segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Hipocrisia Política Eleitoral Gratuita

Embora eu seja a favor da alternância do poder político, creio que nesse momento a volta do PSDB ao poder central irá representar um grande retrocesso, principalmente para nós, nordestinos. Muitas pessoas pensam que quando a gente vota em Serra está apenas votando em Serra. Quando se vota em Serra está se votando num grupo político e em uma tendência administrativa desse grupo. Pergunto: quem elege o Ministro da Economia? Quem elege o Ministro da Cultura? Quem elege o Ministro da Educação, Saúde, Meio Ambiente, entre outros? Rum. Não é o Serra que elege. É um conjunto de forças políticas e de fatores que barganham e fatiam o poder em troca de apoio. Detesto esse personalismo regado a falso maniqueísmo na propaganda política. O mito do super homem (Serra) versus o mito da mulher maravilha (Dilma) novamente. Pura farsa. É como diz Jorge Luiz Borges: "A realidade é mais incrível que a ficção."

Excelente o texto do padre que denuncia essa hipocrisia através do aborto que continua vida adentro dos mais pobres. O aborto, deve ficar claro, não é só impedir o nascimento de uma criança. Para mim o aborto é impedir que uma criança tenha acesso aos bens produzidos coletivamente pela sociedade que, pelo seu cunho capitalista brasileiro, nega-lhe direitos fundamentais. A morte da menina Larissa por negligência médica no hospital Roberto Santos, é mais um de tantos abortos que são cometidos todos os dias pela ausência de justiça, de políticas públicas e assistência social que assegurem educação e saúde de qualidade, a começar pela alfabetização e pela construção crítica de valores e princípios humanos fundamentais. Nos países que respeitam a cultura os escritores, pesquisadores e educadores são valorizados. Aqui são os policiais, juízes, advogados (tidos como doutores sem ter doutorado) que são mais valorizados, profissionais que não hesitam em puxar uma arma e atirar, independente de quem seja o oponente. Quase todos os cidadãos brasileiros são criminosos perante a lei diante de um sujeito fardado ou portador de uma carteirinha de representante da "justiça". Ainda bem que a coisa está se voltando contra os juízes, tomara que chegue aos políticos, aí haverá uma “comoção geral” em defesa da vida (de algumas vidas privilegiadas) e a mudança da legislação penal. O policial não é um protetor. Está subentendido em nosso contexto autoritário e hipócrita que policial é feito para matar. Matar, matar, matar. As próprias crianças e os jovens das periferias, afirmam que quando crescerem querem ser policiais “para matar ladrão”. A cultura do assassinato é gestada no ventre da sociedade e se volta contra os setores mais frágeis da população. Mas agora juízes, desembargadores e políticos: está chegando a vez de vocês provarem do gosto da sociedade hipócrita e homicida que vocês mesmos legitimam com suas leis frouxas e sua justiça de araque. Qual o assassino fardado que já foi punido pelas suas leis?

Hipócritas!!! Bispos, padres, cardeais, pastores, católicos, evangélicos, espíritas, políticos oportunistas! Garantam e defendam o nascimento, mas garantam que a criança que nascerá vai ter acesso à saúde e que as "doutoras" e "doutores" senhoras e senhores do poder dos hospitais públicos de Salvador, Bahia, Brasil, tratarão a criança com o respeito e a urgência que ela merece; garantam educação de qualidade, com professores bem pagos e competentes; garantam pelo menos um quarto e um berço para a criança dormir tranquila no seio de sua família; garantam parques infantis públicos para as crianças brincarem com segurança e higiene; garantam que os pais dessa criança tenham acesso a uma formação profissional eficiente e eficaz; garantam acesso à justiça. Não deixem a criança nascer no inferno brasileiro que vocês criam todos os dias com sua negligência sistemática a fim de excluir as crianças invisíveis abortadas pela nossa história autoritária e preconceituosa e pela nossa cultura do aborto social!!!

Eu voto em Dilma contra a hipocrisia das igrejas, contra a sacanagem dos tucanos e contra essa sociedade doentia que celebra a morte em suas pequenas e repetitivas ações cotidianas!!!!

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel



Riqueza de Zé’s à Beira-Esgoto

Foi neste sábado passado, dia 09 de outubro. Como de costume, todas as manhãs de sexta, sábado e domingo, quando estou em Jacobina, vou à barraca de Flávio ler jornal, tomar água de côco – pois a cerveja está me provocando uma dor de cabeça recorrente – e bater papo com amigos. Encontrei Zé e Zé Popô. Conversamos naturalmente sobre as eleições, sobre o destacado papel do Nordeste nesse processo, os possíveis desdobramentos para cada um de nós do resultado temeroso do dia 31 entre outras coisas de extrema importância, como a subida do Bahia para a série A e a possível descida do Vitória para a série B. Neste assunto eu melindro. Caso meu Vitorinha caia e o Bahêa suba, sei que será festa em Salvador e serei obrigado a mudar de endereço, refugiando-me na terrinha jacobinense, que acolhe os desamparados e oprimidos.

