segunda-feira, 15 de março de 2010

A MOSCA, O DRAGÃO E O MINISTRO DA ECONOMIA

Há pouco estava lendo um texto de psicologia do desenvolvimento, examinando seus pareceres e articulações com o processo educacional. Uma das minhas pernas estava cruzada sobre a outra, descansando numa cadeira de apoio. De repente uma mosca “tamanho-família”, conhecida popularmente como varejeira ou valegeira, pousou em meu pé. Ao percebê-la lembrei-me da história que D. Eunice, nossa vizinha mais antiga, contára-nos, crianças que éramos, sobre a terrível mosca gigante. Segundo a nossa estimada vizinha, a mosca pousou no nariz de um homem e, de alguma forma, transmitiu-lhe uma perigosa bactéria ou coisa parecida, que acabou devorando o nariz do pobre sujeito, inexoravelmente...

Bem, tratei de expulsar a mosca, por via das dúvidas opto pelo conhecimento mítico de Dona Eunice. Contudo, comecei a refletir sobre o fenômeno com mais cuidado. As informações e suas mensagens têm um poder fabuloso: transforma moscas inofensivas em dragões vorazes. – A mosca pode até não ser tão inofensiva, mas o poder adquirido por esse ser, no caso, pela mediação do discurso de D. Eunice foi tal que bastou sua visão para que eu me assustasse. Convenhamos que todo ser que se diferencia do que consideramos normalidade nos assusta, causa espanto, nos desequilibra, nos desafia à compreensão e a gente começa a filosofar, a pesquisar, a levantar dados, a comparar, a inferir e a fazer julgamentos em forma de conclusões provisórias. A ontologia dada pela linguagem nos obriga a fazer o teste de realidade, seja de forma rigorosa, seja pelo caminho do senso comum. Certo é que, entre a informação de D. Eunice – dito em forma de narrativa, como era seu estilo literário – e a minha sensibilidade para com insetos, o mito ganhou existência. Muito embora não tenha a aparência física de um dragão o medo que a tal mosca me provocou é bem próximo do medo virtual para com os míticos seres alados introduzidos em meu imaginário por meu pai que, ao redor da cama em noites de chuva e candeeiro nos narrava as peripécias dos dragões. Moscas e dragões, variações sobre o mesmo tema: medo. Mosca gigante e dragão voraz, ontologias construídas pela linguagem de nossos ancestrais, que nossos parentes e pessoas mais próximas renovavam sua existência, construindo, talvez sem intenção, comportamentos e atitudes em nós perante o mundo, os outros e a nós mesmos.

Como dizia, quando éramos crianças sentávamos ao redor da cama de nossos pais antes de dormir, para ouvir meu pai contar histórias de cangaceiros, de lobisomens, de amores impossíveis, das artimanhas do diabo e de devoradores de “donzelas desprotegidas”. Meu pai, através de seus personagens magníficos, ficava tão próximo a nós, seus filhos; enchia-nos de magia, de curiosidade, de encantamento. É por isso que posso compreender perfeitamente a deliciosa frase de Willi Bolle quando diz que “Muito mais próximo da criança que o pedagogo bem-intencionado, lhe são o artista, o colecionador, o mago.” Reouvindo as velhas e sempre novas histórias da voz escatológica do meu falecido pai , vou descobrindo lições preciosas, entre as quais aquela que diz que “há males que vêm pra bem.” Agora eu consigo entender um pouquinho mais a função de alguns males no íntimo da humanidade. Os heróis corajosos, benevolentes e honestos, só surgiam à sombra – ou devo dizer luz? – dos dragões vorazes e astutos. O herói era uma criação da necessidade romântica diante do desafio do bem, isto é, do mal. Na busca pela solução do problema, em vista da ameaça e do conflito que o dragão representava, criava-se o espaço para o nascimento do herói, que realizava o desejo contido em cada um de nós ao redor da cama de meus pais e ao redor de nosso imaginário infantil: a morte do dragão e a salvação da donzela que, via de regra, era a filha do rei, a princesinha. Nunca, nas histórias de meu pai, o corajoso herói salvava uma moça pobre do reino, talvez porque não valesse a pena o risco, pois o herói tinha, como recompensa, a mão da princesa em casamento: a mão, o reino e todo o resto. E, completando nosso romantismo político, isto é, psíquico, o intrépido guerreiro casa-se com a donzela e vivem “felizes para sempre.”

