e Região que, mais uma vez, nos brinda com sua bela forma poética de expressar sua indignação. (Joselito)

1
O mundo está medonho,
Tá imensa a aflição,
Só se fala em terrorismo
E guerra sem explicação.
Mas, falemos do Brasil,
Ou o amigo já ouviu
Sobre um tal de mensalão?
2
É manchete no jornal,
No rádio e televisão.
Governistas tinham voto
Dos membros da oposição,
O governo então ganhava
E a oposição embolsava
A grana do mensalão.
3
Mentirosos feito a peste
Fingidos feito o cão,
Eis aí quem escolhemos
Pra governar a nação,
Esses monstros de rapina
Que só pensam na propina
E no tal do mensalão.
4
Esses crápulas precisam
Pedir desculpa à nação,
Dar a mão a palmatória
E se entregar a prisão,
Pra refletir e pensar
E nunca mais se enrolar
Na onda do mensalão.
5
Uns renunciam mandatos
Com medo da cassação,
Outros não dormem direito
Procurando solução,
Um já disse: - tá ruim
E o que será de mim
Sem receber mensalão?
6
Justiça tarda e não falha
Mas, pra mim é enganação,
Porque aqui no Brasil
Ela nunca chegou não.
Talvez esteja na trilha
Pra punir toda a quadrilha
Deste tal de mensalão...

Por: João Bosco Silva Fernandes, poeta cordelista
Jacobina - Bahia

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

ACIMA DA LEI, ABAIXO DA LEI

A greve dos policiais militares do Estado da Bahia está servindo bastante para meu amadurecimento político. Pensando nos acontecimentos da hora vou juntando-os, dispersos que estão em meios e mensagens divulgados por atores diversos. Vou juntando-os num conjunto ordenado de sentido que as abordagens teóricas que domino me permitem. O combate ideológico está acirrado, e a Rede Globo entrou jogando forte nesse jogo político-ideológico que agora se dá. Através de Alexandre Garcia, entre outros de seus repórteres, utiliza-se da Constituição Federal para marginalizar os policiais que fazem greves e paralisações em busca de assegurar direitos tais como a aprovação da PEC 300, proposta que cria o Piso Salarial Nacional para policiais e bombeiros.

A Lei Magna do país é utilizada ideologicamente a fim de questionar a legitimidade do movimento dos policiais e bombeiros baianos. A Lei. Mas, lei? Que lei? Começo a lembrar de uma frase de algum intelectual cujo nome não recordo, que, entre tantas outras coisas, afirmava que as classes dominantes estão acima da lei, enquanto as demais classes estão bem abaixo dela. A lei não importa para os primeiros, que sempre a atropelam quando seus interesses estão em jogo. Para os demais, a lei é uma miragem e a cidadania que a Revolução Francesa nos propiciou, muitas degolas depois, é um termo sem sentido prático para a maioria dos tupiniquins. Quando lutamos para fazer valer a lei, o estado aciona sua burocracia, seu aparelho ideológico e repressor (policias, exército) para silenciar-nos e restabelecer a ordem da desordem dominante.

De fato, a depender de quem comete o crime, ou, para utilizar um eufemismo “dilmista”, um “mal feito”, nenhuma punição o aguarda, e toda a população brasileira sabe disso, tanto é que nem espera o veredito, ou, certamente, já o espera. Em nosso Brasil, "bandidos de toga" que se utilizam de suas privilegiadas posições de poder no sistema judiciário para fazerem “mal feitos”, não vão presos, nem devolvem os super ganhos que obtiveram do sucesso de sua empreitada criminosa. São aposentados sem perdas salariais, como recompensa. Os políticos também seguem a mesma cartilha. Não ouvi falar ainda de que algum deles, envolvidos em desvios de verbas, falcatruas e “maracutaias”, para utilizar um termo bem lulista, tenha sido preso de verdade ou devolvido o que tomou dos impostos ferozes que corroem o poder de compra dos mais pobres que, proporcionalmente, são os que mais pagam impostos nesta nação.

Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?

Creio que nossa paciência está se esgotando e perguntando-se com uma legião urbana e rural de indignados: Que país é esse? Que Constituição é essa? Que funciona para a maioria e é ineficiente para uma pequena, porém privilegiada minoria? Esse “ninguém” que desrespeita a Constituição não são os pobres, os favelados, os funcionários públicos de carreira, os policiais, professores, engenheiros, enfermeiros, entre outros. Esse “ninguém” tem apenas uma denominação categórica: classe social detentora dos meios de produção, para usar uma denominação bem antiga. Mas, como diria João Cabral de Melo Neto, isto ainda explica pouco. A cultura é outra dimensão fundamental para nos aproximarmos de uma compreensão do que acontece em nossos domínios territoriais.