O vento soprava forte naquela manhã, tornando a leitura do jornal uma verdadeira arte de equilíbrio de páginas. De repente surgiu, não sei como, pois uma conversa puxa a outra, de Zé Popô e de Zé, o assunto pobreza e riqueza. A conversa era exclusiva de Zé’s. Eu, Joselito (Zé Pequeno), Zé (que em relação a mulheres de bom gosto trabalha com lista de espera) e Zé Popô. Só faltou Zé Mané, que sempre chega atrasado, pois sua presença na barraquinha de Flávio depende da autorização da senhora sua esposa. Bem, o fato é que concluímos que, naquele exato momento, naquele instante precioso de ventania à beira-esgoto – gostaria tanto de dizer Beira-Rio – éramos ricos! Sim. Tínhamos tudo que muita gente gostaria de ter, inclusive os endinheirados. Tínhamos paz, vento, jornal do dia, cadeira, sombra e água de coco. A paisagem de montanhas nos cercando, com o Cruzeiro nos abençoando, formava o cenário perfeito daquela manhã azulada. Éramos ricos!!! E assim sorrimos a cumplicidade daquele momento que Deus nos ofereceu gratuitamente, apesar dos pecados de cada Zé que ali se encontrava.

E é bem verdade isso. Somos ricos, cada um de nós, sendo Zé ou não. Em outro texto publicado neste espaço, reafirmei essa verdade com um trecho de uma música que assim ensina: “Felicidade é uma cidade pequenina, é uma casinha, uma colina, qualquer lugar que se ilumina quando a gente quer amar.” Gosto de sentar naquela cadeira à beira-esgoto e, compartilhando do odor leve que dele exala, ler meu jornal, encontrar ex-alunos, fazer novas amizades, olhar a paisagem enquanto sorvo uma cerveja gelada ou uma água de coco gentilmente trazida por Flávio. Encontro os parceiros de galhofa e exercemos a palavra encantada que nos aproxima dos dilemas contemporâneos do jeito que a nossa cultura nos ensina. Nós brasileiros aprendemos a enfrentar nossos problemas sorrindo para eles. E é assim que fazemos. Sorrimos das desgracenças do mundo enquanto vivemos nossas pequenas e fugazes felicidades que dão sentido, como diria Zé, "à nossa insubstituível e prestigiosa presença".

Concluímos que, naquele exato momento, não precisávamos de nada material. Não queríamos ficar ricos, pois já éramos de fato. Aquela manhã soprando ventos, cercada de montanhas ensolaradas afirmava isso de forma cabal, segredando mistérios em nosso sentir habitado de significados que só o silêncio acolhe. É possível afirmar que a riqueza do ser humano são seus dias bem vividos, independente do seu poder de compra. Creio mesmo que é a vontade de ter o que não podemos que constitui a raiz de muitas infelicidades e verdadeiras pobrezas d'alma.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

ELEIÇÕES 2000 E SEMPRE

Acredito que todas as críticas feitas aos governos “x” e “y” são válidas e se complementam. Creio que o que devemos combater é a corrupção que está arraigada na cultura política brasileira, independente de quem a gente apóie. O governo Lula, como a maioria sabe, foi envolvido em casos e mais casos de corrupção, embora seu mandatário maior tenha fingido não ver nada. “O Presidente da República, travestido em chefe de facção, deveria olhar para os desmandos que transformaram a Casa Civil num balcão de negócios. Mas não é o que o presidente faz. Ao contrário. Num exercício crível de leniência, o presidente abraça os corruptos e ataca os que denunciam a corrupção”, afirma Carlos Alberto Di Franco no Jornal A Tarde desta segunda-feira, 04 de outubro de 2010.