A felicidade estava dada como ápice da história. Este final feliz era a expressão saturada de uma modernidade, um happy end que todos esperávamos, uns como recompensa, outros como inevitabilidade de um modo de existir, de viver. A felicidade dada no futuro, ao final de uma saga, de uma batalha, de um vestibular, de um casamento, de um nascimento, de um sorteio, de um campeonato. “A felicidade depois...”, esse poderia ser o tema da modernidade ocidental. Depois de agirmos conforme as doutrinas da Igreja, depois de agirmos conforme as prescrições da ciência. Entretanto, eu fico me perguntando se em nosso inconsciente os dragões não governam soberanos, com suas asas e suas labaredas de fogo incendiando a vida morna afora. Mas, nas histórias contadas, os dragões, apesar de toda aparente ameaça que representam, têm os seus limites impostos pela modernidade ocidental: nascem para raptarem algumas dondocas até encontrarem seu destino trágico na espada afiada de algum herói, criado especialmente para a ocasião, com indumentárias, apetrechos e espadas reluzentes que brilhavam à luz da imaginação do menino ao redor da cama do pai amado.

Os terríveis e poderosos dragões morrem de um modo muito especial: na espada afiada e brilhante de algum sujeito predestinado pelo nosso romantismo político, isto é, psíquico. Morrem para a felicidade geral da nação, fazendo o mal... Ou será o bem? A institucionalização do mal gera todo um aparato legitimador que sustenta a desigualdade econômica, cultural e social. O “mal” vai sendo delineado ideologicamente, cujo sentido é definido pela esfera do poder que impregna as relações simbólicas de uma falsa dialética que impõe a exigência de uma solução, de um “bem” que tenta se universalizar, mas que beneficia concretamente uns poucos. Os súditos aparecem nas histórias como meros figurantes, sorrindo para as câmeras da modernidade. Mas quem vive feliz para sempre é o rei, sua princesa e a  sua corte.

Os representantes da burocracia estatal já pensaram nisto. Não é à toa que escolheram o dragão para ser o símbolo da malvada inflação, monstro voraz, que consome o poder de compra das classes populares e desestabiliza a ciência econômica, que tenta, com suas prescrições infalíveis, eliminar o dragão voraz. A culpa da alta concentração de renda de um lado e da miserabilidade do outro não é culpa de um sistema econômico e financeiro injusto e perverso: é culpa da inflação, ou melhor, do dragão. No caso em questão, o herói é quase sempre o ministro da economia que, com seus planos científicos, aprendidos nas melhores universidades dos países que nos exploram, ensaia, tal qual um São Jorge às avessas, o combate ao dragão, isto é, à inflação. O “bem”, nesse caso, vem sob a forma de aumento da carga tributária, do arrocho salarial, do desemprego, do assalto oficial às cadernetas de poupança da população, entre outros planos. Teve até um “super-presidente” que alardeou a morte do danado do dragão com um só tiro, mas, felizmente, este saiu pela culatra, derrubando-o do cavalo da presidência, onde ele costumava galopar com uma camisa branca onde estava escrita alguma mensagem de otimismo e esperança para seus súditos, ávidos por espetáculo. Agora mesmo a sociedade civil está cedendo ao desemprego, ao arrocho salarial, às privatizações e ao corte de direitos básicos, por causa do medo pavoroso do retorno triunfante do dragão.

Bem, não podemos perder nosso romantismo psíquico, isto é, político. Podemos deixar que nossas crianças deixem de acreditar nos heróis e nos finais felizes? Contudo, não podemos deixar de acreditar também nos dragões, não como um mal, mas quem sabe como um bem que pode conviver conosco até melhor que os heróis que tentam nos salvar deles. Por isso e, por via das dúvidas, protejam as suas cadernetas de poupança dos planos econômicos dos ministros-heróis, do luxo da princesa e do sustento dos privilégios da Corte, ninguém sabe quando eles tentarão nos salvar novamente.

Joselito da Nair, do Zé, de Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.
Em memória da vizinha Dona Eunice, que nos contou algumas histórias também.

2 comentários:

  1. Este texto foi escrito há muitos anos atrás. Lá pelos idos de 1995

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Esse, ao meu ver, é um de seus textos mais completos e interessantes. Meus olhos percorreram cada palavra, à cada linha, com o mesmo "espanto" de uma criança que vê o dragão! Você é gigante!

      Excluir

joselitojoze@gmail.com