O processo de escravatura e o patrimonialismo no Brasil deixou marcas indeléveis em nossa cultura, que se reflete no modo como concebemos e significamos acontecimentos, pessoas e situações que se desenrolam em nosso singular processo histórico. O Capitalismo no Brasil, tal como concebido pela filosofia liberal, foi introduzido em função das concepções culturais reinantes daquele momento histórico. Por isso não podemos conceber que há apenas um capitalismo: há capitalismos, tal como vão sendo engendrados pelas culturas que vão penetrando, mesmo em se levando em conta os efeitos da globalização. Penso que o Estado de Direito Moderno, se é que assim devemos denominá-lo, absorveu as incongruências advindas da cultura portuguesa e do escravagismo que reinou por muito tempo em nossa história. Os senhores de escravos tinham direitos plenos sobre os escravos e, nenhum dos crimes que cometiam para manter a ordem escravocrata no seu domínio feudal, ou fazenda, tais como estrupos, homicídios generalizados, torturas cruéis, entre outros, não eram considerados crimes e, portanto, não eram passíveis de punição. Já especulando, penso que isso tenha chegado até nossos dias. Os senhores e as senhoras atuais na politica, na economia e no Direito não cometem crimes, senão “mal feitos”, pois são donos dos ministérios e dos órgãos do governo que ocupam e, como donos, podem fazer o que bem entender, ou simplesmente nada fazerem. Não há punição para eles e elas porque, simplesmente, a lei não os alcança, e talvez por isso mesmo seja cega. Apenas para eles e elas.

Outra herança cultural que explica bem o nosso comportamento social atual, advindo da escravidão no Brasil é a percepção do trabalho como coisa de escravo, ou seja, naquela época, de gente desqualificada. O trabalho aqui no Brasil se contrapõe ao estudo. Tanto é que a gente diz: – Tá vendo? Não estudou. Está aí nessa vida de faxineiro, agricultor, pescador, lavadeira, empregada doméstica, gari, prestador de serviços gerais, etc, etc, etc. Ainda temos uma concepção estranha de que quem estuda deve trabalhar menos e ter regalias diversas diante de quem "não estudou". Eu imagino que quanto mais estudamos é porque mais trabalhamos. Estudamos para entender melhor o mundo que nos desafia e agir de forma mais eficiente sobre ele, através do árduo trabalho. Ainda hoje eu vejo algumas famílias se orgulharem e dizerem que seus filhos fazem “Direito” ou “Medicina”, doutores que jamais poderiam lavar um prato ou varrer uma casa, ou seja: limpar sua própria sujeira. É que no Brasil antigo essas profissões foram as primeiras de nível universitário, com cursos na Bahia, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Os doutores de “anel no dedo” eram tratados com regalias e privilégios e isto se reflete na cultura da nossa gente até os atuais dias brasileiros. Quem trabalha nesse país com braço, suor e dor não é valorizado. Chico César, com sua poesia concreta nos alerta sobre esse comportamento cultural até os dias atuais quando afirma que:

A tinta pinta o asfalto
Enfeita a alma motorista
É a cor na cor da cidade
Batom no lábio nortista
O olhar vê tons tão sudestes
E o beijo que vós me nordestes
Arranha céu da boca paulista

Os tons tão sudestes, tão racistas, tão machistas, tão preconceituosos ainda dão os tons por estas paragens nacionais, sem reconhecer o sabor gostoso e emancipador do beijo nordestino em suas ruas, seus monumentos, seus edifícios e construções, enfim, sem reconhecer o valor daqueles que ergueram com braço, saudade e dor as grandes construções em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Manaus, entre outros estados dessa federação. Como diria Patativa do Assaré, Seu doutor me dê licença para outra história contar e, sobretudo, fazer. Não precisamos fazer outra Constituição. Não. Precisamos fazer justiça!!! Precisamos que a lei escrita seja cumprida em sua letra e não empalidecida pelo conjunto de estratégias legais que liberam o criminoso e marginalizam e encarceram o povo. Não. Não é de lei que estou falando. Na verdade estou falando de uma história que precisa urgentemente ser mudada, ainda quando estamos vivos. Precisamos que o conjunto de dispositivos legais não seja apenas escritos fajutos que representam os interesses de uma classe social. É hora de fazer valer a força do trabalhador, dos marginalizados, dos desesperados, dos excluídos de modo geral. É hora de usar a Constituição a nosso favor e atuar na superestrutura social com a força que brota das indignações que se somam nessa história tipicamente brasileira que nos nega, mas que lutamos bravamente para nos assumir em nossa plenitude de direitos e ficar no mesmo nível da lei no Brasil, que tem os olhos bem abertos para discriminar.