De fato, a imprensa, que Zezéu irritado, ontem na TVE, acusou de ser a oposição ao Governo Lula, não inventou as negociações escusas envolvendo Erenice Guerra e seus familiares que, seguindo a cultura política brasileira, utilizou o aparelho do Estado, bem nacional, em benefício próprio, entre tantos outros casos como o dinheiro na cueca e a compra dos mensaleiros do Congresso Nacional, Câmara de Deputados. E mais uma vez: que bom que ainda existe oposição neste país! Esta eleição é uma boa lição para aqueles que ainda acham que a aprovação popular de um governo é a permissão para a permissividade que se transforma em porta aberta para a corrupção. Meu voto em Marina não foi em vão. Pela primeira vez na história deste eleitor não votei no PT, pois percebo que o Brasil precisa de uma opção política limpa, tanto no sentido ecológico, quanto no sentido ético. Além do mais, embora a economia brasileira esteja crescendo e ainda vá crescer mais, por conta da boa administração econômica do Governo Lula – seguindo as diretrizes do Governo FHC, e de fatores externos e internos, precisamos reduzir a divída interna que, segundo o mesmo jornal A Tarde desta segunda, “bateu em R$ 1,62 trilhão”, além do fantasma permanente de uma nova crise econômica mundial que pode mudar o cenário atual completamente, deteriorando todo processo conquistado a duras penas.  

Entretanto, Zezéu e outros petistas podem ter razão em uma coisa: a mesma imprensa – Globo, Veja, Folha de São Paulo – que denuncia com fartura os casos escabrosos da Casa Civil, não teve o mesmo ímpeto para denunciar, da mesma forma, as corrupções do Governo FHC, como a compra de votos para a reeleição e a ampliação do mandato de Fernando Henrique Cardoso. Além disto, nenhuma proposta de CPI tem êxito na Assembléia Legislativa de São Paulo, comandada pelo PSDB, mas a Veja não vê isso, nem a Folha de São Paulo, nem mesmo a tão “séria” Rede Globo. Nesse sentido, como afirmou uma socióloga, consultada pela Globo News, a alternância do poder é fundamental para a saúde da democracia. Nem um partido tão poderoso, nem uma oposição tão tênue. Toda oposição tem um lado, embora sempre afirmem estar do lado do povo, do estado, da democracia etc. Nós sabemos que a Rede Globo, dá para perceber, sonha com o PSDB de volta ao poder. E dai? Problema deles e delas! Pelo menos cumprem o papel que o Congresso não cumpre: o de fiscalizar e divulgar erros políticos, desacertos administrativos e casos nebulosos com o dinheiro público que saem dos nossos bolsos todos os dias para o grande Leviatã de Hobbes.

Governo foi feito para apanhar, essa é a lógica. Aqui no Brasil nós pedimos e agradecemos o que nos é de direito estabelecido em leis. Nossa cultura, provavelmente do nosso processo colonizatório, faz com que as pessoas aprendam a pedir, a estender a mão e agradecer o que é responsabilidade do Estado e de seus representantes, ao invés de exigir vigorosamente a realização de direitos conquistados no espaço democrático com luta e organização política. É por essas e outras que muitos médicos são eleitos no interior do Estado. A população fica muito agradecida quando um médico apenas cumpre sua função e o chama de doutor, antes mesmo de o sujeito ter uma especialização em sua área, quanto mais doutorado.

Bem, de qualquer forma percebo um avanço vigoroso na democracia baiana e brasileira. A eleição da primeira mulher senadora, Lídice da Mata, e a votação significativa de Marina Silva são exemplos desse avanço, de um país que deseja outros caminhos para a sua direção rumo a outro futuro que este presente ainda nos nega.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Outras Margens

Há muitas coisas ocorrendo
enquanto vivo e vou morrendo
e não posso alcançá-las.

O desejo de obtê-las
é a morte prematura do humano.
Sua vontade de consumo
nunca cessa?

Eu remo nesse rio caudaloso
da modernidade sem destino
antecipo a morte
morte que nunca virá.

Se me deixo levar pela corrente
Se ancoro num remanso
contrario o movimento
desconcertante
dessa idéia ocidental.

Ninguém sabe a que ponto
está do rio
todos sabem
que não chegam ao destino
desse mar que espera
escancarado
esse rio que não deságua
essa sede que não mata
esse fio que não morre.

Quem se arrisca a nadar para além?
Quem se arrisca nessas margens
turbulentas da história?
Quem se encontra nessa margens
é quem faz sua própria história.
Narrativa diferente
outro jeito de viver
e de morrer
nada contra o Ocidente.

Subir o rio
para encontrar o começo
desse fluxo permanente.
Ver o gotejo iniciar
outro Ocidente
e perguntar por outros rios
e outras margens
nos instantes das nascentes
na água fresca da fonte
de outras possibilidades.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel.

sábado, 25 de setembro de 2010

Capitalismo e Saudade

E a saudade? Quase não a tenho mais.
Mas volto por lá, que cada vez mais
existe menos.

Os rastros estão sendo cobertos
por todos os atos em seu conjunto.
A roda viva de Chico Buarque
gira voraz sobre os homens
por eles mesmos os devoram.

Onde havia um canteiro,
onde havia uma árvore
e uns pássaros;
onde havia um terreno baldio
e crianças jogando bolas de todos os tamanhos;
onde havia quintais e folhas secas ao chão;
onde havia magia de vento
e mulheres varrendo o chão;
onde havia crianças e lama
há cada vez menos saudade.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Pidadania no Brasil

Não é um fenômeno novo. Vem desde que o primeiro futuro brasileiro pediu algo a outro futuro brasileiro como um favorzinho ou pouquinho de pimenta para temperar sua comida. Pidão geralmente rima com “inho”. Todo pidão quer um “inho” seu e de alguém. O pidão, é bom esclarecer, é diferente do pedinte. Este último está num estágio mais avançado, pode-se entender degradante, de pidadania. Tais indivíduos, classificados nas tipologias da pidadania, tem características físicas básicas: olhos bem grandes, que a tudo enxergam e que parecem dar uma volta de 360° sobre a cabeça, pois isto serve para captar tudo o que o ambiente do outro oferece e que pode constituir matéria do pedido e; mãos estendidas que também parecem enormes, para recolherem do ambiente tudo um que um transeunte pode oferecer.

O verbo oferecer quase inexiste para o pidão ou a pidona. Tanto ele quanto ela não se oferecem para nada, com a exceção óbvia de se oferecerem para irem à sua casa, o que é temeroso. Lá haverá, com certeza, alguma coisa para pedir, pois os olhos especiais do pidão captam sempre algo nos espaços mais escuros e esquecidos de sua residência. Também não há outras pessoas verbais para o pedinte. Não existe tu, ele, nós, vós e eles para o pidão e a pidona, pois só “eu peço”. O pidão e a pidona são profissionais. Muitos deles não precisam do que pedem, mas pedem porque precisam. É um vício que precisa ser alimentado em todo e qualquer lugar. A estratégia também é boa. Eles e elas não pedem um “ão”, pedem um “inho”, pois assim passam despercebidos e de “inho” em “inho” vão vivendo a sua pidadania livremente. Há também os piores pidões de todos: os pidões de votos. Eles tem um cinismo que ultrapassa todas as classificações conhecidas. São pidões períodicos, aparecem de quatro em quatro ou de dois em dois anos, pedindo que você fique de quatro para eles. Os pidões de votos precisam desenvolver a retórica, pedem um "inho", seu votinho, bem pedido, o que implicam promessas maravilhosas de mundos e vidas melhores para todos. 

Há uma discussão científica muito séria sobre se o pidão e a pidona sofrem maior influência genética ou social. Há alguns experimentos científicos que retira um pidão ou uma pidona de sua família e o leva para morar com um parente distante ou família diferente, numa espécie de intercâmbio, a fim de verificar se tal experimento traz alguma mudança significativa no comportamento do pidão. Caso traga, constata-se que a pidadania é uma questão social, de cultura, de aprendizado e menos genética. Do contrário, se o pidão continuar na prática da pidadania, conclui-se que o problema é genético, criando-se desdobramentos tanto para uma como para outra conclusão. O ser pidão; razões e desrazões também seria uma proposta de discussão filosófica.

Há também uma relação muito estreita entre a pidadania e a cultura da fila no Brasil. A gerência do BOM PREÇO de Brotas, por exemplo, tem o maior prazer em ver a fila grande. Quando o supermercado está vazio reduzem o número de caixas, e a fila, que não deveria existir, se forma pelos corredores do estabelecimento, que mais parecem as passagens do gado em direção aos currais ou matadouros, só pelo gosto de ver a fila, acredito. Inúmeros pidões formam filas, desde o esquema casa grande-senzala até os dias hodiernos. As filas foram sendo formadas por uma longa história de formações de pidões e de doadores supostamente benevolentes. Taí: daria algumas boas pesquisas de monografias, dissertações e teses, com os seguintes títulos: A construção social do "pidão" na historiografia brasileira; O "pidão" no mundo contemporâneo: aspectos sociológicos, econômicos e psicológicos; Economia pidadã no Brasil e sua relação com a pobreza; Crescimento econômico e pidadania no Brasil; A formação da pidadania" no Brasil etc.