Joselito Manoel

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Greve dos policiais na Bahia

O governador Wagner deu uma entrevista mostrando que a passagem da GAT III para a GAT IV e V, uma das reivindicações dos policiais e bombeiros da Bahia, vai acrescer a folha de pagamento em 170 milhões de reais. É sempre assim: os governos ressaltam o impacto do aumento na folha, mas não ressaltam que esse impacto na folha de pagamento tem de positivo. Os policiais são trabalhadores que produzem sua existência colocando dia a dia suas próprias vidas em risco, enfrentando uma justiça lenta e ineficiente para punir, mas rápida e eficiente para soltar o bandido no dia seguinte à sua prisão e expondo os policiais a novos enfrentamentos com os mesmos bandidos presos no dia anterior. São os três poderes do estado trabalhando contra si mesmos e, principalmente, contra os cidadãos. 

A inflação está aí para quem faz mercado toda semana ou mês. O que devemos ressaltar, como funcionários públicos em geral e como policiais em particular, é isto: o impacto negativo da inflação na manutenção da sobrevivência daqueles e daquelas que são responsáveis por preservar a ordem pública e fornecer aos cidadãos acesso aos serviços educacionais, de segurança e de saúde, entre outros, no estado da Bahia, mas que vê seu parco poder aquisitivo ficar ainda mais parco a cada ano, a cada governo. Contudo, repudio toda e qualquer ação dentro do movimento que venha a amedrontar a população e subverter a precaríssima ordem que se equilibra na corda bamba da desordem que o capital impõe a fim de satisfazer seus interesses de acumulação. Repudio policiais com armas em punho, atirando para o alto, fechando avenidas, impondo terror e medo às pessoas que deveriam ser protegidas. Esses policiais devem ser punidos por essas ações.

Entretanto, apesar de um pequeno número de radicais fora de hora, os policiais são, antes de tudo, seres humanos que precisam produzir dia a dia sua existência e que, como funcionários públicos, precisam ter direito à representação sindical e à luta e mobilização para evitar o impacto negativo da inflação em sua sobrevivência, em seu direito de ir ao mercado e comprar os alimentos, o vestuário, pagar a escola de seus filhos e das suas filhas (pois a escola pública não é de confiança), o transporte, o lazer, incluindo o teatro, a música, o artesanato, o jogo de futebol, entre outros, afinal, assim como os "Titãs", os policiais não querem só comida e bebida, querem também diversão e arte. O que os (as) policiais estão mostrando é que são mais importantes que Carnaval, Copa do Mundo e propagandas enganosas; que construções megalômanas - num estado cuja capital já tem dois estádios - para atender aos anseios da FIFA, cada vez mais rica; os policiais estão mostrando que são mais importantes que "companheiros" partidários, que recebem suas regalias à sombra regada com água de côco em vários ógãos e secretarias de governo. Mais ainda: os policiais já perceberam sua importância contra a engrenagem capitalista contemporânea, que busca acumular cada vez mais em detrimento das condições de vida dos trabalhadores.

Governador, a Bahia tem de ser, de fato, de todos nós, mas a cada ano essa semântica de sua propaganda oficial, cujos gastos devem ser, seguramente, mais de 170 milhões de reais, está sofrendo um deslocamento simbólico muito importante. Os "nós", não somos nós, os funcionários públicos e o povo da Bahia, sujeitos da história. Os “nós”, nesse caso, são as políticas governamentais contrárias aos anseios de um povo e da maioria dos funcionários públicos que o elegeram. Faça uma faxina em suas secretarias de estado e retire os "companheiros" indolentes que estão mamando nas tetas do estado e que nada produzem de significante. Retire os indicados que fingem que trabalham, na verdade, verdadeiros "contraindicados" ao serviço público por deputados, senadores, vereadores e "companheiros bons de voto". Proponha aos poderes Legislativo e ao Judiciário que reduzam seus gastos com supersalários e regalias inconcebíveis com gasolina, vestuário e penduricalhos vergonhosos que ampliam enormemente os seus salários. Tenha coragem Governador!!! Mas não queira descontar os gastos excessivos de seu governo nos ganhos parcos dos funcionários públicos. O impacto maior será em seu governo neoliberal, descompromissado com a saúde, a educação, a segurança e os demais direitos básicos da cidadania baiana.

Joselito Manoel de Jesus, professor universitário do Estado da Bahia

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

VOCÊ ASSIM

E você assim, com esse olhar distante.
E você assim, para ver se alcança
o que está por trás de todas as aparências.
E você assim lá no impossível,
aonde se alcança em sua plenitude.

É você assim sob as circunstâncias
o que há de vir ressoa diferente
pelo que já foi não criou distância
fica sempre assim: latejando
é você assim: seu trajeto, sua herança.

O que há de mundo sempre tem saudade
e nessa saudade mora a esperança
tudo o que importa nunca se acaba
é o sacramento de sua lembrança

E você assina sua própria sina
sempre bem acima de qualquer fim. 
Não se determina pelas circunstâncias
E você assim, ao olhar distante,
fecunda em nós, profunda em mim. 

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

Eu elaborei esses versos diante de uma radiante fotografia de uma amiga que perdeu recentemente o namorado num acidente de trânsito.