Da mesma forma, tenho alguns alunos que se revestem de "coitadinhos", querendo passar na disciplina sem o devido esforço, tornando-se pidões profissionais. Alguns alegam que são pobres - eu digo que também sou -; que precisam trabalhar - eu respondo que também preciso -; que a mãe ou o pai morreu - eu respondo que meus pais morreram também -; que não tiveram uma formação boa na 'base" etc. Esses pedem uma esmola chamada "nota", ou melhor: "média". Mas eu não faço esse tipo de caridade. Respondo-lhes que a universidade não é lugar para coitadinhos, mas para pessoas que desejam dominar competentemente os elementos fundamentais para sua profissionalização. Argumento ainda que se eu for passar os "coitadinhos" pidões e pidonas porque os(as) mesmos(as) são pobrezinhos(as), estarei sendo perverso com os mesmos e as mesmas, pois eles e elas não terão capacidade técnica para o exercício profissional requerido pela sociedade. Quando um aluno tira 6,9 em minha disciplina, ele vai para a prova final. Alguns podem achar que sou cruel, mas pensem: o que tirou 6,8 também vai querer, e o que tirou 6,7 e assim por diante. Essa fila maldita em minha "porta" eu não quero alimentar.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Êles são

Vá, eleitor
Nesse momento
breve espaço de tempo
Você é cidadão.

Você agora tem direitos;
você agora é ouvido,
abraçado e recebido
até no Planalto!
e nos espaços legislativos.

Venha eleitor,
para o papo sedutor
e o cafezinho da padaria
Você tem valor de voto
e voto e meia tem valor.

Os seus problemas acabaram!
Agora é hora de soluções,
fórmulas e formas
de resolver suas questões.

Se banguelo, se afrodescendente
se analfa, se doente.
Se romeiro, se sambista
se artista ou professor.
Se mecânico ou pugilista,
se doméstica ou prostituta,
se favelado ou agricultor
até outubro eles te vêem
e depois disso eles te assustam.
 
Até outubro você é tudo
e, se der sorte,
até novembro.
Mas não espere pelo Natal
pois em dezembro
eles já estão no Carnaval.
 
Joselito de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel

domingo, 19 de setembro de 2010

Voltar aos meus 17

Estava ouvindo. Não. Não estava ouvindo. Não consigo ouvir apenas, Mercedes Sosa. Estava sentindo profundamente a voz de Mercedes Sosa, interpretando a poetisa chilena Violeta Parra, penetrar fundo em meu ser. Estava, na verdade, rezando com Mercedes Sosa faz poucos minutos.

Volver a los diecisiete después de vivir un siglo

Es como descifrar signos sin ser sabio competente,

Volver a ser de repente tan frágil como un segundo

Volver a sentir profundo como un niño frente a Dios

Eso es lo que siento yo en este instante fecundo.

Neste instante fecundo fico como um menino diante de Deus, e rezo. Volto a ser de repente tão frágil como um segundo, tentando decifrar a mim mesmo e ao mundo, sem ser sábio o suficiente. Ninguém é, mas alguns acham que são. Violeta Parra, ao fazer a letra dessa poesia, interpretada brilhantemente pela grande diva da América Latina, a saudosa senhora Mercedes Sosa, devia estar num âmago de inspiração. Estava diante do mistério mais profundo do ser humano e tentou registrar esse momento particular que se tornou, senão universal, emblemático de muitas gerações.

É na fragilidade que nos entregamos a Deus numa profunda experiência de fé. Sem igrejas, sem religiões, sem as absurdas formas e fórmulas impostas de religar a terra ao céu, o ser humano a Deus. Sem o deus que cada grupo humano inventou para si e o impôs ao demais, eu encontro Deus em minha fragilidade suprema. E volto a ser um menino sem pecado, sentindo a vida pulsar profundamente em meu âmago, sem explicações científicas, políticas, religiosas. Só a vida impulsiona-me a subir os montes que cercam Macaúbas e, de lá de cima, celebrar o poder da caminhada, a vontade que levou-me até o alto.

E Mercedes continua...

Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber

Ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamiento

Todo lo cambia al momento cual mago condescendiente

Nos aleja dulcemente de rencores y violencias

Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes.

O que pode o sentimento não é possível ao saber. Nem o mais rigoroso método científico, nem o mais bem elaborado pensamento científico e filosófico. É verdade. O poder do sentimento é indizível. Não é possível alcançar o sentimento com a mais refinada das ciências. Jamais. Tudo muda a todo momento, nos afastando docemente de rancores e violências, pois só o amor com sua “ciência” nos retorna inocentemente ao que perdemos no trajeto de nossa existência. Por isso ela volta aos dezessete depois de viver um século. E por isso também

El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño


Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero.

Joselito da Nair, do Zé, do Rafael, de Ana Lúcia, de Tantas Gentes e de Jesus, O Emanuel